dezembro 31, 2012


«“Tenho que te ver.”»

Sándor Márai, A conversa de Bolzano
(«Vendégjáték Bolzanóban», 1991)
Lisboa, editorial Teorema, 1993, p.172



dezembro 29, 2012


«Plus sincère que la plupart des hommes, j’avoue sans ambages les causes secrètes de cette félicité: ce calme si propice aux travaux et aux disciplines de l’esprit me smble l’un des plus beaux effets de l’amour. Et je m’étonne que ces joies si précaires, si rarement parfaites au cours d’une vie humaine, sous quelque aspect d’ailleurs que nous les ayons cherchées ou reçues, soient considérer avec tant de méfiance par des prétendus sages, qu’ils en redoutent l’accoutumance et l’excès au lieu d’en redouter la manque et la perte, qu’ils passent à tyranniser leurs sens un temps mieux employé à régler ou à embellir leur âme. [ ] Tout bonheur est un chef-d’oeuvre: la moindre erreur le fausse, la moindre hésitation l’altère, la moindre lourdeur le dépare, la moindre sottise l’abétit.»

Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.179-80

——— // ———

«Mais sincero que a maioria dos homens, confesso sem rodeios a causa secreta dessa felicidade: aquela calma tão propícia aos trabalhos e à disciplina parece-me um dos mais belos efeitos do amor. E espanto-me de que estas alegrias tão precárias, tão raramente perfeitas no decorrer de uma vida humana sob qualquer aspecto além de que nós os tenhamos procurado e recebido, sejam consideradas com tanta desconfiança por pretendidos sábios, que eles receiem o seu hábito e excesso em vez de temer a sua falta e perda, que passem a tiranizar os sentidos um tempo que seria mais bem empregado a ordenar ou a embelezar a alma. [ ] Toda a felicidade é uma obra prima: o menor erro falseia-a, a menor estupidez embrutece-a. »

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.139-40

dezembro 27, 2012

«A mãe de Cícero chamava-se Hélvia; era duma família distinta e manteve, pela sua conduta, a nobreza da sua origem. Sobre a condição de seu pai há opiniões muito diferentes: pretendem uns que ele nasceu e foi criado na oficina de um pisoeiro; outros fazem-no descender de Tulo Átio que reinou tão gloriosamente sobre os volscos e lutou com êxito contra os romanos.

O primeiro desta família que teve o sobrenome de Cícero parece ter sido um homem respeitável; por isso os seus descendentes, longe de desprezarem o apelido, orgulharam-se de o usar, embora fosse muitas vezes ridicularizado. Deriva de uma palavra latina que significa «grão-de-bico»; e o primeiro a quem foi dado esse nome tinha na ponta do nariz uma excrescência que parecia um grão-de-bico, o que lhe valeu o anexim.

Cícero, aquele cuja vida escrevemos, quando pretendeu pela primeira vez um cargo e se ocupou dos negócios públicos, foi aconselhado pelos amigos a abandonar este apelido e a tomar outro; mas respondeu-lhes, com a presunção dum jovem, que procederia de modo a tornar o nome de Cícero mais célebre que os dos Escauros e dos Catulos.

Durante a sua questura na Sicília, ofereceu aos deuses umvaso de prata em que mandou gravar por extenso os seus dois primeiros nomes: Marco Túlio; e, em vez do terceiro, quis, por pilhéria, que o gravador pusesse um grão-de-bico. Eis o que se conta a respeito do seu nome.»

Plutarco, Cícero e a queda da república patrícia,
Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, p.7-8

dezembro 25, 2012

«Ce fut vers cette époque que Quadratus, évéque des chrétiens, m’envoya une apologie de sa foi. J’avais eu pour principe de maintenir envers cette secte la ligne de conduite strictemente équitable que avait été celle de Trajan dans ses meilleurs jours; [ ]. Mais toute tolerance accordée aux fanatiques  leur fait croire immédiatement à de la sympathie pour leur cause; [ ]. Je lus son oeuvre; j’eus même la curiosité de faire rassembler par Phlégon des renseignments sur la vie du jeune prophète nommé Jésus, qui fonda la secte, et mourut victime de l’intolérance juive il y a environ cent ans. [ ] Chabrias, toujours préoccupé du juste culte à offrir aux dieux, s’inquiétait du progrès de sectes de ce genre dans la poulace des grandes villes; [ ]. Arrien partageait ses vues. Je passai tout un soir à discuter avec lui l’injonction qui consiste à aimer autrui comme soi-même; elle est trrop contraire à la nature humaine pour être sincérement obéi par le vulgaire, qui n’aimera jamais que soi, et ne convient nullement au sage, qui ne s’aime pas particulièrement soi-même.»

 
Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.238-40


dezembro 23, 2012


«Dizendo estas palavras, retirou-se para o interior do templo e, pegando nas suas tabuinhas enceradas, como se fosse escrever, levou o estilete à boca e mordeu-o, o que costumava fazer quando pensava ou compunha algum discurso. Passado algum tempo, cobriu-se com o manto e deitou a cabeça. Os soldados que estavam à porta do templo riam-se dele por temer tanto a morte e chamavam-lhe cobarde e medroso.

Árquias, aproximando-se dele, incitava-o a levantar-se [ ]. Demóstenes, sentindo que o veneno produzira o seu efeito, descobriu-se e, fixando os olhos em Árquias, disse-lhe:

— Podes desempenhar agora o papel de Creonte na tragédia e lançar este corpo onde quiseres, sem lhe concederes as honras da sepultura. Oh Poseidon! saio ainda vivo do teu templo, mas nem por isso Antípatro e os macedónios o deixaram de profanar com a minha morte.

Mal acabou de pronunciar estas palavras, sentiu-se tremer e cambalear; pediu que o amparassem para andar, e, quando passava em frente do altar do deus, caiu e morreu soltando um profundo suspiro.»

Plutarco, Demóstenes e a supremacia da Macedónia,
Lisboa, Editorial Inquérito, pp. 68-9

dezembro 21, 2012


«Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos,  um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta servidão do espírito ou da imaginação. Seja como for, o horrível estado que põe um homem â mercê de um outro homem precisa de ser cuidadosamente regulado por lei.»         

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.100-01

dezembro 19, 2012


«Os espartanos mais sensatos, [ ] receando o poder do dinheiro que tinha conseguido corromper um dos seus cidadãos mais apreciados, censuraram asperamente Lisandro e declararam aos éforos que deviam fazer sair de Esparta, quanto antes, todo o ouro e toda a prata que ele para lá tinha enviado, como moléstia sedutora e, por isso mesmo, ainda mais perigosa.

[ ] Flógidas [ ] foi o primeiro a opinar que se não recebesse nenhuma moeda de ouro ou de prata, conservando-se apenas a do país. [ ]

Os amigos de Lisandro opuseram-se ao decreto e conseguiram fazer aprovar que a prata ficasse em Esparta, mas a que estava convertida em moedas só teria curso para negócios públicos e seria condenado à morte todo o particular que as tivesse: como se Licurgo receasse as moedas de ouro ou prata e não a avareza que elas trazem atrás de si.

Era muito menos prevenir esta paixão, proibindo aos particulares terem moedas de ouro ou de prata, do que excitar o desejo de as possuirem, desde que se autorizava a cidade a fazer uso delas: a comodidade que elas representavam dava-lhes mais valor e fazia-as mais desejadas.

Seria possível, com efeito, que os particulares as desprezassem como inúteis, quando eram publicamente apreciadas? Poderia cada espartano deixar de atribuir valor, nos seus negócios, ao que ele via ser tão estimado e tão procurado pelos negócios públicos? [ ]

É certo que os éforos, para impedirem que a prata amoedada andasse nas mãos dos cidadãos puseram de sentinela o temor da lei, mas não lhes cerravam a alma à admiração e ao desejo de riquezas; pelo contrário, fazendo-as considerá-las uma propriedade tão preciosa quanto honrosa, excitaram neles a mais violenta paixão.»


Plutarco, Lisandro e a supremacia de Esparta,
Lisboa, Editorial Inquérito, p.41-3

dezembro 16, 2012

Image in blog Sapere Aude!

«Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles. A gramática, com a sua mistura de regra lógica e de uso arbitrário, propõe ao jovem espírito um antegosto pelo que lhe oferecerão mais tarde as ciências do comportamento humano, o direito ou a moral, todos esses sistemas em que o homem codificou a sua experiência instintiva. Quanto aos exercícios de retórica em que éramos sucessivamente Xerxes e Temístocles, Octávio e Marco António, exaltavam-me; sentia-me Proteu. Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis.»                       


Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Lisboa, Ulisseia, 1981,  
p.34-5

dezembro 13, 2012


«O país, embora por vezes apresente um aspecto diferente, é em geral eriçado de florestas e cortado por horríveis pântanos, mais húmido do lado das Gálias, mais batido pelos ventos do lado em que a Germânia defronta quer o Nórdico, quer a Panónia. O solo, fértil em grão, recusa-se à cultura das árvores de fruto. O gado abunda, mas é quase sempre de pequena estatura, e mesmo os animais de trabalho não têm a corpulência dos nossos. Os germanos sentem-se orgulhosos por os possuírem em grande número; é a sua única riqueza, é o bem que mais estimam. Os deuses — Seria por bondade? Seria por cólera? Não me pronuncio — negaram-lhes a prata e o ouro; eu não ousaria contudo afirmar que na Germânia nenhuma mina exista que produza ouro ou prata; quem poderá ter a certeza disso? São menos sensíveis do que nós aos atractivos da posse ou do uso destes metais. Podem ver-se entre eles vasos de prata oferecidos como presentes aos seus embaixadores e aos seus chefes; não fazem mais caso deles do que se fossem de barro. Contudo, os que habitam mais próximos de nós apreciam para as transacções comerciais o emprego do oiro e da prata e conhecem certos tipos da nossa moeda, aos quais dão a sua preferência; os do interior, mais fiéis à antiga simplicidade, traficam por meio de trocas. Os outros gostam sobretudo das nossas moedas antigas e há muito conhecidas, aquelas cuja borda é dentada em forma de serra e que têm a efígie dum carro puxado por dois cavalos; mostram também mais gosto pela prata do que pelo oiro, não em consequência de qualquer predilecção, mas porque as moedas de prata são de um uso mais cómodo para homens que só compram objectos comuns e de pouco valor.»

Tácito, A Germânia,
Lisboa, Ed. Inquérito, Lda, pp.12-3

dezembro 10, 2012


«A fama destes dois grandes homens [Epaminondas e Pelópidas] atraia todos os aliados que, sem serem obrigados a isso por nenhuma ordem, nenhum decreto público, os seguiam em silêncio para toda a parte onde eles quisessem levá-los. É, com efeito, a primeira e a mais poderosa de todas as leis, esta lei natural segundo a qual todo o homem que tem necessidade de defesa reconhece como chefe aquele que é capaz de o defender. Os passageiros de um barco, quando o mar está calmo e estão num ancoradouro seguro, dizem mal dos pilotos; mas se se vêem ameaçados pela tempestade, fixam os olhos neles e depositam todas as esperanças no seu auxílio.»

Plutarco, Pelópidas e a supremacia de Tebas,
Lisboa, Ed. Inquérito Lda, 1939, p.49

dezembro 06, 2012


«A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minha primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas.»


Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.34

novembro 21, 2012


[ a crise, a burguesia e a falsificação de obras de arte ]

«O pânico instalara-se de modo intolerável e chegava à Europa. Em Portugal, por exemplo, ainda não era, mas ia passar a ser chiquíssimo as classes dominantes dizerem coisa como «estamos outra vez tesos, filha», The Economist bem escrevia vingativamente they claim now everything was wrong before, e os compradores da véspera tinham pedido aos seus advogados que começassem a engendrar toda uma série de razões técnicas para não procederem ao levantamento e muito menos ao pagamento dos quadros licitados, por razões de austeridade, morigeração de costumes e preconceitos estéticos, e dizia-se mesmo que alguns maridos, que tinham investido forte , receavam voltar a perder completamente a ponta, o que era susceptível de lhes causar contratempos nada discipiendos, como se diz que já tinha acontecido aquando do vinte e cinco de Abril.
Também por cá havia indícios seguros de que a questão ia passar a ser a do real fake. Nas colunas sociais, as ladies da nossa melhor sociedade começavam a deixar-se fotografar torcendo o nariz aristocrático a umas borradelas gigantescas que as tinham extasiado havia algumas semanas apenas e tinham agora a bolinha vermelha da reserva já meia descascada e esquecida.»

:)

op.cit., p.272-3

novembro 15, 2012


«Oh, o hábito de nos aferrarmos ao que não existe. [ ]
Há uma questão a decidir. [ ] É uma questão bem chata, oh.
De um lado a vida toda; e do outro, o nada todo dela.»

Vergílio Ferreira, Nítido Nulo (1969),
Lisboa, Quetzal, 2012, p. 257.


novembro 07, 2012

E na sequência daquela surpresa, outra surgiu numa bela e singela história de um episódio de vida, onde a pesca desportiva ao longo do mar de Sesimbra e da Arrábida se cruza com um inesperado enamoramento numa loja da Rua Augusta; tudo na escrita airosa de Carlos Espírito Santo de Mello, na Lisboa dos anos cinquenta. :)



novembro 04, 2012

Surpreendeu-me ver um livro de Carlos Espírito Santo de Mello à venda, num escaparate do centro comercial de Via Catarina, no Porto, um autor do clássico Análise de Balanços, sua obra de escrita cristalina e escorreita sobre o tema universitário de economia que li e estudei há mais de cinquenta anos! Folheei o livro, editado em 2005 pela editora Civilização, a proprietária das livrarias Bulhosa, e encantou-me ver o meu apreciado autor debruçar-se sobre uma disciplina que hoje em dia parece ter poucos cultores e que sempre apreciei: a geografia huimana.

Mostro este excerto onde se denuncia a manipulação da verdade a que os interesses económicos submetem a  realidade dos povos, ocultando-lhes a causa e os causadores da sua miséria.


«Como em toda a África até à década de quarenta também na Etiópia, a alta imortalidade infantil tendia a manter estável a população. Para as mulheres africanas a perda de prole logo na primeira infância era um acontecimento de rotina pouco preocupante. Os sobreviventes eram cuidados e fontes de redobrado prazer. Esse método da natureza para manter estáveis as populações (e assegurar boa genética) parece rude face às bitolas de hoje. Surge, porém, uma questão pertinente: será preferível que uma criança morra pouco de pois de nascida — antes de poder sequer saber o que é a morte — ou ser salva para um subsequente falecimento lento e torturado numa curta vida de carência alimentar ou, ainda, como acontece a milhões no Subcontinente Indiano, viver os seus dias acorrentada ao local de trabalho?

Na Etiópia, não se punham tais dilemas. A meio do século XX, uma população estável e auto-suficiente era estimada em dezoito milhões.

Depois veio o dilúvio…
… da penicilina.

Reagiu tudo com entusiasmo:
— As mães, ao verem cinco, seis ou mais filhos a sobreviverem em vez dos habituais dois ou três.
— Os autoproclamados benfeitores e missionários desvanecidos com a resposta de Deus às suas preces.
— E as empresas farmcêuticas, essas, a engordar…

… e alguém fez contas ao custo e à logística, ainda que apenas de “alimentar” [ ], de todas as bocas em explosão? [ ]

E aconteceu que os 18 milhões de almas de 1950 deram origem a 36 milhões em 1981. Também aconteceu que aperfeiçoamentos farmacológicos fizessem já em 2004 os Etíopes ultrapassar os 72 milhões [ ]… o mesmo é dizer, de bocas.»                    
                    - - - - - - - // - - - - - - -

«Quanto precede leva mais cedo ou mais tarde à pergunta do porquê da relutância dos média em dar a importância devida aos factores populacionais. Neste particular a primeira coisa a tomar em conta é que a vasta maioria dos média no mundo ocidental é privada e por isso tem que, de algum modo aferir as saus exteriorizações com a motivação do lucro — essencial à sua própria existência. Ora a espectadores e ouvintes pouco interessam as progressões numéricas. Deleitam-se, sim, com as grandes corrupções, os ataques de bombistas suicidas, as crises de fome aqui, ou ali, sempre devida a grandes secas, pragas de gafanhotos ou inundações (mas não à sobrepopulação!) tudo com a correspondente filmagem de crianças esqueléticas, bem apontada ao âmago dos instintos maternos e paternos. A inexorável progressão dos números que tudo condiciona pois essa não tem conteúdo emocional.»

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«Anos após a definição dos “direitos do homem” acrescentou a ONU um pronunciamento acerca dos “direitos das crianças”. Exigem elas vestuário, habitação, alimentos, educação e assitência médica. A utopia de ver generalizados estes direitos  é evidente para qualquer um que veja noticiários televisionados. Neste contexto, porém, seria de indispensável coerência acrescentar o direito a “não nascer, sempre que os cinco demais direitos não estivessem assegurados”. Esse claro direito de não vir ao mundo apenas para sofrer, resulta mais imperioso sempre que se torne evidente que nem um só dos cinco direitos enunciados esteja assegurado. A inacção culposa dos média face a esta realidade, bem como — mais evidente e gravoso — a oposição de entidades religiosas ao seu cumprimento, são obviamente atentados aos universalmente proclamados direitos da crianças.»
  
Carlos Espírito Santo de Mello, O que Os
Média Não Dizem, («The Media’s Taboo
— An Essay on Population Growth», 2001)
Porto, Civilização Editora, 2005, p.19-20; 290; 292.

novembro 01, 2012


No decurso de leituras avulsas dos filósofos sempre vi menorizada a filosofia de Aristóteles e da escolástica medieval.

Realmente, no liceu, a breve incursão pela Antiguidade Grega e pela silogística das proposições, logo era destituída pela subsequente exposição da doutrina dos racionalistas de seiscentos.

Descartes empalidecia o saber antigo com a sua magistral conclusão da existência do facto indubitável de haver pensamento — no que hoje se me afigura mais conforme à filosofia clássica do que o imaginava no liceu.

Pois, na verdade, era impossível a um jovem não ficar impressionado com a algebrização do espaço na deslumbrante geometria analítica de Descartes, e com a radicalidade da exigência do seu método de ordenar as ideias claras e simples, na condução do pensamento, independente do que os livros antigos ensinassem ou não, partindo do evidente até alcançar a certeza do conhecimento.

Sucedeu-me, contudo, uma surpresa serôdia quando há um ano vi nos escaparates da Bulhosa de Oeiras um livrinho com o preço de € 3.00, editado pela Guimarães Editores intitulado “Exaltação da Filosofia Derrotada” (1983) de autoria de Orlando Vitorino. Fiquei com curiosidade, comprei-o, trouxe-o para casa.

Ao lê-lo, tomei conhecimento, ao fim de tantos anos de leituras dispersas de filósofos, de uma argumentação séria e convincente em favor da tal filosofia derrotada, a clássica, de Aristóteles, invertida e desfigurada pela filosofia crítica de Kant, inábil suporte das diversas ciências modernas de autónomos “sectores” da realidade!

Hei-de tentar expor o que aprendi e apreciei nesta aprendizagem original de Aristóteles que sempre vi considerado quase ‘desactualizado’. Há argumentos em contrário. E mesmo no domínio da ciência económica, que me surpreenderam muito.

Como é possível Orlando Vitorino não ser comentado? Os excertos de Álvaro Ribeiro, em torno do “Estudos Gerais” do Trivium e do Quadrivium, achei-os deliciosos e situaram-me melhor no que foi o pensamento dos filósofos  siscentistas. Voltarei ao tema.


outubro 31, 2012


(continuação 20)

«Os verbos dialécticos cobrem a fecundidade ou infecundidade da cópula. Outros verbos, e outros modos, aqueles que designam os movimentos classificados e graduados pela evolução da ciência, demonstram que da relação entre o agente e o paciente algo de novo há-de surgir, o terceiro termo significativo.

As leis da ciência, quando perfeitamente traduzidas em altissonante linguagem humana, revelam a virtude, a força ou o poder do verbo. A cada verbo corresponde uma ciência, garantia intelectiva das actividades humanas, que são o jogo, a arte e o trabalho, foco iluminante das paixões humanas, que o estudioso regista nos livros de ética, de moral e de política.

Quando os termos ou extremos que circundam o verbo, na condição de agentes ou pacientes, deixam de ser imagens para ser conceitos humanos ou até para serem imagens divinas, o pensamento altera-se para ser científico, filosófico ou religioso.

O silogismo de quem pensa aventurosamente na relação com o incógnito, o oculto ou o misterioso, representa um aperfeiçoamento da arte de adivinhar. Esta arte é paradigmática da investigação científica. A procura de leis, causas e formas ainda não conhecidas realiza-se pela atenção prestada ao verbo.

Ante uma substância, um substantivo ou um ser, pergunta Aristóteles qual o movimento que lhe é próprio, qual a virtude que lhe é essencial. a virtude e a virtualidade exprimem-se por verbos em modos activos, e não já por particípios, adjectivos ou substantivos, conforme se lê nas proposições da gramática, retórica e dialéctica. [ ]

Depois da actividade própria vem a actividade específica, e dpois da específica a genérica. Nesta consideração ascendente é possível determinar, prever e adivinhar o comportamento futuro dos seres, ou pelo menos o comportamento normal, se não houver concorrência de causas que provoquem acidentes.

A lógica aristotélica, muito afastada já da gramática, da retórica e da dialéctica, escolhe os seus exemplos na física, na fisiologia e na cosmologia, reinos da experiência e da finalidade.»


Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.120-21.

outubro 29, 2012


(continuação 19)

«Tomada à letra, mal interpretada pelos comentadores gregos e conservada durante séculos pelos escolásticos, a doutrina do silogismo recaiu num desanimado esquematismo, de utilidade mnemónica, mas afastou-se do racionalismo formal.

A forma da necessidade poderá talvez ser a primeira, mas a forma da constância e a forma da casualidade também existem na situação modal e na gradação científica.

O silogismo expresso pelos verbos triviais, como ser, estar, ter, haver, etc., e restrito ao modo indicativo, exigido pela dialéctica, não cobre os aspectos contingentes da existência no espaço e no tempo.

Ora, sem determinação de espaço e de tempo não há existir, que é um modo de ser, nem há articulação lógica de um racicínio completo.

O silogismo aristotélico, para ser bem interpretado segundo a lógica formal, há-de incluir as noções de experiência e de finalidade. O silogismo não é uma equação. Se assim for, ressurgem as justas críticas de quantos dizem ser o silogismo inválido porque tautológico ou vicioso, fechado em círculo, inútil para a investigação.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.119-20.

outubro 23, 2012


(continuação 18)

«A aptidão para filosofar evidencia-se naqueles espíritos que, a propósito de tudo, se interrogam sobre as possíveis relações entre dois termos distantes. [ ] Não se aquieta o espírito filosófico perante a resposta negativa da ciência ou da ignorância. Ele aposta, postula ou jura que uma incógnita relação existe, enquanto espera pacientemente o momento de vê-la acrescentada ao quadro das funções intelectivas, ou efectivamente descoberta na realidade. [ ]

Em vez da disjunção dialéctica, a filosofia adopta a conjunção silogística, aproximando, associando, unindo dois termos que à primeira vista pareciam estranhos e, mais ainda, incompatíveis, quer dizer, incapazes de paixão e de acção.

Aludimos já, noutro lugar, à função da experiência na metodologia de Aristóteles. A união dos corpos, das imagens e dos conceitos, quando geratriz de um novo ser, representa adequadamente o que Aristóteles designou pela primeira vez por silogismo.

No primeiro dos livros analíticos, e também no primeiro livro de tópicos, Aristóteles define o silogismo em termos de posição e composição, ou sejam de tese e síntese, sem intermediário. A virtude criadora do intelecto activo depende do princípio de finalidade.

Enquadrada nas disciplinas triviais, na gramática, na retórica e na dialéctica, esta definição do silogismo esclarece-se pela distinção das duas premissas e pelas virtudes dos conceitos. A necessidade da conclusão não resulta da intervenção de um elemento exterior.

Distingue depois Aristóteles duas espécies de silogismos: aqueles que resultam de proposições acerca das quais não temos certeza, mas que servem para exercício dialéctico, retórico ou gramático, e aqueles cujas premissas já comprovadas, ou tidas por verdadeiras, concluem necessariamente a modo de demonstração científica.»

(continua)


Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.117-8.

outubro 19, 2012


(continuação 17)

«Fácil será ver, pelo estudo da história da filosofia moderna e contemporânea, que os quadros de categorias se restringem ao modo indicativo, tornando presente, fixo e eterno o verbo expressivo dos conceitos puros da ciência e dos métodos admitidos pela epistemologia.

A verdade não é, porém, o único valor que o filósofo está a inserir mentalmente na realidade que o surpreende; o pensador exprime e comunica; também são valores a beleza e a bondade.

Admite o filósofo que os conceitos puros da ciência tenham prioridade sobre os conceitos impuros da estética e da ética, prioridade e até função significativa; mas nunca admitirá um racionalismo simplista ou abstractivista que condene o segundo e o terceiro valor como indignos de figurar no quadro dos processos gnósicos e, portanto, no quadrívio complementar do ensino trivial.

A beleza da palavra humana, a eloquência, está portanto incluída nos domínios de arte de filosofar. [ ] A eloquência é uma indagação que tem por fim apresentar sensivelmente o insensível. Tornar audível, pelo ritmo musical, uma realidade inefável, é já uma arte cujo artifício se estuda na fonética, na métrica e na versificação. A poesia actua, porém, com palavras de significação insensível mas, digamos, sensibilizada por virtude da imaginação.

A verdade da poesia surge, porém, de mais alta sintaxe. Umas imagens alegorizam outras [ ]. O pensador substitui a imagem do mundo sensível, sempre fugaz e evanescente, por outra imagem mais actual, que universaliza a primeira, ou então pelo verbo que lhe confere perene verdade.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.113-5.

outubro 17, 2012


(continuação 16)

«A lei dialéctica de Fichte, com as suas três fases de tese, antítese e síntese, domina a cronologia de Hegel muito mais do que as categorias de quantidade, qualidade e relação.

Toda a perplexidade pensante se interroga sobre se os contrários foram postos antes do movimento, se os seres naturais e artificiais, ou históricos, estão realmente subordinados a essa tríade inflexível, ou se a transposição e conversão dos relativos em opostos e contrários não passa de ficção útil, mas inconforme com a descrição sincera do devir empírico e acidental.

A dúvida leva a perguntar se as alterações da mesma essência serão acidentes ou aparências, porque da alternativa depende o problema da substância.

A intelecção do movimento não é possível sem a consideração do móvel nas determinações de tempo e de espaço. O movimento é a noção primitiva, de que todas as outras parecem derivadas.

Assim, contrariamente à doutrina subjectivista de Kant, o espaço e o tempo, determinações objectivas, hão-de ser restituídas ao quadro das categorias, conforme a tradição aristotélica. Acontece, porém, que a sucessão e a localização, susceptíveis de medida, estão ocultas ou resumidas na categoria de quantidade.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.108-9.

outubro 13, 2012


(continuação 15)

«A substância mineral, ou elementar, corresponde ao reino do silêncio, sem vida de natureza. Com a planta fixa e com o animal movente representam-se-nos as palavras distintas mas necessariamente obedientes às suas leis. A palavra, substância do discurso, na sua identidade pode significar uma coisa, uma imagem ou um conceito cujas determinações são apreendidas pelos processos já descritos de distinção entre as aparências e as essências.

Substante, a palavra é sujeito de predicados, epítetos e atributos. Predicado significa o já anteriormente dito, o já sabido, o já classificado, pelo que a predicação tende a cair no pleonasmo e na tautologia. É o regresso incessante da retórica à mnemónica e à memória. O epíteto adjunta ou adjectiva qualidades externas ou superficiais. O atributo acentua propriedades internas, incógnitas, remotas. A atribuição procede sem certeza, pelo que é muitas vezes comparada à hipótese, mas a adjectivação exalta com evidência graciosa. Estas três operações mentais de classificação, análise e síntese mantêm estante, estático ou estável o sujeito idêntico no fluir do discurso.

A palavra representativa da coisa, da imagem ou do conceito, quando dotada de mobilidade, poderá ser transferida de casa para casa, ao longo de graduados tópicos ou de categorias agrupadas num quadro mnemónico, para maior facilidade das operações intelectivas. [ ]

As inferências imediatas e mediatas da retórica implicavam a noção de conceito, sem que o substantivo perdesse a sua identidade. Não assim no trânsito categorial, porque a mudança de ambiente põe à prova, ou à experiência, a extensão e a compreensão do conceito; [ ].

A deslocação da palavra e o trânsito do conceito, ao longo de estados, estádios e estações, de frases, metamorfoses e ciclos, de casas, classes e graus, foram sempre valorados pelos observadores, mas pelo caminho, ou método categorial, que é crónico e lógico, o pensamento científico alcança mais concretas determinações.»


(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.107-8.

outubro 11, 2012


(continuação 14)

«Correspondendo, assim, ao pessimismo dos homens que se encontram na crise da adolescência, idade que as exigências dos sociólogos prolongam para além do que seria normal e natural, a dialéctica moderna seduz e atrai quantos pensam em negação àquela realidade desconhecida, ou ainda não conhecida, que os espera na adulta idade.

Entre as leis do agir e as leis do pensar, inerentes e coerentes no conceito da Antiguidade, foi efectuada modernamente uma disjunção que tudo corrompe e que a dialéctica interpreta satisfatoriamente.

Ao adolescente afigura-se-lhe que toda a determinação é negação, segundo o célebre aforismo de Espinosa, que necessariamente conclui pela substância unitarista.

Enquanto lhe for vedado atingir a idade adulta, não entenderá o homem que a geração tem por finalidade o conceito, e que a determinação é, sem dúvida, o aspecto fenomenal da criação.

Entre o indicativo do ser e o imperativo do dever, existem os modos irreais ou ideais da arte, cujo verbo existe para completar, aperfeiçoar e redimir a natureza.»


Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.105-6.

outubro 07, 2012


(continuação 13)

«Hegel promove o regresso do modo imperativo ao modo indicativo, afirmando que a filosofia não se ocupa do dever ser, preocupada acima de tudo com o ser.

A preocupação escolástica de adunar o pensar com o ser conduz Hegel a escrever a última ontologia, mas também a prescrever ao pensamento um necessitarismo puro de qualquer influência da vontade (Fichte) ou do sentimento (Schelling).

Elimina, por isso, a categoria da modalidade, reduzindo de doze a nove os conceitos puros do intelecto que haviam sido propostos na tábua mnemónica de Kant. Os conceitos puros agrupam-se agora em novenas, ou enéadas, para usar a designação de Plotino.

Eis o quadro abstracto das tríades concretas que Hegel estudou na sua longa obra:

Quantidade: 1. tese 2. antítese 3. síntese
Qualidade: 4. tese 5. antítese 6. síntese
Relação: 7. tese 8. antítese 9. síntese

[ ] A filosofia alemã, representada agora por este ou aquele nome ilustre, de Kant a Hegel, [ ] atrai, como ponto de de referência ou como ponto de quietação, a actividade intelectual de todo o mundo culto. Não nos cumpre historiar os motivos, os processos e os êxitos [deste] domínio [ ]; pretendemos apenas mostrar que a cultura alemã, fixista pelo uso da mnemónica nos compêndios didácticos, aliás coerente com atribuir à memória a estrutura intelectual da humanidade, expande mecânicamente e propaga materialmente o seu normativismo temerário.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.104-5.

outubro 05, 2012


(continuação 12)

«O mundo das aparências, ou do que aparece à nossa sensitividade [ ] é um mundo subjectivo [ ] mas universalmente submetido pela actividade judicativa aos conceitos puros do intelecto. [ ] [a] tábua das categorias [ ] parece ter sido apenas constituída para facilitar a tarefa de coordenar e subordinar os fenómenos segundo leis e princípios. A tábua das categorias marca o limite da inquietação. Que não é possivel deslocar a fronteira establelcida entre os fenómenos e os númenos [ ]

A categoria da modalidade adverte-nos, porém, de que o propósito de Kant consistiu em estabelecer para a ética, a moral e a política, uma normatividade científica de grau superior ao da clássica retórica de Aristóteles, Cícero e Quintiliano. Ao modo indicativo do ser sobrepõe-se o modo imperativo do dever ser.

A liberdade humana, já diminuída em seus aspectos cognoscitivos, haveria de ser ainda limitada pela ciência do bem e do mal, segundo o quadro das categorias morais que aparece publicado na Crítica da Razão Prática. O imperativismo torna-se imperialista em consequência das suas pretensões universais, mudando o sinal teórico para sinal prático à inquietação humana, que utiliza a máquina, a mnemónica e a memória.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.103-4.

outubro 03, 2012



(continuação 11)

«A mais importante reforma do quadro das categorias, aquela que conseguiu pôr de lado a ordenação aristotélica e escolástica, foi levada a efeito por Immanuel Kant em consideração do sistema científico de Galileu, Kepler e Newton. [ ]

Depois de procurar cingir a estrutura universal do espírito humano nas obras que autores ingleses dedicaram ao mesmo escopo, nomeadamente Locke, Berkeley e Hume, concluiu Kant pela redução do espírito ao intelecto, cujas funções aparecem descritas nos conceitos puros que, por sua vez, se agrupam segundo quatro categorias.

Estas funções judicativas distinguem-se, portanto, das estruturas reais e dos objectos situados no mundo sensível. Para Kant, nem o espaço nem o tempo são categorias, como também não será categoria a substância.

O espírito humano atinge assim a sua quietação, não já numa dogmática de artigos de fé, que secretamente alimentem os anseios da alma, mas num quadro mnemónico, que transportará consigo para incentivar o progresso das ciências.

É fácil de reter a série descendente das quatro categorias: quantidade, qualidade, relação, modalidade, e fixar () a cada uma delas a tríade de conceitos puros, indispensáveis para objectivar as subjectivas intuições sensíveis.

Quantidade: Unidade / Pluralidade / Totalidade Qualidade: Realidade / Negação / Limitação
Relação: Substância / Causa / Reciprocidade
Modalidade: Possibilidade / Existência / Necessidade

Convém, no entanto, esclarecer que [o termo alemão begrieff significa realmente laço judicativo e não exactamente o termo conceito usado na tradução para várias línguas românicas que apela mais ao sentido semântico daquilo que foi concebido, o produto da mente, do mentar e até do mentir].

O [‘conceito’] de Kant («begrieff») não é um ente mental, dotado de extensão e de compreensão, mas um agrafe mnemónico indispensável à actividade que julga, reparte ou analisa os dados sensíveis, apresentações ou representações.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.100-103.


outubro 01, 2012


(continuação 10)

«Convém notar que a doutrina exposta no primeiro livro do Organon está demasiado referida aos problemas de gramática, retórica e dialéctica, pelo que se nos afigura demasiado contaminada por assuntos triviais. Se lermos, porém, os livros científicos de Aristóteles, nomeadamente a Física, veremos já a redução das categorias ao número conveniente para o objecto de estudo.

Com o renascimento da ciência pitagórica e platónica, e também com a subordinação da experiência às determinações de peso, conta e medida, facilitadas pelo progresso arábico das matemáticas, a noção de substância e a noção de categoria sofreram uma alteração verificável nos textos da filosofia moderna.

Acima da natureza, isto é, das leis do nascer e do morrer, foram situadas as relações inteligíveis cuja imortalidade substituía a dos deuses da mitologia antiga.

O pensamento filosófico foi obrigado a aceitar como padrão de necessidade a sequência das relações matemáticas, relações inteligíveis, substantes, existentes em si e para si.

A relação foi refutando a pouco e pouco a substância. Os sistemas filosóficos afirmavam-se relativistas na medida em que iam sendo fenomenistas, desistindo de designar a substância absoluta.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.100-101.

setembro 29, 2012


(continuação 9)

«No primeiro grupo de categorias vemos a oposição entre o absoluto e o relativo. A distinção entre o absoluto e o relativo verifica-se pelo uso das preposições a, de e para. Ser escritor é uma afirmação absoluta, porque significa uma profissão. Ser empregado é uma afirmação relativa, porque o empregado é relativo a empresário, e a afirmação só fica determinada explicitando a correlação. [ ]

Dos outros grupos de categorias apresenta Aristóteles exemplos elucidativos. São os termos mais frequentes de resposta a perguntas tendentes a distinguir entre as aparências mutáveis e a essência imutável.

A possessão é designada em latim por habitus, palavra que lembra o verbo habere. Hábito é também vestuário, e armadura. A posição é designada em latim por situs, situação. Estas aparências costumam ser designadas em português mediante proposições construídas com os verbos ter e estar.

Sobre as determinações de quantidade, qualidade, espaço e tempo não é indispensável fazer comentários, visto que elas surgem constantemente na exigência da elaboração científica. Mais importantes, para clarificação da doutrina aristotélica, são as categorias de acção e de paixão, que poderemos aproximar da distinção modal entre potência e acto.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.99-100

setembro 23, 2012


(continuação 8)

«A doutrina das categorias, tal como aparece exposta no primeiro livro do Organon, não corresponde paralelamente à marcha progressiva do método experimental, isto é, não representa adequadamente o trânsito intelectual do indetermoinado para o determinado nem a indagação filosófica das aparências para as essências. [ ]

Apesar de tudo, permanece válido o mérito do livro de Aristóteles, como primeira formulação de um método de inteligência discursiva para evitar as objecções da dialéctica, com a negação e os contrários, e para sair das generalidades da retórica.

Agrupamos, para melhor entendimento, as dez categorias aristotélicas em cinco pares: substância e relativo, quantidade e qualidade, lugar e tempo; posição e possessão; acção e paixão.

A substância do discurso é aquilo de que se fala. Para explicitar alguma determinação da substância é indispensável construir a proposição que, segundo os escolásticos, que pode ser segundo adjacente ou terceiro adjacente.

A afirmação e a negação, construídas com o verbo ser, como verificamos na dialéctica, recaem sobre a substância, e não sobre os acidentes expressos segundo as categorias. Assim, vemos que os verbos estar, ter, haver, existir, etc., não são susceptíveis de exprimir contradição substancial, ainda que se apresentem como modos do verbo ser.

Existir é o modo de ser no tempo e no espaço; estar é um modo de exprimir várias qualidades; ter e haver exprimem outras categorias. Mudar segundo as categorias, ou determinações, é movimento, não é contradição.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.99


setembro 22, 2012

setembro 19, 2012

              Árvore de Brentano para as categorias de Aristóteles

(continuação 7)

«Aristóteles enuncia nos seus livros as dez categorias seguintes: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, possessão, acção, paixão. A sequência destas categorias quadra, evidentemente, com a descrição dos animais, e com razão se tem dito que a lógica aristotélica é de inspiração biológica.

Aplicou Aristóteles o método experimental que põe o tempo de permeio, no estudo dos fenómenos vitais. [ ] Aristóteles admirou nos viventes não só a beleza severa da simetria exterior, mas também a da relação das estruturas com as funções, relação inteligente de meios a fins que o naturalista descobre usando a analogia.

Além da observação, a experimentação consiste em colocar um ser vivo perante outro ser vivo, para verificar como reciprocamente agem e reagem um com o outro, no respectivo viveiro, ou em modificar o ambiente e a circunstância para verificar a adaptação exterior e interior.

Este método aristotélico de pensar na relação de antecedente para consequente foi com alto êxito aplicado por Carlos Darwin [ ]. A acção e a reacção, que os verbos científicos exprimem, pressupõem um agente e um paciente, sem perder jamais a analogia com as relações dos seres viventes e a dos seres humanos, já esclarecida nos tratados de ética, de moral e de política.

Este experimentalismo aristotélico, em busca de estabelecer relações de antecedente para consequente, e, mais ainda, variações concomitantes, quando transferido para a literatura poderá dar origem a exercícios mais fecundos. [ ]

A substância do discurso, da proposição ou do juízo há-de ser deslocada de categoria para categoria, como o animal que infere através dos quatro elementos, ou quatro estados. Esta ordenação propõe-se representar a vida do conceito.
A seriação temporal conduz o pensamento para o termo, para o fim, para a finalidade.»



(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.96-98.

setembro 17, 2012


(continuação 6)

«A substância é, pois, a primeira das categorias. Aristóteles adverte-nos de que uma substância que fosse uma mera palavra, um sujeito sem predicado, um ente inconcebível porque sem extensão e sem compreensão, não formaria discurso científico.

A palavra exerce, contudo, uma ressonância mental que suscita várias interpretações entre as quais a imaginação do pensador elege a que lhe parece mais favorável. Não há palavras insignificantes. A atribuição de significado, tão fecunda em obras artísticas de alto estilo, recai porém sob os golpes da crítica no domínio frio da semântica. [ ]

As definições modelares são-nos propostas pelas definições geométricas, as quais podem ser deduzidas umas das outras segundo um processo de extensão espacial. Assim aconselham os escolásticos que, segundo tal modelo, a definição desça do género à espécie. Tal só é possível em todas as ciências que se sistematizem por dedução.

O pensador que quiser evitar as malhas da dialéctica ao sair das generalidades da retórica, e progredir no caminho que vai da palavra conhecida para o conceito desconhecido, há-de guiar-se pelo fio indutor que é a série das categorias.

A substância imobiliza-se nos verbos ser, estar, ter haver, existir, etc., que não estimula o progresso da investigação. Para descobrir a extensão e a compreensão do conceito será indispensável usar no discurso alguns verbos que respondam a perguntas seriadas, que por conveniência mnemónica estão agrupadas em categorias.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.95-6

setembro 13, 2012


(continuação 5)

«A gramática impôs à linguagem trivial e à linguagem filosófica a confusão frequente da substância com a matéria e com a essência, num engano de que mal se libertaram os escritores mais atentos à função do verbo.

Que subjaz e que subsiste tanto pode ser dito realmente de um objecto sensível e plasticamente figurado, como metaforicamente de uma essência inteligível que encarna apenas na palavra.

Na química elementar permutam-se como sinónimos as palavras matéria, substância e essência. A substância extensa e a substância pensante dos cartesianos mostram a que abismos foram conduzidos os pensadores que se afastaram da terminologia aristotélica, adulterada ao longo dos séculos pela tradução para latim ciceroniano ou tomista, e até para línguas modernas.

A gramática, a retórica e a dialéctica assentam, como vimos, em proposições segundo as quais o sujeito é singular, individual ou pessoal, porque são essas proposições as que se prestam aos juízos de valor que interessam em ética, moral e política.

Em alguns textos aristotélicos entende-se por substância o sujeito de qualquer proposição, e portanto uma palavra designativa de qualquer coisa, principalmente um substantivo.

A lógica, superior à gramática, à retórica e à dialéctica, é mais exigente de determinações mentais. Logicamente, a substância é o termo que permanece no decurso das operações intelectivas, e para que o discurso seja científico, é indispensável que a substância seja um conceito, como, por exemplo, a espécie e o género. A lógica realiza assim o indispensável afastamento do condicionalismo próprio das representações sensíveis.

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.95

setembro 11, 2012


(continuação 3)

«Desenvolver ou despir será o processo mais fácil de criticar os objectos localizados ou situados no espaço, e a violência da desocultação entrou de há muito na prática científica de laboratório, segundo o método experimental.

A cirurgia incide sobre o corpo humano para descobrir anatomicamente e histologicamente os segredos dos órgãos e dos tecidos. Esse interrogatório manual, utensilial e instrumental progride cada vez mais, mas no seu progresso infinito não deixa de encontrar aparências sobre aparências, concretizadas na figuração sensível de imagens que a palavra trasladará para termos de operações intelectivas ou de formulários técnicos.

O espaço, e precisamente o local onde e de onde surge o movimento, não cinge nem situa o essencial. A acção que nele se figura continua a ser qualificada de aparente. O tempo presta-se mais ao discorrer significativo do que aparece e desaparece, ao trânsito de estação para estação, ou de estado para estado, não só porque exprime a naturalidade inexorável que predomina sobre a violência humana, mas também porque na expressão de fases, mutações e metamorfoses acompanha a modalidade do verbo.

A queda, o caso, o acaso, enfim, o acidental, demonstram intercadentemente a caducidade de tudo quanto é postiço, supérfluo e superficial. O jogo de fenómenos que dá prestígio ao espectáculo estético não ilude o pensador que indaga o estável, o estante ou o substante, isto é, o que está sob atributos, epítetos e predicados. [ ]

Ante a caducidade dos seres sensíveis, sujeitos à lei da geração e da corrupção, ao nascer e ao morrer, afirmou Aristóteles que só há ciência do geral. O homem, [ ] na sua singularidade indivisa, é um ente visível que como os outros também obedece à mesma lei que, com maior ou menor lentidão, faz desaparecer os corpos de entre os espectáculos que se representam no palco do mundo sensível.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.91-93

setembro 07, 2012

Álvaro Ribeiro

(continuação 2)

«Correlacionando a palavra aparência com a palavra essência, atribuímos-lhe uma significação positiva, sem a confundir com quaisquer formas de aparições, alucinações ou prestígios de significação negativa. [ ]

O tempo e o espaço ao determinarem cingem e qualificam o movimento, quer dizer, a sensação. Não é lícito estabelecer um quadro estreito da sensibilidade do ser humano em geral, desconsiderando as particularidades que distinguem as idades, os sexos e as raças, isto é, desatendendo à acuidade dos sensos que varia de indivíduo para indivíduo na adaptação às diversas longitudes, latitudes e altitudes. [ ]

A crítica solicita, ou postula, que a opinião seja transformada em ciência pelo testemunho simultâneo, ou sucessivo, de várias pessoas, transposto depois para palavras escritas, num relatório sujeito às regras retóricas. O método experimental, mais exigente que o método testemunhal, extrairá ao fenómeno o seu carácter insólito, repetindo-o no tempo e no espaço, para o integrar entre os dados da sensitividade normal.

Deixando de lado as acepções pejorativas, e dando às aparências a significação normal de fenómenos ao alcance de qualquer observador, poderemos correlacioná-las com as essências, a que Kant atribui a designação de nómenos.

[Kant], ao estabelecer a sua doutrina da ciência pela união objectiva da sensitividade com o intelecto, negou a possibilidade de qualquer progressivo conhecimento dos nómenos que foram postulados apenas por conveniência do sistema.

[ ] Todos os sistemas tendentes a anular a distinção entre aparências e essências, como os dos imediatos sucessores de Kant e os de outros cientistas europeus, concluíram pela negação da arte de filosofar.

Apoiando na sensação efémera a ciência perene, confundindo a fenomenologia com a ontologia, dogmatizando que o que parece é, esses sistemas apelavam para a exaltação da vontade humana, com maior ou menor indiferença pelos naturais processos de acesso à verdade.

A equação positivista não responde, todavia, à inquietação humana que no tempo sofre e enfrenta a adversidade; por isso a gnosiologia positivista há-de ser corrigida pela explicação do movimento em fases comparáveis aos estádios da narrativa histórica, em transição empírica ou em dedução cronológica, conforme for mais conveniente para os fins práticos do sistema.

Crer no brilho das aparências é próprio do esteticismo infantil, mas falar cronologicamente representa ainda imatura subjectividade que não imagina a explicação. [ ]»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.88-90

setembro 05, 2012


(continuação 1)

«Artista superior e homem inquieto, Aristóteles não se limitou a compendiar ensinamentos de gramática, retórica e dialéctica, em obras analíticas, mas realizou a superação da doutrina antiga, ao constituir o organon, ou o órgão do pensamento, discursivo, reflexivo e especulativo.

Nos doze livros encadernados por Andrónico de Rodes sob o título de Metafísica encontram-se vários apontamentos da lógica aristotélica, os quais permitem interpretar a física e todas as outras doutrinas acroáticas, segundo o critério de adequação do pensamento humano à visão especulativa de mais alta realidade.

Do movimento ao pensamento vai uma analogia a que Aristóteles foi sempre fiel, e sobre esse esquema lógico assentam as críticas às substantivações e substancializações resultantes da tendência fixista e do pendor técnico que ia a pouco e pouco revogando a sabedoria antiga acerca da irrealidade do mundo sensível ou da falsidade da sensação.

O substantivo, indispensável nas artes triviais, vai declinando numa lógica atenta à Natureza, isto é, ao nascer e ao morrer, à geração e à corrupção, enfim às aparências e aos fenómenos do mundo sublunar.

A aplicação dos predicados, dos predicamentos e das categorias aos substantivos realiza um processo que dissolve a opinião para consolidar a ciência, sem contudo anular a substância, não já sensível mas inteligível, que há-de ser postulada pela doutrina do movimento.

Depois a modalidade dos verbos, com seu exemplo claro de distinção entre a potência e o acto, completará a lógica aristotélica, representativa da inquietação humana em difícil demanda do essencial.

Termo de quietação ao qual o inquieto ser do homem aspira, na vivência dolorosa que se pacifica pela anestesia, sem prazer, ou na inteligência persuasiva que repousa na memória, já sem querer, é termo solicitado ou postulado pelo intelecto no seu anseio de adequação à realidade.

O intelecto suporta o termo interpretativo do movimento exterior e interior. O termo eidético, ideal ou essencial que o pensador tem em mente não provém de lugar exterior, determinado no espaço.

A essência nominada, reconhecida pela palavra, ou inominada, concebida pelo pensador, é o terceiro termo elementar de um raciocínio completo. A essência invisível permanece fixa na memória, articula-se por processos de inteligência, e explica a coordenação e a subordinação dos fenómenos visíveis, aparências e aparições. [ ]

Em vez do pensador sedentário, preocupado com o primeiro elemento, a pedra sobre a qual edifica ou arquitecta as imagens vãs, é o pensador itinerante quem, transitando de elemento para elemento, em viagens cada vez mais perigosas e mais precárias, alcança todavia o que as brumas escondem aos homens sem esperança.

Na invariável distância perdura a quietação, mas logo o movimento, interior ou exterior, nos avisa pelas imagens infixas de que até corpos sólidos, de densidade mineral, se plastificam, fluidificam e eterizam como quaisquer outros fenómenos.[ ]

A oposição entre a mobilidade e a imobilidade, tão propícia para a dialéctica, não satisfaz os requisitos da inteligência indagante e unificante, pelo que solicita, por inquietação, o terceiro termo elementar que permite o voo do raciocínio. O movimento há-de, por isso, ser situado entre as aparências e as essências, distinção indispensável à arte de filosofar.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.86-88

setembro 03, 2012


«Ensina Aristóteles que a gramática, a retórica e a dialéctica não são artes de investigação da verdade. As proposições triviais, tanto as teses que o dialecta impugna ou que o retórico defende, como as premissas dos silogismos em que aquelas teses formam conclusões, tanto podem ser verdadeiras como verosímeis, porque residem no domínio flutuante da opinião. A verdade das premissas só pode ser declarada pelos raciocínios completos cuja doutrina não compete já às disciplinas triviais, porque se situa no plano superior da lógica. As artes triviais ensinam apenas as regras de extrair consequências, necessárias ou contingentes, do que é proposto no discurso. O trívio é um exercício admirável, utilíssimo e necessário para adestramento mental, mas não consiste mais do que em usar das palavras e das frases segundo modelos mecânicos que facilmente se propõe à memória de uma criança e à inteligência de um adolescente.»

«A verdade da dialéctica depende da existência de contrários na realidade. Ora na realidade não há correspondência entre a oposição de valores e a contrariedade dos seres. Se tal houvesse, se a afirmação axiológica pudesse ser transformada em distinção gnosiológica, e se a distinção gnosiológica pudesse ser legitimamente transformada em separação ontológica, teríamos de admitir em ética, em moral e em política um dualismo comparável com a doutrina maniqueísta. A lógica demonstrará, porém, que os contrários denominados como exemplos de oposições inconciliáveis, ou resultam de artifícios de gramática, retórica e dialéctica, mantidos por convenção social, ou estão sujeitos à lei natural do nascer e morrer, pelo que se dissolvem no curso dos tempos.»

«É certo que mutuamente se contrariam os seres viventes, e ninguém nega a existência do ódio, da polémica ou da guerra, mas esta verdade cinge, envolve e demonstra a ilusão do querer ou das apressadas, efémeras e estreitas doutrinas do primado da vontade. A vontade ilude-se ou ilude-nos, com a aparência de contrários sem existência real. A vontade mediadora quanto pretende exercer-se polemicamente tanto mais constrói a ilusão em que se situa, colocando atrás de si o bem e em frente o mal. Compete à história da filosofia mostrar que a antitétca do mal ao bem, não já como valores ou predicados, mas como substâncias ou entes, tem sido e continua a ser uma das doutrinas mais pervertedoras da inteligência humana e causadora de conflitos sociais.»

(continua)
Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.76-7

setembro 01, 2012


«É como se [ ] tudo nascesse de temores que ignoramos, nos sobressaltos do mundo, como um punhado de causas sumárias e truculentas. [ ] esquecem-se de que a substituição das pátrias pelas ideologias deu historicamente outros sentidos à traição. De resto, sempre a traição está para além do limite chamado oposição legal ao poder. Você conhece o prefácio do Raymond Aron a um livro de André Thérive? Já tem mais de quarenta anos, mas dá que pensar, quando equaciona traição e sociedades totalitárias. Espere um instante. Está aqui. Lembro-me de que termina dizendo… cá está: la trahison ne sera plus la chose du monde mieux partagée. Tout au contraire, rare et sublime, elle sera le dernier refuge de la liberté.»

Vasco Graça-Moura, op.cit., pp. 91-2


agosto 31, 2012


«É claro que Você pode pegar nisto [que lhe escrevo], dar-lhe alguma cor local, misturar com algumas idas ao Casino Estoril e umas portas entreabertas, trocas de olhares sobre a mesa de um restaurante, conversas de espiões alemães com o embaixador do Eixo, meter um ou dois negociantes de volfrâmio em competição, e um sujeito de gabardine a olhar de viés e a agir na sombra, com a cumplicidade de qualquer engraxador ou moço de recados. O chapéu dos protagonistas, agentes secretos ou espiões, fica sempre melhor descaído sobre os olhos. É um efeito exterior de ocultação do olhar que ajuda a traduzir o que lhes vai por dentro e dá um toque mais perigosamente enigmático.»

:)
Vasco Graça Moura, A morte de ninguém,
Lisboa, Quetzal, 1998, p.74


agosto 29, 2012


«Para concluir este assunto, devemos por um momento considerar o ponto em que a coragem do comandante trava uma espécie de conflito com a sua razão.

Se, por um lado, o altivo orgulho de um conquistador vitorioso, se a vontade inflexível de um espírito naturalmente obstinad, se a resistência valorosa de nobres sentimentos não querem ceder o campo da batalha onde vão perder a honra, contudo, por outro lado, a razão aconselha a não perder tudo, a não se arriscar no jogo até à última, mas antes a guardar tanto quanto é necessário para uma retirada ordeira.

Por mais elevadas que queiramos considerar a coragem e firmeza na guerra, e por menor que seja o prospecto de victória, contudo,há um ponto para além do qual a perseverança pode apenas ser dhamada loucura desesperada e que, portanto, não pode ganhar a aprovação de nenhum crítico.

Na mais famosa de todas as batalhas, a de Belle-Alliance [Waterloo], Bonaparte gastou as suas últimas reservas num esforço para recuperar uma batalha que ultrapassara já o ponto de poder ser recuperada. Gastou o seu último vintém e, qual mendigo, abandonou tanto o campo de batalha como a coroa.»

Livro IV, Capítulo 9 p. 240-1 (a decisão de desistir da luta numa batalha)

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agosto 23, 2012


«Não pode travar-se nenhuma batalha que não seja por consentimento mútuo; e nesta ideia, que constitui toda a base de um duelo, está o fundamento de uma certa fraseologia usada pelos escritores históricos, a qual conduz a muitos conceitos indefinidos e falsos.

Segundo a opinão desses escritores a que nos refrimos, tem acontecido com frequência que um comandante proponha a outro uma batalha, e que este último a não tenha aceite.

Mas a batalha é um duelo muito modificado, e o seu fundamento não está apenas num mútuo desejo de luta, isto é, no consentimento, mas antes nos objectivos que estão ligados a essa batalha: estes sempre pertencem a um todo muito maior, pois até o todo da guerra, considerado como uma «unidade de combate», tem objectivos e condições políticas que pertencem a uma gama mais elevada.

O mero desejo de se vencerem uns aos outros vai cair numa relação absolutamente subordinada, ou antes, deixa completamente de ser algo por si próprio e transforma-se apenas no nervo que transmite o impulso para a acção, vindo de uma vontade superior.»

op.cit.,Livº IV,Cap.8, p.233 (o consentimento mútuo de batalhar)

agosto 19, 2012


«Quanto mais nos elevamos numa posição de comando, tanto mais a mente, compreensão e penetração predominam na actividade e tanto mais, portanto, a ousadia, que é propriedade dos sentimentos, é mantida em sujeição, e por isso a encontramos tão raramente nos postos mais elevados.

Mas então, tanto mais deveria ser admirada.

A ousadia dirigida por uma inteligência dominante, é a marca do herói: esta ousadia não consiste em aventurar-se directamente contra a natureza das coisas, num perfeito desprezo pelas leis das probabilidades mas, uma vez feita uma escolha, na rigorosa aderência a esse cálculo superior, que o génio, o tacto do julgamento, verificou com a velocidade do raio.

Quanto mais asas a ousadia emprestar à mente e ao discernimento, tanto mais longe alcançarão no seu voo, tanto mais compreensível será a vista geral, tanto mais exacto o resultado, mas certamente que sempre apenas no sentido que, com maiores objectivos, maiores são os perigos com eles relacionados.

O homem vulgar, sem falar nos fracos e irresolutos, chega a um resultado exacto na medida em que isso for possível sem uma demonstração ocular, no máximo depois de diligente reflexão no seu aposento, à distância do perigo e da responsabilidade.

Se o perigo e a responsabilidade começarem a cercá-lo em todas as direcções, então perde o poder de visão compreensivo e se, por influência dos outros, retém este em certa medida, sempre perderá o seu poder de decisão, porque nesse ponto ninguém o poderá ajudar.»

op.cit.,Livro III, Capítulo 6, p. 175 (a ousadia)