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abril 22, 2016




Estou procurando,
estou procurando.
Estou tentando entender.
Tentando dar a alguém o que vivi
e não sei a quem,
mas não quero ficar com o que vivi.
Não sei o que fazer do que vivi,
tenho medo dessa desorganização profunda.
Não confio no que me aconteceu.
Aconteceu-me alguma coisa que eu,
pelo facto de não a saber como viver,
vivi uma outra?
A isso prefiro chamar desorganização
pois não quero me confirmar no que vivi
– na confirmação de mim
eu perderia o mundo como eu o tinha,
e sei que não tenho capacidade para outro.

Clarice Lispector,
(A Paixão segundo G. H.)

abril 08, 2014

Às vezes mesmo,
por puro prazer,
inventava reflexões:

se uma pedra cai,
essa pedra existe,
houve uma força que fez com que ela caísse,
um lugar de onde ela caiu,
um lugar onde ela caiu,

— acho que nada escapou à natureza do facto,
a não ser o próprio mistério do facto.


Clarice Lispector, Perto do coração selvagem,
Relógio d’Água, 2000 [1944], p.93

agosto 29, 2010



«Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal.»

Clarice Lispector, Onde estiveste de noite,
Lisboa, Relógio dÁgua, p. 97

abril 27, 2010


foto in blog rosaletrista

«As palavras não têm a ver com
as sensações. Palavras são pedras
duras e as sensações delicadíssimas,
fugazes, extremas.»


Clarice Lispector (1925-77), Para Não Esquecer,
in # 53 “Brasília”, Ática, S. Paulo, 1979

abril 25, 2010

abril 23, 2010



# 15 “Acabou de sair”

Sua enorme inteligência compreensiva,
aquele seu coração vazio de mim,
que precisa de eu ser admirável
para poder me admirar.

Minha grande altivez:
prefiro ser achada na rua.
Do que neste fictício palácio
onde não me acharão porque
— porque mando dizer que não estou,
“ela acabou de sair”

:))

Clarice Lispector (1925-77), Para Não Esquecer,
Ática, S. Paulo, 1979

fevereiro 14, 2010


imagem in Marcas d´Água

É PARA LÁ QUE EU VOU

Para além da orelha existe um som,
à extremidade do olhar um aspecto,
às pontas dos dedos um objecto
— é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço.

Onde expira um pensamento está uma ideia,
ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria,
à ponta da espada a magia
— é para lá que eu vou.


Clarice Lispector, Onde Estiveste de Noite?,
Relógio d´Água, Lisboa, s/d, p. 71

dezembro 08, 2009



Eu amo o amor.
O amor é vermelho.
O ciúme é verde.
Meus olhos são verdes.
Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros.
Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.


Clarice Lispector, Onde estiveste de noite,
Relógio d'Água, s/d, p. 72

outubro 27, 2009

Uma jóia para



"A Jóia"

«Ela refulge. Essa ela sem igual.
Ela é sempre única. E tem sagrada cólera.

Mas quando é colar de pérolas
brilha macia como uma piedade de Ave-Maria.

Colar de pérolas precisa de estar em contacto
com a pele da gente para receber nosso calor.
Senão fenece.

Uma, duas, três, sete,
quantos ovos peroláceos de madrepérola?

E termina com um delicadíssimo fecho
de brilhantes engastados em ouro branco.»


Clarice Lispector, Um sopro de vida,
cit. in Carlos Mendes de Sousa,
Clarice Lispector - Figuras da Escrita,
Centro de Estudos Humanísticos,
Universidade do Minho,
Braga, 2000, p.143

fevereiro 25, 2009



«É que às vezes ela pensava pensamentos tão adelgaçados
que eles subitamente se quebravam no meio antes de chegar ao fim.

E porque eram tão finos,
mesmo sem completá-los
ela os conhecia de uma só vez.

Embora jamais pudesse pensá-los de novo,
indicá-los com uma palavra sequer.»

Clarice Lispector, O Lustre,
ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1995 , p. 46

janeiro 10, 2009



«Como deveria eu trabalhar? … E não me esquecer,
ao começar o trabalho, de me preparar para errar.

Não esquecer que o erro muitas vezes
se havia tornado o meu caminho.

Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava

ou sentia — é que se fazia enfim uma brecha, e,
se antes eu tivesse tido coragem, já teria
entrado por ela. Meu erro, no entanto,
devia ser o caminho de uma verdade:
pois só quando erro é que saio

do que conheço e
do que entendo.

Se a «verdade» fosse aquilo que posso entender
— terminaria sendo apenas uma verdade pequena,

do meu tamanho.»

Clarice Lispector, A Paixão segundo G. H.,
Relógio d’Água, 2000 (copyright, 1964), p 88.