Novembro 21, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 248)
Novembro 11, 2009
Novembro 10, 2009

«Ao escrever sobre mim na 1ª pessoa, sufocara-me
e tornara-me invisível, o que me impedia de
encontrar aquilo que buscava.» (p.72)
Eis onde cessa a expressão pela palavra
por a paixão obliterar a percepção da realidade
«Gwyn era uma fogueira de beleza, um ser incandescente,
uma tempestade no coração de todo e qualquer homem
que parasse a apreciá-la, e aquele instante em
que a vi pela primeira vez é, sem dúvida,
um dos mais assombrosos momentos
da minha vida.» (p.191)
Mas, na ficção, como na vida,
o imprevisível acontece
«O revólver estava apontado a nós e, sem mais
nem menos, numa simples fracção de segundo,
o universo inteiro tinha mudado.» (p.52)
Porque o que parece improvável,
não é menos real do que tudo
o que é possível
«… parecia-me improvável [ ] Porém,
as probabilidades não contam quando se trata
de acontecimentos reais, e só porque é improvável
que determinada coisa aconteça, não podemos concluir
que não acontecerá.» (p.15)
Assim, o novo romance de Paul Auster,
intermediando o consequente com o imprevisto,
o lógico com o surpreendente,
numa narrativa fluente
mas de sentido
indecidido,
nem falso nem verdadeiro.
Novembro 08, 2009
Quanto a mim, digo-o aqui para nós, não permitirei nem à minha ignorância nem à minha vivacidade que me impeçam de vos ver claramente, ó meus amigos: ( ) Porque me sirvo dos problemas profundos como se fossem banhos frios: mal entro, saio logo. Este método, há-de dizer-se, impede de descer o suficiente, de ir ao fundo? trata-se de superstição de hidrófobo ( ) falam sem experiência. Ah! se soubessem como o frio torna as pessoas ágeis!... E de resto, diga-se de passagem: acreditais realmente que uma coisa se mantenha obscura porque não fizemos mais do que aflorá-la, deitar-lhe um olhar de passagem, lançar-lhe uma vista de olhos de pasagem? ( ) Há pelo menos certas verdades ( ) que só é possível apanhá-las de surpresa: é surpreender ou largar... Enfim a minha exigência tem outra vantagem: ( ) sou forçado a ser muitas vezes rápido para que me compreendam ainda mais rápidamente.
Eis o que diz respeito à minha brevidade; já o mesmo não sucede tão brilhantemente com a minha ignorância, que não dissimulo. ( ) O que vem a ser necessário para que um espírito se alimente? nenhuma fórmula pode responder à pergunta, mas ( ). Não é a gordura que um bom dançarino pretende obter da sua alimentação ( ) ... e não conheço nada que um filósofo goste mais do que ser um bom dançarino.
(Gaia Ciência, Livro V, § 381)
Novembro 06, 2009

aqui deixo o superior texto 199 do Desassossego:
«[ ] Porque um dos detalhes característicos
da minha atitude espiritual é que a atenção
não deve ser cultivada exageradamente,
e mesmo o sonho deve ser olhado alto,
com uma consciência aristocrática
de o estar fazendo existir.
Dar demasiada importância ao sonho
seria dar demasiada importância, afinal,
a uma coisa que se separou de nós próprios,
que se ergueu, conforme pôde, em realidade,
e que, por isso, perdeu o direito absoluto
à nossa delicadeza para com ela.»
(edição de Richard Zenith)
Soberbo!
:))
Novembro 04, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 127)
Novembro 03, 2009
Novembro 02, 2009
Se me explico, então me implico:
A mim mesmo não me posso interpretar.
Mas quem suba o seu próprio caminho,
A minha imagem leva a uma luz mais clara.
(Poema de Nietzsche, trad. Paulo Quintela)
Novembro 01, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 121)
Outubro 31, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 112)
Outubro 30, 2009

Diebenkorn, R.Untitled
(Reclining nude, right arm raised)
(1965) in Branco no Branco
«Pensamento medieval: quantos anjos podem caber
em cima da cabeça de um alfinete? E quantos
em cima da minha cabeça?
E o que é que isso interessa?
O cosmos é vagaroso e eu
estou presa do lado de fora das grades.»
Ana Hatherly, Tisana #432
Outubro 29, 2009
este blog "just perfect",
como a Catharsis
o qualificou :):
As causas
Todas as gerações e os poemas.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.
Jorge Luís Borges, História da noite,
in Obras Completas, Vol. III,
Círculo de Leitores,
Lisboa, 1998, p. 203
Outubro 28, 2009
que consegui perceber, na sua
tão subtil sensualidade:

.........................SUBJACENTE
O instante em que se torna incompreensível não ouvir a
...............................................chuva semelhante
ao tom humano instrumentos que são as vozes autênticas
em que contornas debaixo do flanco e da espádua sobre
...........................................................madeira
subjacente a minha forma. O que eu ouvi era apenas a epiderme
junto à raiz das tábuas que me sustinha que provém
.................................................constantemente
da árvore assim como súplica e êxtase do amor paralelo
a um início no mundo inaudível. Se me disseres para além
.......................................................do pavimento
do tecto ouvirmos uma voz infantil eu afasto o tímpano de um
................................................................berço
porque a atenção rigorosa se esquiva aos sons de que duvido
se fixa no centro da passagem do corpo ao longo de todo
.......................................................o espírito
como uma consciência pelo interior da sua inconsciência
........................................................ tornada
vibrante e inacessível às lágrimas aos ruídos excedentes.
A parte mais próxima do corpo próximo é idêntica ao meu
.....................................................corpo rodeado
de significações e da convenção dos sentidos habituais
que o meu desconhecimento transforma em inverosimilhança.
O artifício da chuva o brado de uma silhueta distanciando-se
de uma criança puderam logo ser reconstituidos depois do
................................................tempo atravessar
a extensão de pólo a pólo do meu corpo subjacente.
fiama hasse pais brandão
:)

Estou deveras contente e feliz
por a 'minha' estimada leitora
do blog Catharsis ter atribuído
a este modesto acervo de leituras
o prémio de blog "Just Perfect"!
Lamento não poder prosseguir
a cadeia apreciativa de blogs
porque ainda estou muito ignorante :(,
mas logo que consiga fá-lo-ei com muito gosto :)
Outubro 27, 2009

"A Jóia"
«Ela refulge. Essa ela sem igual.
Ela é sempre única. E tem sagrada cólera.
Mas quando é colar de pérolas
brilha macia como uma piedade de Ave-Maria.
Colar de pérolas precisa de estar em contacto
com a pele da gente para receber nosso calor.
Senão fenece.
Uma, duas, três, sete,
quantos ovos peroláceos de madrepérola?
E termina com um delicadíssimo fecho
de brilhantes engastados em ouro branco.»
Clarice Lispector, Um sopro de vida,
cit. in Carlos Mendes de Sousa,
Clarice Lispector - Figuras da Escrita,
Centro de Estudos Humanísticos,
Universidade do Minho,
Braga, 2000, p.143
Outubro 26, 2009

Recebi o Selinho do Divã da Grande Jóia!
Fiquei contente, pois se lembrou de mim.
Mas esta obrigação de agora me deitar nele,
embaraça-me posto que o que diga será
diferente do que poderia dizer!...
As regras são as seguintes:
1. Postar o Selo - Está feito.
2. Dizer quem me indicou- Grande Jóia.
3. Escrever três conflitos que me levaram ao Divã - Ei-los:
— Só no meu próprio divã me deito; o único contacto tido com um psicólogo,
há muitos anos, redundou num insucesso absoluto, por o especialista me
ter achado muito esperto, mas não o suficiente para o convencer! E, assim, acabou a terapia! Digamos, até: — esse foi o meu primeiro caso de divã!
— Outro caso: a net! A primeira vez que nela interagi, apaixonei-me! Felizmente, por pessoa amiga menos enamorada do que eu. De modo que tudo correu bem. Aprendi a lição: paixão, só na realidade; não, na net. :)
— Último caso: dou comigo a pensar que a net rouba-me mais tempo
do que devia… É verdade, é um estímulo a ler, a pensar;
mas melhor seria se se-originasse na vida social
em vez de neste espaço dessensualizado…
4. Passar o selinho a seis amigos…? Não posso, não tenho coragem. Talvez um dia… :)
Outubro 25, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 111)
Outubro 24, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 110)
Outubro 14, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 109)
Outubro 13, 2009
Outubro 12, 2009

PERFUME DA ROSA
Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
Com esse aroma delira?
Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E nesse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?
- Ninguém? – Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.
E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?
Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástia sentida
Tremes tanto ao pôr do Sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem?
Não a vi aflita, ansiada…
- Era de prazer ou de dor?
- Mentiste, rosa, és amada,
E tu também amas, flor.
Mas ai!, se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há-de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.
Almeida Garrett, Folhas Caídas
Outubro 11, 2009
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Outubro 02, 2009
Outubro 01, 2009
a vida não foi feita para ser pouca e breve.
E o mundo não foi feito para ter medida.»
(p.255)
Setembro 30, 2009
poético da primeira
à última página.

«África é o mais sensual dos continentes.»
«Assim que saímos da cidade,
desabou o céu: nunca vi tamanho dilúvio.
Tivemos que parar porque a estrada
não oferecia segurança.
[ ]
Pensava que sabia o que era chover.
Naquele momento, porém, eu revia os verbos
e receava que, em lugar da viatura,
deveria ter alugado um barco.
Depois de a chuva terminar, porém,
é que sucedeu a inundação:
um dilúvio de luz.
Intensa, total, capaz de cegar.
E me surgiram quase indistintas:
a água e a luz. Ambas em excesso, ambas
confirmando a minha infinita pequenez.
Como se houvesse milhares de sóis,
incontáveis fontes de luz
dentro e fora de mim.
Eis o meu lado solar,
nunca antes revelado.
Todas as cores descoloriram,
todo o espectro se tornou num
lençol de brancura.»
(p. 184-5)
Setembro 28, 2009
(Gaia Ciência, Livro V, § 374)
O que nada surpreende
Setembro 27, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 124)
Setembro 26, 2009

Roy Lichtenstein in Modus Vivendi
PARA NOVOS MARES
Para lá — quero eu ir; e em mim
E nos meus pulsos confio.
Aberto o mar, para o azul
Vara de Génova o meu navio.
Tudo novo e mais novo aos olhos brilha,
Por sobre Espaço e Tempo o Meio-Dia dorme —:
Só o teu olhar, ó Infinidade!,
Olha pra mim, enorme!
Poema de Nietzsche
Tradução de Paulo Quintela
Setembro 25, 2009
de Margueritte Duras.
Pela estranheza e impressão
que causa nalguns espectadores
fico com grande curiosidade
de o ver...
Como poderei?
Em que grande ecrã vai?
Contudo, adivinho,
causa a impressão
que me deixou
o seu livro
Verão 80
«Disse para comigo
que se continuava a escrever sobre
o corpo morto do mundo e,
do mesmo modo
sobre o corpo morto do amor.
Que era nos estados de ausência
que o escrito se engolfava
para não substituir nada do que
tinha sido vivido
ou suposto tê-lo sido,
mas para ali consignar
o deserto por ele deixado.»
(Marguerite Duras, Verão 80)
(Gaia Ciência, Livro III, § 253)
Setembro 24, 2009
uma moeda que não traz a nossa efígie!»
assim o quer a nossa soberania.
(Gaia Ciência, Livro III, § 252)
Setembro 23, 2009
(Gaia Ciência, Livro I, § 3)













