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março 25, 2013
Era uma vez uma serpente infinita. como era infinita
não havia maneira de saber onde estava a sua cabeça.
de cada vez que se lhe tirava uma vértebra
não fazia falta nenhuma. podia-se mesmo
parti-la deslocá-la emendá-la.
ficava sempre infinita.
quem quisesse levar-lhe um bocado para casa podia pô-lo
na parede e contemplar um fragmento de serpente infinita.
:)
ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, # 68
julho 01, 2011

«Sento-me à mesa de trabalho, destapo a máquina de escrever
vou começar o meu retrato. Escrevo: não vivo no meu
endereço. Nunca vivi no endereço que dei. A singularidade
da minha experiência reside na observância da singularidade
da sua percepção. Paro e leio o que escrevi. Depois acrescento:
A história do mundo atravessa-me.»
[ana hatherly]
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A poetisa não se introspeciona nem se explica a si própria,
qual mónada singular do universo, onde se atravessa
a história do mundo o qual, enquanto causa de si,
existe em si e por si, sem outra essência
que a de simplesmente existir.
A poetisa mimetiza o seu criador! :)
dezembro 01, 2009

«Era uma vez uma ausência
que andava em missão de viagem.
Quando chegava a uma encruzilhada
dava três voltas sobre si própria
para perder por completo
a noção do caminho
por onde viera
atingindo assim com regularidade
as regiões efémeras do esquecimento.
Depois regressava a casa.»
:))
ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, #72
outubro 30, 2009

Diebenkorn, R.Untitled
(Reclining nude, right arm raised)
(1965) in Branco no Branco
«Pensamento medieval: quantos anjos podem caber
em cima da cabeça de um alfinete? E quantos
em cima da minha cabeça?
E o que é que isso interessa?
O cosmos é vagaroso e eu
estou presa do lado de fora das grades.»
Ana Hatherly, Tisana #432
setembro 21, 2009
julho 20, 2009
novembro 30, 2008

«A memória é essa claridade fictícia das sobreposições
que se anulam. O significado é essa espécie
de mapa das interpretações que se cruzam
como cicatrizes de sucessivas pancadas.
Os nossos sentimentos.
A intensidade do sentir é intolerável.
Do sentir ao sentido do sentido ao significado:
o que resta é impacto que substitui impacto
— eis a invenção.»
Ana Hatherly, in 'Tisanas'
agosto 17, 2008

Presumível retrato da poetisa grega Safo ?
O HOMEM INVISÍVEL
O homem que se senta a meu lado
É um homem inventado
É um homem invisível:
...Fita-me sem me olhar
...E eu vejo-o sem o ver
Quando se ama
Qual é a relação entre o corpo e o espaço?
O invisível tem velocidade própria
E nos limites do impensado
Não existe batalha visual
Na câmara escura do sentir
Ana Hatherly, A neo-Penélope,
& etc, Lisboa, 2007




