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janeiro 12, 2013

«Les fêtes du Nouvel An juif, célébrées à grand renfort de trompettes et de cornes de bélier, donnaient lieu chaque année à des rixes sanglantes; nos autorités interdirent la lecture publique d’un certain récit légendaire, consacré aux exploits d’une heroïne juive qui serait devenue sous un nom d’emprunt la concubine d’un roi de Perse, et aurait fait massacrer sauvagement les ennemies du peuple méprisé et persécuté dont elle sortait.»

Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.252



janeiro 08, 2013


«Natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit. La nature nous trahit, la fortune change, un dieu regarde d’en haut toutes les choses. [ ] je finissais pour trouver naturel, sinon juste, que nous dussions périr. Nos lettres s’épuissent; nos arts s’endorment; [ ] Nos sciences piétinent depuis Aristote et Archimède; [ ]. L’adoucissement des moeurs, l’avancement des idées au cours du dernier siècle sont l’oeuvre d’une infime minorité de bons esprits; la masse demeure ignare, féroce quand elle le peut, en tout cas égoïste et bornée, et il y a fort à parier qu’elle restera toujours telle.»

Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.262-3

janeiro 04, 2013


«Inclinava-me a acreditar, como alguns dos nossos sábios mais ousados, que a Terra participava também nessa marcha nocturna e diurna de que as santas procissões de Elêusis são, quando muito, o humano simulacro. Num mundo onde tudo não é mais que turbilhão de forças, dança de átomos, onde tudo está ao mesmo tempo em cima e em baixo, na periferia e no centro, concebia mal a existência de um globo imóvel, de um ponto fixo que não fosse simultaneamente móvel.»

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, pp.126-7

dezembro 29, 2012


«Plus sincère que la plupart des hommes, j’avoue sans ambages les causes secrètes de cette félicité: ce calme si propice aux travaux et aux disciplines de l’esprit me smble l’un des plus beaux effets de l’amour. Et je m’étonne que ces joies si précaires, si rarement parfaites au cours d’une vie humaine, sous quelque aspect d’ailleurs que nous les ayons cherchées ou reçues, soient considérer avec tant de méfiance par des prétendus sages, qu’ils en redoutent l’accoutumance et l’excès au lieu d’en redouter la manque et la perte, qu’ils passent à tyranniser leurs sens un temps mieux employé à régler ou à embellir leur âme. [ ] Tout bonheur est un chef-d’oeuvre: la moindre erreur le fausse, la moindre hésitation l’altère, la moindre lourdeur le dépare, la moindre sottise l’abétit.»

Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.179-80

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«Mais sincero que a maioria dos homens, confesso sem rodeios a causa secreta dessa felicidade: aquela calma tão propícia aos trabalhos e à disciplina parece-me um dos mais belos efeitos do amor. E espanto-me de que estas alegrias tão precárias, tão raramente perfeitas no decorrer de uma vida humana sob qualquer aspecto além de que nós os tenhamos procurado e recebido, sejam consideradas com tanta desconfiança por pretendidos sábios, que eles receiem o seu hábito e excesso em vez de temer a sua falta e perda, que passem a tiranizar os sentidos um tempo que seria mais bem empregado a ordenar ou a embelezar a alma. [ ] Toda a felicidade é uma obra prima: o menor erro falseia-a, a menor estupidez embrutece-a. »

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.139-40

dezembro 25, 2012

«Ce fut vers cette époque que Quadratus, évéque des chrétiens, m’envoya une apologie de sa foi. J’avais eu pour principe de maintenir envers cette secte la ligne de conduite strictemente équitable que avait été celle de Trajan dans ses meilleurs jours; [ ]. Mais toute tolerance accordée aux fanatiques  leur fait croire immédiatement à de la sympathie pour leur cause; [ ]. Je lus son oeuvre; j’eus même la curiosité de faire rassembler par Phlégon des renseignments sur la vie du jeune prophète nommé Jésus, qui fonda la secte, et mourut victime de l’intolérance juive il y a environ cent ans. [ ] Chabrias, toujours préoccupé du juste culte à offrir aux dieux, s’inquiétait du progrès de sectes de ce genre dans la poulace des grandes villes; [ ]. Arrien partageait ses vues. Je passai tout un soir à discuter avec lui l’injonction qui consiste à aimer autrui comme soi-même; elle est trrop contraire à la nature humaine pour être sincérement obéi par le vulgaire, qui n’aimera jamais que soi, et ne convient nullement au sage, qui ne s’aime pas particulièrement soi-même.»

 
Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.238-40


dezembro 21, 2012


«Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos,  um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta servidão do espírito ou da imaginação. Seja como for, o horrível estado que põe um homem â mercê de um outro homem precisa de ser cuidadosamente regulado por lei.»         

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.100-01

dezembro 16, 2012

Image in blog Sapere Aude!

«Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles. A gramática, com a sua mistura de regra lógica e de uso arbitrário, propõe ao jovem espírito um antegosto pelo que lhe oferecerão mais tarde as ciências do comportamento humano, o direito ou a moral, todos esses sistemas em que o homem codificou a sua experiência instintiva. Quanto aos exercícios de retórica em que éramos sucessivamente Xerxes e Temístocles, Octávio e Marco António, exaltavam-me; sentia-me Proteu. Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis.»                       


Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Lisboa, Ulisseia, 1981,  
p.34-5

dezembro 06, 2012


«A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minha primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas.»


Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.34

janeiro 21, 2009



«Em vinte anos de poder passei doze sem domicílio fixo.
Vivia alternadamente nos palácios dos mercadores da Ásia,
nas tranquilas casas gregas, nas belas villas com banhos e caloríferos
dos residentes romanos na Gália, em cabanas ou em propriedades rústicas.

A tenda ligeira,
a arquitectura de tela e de cordas,
era ainda a minha preferida.

Os navios não eram menos variados que as moradas terrestres:
tive o meu, provido de um ginásio e de uma biblioteca,

mas desconfiava demasiado de toda a fixidez
para me prender a qualquer habitação,
mesmo móvel.»


(Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p. 106)