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dezembro 31, 2010



Terra Maninha

Se é um poema fraterno que pedis,
Arrancai-o de mim, escavando-lhe a raiz,
E plantai-o no vosso coração.

Nunca pegou nenhum? Tão infeliz
Era o terreno da plantação!



Miguel Torga
in Poesia Completa
Ed. D. Quixote, 2000

dezembro 01, 2010



Tentação


Vénus lançada à praia pelo mar inquieto,
Inquietas os meus olhos, sátiros cansados.
Vem de ti uma luz que o sol não tem,
E sózinha povoas o areal.
Que me queres, nesta idade sonolenta
Dos sentidos?
Lembrar-me e convidar-me a renegar
Os desejos despidos?
Como se algum poeta se esquecesse
E arrependesse
Dos antigos pecados cometidos!


Miguel Torga, Antologia Poética

novembro 27, 2009

Em contraponto,
Torga implacável,
lúcido e inconformado:


BALADA DA MORGUE

Olho este corpo morto aqui deitado
E sinto impulsos de beijá-lo e ter
Como ele não sei que enfado
Por quem vive e quer viver

Que bruta sinceridade!
Que vaidade!
Que mentira! Que verdade!
Todo nu! Só tatuado
De livores,
Arco-íris gangrenado,
De mil cores.

Não é de mulher, não é;
Nem de homem, nem de animal
Irracional.
É de anjo predestinado
Que foi sacrificado
Para dar a noção exacta da renúncia.

Ai dos enclausurados em sarcófagos!
Ai de quem morre vestido!
Nesta luxúria da morgue
Há todo o satanismo
Que nos foi prometido
No final...
São os gestos parados,
Os olhos vidrados,
Os ouvidos tapados,
Os sexos castrados,
E por cima de tudo o silêncio das bocas.

Quero
Amar este sol da terra
Que mostra o calor do céu.
O alto céu onde mora
Um Deus que na mesma hora
Nos criou e nos perdeu.


Miguel Torga, Rampa (1930)
in "Antologia Poética"
Gráfica de Coimbra,

4ª ed.,1994, p.19

outubro 11, 2009


imagem in blog "entre outras mil"

TÂNTALO

A que Deus implorar qualquer ajuda,
Se sou eu que fabrico as divindades!
Imagino,
imagino,
E, de tanto subir, chego ao divino.

Mas nenhum sequioso mata a sede
A beber na miragem de uma fonte.
Grito, Grito,
E, quanto mais acima, mais aflito.

Miguel Torga

julho 17, 2009

Vivaldi, L'inverno (RV 297)

Requiem por mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim.
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os orgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caisse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.


Miguel Torga, Diário XVI

janeiro 05, 2009



Miradoiro

Com tristeza e vergonha enternecida,
Olho daqui
A ponte de palavras
Que construí
Sobre o abismo da vida.

Sonhei-a;
Desenhei-a;
Sólida até onde pude,
Lancei-a como um salto de gazela:
E não passei por ela!

Vim por baixo, agarrado ao chão do mundo.
Filho de Adão e Eva,
Era de terra e treva
O meu destino.
E cá vou como um pobre peregrino.


Miguel Torga, Antologia Poética,
Gráfica de Coimbra, 4ª ed., 1994

fevereiro 16, 2008



EURÍDICE

Há uma pequena ruga de silêncio
A macular-te o rosto...
Que secreto desgosto
Ocultas ao teu velho companheiro?
Preciso de sabê-lo, bem amada.
O tempo é traiçoeiro,
E quero a tua imagem preservada.

Mulher de Orfeu, minha mulher, portanto,
É o encanto
Da eterna juventude
Que dás ao nosso lar imaginado.
Sem ela, que seria
Desta humana harmonia
Em que temos vivido lado a lado?

Diapasão que afina a minha lira,
A tua voz preced a minha voz.
Ouvir-te é começar...
Não emudeças, pois, musa da vida!
O poema é o luar:
A luz do sol, apenas reflectida...

Miguel Torga