«Não há objecto que possa existir sozinho. Para o definir precisamos de designar o que lhe pertence e, nessa designação, definir o conjunto de tudo o que ele não é. Caracterizar «A» é, ao mesmo tempo, caracterizar «não-A».»
Albert Jacquard, com a participação de Huguette Planès, Pequeno manual de filosofia para uso dos não-filósofos, Terramar, Lisboa, 1997, P.73
janeiro 08, 2009
Richard Strauss (Also sprach Zarathustra) - humanity
Tudo o que pertence ao universo, seja partícula ou galáxia, seja um animal ou um calhau, tem, por convenção, uma existência própria, todo o objecto é. Mas seja ele o que for, a sua definição é arbitrária.
Este calhau ou aquela galáxia, só através do olhar do observador adquirem o estatuto de um ser individualizado; é o observador que, ao traçar a fronteira do que pertence ao objecto, lhe confere uma singularidade. Para ser objecto do universo, tem de ser objecto de discurso de um observador [possível, acrescento eu].
Claro que o homem não é o único observador; os animais dotados de visão vêem, todas as manhãs, tal como o homem, a mancha brilhante que sobe no céu; mas só o homem é capaz de ir além dessa constatação e de transformar essa mancha em objecto – o Sol. Essa estrela, como todas as estrelas, é uma criação do discurso humano. Sem o homem, o universo não passaria de um continuum sem estrutura. [Discordo aqui; é suficiente que o universo seja compatível com observadores inteligentes]
Qualquer ser humano pode focalizar sobre si mesmo este olhar criador de objectos. Ao focalizar-se, ele já não é só um existente, mas alguém que sabe que existe, alguém que transforma a sua pessoa em objecto do seu discurso. É isso a consciência. Uma experiência que nos permite saber-nos existentes. .......................................................................... O que houve, ao longo da evolução do cosmos, foi pura e simplesmente uma continuidade na aparição de poderes sempre crescentes das estruturas materiais que se foram formando, poderes esses relacionados com a complexidade dessas mesmas estruturas.
Esse processo foi continuado até ao aparecimento do campeão da complexidade que é o cérebro humano.
Entre os poderes que recebeu o cérebro, conta-se o mais decisivo de todos eles, a saber, a criação da comunicação entre os homens, a que nós chamámos o «discurso».
Foi então que cada um de nós pôde tomar-se a si próprio como objecto do seu próprio discurso, ou seja, desenvolver a sua consciência de existente.
Mas esse discurso só podia existir numa rede de troca e de partilha.
Essa rede colectiva é, assim, o ponto de partida da consciência individual. O que gosto de resumir com a fórmula ( ): «Eu digo eu porque outros me disseram tu.» O espírito é pura e simplesmente o ponto de chegada da aventura da matéria. Não tem origem senão o conjunto do cosmos. ......................................................................... ( ) a consciência pessoal só viceja se se enraizar numa consciência colectiva; porque a minha consciência é o caminho percorrido na companhia das outras consciências. .......................................................................... Se eu fosse um núcleo de hélio, maravilhar-me-ia com os poderes de um átomo de carbono, se eu fosse um átomo de carbono, maravilhar-me-ia ... e assim por diante.
Na extremidade da cadeia encontramos o homem. Ora este só se pode maravilhar com o único objecto mais complexo do que ele, com o único objecto que dispõe de mais poderes: a comunidade humana.
Através da consciência, que só me é dada por pertencer a essa comunidade, eu participo no impulso cósmico que tudo impele para a complexidade.
Albert Jacquard, com a participação de Huguette Planès, Pequeno manual de filosofia para uso dos não-filósofos, Terramar, Lisboa, 1997; p. 27; 30; 31.
O esforço da ciência consiste em explicar o maior número possível de fenómenos fazendo intervir o mais pequeno número de interacções entre os elementos que constituem o mundo real. ( ) hoje admite-se que todos os processos observados no universo são o resultado do jogo simultâneo de quatro forças apenas: gravitação, força electromagnética e duas forças nucleares.