março 23, 2013
«Queremos todavia insistir no significado essencial que tem para a ciência o alargamento que fazemos da realidade mediante a nossa imaginação construtiva. A realidade do físico, disseram já, não se reduz ao mundo fragmentário dos fenómenos, estende-se ainda a todo um mundo de objectos e fenómenos possíveis em que a razão reconhece uma ordem mais plausível, conforme às suas próprias exigências. Parece, à primeira vista que o cientista sonha, e no sonho procura realizar o ideal que não encontra à sua volta. Porque pretende dar vida aos fantasmas do seu pensamento, encontrando de novo os objectos que supomos arbitrariamente pensados?
E contudo este é o mais alto valor do postulado da racionalidade da ciência. Tudo o que é pensado como possível deve verificar-se, mais cedo ou mais tarde, no universo da realidade. O pensamento torna-se assim um olhar de ante-descoberta voltado para o desconhecido; o seu teorizar não é trabalho de vã abstracção, antes esforço para enriquecer a realidade dilatando-lhe os limites.
O princípio que entra aqui em jogo foi largamente empregado por Leibniz e por ele determinado com a «razão suficiente», e é fácil de ver que domina o desenvolvimento da ciência dos tempos mais remotos aos modernos.
Já Anaximandro de Mileto (cerca de 600 a.C.) [ — um dos mestres de Pitágoras, com Tales —] respondia às dúvidas dos que não compreendiam como a Terra possa estar isolada no espaço sem cair, dizendo que por estar colocada igualmente em relação aos outros corpos celestes não há razão para que caia de preferência para o alto do que para o baixo, para a direita ou para a esquerda. E por outro lado pensava que a realização das condições que dão origem ao nosso mundo não deve constituir um caso único, por isso infinitos mundos semelhantes viriam a produzir-se no espaço infinito e sucessivamente no tempo.»
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«A realidade fragmentária dos fenómenos deve ser pensada pelo físico dentro do quadro duma realidade possível, onde as causas operem por contiguidade no espaço e no tempo; e esta realidade física abrange dentro de si inclusive os factos da história. Quando nos volvemos a considerar a concatenação destes factos, somos obrigados precisamente a procurar a continuidade na ordem dos motivos humanos dos quais recebem o seu próprio significado. Uma acção responde a um objectivo, fora do qual não é inteligível; uma descoberta responde a uma ideia, e uma ideia supõe, em geral, todo um desenvolvimento anterior de ideias.»
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Federigo Enriques, O Pensamento Científico,
Trad. e Pref. de V. de Magalhães Godinho,
Lisboa, Cadernos Culturais Inquérito nº 45,
p.37-38; 63-54
março 20, 2013
«Si on cherche profondément le vrai
Et qu’on désire ne pas se fourvoyer,
On doit réfléchir sur soi sa lumière intérieur,
Concentrer les amples mouvements de sa pensée
Et apprendre à son âme que ce qu’elle entreprend
au-dehors,
Elle le possède déjà, déposé secrètement en elle.
Ce que naguère recouvrait le noir nouage de l’er
-reur,
Brillera plus distinctement que Phébus en personne.
Car l’âme ne s’est pas vu ravir toute sa lumière
Par la masse d’oubli dont l’a recouverte le corps.
Sans nul doute une semence de vrai reste fixée à
l’intérieur
Que vient ranimer un enseignement refraîchissant.
Comment réprondiez-vous spontanément juste aux
questions
Si rien ne l’entretenaient au plus profond de votre
coeur?
Si la Muse de Platon fait entendre le vrai,
Quando on apprend, on se souvient sans s’en rendre
compte.»
Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.141
março 18, 2013
«Com quão grande variedade de formas
os animais percorrem as terras!
De facto, uns têm um corpo alongado e arrastam-se no pó,
marcando no solo um sulco contínuo
ao arrastarem-se esforçadamente,
outros têm a leveza errante das asas,
para fustigarem os ares
e atravessarem em voo os espaços do amplo céu;
outros ainda, deslocando-se a andar,
alegram-se ao imprimirem no solo
a marca dos seus passos,
seja para atravessarem verdes planícies
seja para se embrenharem nos bosques.
O facto de todos estes animais,
embora os vejas diferentes entre si
pela variedade das formas,
terem a face voltada para baixo
basta para lhes tornar embotados e pesados os sentidos.
So a raça dos homens ergue mais alto a excelsa cabeça,
e, leve, ergue-se com o corpo direito
e olha de cima para as terras.
o que esta postura ensina, a não ser que,
como ser terreno, não percebas mesmo nada, é o seguinte:
Tu, que procuras o céu com o rosto levantado,
e ergues a fronte,
ergue também o teu espírito para o alto,
para que a mente, pesada,
não tenda para baixo, sendo inferior ao corpo
que se ergur com maior leveza para as alturas.»
Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 5, Metro 5, p.189-90.
março 16, 2013
«Qu’est-ce donc, mon garçon, qui t’a plongé dans la mélancolie et le désespoir? Tu as vu, j’en suis sûre, quelque chose d’extraordinaire et d’inhabituel. Tu penses que la Fortune a changé à ton égard: tu te trompes!
Elle a toujours les mêmes pratiques: c’est dans sa nature. Elle est restée à ton égard constante, à vrai dire, dams son inconstance même. Elle était la même quand elle te flattait, quand elle se jouait de toi en te faisant miroiter un faux bonheur.
Tu as découvert le double visage de cette puissance aveugle. Alors qu’elle dissimule encore son vrai visage aux autres, devant toi, elle a véritablement jetée le masque. Si tu l’apprécies, aie recours à ses pratiques; ne t’en plains pas. Mais si sa duplicité te fait horreur, dédaigne-la, repousse-la: ses jeux sont funestes. Au lieu de provoquer en toi tout ce désespoir, elle aurait dû te procurer la tranquillité. Car au moins elle t’a laissé, alors que personne ne peut jamais avoir la certitude de la garder auprés de soi.
Accorde-tu vraiment du prix à un bonheur en sursis? Et apprécies-tu la présence à tes côtés d’une Fortune dont tu n’est pas sûr qu’elle reste et dont le départ te plongerá dans le désespoir? Si on ne peut la retenir comme ont veut et si elle séme la catastrophe derrière elle, qu’est-elle d’autre, cette inconstante, que le signe annonciateur de la catastrophe?
Il ne suffit pas de regarder la situation qu’on a sous les yeux; la sagesse consiste à évaluer la finalité de toutes choses et c’est précisément cette faculté de passer d’un extrême à l’autre qui ne rend pas redoutables les menaces de la Fortune, ni souhaitables, ses séductions.
Enfin, tu dois tolérer sans te plaindre tout ce qui s’accomplit à l’intérieur du champ d’action de la Fortune, une fois que tu as accepté son joug sur ta nuque.»
Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.72-3
março 14, 2013
«Aqueles reis que vês altivos,
sentados no alto dos seus tronos,
magníficos com as suas roupas
de púrpura resplandecente,
rodeados de tristes armas, olhando com ar ameaçador,
resfolegando com a sanha do seu coração,
se alguém lhes retirar, a estes soberbos,
a cobertura do seu vão aspecto exterior,
logo verá que lá por dentro aqueles homens altivos
carregam apertadas cadeias:
de um lado, o desejo faz-lhes voltear os corações
com venenos de ansiedade,
do outro, a torva ira flagela-lhes a mente,
erguendo vagas de furor,
ou então é a tristeza que faz esmorecer
aqueles de que se apoderou,
ou é uma esperança vã que os atormenta.
Ora, embora tu vejas muitos tiranos,
eles fazem parte, no fundo, de um só indivíduo,
e esse, subjugado por amos iníquos,
não faz aquilo que ele próprio quer.»
Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 4, Metro 2, p.136
março 12, 2013
«Ainda que o ganacioso,
rico em ouro devido ao abismo que flui,
recolha riquezas que não são capazes de o satisfazer,
e carregue o pescoço com pérolas do Mar Vermelho,
com cem bois lavre campos de magnífica fertilidade,
nem a mordaz angústia o abandona enquanto é vivo,
nem as efémeras riquezas o acompanham quando morre.»
Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 3, Metro 3, p.86
março 10, 2013
«Quando Febo começa a espalhar pelo pólo
a luz com as róseas quadrigas,
empalidece a estrela, ofuscado o seu rosto luminoso
pelas chamas opressoras.
Quando o bosque com as rosas primaveris enrubesce,
com o sopro do tépido Zéfiro,
basta que sopre desvairadamente o Austro nebuloso
e a beleza das suas pétalas apartar-se-á dos espinhos.
Muitas vezes resplandece o mar, com o bom tempo,
com as ondas imóveis;
muitas vezes o Aquilão desencadeia
tempestuosas procelas,
subvertendo a lisa superfície das águas.
Se é rara a forma que perdura no mundo,
se varia com tantas alterações,
fia-te agora nas efémeras fortunas dos homens,
fia-te nos fugazes bens!
É coisa conhecida e está estabelecido por uma lei eterna
que nada do que foi criado seja firme.»
Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 2, Metro 3, p.54
fevereiro 28, 2013
«Que l’univers dans une parfaite stabilité
Connaisse des variations harmonieuses,
Que les éléments en concurrence
Observent un pacte perpétuel,
Que Phébus emmène la lumière rose
Du jour sur son char d’or
Pour que Phébée commande aux nuits
Amenées par Vesper,
Pour que la mer insatiable contienne
Ses flots dans une limite déterminée,
Pour que les sols mouvants ne puissent
Se déployer sur de vastes étendues,
Voilá une série de phénomènes controlés
Par ce qui régit la terre et la mer
Et qui commande au ciel: l’amour.
Si jamais il relâche les rênes,
Lá où il règne aujourd’hui,
La guerre aura tôt fait de s’installer
Et le mécanisme actuellement mû
Avec cohérence et beauté
Ne pourra résister aux forces destructives.
C’est aussi l’amour qui maintient les peuples
Unis para un pacte inviolable,
C’est lui qui noue les liens sacrés
Du mariage par des vertueux rapports,
C’est également lui qui dicte ses lois
Aux compagnons fidèles.
O bienheureux genre humain
Si votre coeur obéit à l’amour
Auquel obéit le ciel.»
Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.100-1
fevereiro 26, 2013
«Ainda que a Abundância, com o corno repleto,
derrame tantas riquezas
quantas as areias o mar agitado por violentos ventos faz
rolar,
quantos astros brilham num céu limpo,
nas noites estreladas,
e não volte atrás a mão, nem assim
o género humano deixará de se lastimar
com míseros queixumes.
Ainda que Deus acolha benevolente os votos,
pródigo de grandes quantidades de ouro,
e ornamente com preclaras honrarias os que ardentemente
as ambicionam,
nada disto será considerado suficiente,
mas a cruel ganância,
devorando aquilo que tinha perseguido,
inventa novas necessidades.
Que freios onde travar, com um limite fixo,
o desejo que se lança para diante de cabeça,
se quanto mais abundantemente tem, mais quer ter?
Nunca poderá ser rico o homem
que, temeroso e descontente, se julga necessitado.»
Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae», 524 d.C.), Trad. Luís M.G. Cerqueira, Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 2011, Livro 2, Metro 2, p.50-1
fevereiro 24, 2013
Vasco Graça Moura, Duas Mulheres em Novembro,
Contos Inéditos Visão, Lisboa, 2006, texto da contracapa.
fevereiro 22, 2013
«Coimbra, com os altos e baixos da sua topografia íngreme e escuramente acanhada, era então um meio muito provinciano, uma rapariga vinda de fora e dita de boas famílias tinha de ir para um lar ou para casa de uma família respeitável, não podia sair sozinha à noite para não se arriscar a ficar completamente queimada pela má-língua, o curso de Românicas quase só tinha mulheres que se destinavam invariavelmente ao professorado a não ser que casassem antes de concluí-lo e deixassem de pensar no canudo, os namoros eram o mais discretos possível, nem sequer se podia andar na rua de mãos dadas ou ir um parzinho ao cinema sem o inevitável «arame farpado» de mais alguém, enfim, coisas daquele tempo, segunda metade dos anos quarenta, entrada dos anos cinquenta, a seguir ao fim da guerra, qualidade de vida medíocre, hipocrisia moral generalizada, expectativas de mudança política em nome da democracia brandidas aqui e ali com todas as cautelas, gerandes discussões teóricas sobre a autenticidade da expressão artística e a função social da arte, medo da polícia, sobretudo medo da polícia, organização ainda imperfeita da esquerda comunista e da oposição unitária no meio académico e também alguns problemas complicados de implantação no meio operário, sobretudo na metade Norte do país.»
Vasco Graça Moura, O Enigma de Zulmira,
Quetzal Editores, Lisboa/ 2002, pp.53-4
fevereiro 20, 2013
«A certa altura, apesar da chuva e da pressa, da violência da escuridão a desdobrar-se sem fim e da confusão do percurso, apeteceu-me sair da auto-estrada, meter por uma via secundária, percorrer sítios onde fosse forçado a abrandar e a olhar, sem a hipnose forçada das faixas brancas no alcatrão, mesmo sabendo que, de noite, pouco ou nada poderia avistar, mas precisava de ter consciência de que havia árvores nas bermas, de que atravessava povoações adormecidas, [ ] para depois ainda, voltar a sentir-me completamente só nessa luta contra os elementos como num corpo a corpo contra o tempo e o espaço e o próprio destino.»
Vasco Graça Moura, Meu amor, era de noite,
Quetzal Editores, Lisboa/ 2001, p.69
fevereiro 10, 2013
«Para compreender alguma coisa em filosofia e conhecer o verdadeiro alcance da razão é preciso investigar primeiro aquilo que torna possível a existência dos juízos certos, universais e necessários — juízos a priori —, em que se exprimem as relações experimentais entre as coisas, relações que não poderíamos atingir pela análise pura e simples das nossas ideias.
Kant descobriu e expôs esta justificação na Crítica da Razão Pura (1781); e nessa obra fundamental demonstra que a nossa maneira natural e comum de conhecer as coisas exige previamente que as coisas estejam submetidas ao princípio da causalidade, de modo geral, às condições a priori do conhecimento científico.
A análise de Kant não incide sobre as condições psicológicas em que a consciência humana conhece os objectos, mas sobre outras condições mais remotas desse conhecimento.
Efectivamente, o facto psicológico é já em nós qualquer coisa de organizado; antes da impressão sensível, a percepção deve ser uma dispersão sem lei, uma diversidade sem nexo.
O acto primeiro da sensibilidade consiste, pois, na síntese prévia dessa diversidade pura e sem coesão; mas a síntese dos elementos indefiníveis não é mera justaposição ou associação: é uma transformação de natureza.
A justaposição no espaço e a sucessão no tempo resultam desse acto; por ele a sensibilidade humana impõe à diversidade certas formas a priori, por intermédio das quais todas as coisas se nos dão a conhecer daí em diante.
Desta idealidade do espaço e do tempo(*) resulta que o nosso conhecimento é apenas de fenómenos, e não da realidade, da coisa em si: o númeno.»
«(*) O espaço e o tempo são apenas formas prévias, vazias e inertes que tornam simplesmente possíveis a medida e a localização. Para que surja através delas um objecto é preciso que a poeira de impressões que vai preencher essas formas seja agrupada pela nossa consciência. Mas este agrupamento não constitui ainda o conhecimento do objecto: é preciso que o pensamento una essas impressões e as reconheça como suas. A unidade provém de um acto do entendimento — não ligação psicológica dada na experiência, mas «apercepção transcendental», que é a condição de qualquer experiência, um «eu penso» anterior ao conhecimento. A unidade de um «eu» universal, que age em todos nós uniforme e irresistivelmente, é o fundamento da ordem que encontramos nas coisas. A mola do pensamento é a condição de possibilidade do objecto.»
Pierre Ducassé (1905-1983), As Grandes Correntes da Filosofia,
(«Les Grandes Philosophies», 1972) Trad. Álvaro Salema, Lisboa, Public. Europa-América, Colecção Saber nº 10, pp.88-89 e n.53
fevereiro 06, 2013
fevereiro 04, 2013
(continuação)
Cláudio exerceu também a censura, o que não se fazia há muito [ ], mas igualmente no desempenho destas funções mostrou irregularidade de carácter e de comportamento.
Ocupou-se sempre com a maior solicitude do abastecimento e segurança de Roma. [ ] Iniciou grandes trabalhos, embora se preocupasse mais com o número deles do que com a sua utilidade. Distribuiu frequentes vezes gratificações ao povo. Deu também muitos espectáculos magníficos [ ]. (p.282-85)
Em Roma e fora dela, reformou Cláudio ou restabeleceu ou instituiu muitos usos relativos às cerimónias religiosas, aos costumes civis ou militares, aos direitos das diferentes ordens do Estado [ ]. Regulamentou a promoção militar dos cavaleiros [ ]. Estabeleceu um soldo e um género de serviço fictício, a que deu o nome de supranumerário, que conferia um título sem funções. (p.287)
Muito jovem ainda, teve duas mulheres [ ]. Repudiou a primeira, ainda virgem, porque os pais dela tinham caído em desgraça junto de Augusto; a outra perdeu-a, por doença, no próprio dia fixado para a boda. Desposou em seguida Pláucia Urgulanila, de família triunfal, e depois Elisa Petina, filha de um consular.
De uma e outra se separou pelo divórcio: de Petina, por causa de faltas ligeiras; de Urgulanila, em virtude das suas vergonhosas devassidões ligeiras [ ]. Contraiu depois matrimónio com Valéria Messalina [ ]. Mas quando soube que além dos seus excessos e crimes [ ] mandou-a matar, declarando [ ] «que, como se saía mal nos casamentos, ficaria solteiro; e que, se violasse o seu juramento, consentia deixar-se matar [ ]».
Apesar disso, tratou, dentro de pouco, de nova união com a mesma Petina, a quem repudiara, e com Sólia Paulina, que fora casada com Caio César [Calígula]. Mas, seduzido pelos encantos de Agripina, filha de Germânico, seu irmão [falecido], [ ] subornou senadores, levando-os a proporem [ ] que ele fosse casado com ela, visto que aquela união ser de importância capital para o Estado. (p.288-89)
Teve filhos das suas três mulheres: de Urgulanila, Druso e Cláudia; de Petina, António; de Messalina, Octávio e Germânico, a que cognominou pouco depois de Britânico. Entre os libertos de quem mais se afeiçoou contam-se o eunuco Posides, a quem se atreveu a honrar com uma lança sem ferro [recompensa militar], na presença de soldados valorosos [ ]. (p.289)
Governado [ ], pelos seus libertos e pelas esposas, viveu mais como escravo que como imperador. Dignidades, comandos, impunidades, suplícios, tudo isto ele distribuiu para satisfazer os seus desejos e caprichos, e as mais das vezes sem dar por tal. (p.290-91)
Não deixava de haver em toda a sua pessoa um certo ar de grandeza e dignidade, quer de pé quer sentado, mas principalmente quando em repouso. [ ] De saúde má, desde que tomou conta do império, melhorou, salvo no que toca ao estômago [ ]. Organizou grandes e frequentes banquetes [ ]. Estava sempre pronto a comer e a beber a qualquer hora e em qualquer lugar. (p.291-92-93)
Amou apaixonadamente as mulheres, mas nunca teve comércio amoroso com homens. Apreciava muito os jogos de azar; chegou mesmo a publicar um tratado sobre esta arte. Deu provas de um natural cruel e sanguinário tanto nas pequenas como nas grandes coisas. [ ] Mas o traço mais saliente do seu carácter era desconfiança e o medo. [ ] O seu amor por Messalina, por mais ardente que fosse, resistiu menos ao ressentimento dos seus ultrajes que ao receio das suas maquinações [ ]. (p.298)
Para o fim da vida, deu Cláudio provas evidentes de arrependimento por ter casado com Agripina e adoptado Nero. Um dia em que os seus libertos celebravam na sua presença a equidade de uma sentença contra uma mulher adúltera, disse-lhes ele «que a sorte lhe havia dado também esposas impúdicas, mas não impunes».»
Suetónio, Os Doze Césares,
trad. e notas João Gaspar Simões
Lisboa, Biblioteca editores Independentes, 2007
fevereiro 02, 2013
«Cláudio [-10 a.C.; 54 d.C.] nasceu em Lugduno [Lion, França] [ ], nas calendas de Agosto [ ] e foi chamado Tibério Cláudio Druso. [ ] Durante quase toda a sua infância e adolescência teve de lutar contra teimosas enfermidades [ ] que tanto lhe enfraqueceram o espírito e o corpo.
No entanto, desde a juventude se consagrou ao estudo das letras gregas e latinas com zelo apreciável, e ocasiões houve em que se exprimiu em público nas duas línguas. Apesar destas provas de saber, não conseguiu, todavia, alcançar considerações nem suscitar melhores esperanças. (p.265)
Sua mãe Antónia a cada passo dizia que ele era um monstro, que não fora acabado, mas apenas esboçado pela natureza; [ ] Sua avó Augusta tratou-o sempre com o maior desdém, só lhe dirigia a palavra em raras ocasiões e quando tinha algo que dizer-lhe fazia-o através de uma carta lacónica e dura ou por interposta pessoa. [ ] (p.265-66)
Depois de assim passar a maior parte da sua vida, Cláudio foi imperador aos cinquenta anos, graças a um acaso extraordinário. Repelido pelos assassinos de Calígula, no momento em que estes afastavam a turba, como se o imperador quisesse estar só, Cláudio refugiara-se num pavilhão conhecido com Hermeum, e, pouco depois, transido de pânico, ao ouvir falar no assassínio, à socapa esgueirou-se até uma galeria próxima e ali se escondeu, embrulhando-se no reposteiro que colgava da porta. (p.270-71)
Estando assim escondido, um soldado, que andava de um lado para outro, viu-lhe os pés, quis saber de quem se tratava, reconheceu-o, fê-lo sair dali e como Cláudio, assustado, se lhe lançava aos pés, saudou-o chamando-lhe imperador. Depois conduziu-o até junto dos seus companheiros [ ] que o colocaram numa liteira [ ], pegaram nela aos ombros e levaram-na até ao acampamento. [ ](p.271)
Mas na manhã seguinte, o Senado [ ] vendo que o povo pedia em altos gritos um chefe único, apontando para ele, deixou que os soldados armados prestassem juramento a Cláudio, o qual prometeu a cada um destes quinze mil sestércios. Eis como ele foi o primeiro dos Césares a comprar a peso de ouro a fidelidade das legiões.
Já estabelecido no poder, [ ] outorgou uma amnistia geral e completa, que observou religiosamente. Apenas mandou executar um pequeno número de tribunos e centuriões que havia tomado parte na conjura contra Caio [Calígula], tanto a título de exemplo como por saber que eles tinham exigido também a sua morte. (p.272-74)
Sóbrio na escolha de honras e no exercício do poder, absteve-se de usar o título de Imperador e recusou aceitar todas as distinções excessivas. [ ] Exerceu quatro consulados [ ]. Nem sempre seguia as leis à letra, tornando-as mais suaves ou mais severas, segundo a justiça do caso ou segundo os seus impulsos. (p.276-78-79-80)
(continua)
Suetónio, Os Doze Césares,
trad. e notas João Gaspar Simões
Lisboa, Biblioteca editores Independentes, 2007
janeiro 30, 2013
A riqueza de inteligência dos grandes filósofos modernos [Descartes, Espinosa, Leibniz], autênticos clássicos da meditação metafísica, é o mais belo fruto desse esforço renovado, dessa visão penetrante que a sinceridade, o rigor e a solidez moral do sábio proporcionaram à consciência ocidental.»
Pierre Ducassé (1905-1983), As Grandes Correntes da Filosofia, («Les Grandes Philosophies», 1972)Trad. Álvaro Salema, Lisboa, Public. Europa-América, Colecção Saber nº 10, n.31, p.60
janeiro 28, 2013
«O intelecto desenvolve-se ao mesmo tempo e no mesmo sentido que a actividade motriz, em sentido inverso da sensibilidade, e da passividade em geral.
A passividade não é, porém, inteiramente nula. O intelecto, distinto da intuição simples, não é a actividade pura.
Toda a percepção distinta e toda a ideia implicam, como vimos, uma diversidade que nos representamos sob a forma de uma extensão e de que percorremos os intervalos pelo pensamento.
Toda a operação do intelecto implica a imaginação de um movimento. A este carácter deve dar-se justamente a denominação de razão discursiva.»
Félix Ravaisson, Do Hábito (1838),
Trad. e Notas de Álvaro Ribeiro,
Lisboa, Editorial Inquérito, p.66
janeiro 26, 2013
«"Que uns vivam livres na casa dos outros".
"Assim porquê? Para me acontecer, a mim, que a comprei, que a construí, que dela cuidei e que com ela tanto dispendi, que venhas agora tu, contra a minha vontade, usufruir aquilo que é meu?
Afinal, que é isto de tirar a uns os seus bens e dar a outros aquilo que é de outrém?
Quanto à listas de dívidas, que podem elas significar senão o facto de comprares tu uma quinta com o meu dinheiro, ficando tu a possuir a quinta enquanto eu fico sem o dinheiro?”
Por essa razão, para que não se verifique qualquer situação de dívida, que possa pôr em perigo a segurança da república, é necessário que se tomem certas medidas.
Tal circunstância pode ser evitada de várias maneiras, mas, de modo nenhum, caso venha a suceder que os ricos possam vir a perder tudo aquilo que possuem e aqueles, que devem, venham a lucrar com aquilo que não lhes pertence.
Com efeito, nada mais pode contribuir para que a república se mantenha solidamente do que a boa-fé, a qual não pode existir se não houver a necessidade de serem as dívidas liquidadas.»
Cícero, Dos Deveres (De Officiis),
Trad., Introd., Notas, Índice e
Glossário de Carlos Humberto Gomes,
Lisboa, Edições 70, 2000, Livro II, 83-84
janeiro 13, 2013
Epaminondas
«Tal expõe-se ao perigo com a esperança num grande proveito; tal outro com medo de ser censurado: não são pois corajosos. Tirai ao primeiro a ambição, ao segundo a vergonha e eles serão talvez os mais cobardes dos homens.
Não deis o nome de corajoso àquele que procedeu por vingança: é um javardo que se atira contra o ferro que o feriu. Não o deis também àqueles que são agitados por paixões desordenadas e cuja coragem se aviva ou se abranda com elas.
Qual é, pois, o homem corajoso? Aquele que, movido por motivos honestos e guiado pela sua razão, conhece o perigo, receia-o, e embate contra ele.»
J.J. Barthélemy, A educação ateniense (1788),
Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, pp. 46-47
«Tal expõe-se ao perigo com a esperança num grande proveito; tal outro com medo de ser censurado: não são pois corajosos. Tirai ao primeiro a ambição, ao segundo a vergonha e eles serão talvez os mais cobardes dos homens.
Não deis o nome de corajoso àquele que procedeu por vingança: é um javardo que se atira contra o ferro que o feriu. Não o deis também àqueles que são agitados por paixões desordenadas e cuja coragem se aviva ou se abranda com elas.
Qual é, pois, o homem corajoso? Aquele que, movido por motivos honestos e guiado pela sua razão, conhece o perigo, receia-o, e embate contra ele.»
J.J. Barthélemy, A educação ateniense (1788),
Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, pp. 46-47
janeiro 12, 2013
«Les fêtes du Nouvel An juif, célébrées à grand renfort de trompettes et de cornes de bélier, donnaient lieu chaque année à des rixes sanglantes; nos autorités interdirent la lecture publique d’un certain récit légendaire, consacré aux exploits d’une heroïne juive qui serait devenue sous un nom d’emprunt la concubine d’un roi de Perse, et aurait fait massacrer sauvagement les ennemies du peuple méprisé et persécuté dont elle sortait.»
Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.252
Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.252
janeiro 10, 2013
«Mestres especiais encarregavam-se de ensinar essas disciplinas [lógica, retórica, etc.], às vezes por alto preço.
Assim, diz-se que um ateniense pediu a Aristipo que lhe completasse a educação do filho. Aristipo acedeu, mediante mil dracmas.
— Por esse dinheiro — respondeu o pai —, posso obter um escravo.
— É verdade; e até terá dois — respondeu o filósofo:— primeiro, seu filho; segundo, o escravo a quem o confia.»
J.J. Barthélemy, A educação ateniense (1788),
Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, p.35
janeiro 08, 2013
«Natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit. La nature nous trahit, la fortune change, un dieu regarde d’en haut toutes les choses. [ ] je finissais pour trouver naturel, sinon juste, que nous dussions périr. Nos lettres s’épuissent; nos arts s’endorment; [ ] Nos sciences piétinent depuis Aristote et Archimède; [ ]. L’adoucissement des moeurs, l’avancement des idées au cours du dernier siècle sont l’oeuvre d’une infime minorité de bons esprits; la masse demeure ignare, féroce quand elle le peut, en tout cas égoïste et bornée, et il y a fort à parier qu’elle restera toujours telle.»
Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.262-3
janeiro 06, 2013
janeiro 04, 2013
«Inclinava-me a acreditar, como alguns dos nossos sábios mais ousados, que a Terra participava também nessa marcha nocturna e diurna de que as santas procissões de Elêusis são, quando muito, o humano simulacro. Num mundo onde tudo não é mais que turbilhão de forças, dança de átomos, onde tudo está ao mesmo tempo em cima e em baixo, na periferia e no centro, concebia mal a existência de um globo imóvel, de um ponto fixo que não fosse simultaneamente móvel.»
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, pp.126-7
janeiro 02, 2013
«O pai tem o direito de vida ou de morte sobre os filhos. Quando nascem, colocam-lhos aos pés. Se o pai os toma nos braços, estão salvos. Quando não é bastante rico para os poder educar, ou quando se desespera por não poder corrigir certos vícios de conformação, desvia o olhar. Então, quem lhe apresentou a criança corre a expô-la bem longe ou a tirar-lhe a vida. Em Tebas as leis proibem tão bárbara prática, mas em toda a Grécia a autorizam ou toleram. Alguns filósofos aprovam-na, e outros, contraditados por moralistas mais rígidos, acrescentam que a mãe, quando já sobrecarregada por família numerosa, tem o direito de destruir o ser que traz no ventre.»
J.J. Barthélemy, A educação ateniense (1788),
Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, pp.14-5
janeiro 01, 2013
dezembro 31, 2012
dezembro 29, 2012
«Plus sincère que la plupart des hommes, j’avoue sans ambages les causes secrètes de cette félicité: ce calme si propice aux travaux et aux disciplines de l’esprit me smble l’un des plus beaux effets de l’amour. Et je m’étonne que ces joies si précaires, si rarement parfaites au cours d’une vie humaine, sous quelque aspect d’ailleurs que nous les ayons cherchées ou reçues, soient considérer avec tant de méfiance par des prétendus sages, qu’ils en redoutent l’accoutumance et l’excès au lieu d’en redouter la manque et la perte, qu’ils passent à tyranniser leurs sens un temps mieux employé à régler ou à embellir leur âme. [ ] Tout bonheur est un chef-d’oeuvre: la moindre erreur le fausse, la moindre hésitation l’altère, la moindre lourdeur le dépare, la moindre sottise l’abétit.»
Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.179-80
——— // ———
«Mais sincero que a maioria dos homens, confesso sem rodeios a causa secreta dessa felicidade: aquela calma tão propícia aos trabalhos e à disciplina parece-me um dos mais belos efeitos do amor. E espanto-me de que estas alegrias tão precárias, tão raramente perfeitas no decorrer de uma vida humana sob qualquer aspecto além de que nós os tenhamos procurado e recebido, sejam consideradas com tanta desconfiança por pretendidos sábios, que eles receiem o seu hábito e excesso em vez de temer a sua falta e perda, que passem a tiranizar os sentidos um tempo que seria mais bem empregado a ordenar ou a embelezar a alma. [ ] Toda a felicidade é uma obra prima: o menor erro falseia-a, a menor estupidez embrutece-a. »
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.139-40
dezembro 27, 2012
«A mãe de Cícero chamava-se Hélvia; era duma família distinta e manteve, pela sua conduta, a nobreza da sua origem. Sobre a condição de seu pai há opiniões muito diferentes: pretendem uns que ele nasceu e foi criado na oficina de um pisoeiro; outros fazem-no descender de Tulo Átio que reinou tão gloriosamente sobre os volscos e lutou com êxito contra os romanos.
O primeiro desta família que teve o sobrenome de Cícero parece ter sido um homem respeitável; por isso os seus descendentes, longe de desprezarem o apelido, orgulharam-se de o usar, embora fosse muitas vezes ridicularizado. Deriva de uma palavra latina que significa «grão-de-bico»; e o primeiro a quem foi dado esse nome tinha na ponta do nariz uma excrescência que parecia um grão-de-bico, o que lhe valeu o anexim.
Cícero, aquele cuja vida escrevemos, quando pretendeu pela primeira vez um cargo e se ocupou dos negócios públicos, foi aconselhado pelos amigos a abandonar este apelido e a tomar outro; mas respondeu-lhes, com a presunção dum jovem, que procederia de modo a tornar o nome de Cícero mais célebre que os dos Escauros e dos Catulos.
Durante a sua questura na Sicília, ofereceu aos deuses umvaso de prata em que mandou gravar por extenso os seus dois primeiros nomes: Marco Túlio; e, em vez do terceiro, quis, por pilhéria, que o gravador pusesse um grão-de-bico. Eis o que se conta a respeito do seu nome.»
Plutarco, Cícero e a queda da república patrícia,
Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, p.7-8
O primeiro desta família que teve o sobrenome de Cícero parece ter sido um homem respeitável; por isso os seus descendentes, longe de desprezarem o apelido, orgulharam-se de o usar, embora fosse muitas vezes ridicularizado. Deriva de uma palavra latina que significa «grão-de-bico»; e o primeiro a quem foi dado esse nome tinha na ponta do nariz uma excrescência que parecia um grão-de-bico, o que lhe valeu o anexim.
Cícero, aquele cuja vida escrevemos, quando pretendeu pela primeira vez um cargo e se ocupou dos negócios públicos, foi aconselhado pelos amigos a abandonar este apelido e a tomar outro; mas respondeu-lhes, com a presunção dum jovem, que procederia de modo a tornar o nome de Cícero mais célebre que os dos Escauros e dos Catulos.
Durante a sua questura na Sicília, ofereceu aos deuses umvaso de prata em que mandou gravar por extenso os seus dois primeiros nomes: Marco Túlio; e, em vez do terceiro, quis, por pilhéria, que o gravador pusesse um grão-de-bico. Eis o que se conta a respeito do seu nome.»
Plutarco, Cícero e a queda da república patrícia,
Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, p.7-8
dezembro 25, 2012
«Ce fut vers cette époque que Quadratus, évéque des chrétiens, m’envoya une apologie de sa foi. J’avais eu pour principe de maintenir envers cette secte la ligne de conduite strictemente équitable que avait été celle de Trajan dans ses meilleurs jours; [ ]. Mais toute tolerance accordée aux fanatiques leur fait croire immédiatement à de la sympathie pour leur cause; [ ]. Je lus son oeuvre; j’eus même la curiosité de faire rassembler par Phlégon des renseignments sur la vie du jeune prophète nommé Jésus, qui fonda la secte, et mourut victime de l’intolérance juive il y a environ cent ans. [ ] Chabrias, toujours préoccupé du juste culte à offrir aux dieux, s’inquiétait du progrès de sectes de ce genre dans la poulace des grandes villes; [ ]. Arrien partageait ses vues. Je passai tout un soir à discuter avec lui l’injonction qui consiste à aimer autrui comme soi-même; elle est trrop contraire à la nature humaine pour être sincérement obéi par le vulgaire, qui n’aimera jamais que soi, et ne convient nullement au sage, qui ne s’aime pas particulièrement soi-même.»
Marguerite Yourcenat, Mémoires d’Hadrien,
Paris, Gallimard, 2001, pp.238-40
dezembro 23, 2012
«Dizendo estas palavras, retirou-se para o interior do templo e, pegando nas suas tabuinhas enceradas, como se fosse escrever, levou o estilete à boca e mordeu-o, o que costumava fazer quando pensava ou compunha algum discurso. Passado algum tempo, cobriu-se com o manto e deitou a cabeça. Os soldados que estavam à porta do templo riam-se dele por temer tanto a morte e chamavam-lhe cobarde e medroso.
Árquias, aproximando-se dele, incitava-o a levantar-se [ ]. Demóstenes, sentindo que o veneno produzira o seu efeito, descobriu-se e, fixando os olhos em Árquias, disse-lhe:
— Podes desempenhar agora o papel de Creonte na tragédia e lançar este corpo onde quiseres, sem lhe concederes as honras da sepultura. Oh Poseidon! saio ainda vivo do teu templo, mas nem por isso Antípatro e os macedónios o deixaram de profanar com a minha morte.
Mal acabou de pronunciar estas palavras, sentiu-se tremer e cambalear; pediu que o amparassem para andar, e, quando passava em frente do altar do deus, caiu e morreu soltando um profundo suspiro.»
Plutarco, Demóstenes e a supremacia da Macedónia,
Lisboa, Editorial Inquérito, pp. 68-9
dezembro 21, 2012
«Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta servidão do espírito ou da imaginação. Seja como for, o horrível estado que põe um homem â mercê de um outro homem precisa de ser cuidadosamente regulado por lei.»
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.100-01
dezembro 19, 2012
«Os espartanos mais sensatos, [ ] receando o poder do dinheiro que tinha conseguido corromper um dos seus cidadãos mais apreciados, censuraram asperamente Lisandro e declararam aos éforos que deviam fazer sair de Esparta, quanto antes, todo o ouro e toda a prata que ele para lá tinha enviado, como moléstia sedutora e, por isso mesmo, ainda mais perigosa.
[ ] Flógidas [ ] foi o primeiro a opinar que se não recebesse nenhuma moeda de ouro ou de prata, conservando-se apenas a do país. [ ]
Os amigos de Lisandro opuseram-se ao decreto e conseguiram fazer aprovar que a prata ficasse em Esparta, mas a que estava convertida em moedas só teria curso para negócios públicos e seria condenado à morte todo o particular que as tivesse: como se Licurgo receasse as moedas de ouro ou prata e não a avareza que elas trazem atrás de si.
Era muito menos prevenir esta paixão, proibindo aos particulares terem moedas de ouro ou de prata, do que excitar o desejo de as possuirem, desde que se autorizava a cidade a fazer uso delas: a comodidade que elas representavam dava-lhes mais valor e fazia-as mais desejadas.
Seria possível, com efeito, que os particulares as desprezassem como inúteis, quando eram publicamente apreciadas? Poderia cada espartano deixar de atribuir valor, nos seus negócios, ao que ele via ser tão estimado e tão procurado pelos negócios públicos? [ ]
É certo que os éforos, para impedirem que a prata amoedada andasse nas mãos dos cidadãos puseram de sentinela o temor da lei, mas não lhes cerravam a alma à admiração e ao desejo de riquezas; pelo contrário, fazendo-as considerá-las uma propriedade tão preciosa quanto honrosa, excitaram neles a mais violenta paixão.»
Plutarco, Lisandro e a supremacia de Esparta,
Lisboa, Editorial Inquérito, p.41-3
dezembro 16, 2012
Image in blog Sapere Aude!
«Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles. A gramática, com a sua mistura de regra lógica e de uso arbitrário, propõe ao jovem espírito um antegosto pelo que lhe oferecerão mais tarde as ciências do comportamento humano, o direito ou a moral, todos esses sistemas em que o homem codificou a sua experiência instintiva. Quanto aos exercícios de retórica em que éramos sucessivamente Xerxes e Temístocles, Octávio e Marco António, exaltavam-me; sentia-me Proteu. Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis.»
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Lisboa, Ulisseia, 1981,
p.34-5dezembro 13, 2012
«O país, embora por vezes apresente um aspecto diferente, é em geral eriçado de florestas e cortado por horríveis pântanos, mais húmido do lado das Gálias, mais batido pelos ventos do lado em que a Germânia defronta quer o Nórdico, quer a Panónia. O solo, fértil em grão, recusa-se à cultura das árvores de fruto. O gado abunda, mas é quase sempre de pequena estatura, e mesmo os animais de trabalho não têm a corpulência dos nossos. Os germanos sentem-se orgulhosos por os possuírem em grande número; é a sua única riqueza, é o bem que mais estimam. Os deuses — Seria por bondade? Seria por cólera? Não me pronuncio — negaram-lhes a prata e o ouro; eu não ousaria contudo afirmar que na Germânia nenhuma mina exista que produza ouro ou prata; quem poderá ter a certeza disso? São menos sensíveis do que nós aos atractivos da posse ou do uso destes metais. Podem ver-se entre eles vasos de prata oferecidos como presentes aos seus embaixadores e aos seus chefes; não fazem mais caso deles do que se fossem de barro. Contudo, os que habitam mais próximos de nós apreciam para as transacções comerciais o emprego do oiro e da prata e conhecem certos tipos da nossa moeda, aos quais dão a sua preferência; os do interior, mais fiéis à antiga simplicidade, traficam por meio de trocas. Os outros gostam sobretudo das nossas moedas antigas e há muito conhecidas, aquelas cuja borda é dentada em forma de serra e que têm a efígie dum carro puxado por dois cavalos; mostram também mais gosto pela prata do que pelo oiro, não em consequência de qualquer predilecção, mas porque as moedas de prata são de um uso mais cómodo para homens que só compram objectos comuns e de pouco valor.»
Tácito, A Germânia,
Lisboa, Ed. Inquérito, Lda, pp.12-3
dezembro 10, 2012
«A fama destes dois grandes homens [Epaminondas e Pelópidas] atraia todos os aliados que, sem serem obrigados a isso por nenhuma ordem, nenhum decreto público, os seguiam em silêncio para toda a parte onde eles quisessem levá-los. É, com efeito, a primeira e a mais poderosa de todas as leis, esta lei natural segundo a qual todo o homem que tem necessidade de defesa reconhece como chefe aquele que é capaz de o defender. Os passageiros de um barco, quando o mar está calmo e estão num ancoradouro seguro, dizem mal dos pilotos; mas se se vêem ameaçados pela tempestade, fixam os olhos neles e depositam todas as esperanças no seu auxílio.»
Plutarco, Pelópidas e a supremacia de Tebas,
Lisboa, Ed. Inquérito Lda, 1939, p.49
dezembro 06, 2012
«A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minha primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas.»
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.34
novembro 21, 2012
[ a crise, a burguesia e a falsificação de obras de arte ]
«O pânico instalara-se de modo intolerável e chegava à Europa. Em Portugal, por exemplo, ainda não era, mas ia passar a ser chiquíssimo as classes dominantes dizerem coisa como «estamos outra vez tesos, filha», The Economist bem escrevia vingativamente they claim now everything was wrong before, e os compradores da véspera tinham pedido aos seus advogados que começassem a engendrar toda uma série de razões técnicas para não procederem ao levantamento e muito menos ao pagamento dos quadros licitados, por razões de austeridade, morigeração de costumes e preconceitos estéticos, e dizia-se mesmo que alguns maridos, que tinham investido forte , receavam voltar a perder completamente a ponta, o que era susceptível de lhes causar contratempos nada discipiendos, como se diz que já tinha acontecido aquando do vinte e cinco de Abril.
Também por cá havia indícios seguros de que a questão ia passar a ser a do real fake. Nas colunas sociais, as ladies da nossa melhor sociedade começavam a deixar-se fotografar torcendo o nariz aristocrático a umas borradelas gigantescas que as tinham extasiado havia algumas semanas apenas e tinham agora a bolinha vermelha da reserva já meia descascada e esquecida.»
:)
op.cit., p.272-3
novembro 15, 2012
novembro 07, 2012
E na sequência daquela surpresa, outra surgiu numa bela e singela história de um episódio de vida, onde a pesca desportiva ao longo do mar de Sesimbra e da Arrábida se cruza com um inesperado enamoramento numa loja da Rua Augusta; tudo na escrita airosa de Carlos Espírito Santo de Mello, na Lisboa dos anos cinquenta. :)
novembro 04, 2012
Surpreendeu-me ver um livro de Carlos Espírito Santo de Mello à venda, num escaparate do centro comercial de Via Catarina, no Porto, um autor do clássico Análise de Balanços, sua obra de escrita cristalina e escorreita sobre o tema universitário de economia que li e estudei há mais de cinquenta anos! Folheei o livro, editado em 2005 pela editora Civilização, a proprietária das livrarias Bulhosa, e encantou-me ver o meu apreciado autor debruçar-se sobre uma disciplina que hoje em dia parece ter poucos cultores e que sempre apreciei: a geografia huimana.
Mostro este excerto onde se denuncia a manipulação da verdade a que os interesses económicos submetem a realidade dos povos, ocultando-lhes a causa e os causadores da sua miséria.
Mostro este excerto onde se denuncia a manipulação da verdade a que os interesses económicos submetem a realidade dos povos, ocultando-lhes a causa e os causadores da sua miséria.
«Como em toda a África até à década de quarenta também na Etiópia, a alta imortalidade infantil tendia a manter estável a população. Para as mulheres africanas a perda de prole logo na primeira infância era um acontecimento de rotina pouco preocupante. Os sobreviventes eram cuidados e fontes de redobrado prazer. Esse método da natureza para manter estáveis as populações (e assegurar boa genética) parece rude face às bitolas de hoje. Surge, porém, uma questão pertinente: será preferível que uma criança morra pouco de pois de nascida — antes de poder sequer saber o que é a morte — ou ser salva para um subsequente falecimento lento e torturado numa curta vida de carência alimentar ou, ainda, como acontece a milhões no Subcontinente Indiano, viver os seus dias acorrentada ao local de trabalho?
Na Etiópia, não se punham tais dilemas. A meio do século XX, uma população estável e auto-suficiente era estimada em dezoito milhões.
Depois veio o dilúvio…
… da penicilina.
Reagiu tudo com entusiasmo:
— As mães, ao verem cinco, seis ou mais filhos a sobreviverem em vez dos habituais dois ou três.
— Os autoproclamados benfeitores e missionários desvanecidos com a resposta de Deus às suas preces.
— E as empresas farmcêuticas, essas, a engordar…
… e alguém fez contas ao custo e à logística, ainda que apenas de “alimentar” [ ], de todas as bocas em explosão? [ ]
E aconteceu que os 18 milhões de almas de 1950 deram origem a 36 milhões em 1981. Também aconteceu que aperfeiçoamentos farmacológicos fizessem já em 2004 os Etíopes ultrapassar os 72 milhões [ ]… o mesmo é dizer, de bocas.»
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«Quanto precede leva mais cedo ou mais tarde à pergunta do porquê da relutância dos média em dar a importância devida aos factores populacionais. Neste particular a primeira coisa a tomar em conta é que a vasta maioria dos média no mundo ocidental é privada e por isso tem que, de algum modo aferir as saus exteriorizações com a motivação do lucro — essencial à sua própria existência. Ora a espectadores e ouvintes pouco interessam as progressões numéricas. Deleitam-se, sim, com as grandes corrupções, os ataques de bombistas suicidas, as crises de fome aqui, ou ali, sempre devida a grandes secas, pragas de gafanhotos ou inundações (mas não à sobrepopulação!) tudo com a correspondente filmagem de crianças esqueléticas, bem apontada ao âmago dos instintos maternos e paternos. A inexorável progressão dos números que tudo condiciona pois essa não tem conteúdo emocional.»
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«Anos após a definição dos “direitos do homem” acrescentou a ONU um pronunciamento acerca dos “direitos das crianças”. Exigem elas vestuário, habitação, alimentos, educação e assitência médica. A utopia de ver generalizados estes direitos é evidente para qualquer um que veja noticiários televisionados. Neste contexto, porém, seria de indispensável coerência acrescentar o direito a “não nascer, sempre que os cinco demais direitos não estivessem assegurados”. Esse claro direito de não vir ao mundo apenas para sofrer, resulta mais imperioso sempre que se torne evidente que nem um só dos cinco direitos enunciados esteja assegurado. A inacção culposa dos média face a esta realidade, bem como — mais evidente e gravoso — a oposição de entidades religiosas ao seu cumprimento, são obviamente atentados aos universalmente proclamados direitos da crianças.»
Carlos Espírito Santo de Mello, O que Os
Média Não Dizem, («The Media’s Taboo
— An Essay on Population Growth», 2001)
Porto, Civilização Editora, 2005, p.19-20; 290; 292.
novembro 01, 2012
No decurso de leituras avulsas dos filósofos sempre vi menorizada a filosofia de Aristóteles e da escolástica medieval.
Realmente, no liceu, a breve incursão pela Antiguidade Grega e pela silogística das proposições, logo era destituída pela subsequente exposição da doutrina dos racionalistas de seiscentos.
Descartes empalidecia o saber antigo com a sua magistral conclusão da existência do facto indubitável de haver pensamento — no que hoje se me afigura mais conforme à filosofia clássica do que o imaginava no liceu.
Pois, na verdade, era impossível a um jovem não ficar impressionado com a algebrização do espaço na deslumbrante geometria analítica de Descartes, e com a radicalidade da exigência do seu método de ordenar as ideias claras e simples, na condução do pensamento, independente do que os livros antigos ensinassem ou não, partindo do evidente até alcançar a certeza do conhecimento.
Sucedeu-me, contudo, uma surpresa serôdia quando há um ano vi nos escaparates da Bulhosa de Oeiras um livrinho com o preço de € 3.00, editado pela Guimarães Editores intitulado “Exaltação da Filosofia Derrotada” (1983) de autoria de Orlando Vitorino. Fiquei com curiosidade, comprei-o, trouxe-o para casa.
Ao lê-lo, tomei conhecimento, ao fim de tantos anos de leituras dispersas de filósofos, de uma argumentação séria e convincente em favor da tal filosofia derrotada, a clássica, de Aristóteles, invertida e desfigurada pela filosofia crítica de Kant, inábil suporte das diversas ciências modernas de autónomos “sectores” da realidade!
Hei-de tentar expor o que aprendi e apreciei nesta aprendizagem original de Aristóteles que sempre vi considerado quase ‘desactualizado’. Há argumentos em contrário. E mesmo no domínio da ciência económica, que me surpreenderam muito.
Como é possível Orlando Vitorino não ser comentado? Os excertos de Álvaro Ribeiro, em torno do “Estudos Gerais” do Trivium e do Quadrivium, achei-os deliciosos e situaram-me melhor no que foi o pensamento dos filósofos siscentistas. Voltarei ao tema.
































