«— Não — disse Shridaman — não esperava isso de ti.
Porém, não há razão nem propósito em prolongar a discussão.
Aqui está Sita. A ela cabe dizer a quem pertence e ser o árbitro,
tanto da nossa como da sua própria felicidade.»
op. cit., p. 127-8
dezembro 13, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 99
«— És egoísta. Compreendeste-me mal. Não me refiro
a este corpo de esposo que me é recente e sim à minha
própria cabeça que tu mesmo consideras decisiva
e que me caracteriza como Nanda.
Sita, ultimamente, quando a mim se me dirigia
— falando naquela voz doce e maviosa que receava ouvir,
com medo de responder no mesmo tom — olhava-me
o rosto e chamava-me «Nanda», «querido Nanda».
Naquele momento parecia desnecessário mas, agora,
reconheço que era de alta significação espiritual.
Agora, tenho não somente a cabeça e os olhos
que ela tão ternamente sondava,
mas também o corpo do esposo
— e a situação está, portanto,
fundamentalmente alterada
em favor de Sita e no meu.»
op. cit., p. 126
a este corpo de esposo que me é recente e sim à minha
própria cabeça que tu mesmo consideras decisiva
e que me caracteriza como Nanda.
Sita, ultimamente, quando a mim se me dirigia
— falando naquela voz doce e maviosa que receava ouvir,
com medo de responder no mesmo tom — olhava-me
o rosto e chamava-me «Nanda», «querido Nanda».
Naquele momento parecia desnecessário mas, agora,
reconheço que era de alta significação espiritual.
Agora, tenho não somente a cabeça e os olhos
que ela tão ternamente sondava,
mas também o corpo do esposo
— e a situação está, portanto,
fundamentalmente alterada
em favor de Sita e no meu.»
op. cit., p. 126
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 98
«— Deveras? — replicou Shridaman, com a voz
levemente trémula. — Não teria ousado afirmá-lo,
quando o teu actual corpo ainda era meu e dormia
ao lado de Sita. Pois não era esse corpo a quem
realmente ela abraçava, como soube para meu
próprio sofrimento, ao ouvi-la murmurar em sonho.
Ao contrário, era aquele a que chamo agora meu.»
op. cit., p. 125
levemente trémula. — Não teria ousado afirmá-lo,
quando o teu actual corpo ainda era meu e dormia
ao lado de Sita. Pois não era esse corpo a quem
realmente ela abraçava, como soube para meu
próprio sofrimento, ao ouvi-la murmurar em sonho.
Ao contrário, era aquele a que chamo agora meu.»
op. cit., p. 125
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 97
«— Nem eu tão-pouco estou ressentido contigo, Sita.
Sempre almejei possuir um corpo fino como este.
Uma coisa, no entanto, devo dizer:
a minha pobre cabeça não se pode eximir a pensar
no corpo que lhe coube e salvaguardar-lhe os direitos,
[pelo que] Sita, a das lindas curvas,
é minha esposa e o seu fruto
foi engendrado por mim.»
op. cit., p. 124
Sempre almejei possuir um corpo fino como este.
Uma coisa, no entanto, devo dizer:
a minha pobre cabeça não se pode eximir a pensar
no corpo que lhe coube e salvaguardar-lhe os direitos,
[pelo que] Sita, a das lindas curvas,
é minha esposa e o seu fruto
foi engendrado por mim.»
op. cit., p. 124
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 96
«— Se Nanda — disse Shridaman — não se envergonhar
do corpo que lhe coube, só posso afirmar
que me julgo o mais feliz dos homens.
Sempre desejei possuir um físico como este.»
op. cit., p. 122
do corpo que lhe coube, só posso afirmar
que me julgo o mais feliz dos homens.
Sempre desejei possuir um físico como este.»
op. cit., p. 122
dezembro 12, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 95
«Duas coisas se tornaram imediatamente claras.
Primeiro, que ela tivera razão em dirigir-se aos amigos
ressuscitados de acordo com as cabeças; segundo: era
evidente que nenhum deles estava ressentido com Sita,
pelo contrário ambos encontravam, na verdade,
grande prazer na sua nova aparência.»
op. cit., p. 121-22
Primeiro, que ela tivera razão em dirigir-se aos amigos
ressuscitados de acordo com as cabeças; segundo: era
evidente que nenhum deles estava ressentido com Sita,
pelo contrário ambos encontravam, na verdade,
grande prazer na sua nova aparência.»
op. cit., p. 121-22
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 94
«Rivalizando em magnanimidade,
os dois jovens transformados curvaram-se,
levantaram-na, um com os braços do outro
e os três ficaram enlaçados, chorando e rindo.»
op. cit., p. 121
os dois jovens transformados curvaram-se,
levantaram-na, um com os braços do outro
e os três ficaram enlaçados, chorando e rindo.»
op. cit., p. 121
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 93
«Dizei-me, estão desesperados com a maneira como se operou
a ressurreição de ambos, e amaldiçoar-me-ão eternamente?
Se assim for, levarei a efeito o acto em que fui interrompida
por Aquela que existiu antes dos tempos.
Ou estão inclinados a perdoar-me?»
op. cit., p. 121
a ressurreição de ambos, e amaldiçoar-me-ão eternamente?
Se assim for, levarei a efeito o acto em que fui interrompida
por Aquela que existiu antes dos tempos.
Ou estão inclinados a perdoar-me?»
op. cit., p. 121
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 92
«Pensem que estive prestes a estrangular-me
e que tive um colóquio com a Inacessível
e lhe ouvi a voz de trovão,
o que me privou quase dos sentidos!
Tudo me girava em torno. Mal distingui
qual cabeça e quais membros tinha entre mãos
e pude apenas confiar na sorte.
op. cit., p. 120
e que tive um colóquio com a Inacessível
e lhe ouvi a voz de trovão,
o que me privou quase dos sentidos!
Tudo me girava em torno. Mal distingui
qual cabeça e quais membros tinha entre mãos
e pude apenas confiar na sorte.
op. cit., p. 120
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 91
«— Perdoem-se se puderem! — gritou.
— Oh! Têm que perdoar-me!
Lembrem-se do horrível feito que, sob as formas anteriores,
ambos perpetraram e do desespero a que fui levada.
op. cit., p. 120
— Oh! Têm que perdoar-me!
Lembrem-se do horrível feito que, sob as formas anteriores,
ambos perpetraram e do desespero a que fui levada.
op. cit., p. 120
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 90
«A excitação com que agiste é compreensível,
mas não podias ter aberto os olhos um pouco mais?
Tu colaste em cada um a cabeça do outro.
A cabeça de Nanda ao corpo de Shridaman
e a cabeça de Shridaman ao copro de Nanda.
Enfim, estão de pé, diante de ti,
não o esposo e o amigo,
na ordem respectiva,
mas misturados.
Que situação!
Tudo consequência da excessiva precipitação!»
op. cit., p. 118-19
mas não podias ter aberto os olhos um pouco mais?
Tu colaste em cada um a cabeça do outro.
A cabeça de Nanda ao corpo de Shridaman
e a cabeça de Shridaman ao copro de Nanda.
Enfim, estão de pé, diante de ti,
não o esposo e o amigo,
na ordem respectiva,
mas misturados.
Que situação!
Tudo consequência da excessiva precipitação!»
op. cit., p. 118-19
dezembro 11, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 89
«Com as cabeças no seu lugar, sem sinal nem cicatriz,
ergueram-se diante dela os dois jovens.
Olharam-na e depois olharam-se a si próprios.
Sita, que fizeste? Que aconteceu?»
op. cit., p. 117-8
ergueram-se diante dela os dois jovens.
Olharam-na e depois olharam-se a si próprios.
Sita, que fizeste? Que aconteceu?»
op. cit., p. 117-8
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 88
«Atravessou quase sem respirar a sala da audiência
e a antecâmara, até ao santuário; aí, ante a hedionda
imagem da Deusa, empreendeu, trepidante de febril energia,
a tarefa prescrita. A atracção entre cabeças e troncos dava tempo
para que o sangue pudesse refluir pelos sulcos,
o que se fez com mágica rapidez.»
op. cit., p. 117
e a antecâmara, até ao santuário; aí, ante a hedionda
imagem da Deusa, empreendeu, trepidante de febril energia,
a tarefa prescrita. A atracção entre cabeças e troncos dava tempo
para que o sangue pudesse refluir pelos sulcos,
o que se fez com mágica rapidez.»
op. cit., p. 117
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 87
«A linda Sita nada mais disse, nem mesmo «obrigada»;
partiu direita ao templo, correndo tão depressa
quanto lho permitiam as vestes envolventes.»
op. cit., p. 117
partiu direita ao templo, correndo tão depressa
quanto lho permitiam as vestes envolventes.»
op. cit., p. 117
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 86
«Toma as duas cabeças pelos cabelos e ajusta-as novamente
aos pobres troncos. Não aproximes as cabeças dos corpos
muito rapidamente. É preciso dar tempo ao sangue
para refluir e ser absorvido. Anda, corre!
Mas faz a coisa com acerto. Vai, anda!
Se esperas até amanhã, será demasiado tarde.»
op. cit., p. 113
aos pobres troncos. Não aproximes as cabeças dos corpos
muito rapidamente. É preciso dar tempo ao sangue
para refluir e ser absorvido. Anda, corre!
Mas faz a coisa com acerto. Vai, anda!
Se esperas até amanhã, será demasiado tarde.»
op. cit., p. 113
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 85
«— Compadeço-me de ti, embora não o mereças,
bem como da pálida e cega semente do teu ventre.
Também me compadeço dos dois jovens que estão lá dentro.
Por isso, aguça os ouvidos e escuta o que te digo!
Larga essa trepadeira e volta ao templo.
Nada de desmaios ou de hesitações!
Ouviste?
op. cit., p. 113
bem como da pálida e cega semente do teu ventre.
Também me compadeço dos dois jovens que estão lá dentro.
Por isso, aguça os ouvidos e escuta o que te digo!
Larga essa trepadeira e volta ao templo.
Nada de desmaios ou de hesitações!
Ouviste?
op. cit., p. 113
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 84
«— Ah! Santa Deusa e Grande Mãe! — exclamou Sita.
— Se pudesses fazer isso! Se pudesses anular
estes feitos tremendos e devolver-me
o esposo e o amigo
para que tudo fosse como dantes
— como te abençoaria!»
op. cit., p. 112
— Se pudesses fazer isso! Se pudesses anular
estes feitos tremendos e devolver-me
o esposo e o amigo
para que tudo fosse como dantes
— como te abençoaria!»
op. cit., p. 112
dezembro 10, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 83
«Sinto-me pouco inclinada a receber-lhes o sangue
e aceitar a oferenda. Pois bem, se eu agora ressarcir
o duplo sacrifício e reconstituir tudo como era,
posso esperar que te comportes
com mais decência
no futuro?»
op. cit., p. 112
e aceitar a oferenda. Pois bem, se eu agora ressarcir
o duplo sacrifício e reconstituir tudo como era,
posso esperar que te comportes
com mais decência
no futuro?»
op. cit., p. 112
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 82
«Proíbo-te que pronuncies tais palavras,
ainda que talvez alguma verdade haja nelas.
Porquanto estamos em presença de um acto determinado
por motivos confusos, não sendo, em consequência, muito claro.
op. cit., p. 111
ainda que talvez alguma verdade haja nelas.
Porquanto estamos em presença de um acto determinado
por motivos confusos, não sendo, em consequência, muito claro.
op. cit., p. 111
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 81
«— Tu não passas de uma tola desmiolada
— disse a Deusa, em voz trovejante.
Preparas-me esta atrapalhação e, ainda não contente,
dizes-me toda a espécie de desaforos, querendo insinuar
que os meus filhos não se imolaram para que o seu sangue
afluísse ao meu altar.
op. cit., p. 110
— disse a Deusa, em voz trovejante.
Preparas-me esta atrapalhação e, ainda não contente,
dizes-me toda a espécie de desaforos, querendo insinuar
que os meus filhos não se imolaram para que o seu sangue
afluísse ao meu altar.
op. cit., p. 110
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 80
«Depois, Nanda foi à procura dele e,
não querendo aceitar-lhe o sacrifício,
separou a própria cabeça dos seus membros.
E inútil ficou a minha vida. Estou, também,
praticamente privada de cabeça, sem esposo nem amigo.»
op. cit., p. 110
não querendo aceitar-lhe o sacrifício,
separou a própria cabeça dos seus membros.
E inútil ficou a minha vida. Estou, também,
praticamente privada de cabeça, sem esposo nem amigo.»
op. cit., p. 110
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 79
«Em tais circunstâncias, Mãe do Mundo,
empreendemos a viagem de visita a meus pais,
e, desviando-nos do caminho certo, chegámos à tua casa.
Shridaman, no teu altar de sacrifícios,
despojou a sua venerável cabeça dos membros,
abandonando-me à miserável condição da viuvez.
Fez este sacrifício a mim e ao amigo,
para que pudéssemos viver os nossos dias
em pleno gozo da carne.
op. cit., p. 109
empreendemos a viagem de visita a meus pais,
e, desviando-nos do caminho certo, chegámos à tua casa.
Shridaman, no teu altar de sacrifícios,
despojou a sua venerável cabeça dos membros,
abandonando-me à miserável condição da viuvez.
Fez este sacrifício a mim e ao amigo,
para que pudéssemos viver os nossos dias
em pleno gozo da carne.
op. cit., p. 109
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 78
«Nem Nanda tão-pouco; não porque não se sentisse tentado,
pois certamente o estava; podia mesmo jurar que terrivelmente!
Mas, na sua invencível lealdade para com o amigo, resistiu à tentação
e eu, também — crê-me. Mas o resultado foi que fiquei sem marido
algum e que passámos os três a viver num penoso estado de renúncia.
op. cit., p. 109
pois certamente o estava; podia mesmo jurar que terrivelmente!
Mas, na sua invencível lealdade para com o amigo, resistiu à tentação
e eu, também — crê-me. Mas o resultado foi que fiquei sem marido
algum e que passámos os três a viver num penoso estado de renúncia.
op. cit., p. 109
dezembro 09, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 77
«Assim descobriu Shridaman que eu rompia os votos
nupciais nos seus meigos braços. Magoei-o cruelmente.
Tirei esta conclusão da sua melancolia e do seu afastamento
— pois, desde então, nunca mais me tocou.
op. cit., p. 108-9
nupciais nos seus meigos braços. Magoei-o cruelmente.
Tirei esta conclusão da sua melancolia e do seu afastamento
— pois, desde então, nunca mais me tocou.
op. cit., p. 108-9
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 76
«Eis porque, quando Shridaman se aproximava de mim,
durante a noite, eu empalidecia com o desgosto
de que fosse ele, e não o outro, e fechava
os olhos para poder imaginar
que Nanda me abraçava.
Cheguei a ponto de não conter o meu ardor
e de murmurar o nome daquele que eu desejava
me tivesse despertado.
op. cit., p. 108
durante a noite, eu empalidecia com o desgosto
de que fosse ele, e não o outro, e fechava
os olhos para poder imaginar
que Nanda me abraçava.
Cheguei a ponto de não conter o meu ardor
e de murmurar o nome daquele que eu desejava
me tivesse despertado.
op. cit., p. 108
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 75
«Quando o seu braço roçava o meu, a pele arrepiava-se-me
de prazer. Quando pensava nas suas magníficas pernas e o via
andar e movê-las, imaginava como me apertariam no jogo do amor
e os meus seios palpitavam de anseio. Cada vez me parecia mais belo.
Já não compreendia como fora possível que, ao vê-lo na festa do Sol,
tivesse ficado adormecida e insensível.
op. cit., p. 107-8
de prazer. Quando pensava nas suas magníficas pernas e o via
andar e movê-las, imaginava como me apertariam no jogo do amor
e os meus seios palpitavam de anseio. Cada vez me parecia mais belo.
Já não compreendia como fora possível que, ao vê-lo na festa do Sol,
tivesse ficado adormecida e insensível.
op. cit., p. 107-8
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 74
«Como era possível afastar Nanda dos meus pensamentos,
se permanecia sempre diante da minha vista?
Costumava contemplar-lhe o peito, os seus quadris estreitos
e as suas nádegas tão pequenas, a par das minhas tão grandes
— e perdia o domínio de mim própria.
op. cit., p. 107
se permanecia sempre diante da minha vista?
Costumava contemplar-lhe o peito, os seus quadris estreitos
e as suas nádegas tão pequenas, a par das minhas tão grandes
— e perdia o domínio de mim própria.
op. cit., p. 107
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 73
«A curiosidade que Nanda me despertava, a ideia
de que a voluptuosidade lhe conviria,
tanto à cabeça como aos membros;
que talvez fosse o homem capaz de elevar o meu prazer
à altura dos meus desejos — cravara-se-me na carne
e na alma como o anzol na boca do peixe,
e não a podia arrancar, pois o anzol
era farpado.
op. cit., p. 107
de que a voluptuosidade lhe conviria,
tanto à cabeça como aos membros;
que talvez fosse o homem capaz de elevar o meu prazer
à altura dos meus desejos — cravara-se-me na carne
e na alma como o anzol na boca do peixe,
e não a podia arrancar, pois o anzol
era farpado.
op. cit., p. 107
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 72
«Entretanto, eu via constantemente o nosso amigo Nanda.
Não o via, apenas, olhava-o como o matrimónio me ensinara
a ver e a olhar os homens; e, nos meus devaneios e sonhos,
insinuava-se a pergunta: que faria Nanda,
como procederia ele a divina união
em lugar do meu marido?
op. cit., p. 106
Não o via, apenas, olhava-o como o matrimónio me ensinara
a ver e a olhar os homens; e, nos meus devaneios e sonhos,
insinuava-se a pergunta: que faria Nanda,
como procederia ele a divina união
em lugar do meu marido?
op. cit., p. 106
dezembro 06, 2007
Thomas Mann, As cabeças trocadas - 71
«O amor carnal não convinha ao meu esposo,
nem à sua cabeça, nem ao seu corpo o qual,
afinal de contas, concordarás,
é o factor essencial.
O corpo que além jaz, tão lamentavelmente separado da cabeça,
não sabia consumar os ritos do amor de modo que
todo o meu coração a eles se prendesse.
É verdade que me despertava desejos
mas não os sabia aplacar.
op. cit., p. 106
nem à sua cabeça, nem ao seu corpo o qual,
afinal de contas, concordarás,
é o factor essencial.
O corpo que além jaz, tão lamentavelmente separado da cabeça,
não sabia consumar os ritos do amor de modo que
todo o meu coração a eles se prendesse.
É verdade que me despertava desejos
mas não os sabia aplacar.
op. cit., p. 106
Thomas Mann, As cabeças trocadas - 70
«Ah! Deusa todo-poderosa, não sou tão vil que não quisesse
ao meu senhor e esposo e mais ainda que não o honrasse
e temesse. Mas, apesar de todo o respeito devido,
involuntariamente perguntava a mim própria
se ele era, realmente, o homem indicado
para me fazer mulher e instruir
a minha virginal ignorância
nos doces e terríveis mistérios do amor.
op. cit., p. 105
ao meu senhor e esposo e mais ainda que não o honrasse
e temesse. Mas, apesar de todo o respeito devido,
involuntariamente perguntava a mim própria
se ele era, realmente, o homem indicado
para me fazer mulher e instruir
a minha virginal ignorância
nos doces e terríveis mistérios do amor.
op. cit., p. 105
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 69
«Estava sempre perto; antes do casamento, durante as bodas,
quando demos a volta à fogueira — e também depois.
Naturalmente, não estava de noite, quando eu dormia
com o seu amigo Shridaman, o meu esposo, nem
quando nos unimos pela primeira vez,
sobre o leito juncado de flores.
op. cit., p. 104-5
quando demos a volta à fogueira — e também depois.
Naturalmente, não estava de noite, quando eu dormia
com o seu amigo Shridaman, o meu esposo, nem
quando nos unimos pela primeira vez,
sobre o leito juncado de flores.
op. cit., p. 104-5
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 68
«Mais tarde, voltou e pediu-me em casamento para
o seu amigo Shridaman, e os nossos pais consentiram;
talvez a infelicidade começasse naqueles dias em
que Nanda me cortejou em nome do outro
que deveria abraçar-me como esposa
e a quem ainda não conhecia.
Só via Nanda junto de mim.
op. cit., p. 104
o seu amigo Shridaman, e os nossos pais consentiram;
talvez a infelicidade começasse naqueles dias em
que Nanda me cortejou em nome do outro
que deveria abraçar-me como esposa
e a quem ainda não conhecia.
Só via Nanda junto de mim.
op. cit., p. 104
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 67
«Certo dia, veio de Bem-estar das Vacas
um jovem de nariz chato e olhos negros.
O seu corpo tinha a pureza das estátuas
e chamava-se Nanda; balouçou-me em louvor do Sol,
na festa da Primavera, mas nenhum ardor me despertou.
op. cit., p. 104
um jovem de nariz chato e olhos negros.
O seu corpo tinha a pureza das estátuas
e chamava-se Nanda; balouçou-me em louvor do Sol,
na festa da Primavera, mas nenhum ardor me despertou.
op. cit., p. 104
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 66
«A linda Sita, desfeita em pranto, respondeu:
— Ah! Sagrada Mãe, reconheço e confesso
a minha culpa, mas que podia fazer?
Foi um infortúnio, uma desgraça,
o cúmulo da má sorte que me fez casar,
sendo uma jovem esbelta, arredia e ingénua.
op.cit., p. 103
— Ah! Sagrada Mãe, reconheço e confesso
a minha culpa, mas que podia fazer?
Foi um infortúnio, uma desgraça,
o cúmulo da má sorte que me fez casar,
sendo uma jovem esbelta, arredia e ingénua.
op.cit., p. 103
dezembro 05, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 65
«— Absurdo! Realmente, só uma mulher podia dizer
semelhante disparate. Ofereceram-se-me,
em espontânea dádiva, um após outro,
por viril piedade, ouviste?
Mas, por que o fizeram?»
op. cit., p. 103
semelhante disparate. Ofereceram-se-me,
em espontânea dádiva, um após outro,
por viril piedade, ouviste?
Mas, por que o fizeram?»
op. cit., p. 103
Thomas Mann, As cabeças trocadas - 64
«— Justifica-te, explica por que afluiu a mim
o sangue dos meus filhos, ambos,
a seu modo, excelentes rapazes.
Fala, mas diz a verdade!»
«— Mataram-se um ao outro, Deusa altíssima,
e deixaram-me desamparada.
Lutaram por minha causa
e, com a mesma espada,
degolaram-se ambos.»
op. cit., p. 102-3
o sangue dos meus filhos, ambos,
a seu modo, excelentes rapazes.
Fala, mas diz a verdade!»
«— Mataram-se um ao outro, Deusa altíssima,
e deixaram-me desamparada.
Lutaram por minha causa
e, com a mesma espada,
degolaram-se ambos.»
op. cit., p. 102-3
dezembro 04, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 63
«— Deusa sagrada — respondeu Sita — vou obedecer-te.
Ouço o trovão da tua voz e apresso-me a interromper
o meu acto desvairado, como tu ordenas.»
op. cit., p. 102
Ouço o trovão da tua voz e apresso-me a interromper
o meu acto desvairado, como tu ordenas.»
op. cit., p. 102
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 62
«Não percebeste talvez que o teu fluxo está suspenso
e que esperas um filho meu? Se não sabes fazer
os mais simples cálculos que toda a mulher
deve conhecer, então, anda enforca-te!
Estou farta desses pensadores para quem a existência
humana é uma doença que se propaga por meio da
voluptuosidade amorosa, de geração em geração ~
— e agora, tu, minha louca,
vens aqui fazer-me uma afronta dessas!
Tira o pescoço do laço ou puxo-te as orelhas!»
op. cit., p. 101-2
e que esperas um filho meu? Se não sabes fazer
os mais simples cálculos que toda a mulher
deve conhecer, então, anda enforca-te!
Estou farta desses pensadores para quem a existência
humana é uma doença que se propaga por meio da
voluptuosidade amorosa, de geração em geração ~
— e agora, tu, minha louca,
vens aqui fazer-me uma afronta dessas!
Tira o pescoço do laço ou puxo-te as orelhas!»
op. cit., p. 101-2
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 61
«Não basta teres inundado os sulcos do meu templo
com o sangue dos meus filhos, queres ainda desfigurar
a minha árvore e transformar esse corpo,
linda emanação de mim própria,
em putrefacto manjar para os corvos,
e dar-lhes ao mesmo tempo o cálido
e minúsculo germe de vida
que floresce no teu seio?
Tola!»...
op. cit., p. 101
com o sangue dos meus filhos, queres ainda desfigurar
a minha árvore e transformar esse corpo,
linda emanação de mim própria,
em putrefacto manjar para os corvos,
e dar-lhes ao mesmo tempo o cálido
e minúsculo germe de vida
que floresce no teu seio?
Tola!»...
op. cit., p. 101
dezembro 03, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 60
«Nesse instante, soou nos ares uma voz que, naturalmente,
não podia ser senão a de Durga-Dewi, a inacessível,
Kali, a sombria, a voz da própria Mãe dos Mundos.
Uma voz profunda e rouca, maternal, severa:
— Pára com isso, imediatamente, sonsa!
(Tais foram as suas palavras.)»...
op. cit., p. 101
não podia ser senão a de Durga-Dewi, a inacessível,
Kali, a sombria, a voz da própria Mãe dos Mundos.
Uma voz profunda e rouca, maternal, severa:
— Pára com isso, imediatamente, sonsa!
(Tais foram as suas palavras.)»...
op. cit., p. 101
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 59
«Com estas palavras, levantou-se, ainda vacilante,
subiu a escada aos tropeções e, animada do firme propósito
de autodestruição, atravessou o templo a correr.
Em frente do santuário, elevava-se uma figueira
da qual pendiam flexíveis cipós. Agarrando um destes,
Sita deu um laço, colocou-o em volta do pescoço
e tratou de estrangular-se.»
op. cit., p.97
subiu a escada aos tropeções e, animada do firme propósito
de autodestruição, atravessou o templo a correr.
Em frente do santuário, elevava-se uma figueira
da qual pendiam flexíveis cipós. Agarrando um destes,
Sita deu um laço, colocou-o em volta do pescoço
e tratou de estrangular-se.»
op. cit., p.97
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 58
... «Está tudo acabado. Então, devo atravessar a vida viúva,
repelida por todos, como esposa que tanto se descuidou
do marido que ele pereceu? Inocente não o sou,
já não o sou desde há muito tempo
e quanto à depravação, existe um pouco de verdade nisso
— muita verdade, até —embora não exactamente
como o povo pensará.
Devo segui-los — nada mais me resta a fazer no mundo.»
op.cit., p. 95
repelida por todos, como esposa que tanto se descuidou
do marido que ele pereceu? Inocente não o sou,
já não o sou desde há muito tempo
e quanto à depravação, existe um pouco de verdade nisso
— muita verdade, até —embora não exactamente
como o povo pensará.
Devo segui-los — nada mais me resta a fazer no mundo.»
op.cit., p. 95
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 57
... «ou melhor, pensaram em mim, sem dúvida,
pois foi por minha causa — pobre de mim! —
que perpetraram esse feito tão viril
quanto medonho;
a ideia faz-me estremecer. No entanto, pensaram
em mim somente em relação a eles próprios,
e não no que seria feito de mim.
Nisto, pensaram tão pouco como agora,
que jazem imóveis e sem cabeças, deixando
que eu resolva o que devo fazer!»...
op. cit., p.95
pois foi por minha causa — pobre de mim! —
que perpetraram esse feito tão viril
quanto medonho;
a ideia faz-me estremecer. No entanto, pensaram
em mim somente em relação a eles próprios,
e não no que seria feito de mim.
Nisto, pensaram tão pouco como agora,
que jazem imóveis e sem cabeças, deixando
que eu resolva o que devo fazer!»...
op. cit., p.95
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 56
— Oh! Deuses! Oh! Santos e grandes ascetas! Estou perdida!
Os dois homens, ambos ao mesmo tempo! Nada mais me resta!
Como puderam eles lutar com uma única espada?
Shridaman, esquecido de toda a sua sabedoria
e de toda a sua brandura, agarrou a espada
e decepou a cabeça de Nanda que então…
Mas não! Foi Nanda, que, por motivos
que me causam arrepios,
degolou Shridaman
que, então…
oh, não, não! Não quero pensar mais, de nada serve.
Uma coisa, porém, é clara: conduziram-se como selvagens
e nem por um momento sequer se lembraram de mim»...
op. cit., p. 94-5
Os dois homens, ambos ao mesmo tempo! Nada mais me resta!
Como puderam eles lutar com uma única espada?
Shridaman, esquecido de toda a sua sabedoria
e de toda a sua brandura, agarrou a espada
e decepou a cabeça de Nanda que então…
Mas não! Foi Nanda, que, por motivos
que me causam arrepios,
degolou Shridaman
que, então…
oh, não, não! Não quero pensar mais, de nada serve.
Uma coisa, porém, é clara: conduziram-se como selvagens
e nem por um momento sequer se lembraram de mim»...
op. cit., p. 94-5
dezembro 02, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 55
«Quando a infortunada Sita voltou a si, nada mudara.
Ficou agachada no chão, cheia de medo,
os dedos metidos nos cabelos,
olhando atónita as duas cabeças truncadas,
os corpos deitados um sobre o outro
e todo aquele sangue
que lentamente
se escoava.»
op. cit., p. 93
Ficou agachada no chão, cheia de medo,
os dedos metidos nos cabelos,
olhando atónita as duas cabeças truncadas,
os corpos deitados um sobre o outro
e todo aquele sangue
que lentamente
se escoava.»
op. cit., p. 93
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 54
«Sita ergueu os braços ao céu; os olhos quase lhe
saltaram das órbitas e, privada dos sentidos,
caiu prostrada no chão.»
op.cit., p. 93
saltaram das órbitas e, privada dos sentidos,
caiu prostrada no chão.»
op.cit., p. 93
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 53
«E a linda Sita desceu do carro,
os quadris coleando sob a saia envolvente
e dirigiu-se para o santuário.
Poucos segundos depois, deparou-se-lhe
o mais horrendo espectáculo.»
op. cit., p. 93
os quadris coleando sob a saia envolvente
e dirigiu-se para o santuário.
Poucos segundos depois, deparou-se-lhe
o mais horrendo espectáculo.»
op. cit., p. 93
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 52
«— É incrível, é quase intolerável — dizia a meia voz.
— Os homens são todos iguais, não se deve por
um acima do outro, pois não se pode contar
com nenhum deles.
Um vai-se e deixa-nos junto do outro,
a ponto de merecer não sei o quê;
e quando se manda o outro em sua procura
fica-se sozinha. Ambos mereciam
que eu tomasse as rédeas e fosse
sozinha para casa dos meus pais
e, assim, quando voltassem,
já não me encontrariam.
Fora disso apenas me resta ir atrás deles
e ver o que fazem. Não é de admirar
que, grávida como estou,
fique alarmada
com esta estranha conduta de ambos.
Vou agora mesmo chamá-los à ordem.»
op.cit., p. 92
— Os homens são todos iguais, não se deve por
um acima do outro, pois não se pode contar
com nenhum deles.
Um vai-se e deixa-nos junto do outro,
a ponto de merecer não sei o quê;
e quando se manda o outro em sua procura
fica-se sozinha. Ambos mereciam
que eu tomasse as rédeas e fosse
sozinha para casa dos meus pais
e, assim, quando voltassem,
já não me encontrariam.
Fora disso apenas me resta ir atrás deles
e ver o que fazem. Não é de admirar
que, grávida como estou,
fique alarmada
com esta estranha conduta de ambos.
Vou agora mesmo chamá-los à ordem.»
op.cit., p. 92
dezembro 01, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 51
«Entretanto, Sita, o sulco, aguardava,
sozinha, sob a coberta do carro.
O tempo parecia-lhe mais longo porque já não tinha
à sua frente nenhum pescoço que contemplar.
Naturalmente, nem sonhava com o que acontecia
àquele pescoço, enquanto ela se deixava,
pouco a pouco, vencer pela muito
vulgar sensação de impaciência.»
op. cit., p. 91
sozinha, sob a coberta do carro.
O tempo parecia-lhe mais longo porque já não tinha
à sua frente nenhum pescoço que contemplar.
Naturalmente, nem sonhava com o que acontecia
àquele pescoço, enquanto ela se deixava,
pouco a pouco, vencer pela muito
vulgar sensação de impaciência.»
op. cit., p. 91
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 50
«Assim falando, voltou-se para o corpo de Shridaman,
desprendeu o punho da espada dos dedos que já estavam
rígidos e, com os fortes braços, executou a sentença
que ele próprio acabara de pronunciar.
O corpo, para mencioná-lo em primeiro lugar,
caiu atravessado sobre o de Shridaman
e a ingénua cabeça rolou para perto
da cabeça do amigo, onde parou,
de olhos esbugalhados.
Também o seu sangue jorrou, a princípio, aos borbotões
e com grande violência, para depois deslizar vagarosamente
pelas calhas até à abertura da cova.»
op. cit., p.86-7
desprendeu o punho da espada dos dedos que já estavam
rígidos e, com os fortes braços, executou a sentença
que ele próprio acabara de pronunciar.
O corpo, para mencioná-lo em primeiro lugar,
caiu atravessado sobre o de Shridaman
e a ingénua cabeça rolou para perto
da cabeça do amigo, onde parou,
de olhos esbugalhados.
Também o seu sangue jorrou, a princípio, aos borbotões
e com grande violência, para depois deslizar vagarosamente
pelas calhas até à abertura da cova.»
op. cit., p.86-7
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 49
«Curvou-se, esboçando gestos desamparados em direcção às duas partes de Shridaman, sem saber qual das duas abraçar, a qual delas dirigir a palavra.
— Shridaman, querido amigo, que fizeste! Como conseguiste, por tuas próprias mãos e braços, realizar empreendimento tão difícil? Que se passou na tua alma, para te levar a isso! Oh! Desgraça! Oh! Desgraça! Dize, sou culpado? Sou, na verdade, culpado da tua morte, pelo simples facto de existir, senão também pelos meus actos? No entanto, que mais pode um homem fazer do que evitar agir? Fiquei calado o mais possível, para não me arriscar a que a minha voz parecesse meiga. Não disse palavras supérfluas nem a chamei pelo nome, quando lhe falava. Mas de que serve tudo isso, se fui culpado pela minha própria existência carnal? Devia ter ido para o deserto, como anacoreta, observando os preceitos mais rigorosos. Mas, em minha defesa, posso alegar que teria partido se tivesses falado. Porque nunca falaste, querida cabeça, antes de aí jazeres separada do corpo, quando ainda estavas sobre os ombros? Não falaste, agiste magnânima e cruelmente, mostrando-me como devo proceder. Certamente, não julgaste que eu te falharia, que os meus fortes braços hesitariam ante o feito que os teus delgados braços consumaram! Deveria, porventura, sair para contar-lhe o que fizeste e ouvir-lhe no grito de horror o júbilo secreto? Deveria seguir pelo mundo, com o nome enodoado, e deixar que o povo dissesse, como decerto diria: — Ali vai Nanda, o miserável; enganou o amigo e matou-o por cobiçar-lhe a mulher? Não, isso não! Nunca! Seguir-te-ei e que o eterno ventre beba o meu sangue junto com o teu.»
op. cit., p. 84-6
— Shridaman, querido amigo, que fizeste! Como conseguiste, por tuas próprias mãos e braços, realizar empreendimento tão difícil? Que se passou na tua alma, para te levar a isso! Oh! Desgraça! Oh! Desgraça! Dize, sou culpado? Sou, na verdade, culpado da tua morte, pelo simples facto de existir, senão também pelos meus actos? No entanto, que mais pode um homem fazer do que evitar agir? Fiquei calado o mais possível, para não me arriscar a que a minha voz parecesse meiga. Não disse palavras supérfluas nem a chamei pelo nome, quando lhe falava. Mas de que serve tudo isso, se fui culpado pela minha própria existência carnal? Devia ter ido para o deserto, como anacoreta, observando os preceitos mais rigorosos. Mas, em minha defesa, posso alegar que teria partido se tivesses falado. Porque nunca falaste, querida cabeça, antes de aí jazeres separada do corpo, quando ainda estavas sobre os ombros? Não falaste, agiste magnânima e cruelmente, mostrando-me como devo proceder. Certamente, não julgaste que eu te falharia, que os meus fortes braços hesitariam ante o feito que os teus delgados braços consumaram! Deveria, porventura, sair para contar-lhe o que fizeste e ouvir-lhe no grito de horror o júbilo secreto? Deveria seguir pelo mundo, com o nome enodoado, e deixar que o povo dissesse, como decerto diria: — Ali vai Nanda, o miserável; enganou o amigo e matou-o por cobiçar-lhe a mulher? Não, isso não! Nunca! Seguir-te-ei e que o eterno ventre beba o meu sangue junto com o teu.»
op. cit., p. 84-6
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 48
«Sabendo o que o esperava, devemos acompanhá-lo
através da sala de audiência, que percorreu
sem pressentimento algum, pelo vestíbulo,
onde ainda tudo ignorava, e, finalmente,
até ao seio da Mãe.
Ali, estacou cambaleante,
um abafado grito de horror nos lábios,
o amigo, rosto cor de cera, o turbante desfeito
na cabeça separada do tronco, enquanto o sangue
corria por muitos caminhos sinuosos, para a escura fossa.»
op.cit., p. 83
através da sala de audiência, que percorreu
sem pressentimento algum, pelo vestíbulo,
onde ainda tudo ignorava, e, finalmente,
até ao seio da Mãe.
Ali, estacou cambaleante,
um abafado grito de horror nos lábios,
o amigo, rosto cor de cera, o turbante desfeito
na cabeça separada do tronco, enquanto o sangue
corria por muitos caminhos sinuosos, para a escura fossa.»
op.cit., p. 83
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 47
«Nanda voltou-se resolutamente para a jovem mulher do amigo
e indagou: — Fazes alguma ideia dos motivos
que o levam a demorar-se tanto?
— Não posso imaginá-lo, Nanda — respondeu Sita, com a suave,
ritmada e melodiosa voz que ele tanto receara ouvir.
Também acrescentara, sem necessidade alguma,
o seu nome — outra coisa de que tivera medo.
— Vou dizer-te uma coisa, Nanda.
Devias ir à sua procura e ver o que está a fazer.
Não podemos esperar mais. É bastante estranho
que nos deixe aqui sentados, a perder tempo,
enquanto o Sol vai cada vez mais alto.»
— Está certo, vou buscá-lo — replicou Nanda
— Bastará lembrar-lhe a hora. Dizendo isto,
saltou da boleia e subiu ao santuário.»
op. cit., p. 81-2
e indagou: — Fazes alguma ideia dos motivos
que o levam a demorar-se tanto?
— Não posso imaginá-lo, Nanda — respondeu Sita, com a suave,
ritmada e melodiosa voz que ele tanto receara ouvir.
Também acrescentara, sem necessidade alguma,
o seu nome — outra coisa de que tivera medo.
— Vou dizer-te uma coisa, Nanda.
Devias ir à sua procura e ver o que está a fazer.
Não podemos esperar mais. É bastante estranho
que nos deixe aqui sentados, a perder tempo,
enquanto o Sol vai cada vez mais alto.»
— Está certo, vou buscá-lo — replicou Nanda
— Bastará lembrar-lhe a hora. Dizendo isto,
saltou da boleia e subiu ao santuário.»
op. cit., p. 81-2
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 46
novembro 30, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 45
«Deixemos agora as entranhas da caverna rochosa,
e voltemos ao ar livre, para junto dos dois que esperavam;
Shridaman manifestara o desejo de fazer apenas uma curta oração;
por que se demoraria tanto?»
op. cit., p.81
e voltemos ao ar livre, para junto dos dois que esperavam;
Shridaman manifestara o desejo de fazer apenas uma curta oração;
por que se demoraria tanto?»
op. cit., p.81
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 44
«Já de lábios exangues, rezou:
— Ó tu, que não tens princípio nem fim,
que existias antes da criação! O povo honra-te
com a imolação de inumeráveis criaturas,
pois a ti é devido o sangue,
a vida de todos!
Porque não hei-de obter a tua misericórdia
para a minha salvação, oferecendo-me a mim próprio,
em holocausto? Bem sei que nem assim poderei ficar livre
deste ego e não mais ser Shridaman, para quem toda
a volúpia não é mais do que perplexidade,
pois que não é ele que a desperta!»
Pronunciadas estas palavras,
ergueu a espada do solo
e separou do tronco a própria cabeça.»
op. cit., p. 76
— Ó tu, que não tens princípio nem fim,
que existias antes da criação! O povo honra-te
com a imolação de inumeráveis criaturas,
pois a ti é devido o sangue,
a vida de todos!
Porque não hei-de obter a tua misericórdia
para a minha salvação, oferecendo-me a mim próprio,
em holocausto? Bem sei que nem assim poderei ficar livre
deste ego e não mais ser Shridaman, para quem toda
a volúpia não é mais do que perplexidade,
pois que não é ele que a desperta!»
Pronunciadas estas palavras,
ergueu a espada do solo
e separou do tronco a própria cabeça.»
op. cit., p. 76
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 43
«Shridaman cravou os olhos cheios de místico terror
no semblante sinistro e feroz da Senhora da Vida
e da Morte, daquela que compele ao sacrifício.
O redemoinho dos braços arrastava-lhe os sentidos
num turbilhão de embriaguez.»
op.cit., p. 75-6
no semblante sinistro e feroz da Senhora da Vida
e da Morte, daquela que compele ao sacrifício.
O redemoinho dos braços arrastava-lhe os sentidos
num turbilhão de embriaguez.»
op.cit., p. 75-6
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 42
«No recinto escavado na rocha, Shridaman
atravessou a sala de audiência
dirigindo-se ao âmago do templo,
à matriz da grande Mãe.
Ao pé da escada, Shridaman estremeceu
e recuou titubeante. A figura de Kali era horrível.
Cercado por uma moldura de crânios e de mãos e pés decepados,
o ídolo sobressaía da parede de rocha viva. Adornavam-na
uma coroa resplandecente, e colares e cinto de ossos
e membros cortados, e os seus dezoito braços
formavam uma roda vertiginosa.
Ela brandia espadas e fachos ardentes.
Sangue ainda quente fumegava na taça feita de um crânio
que com uma das mãos levava à boca,
enquanto uma poça de sangue se estendia a seus pés.»
op. cit., p. 74
atravessou a sala de audiência
dirigindo-se ao âmago do templo,
à matriz da grande Mãe.
Ao pé da escada, Shridaman estremeceu
e recuou titubeante. A figura de Kali era horrível.
Cercado por uma moldura de crânios e de mãos e pés decepados,
o ídolo sobressaía da parede de rocha viva. Adornavam-na
uma coroa resplandecente, e colares e cinto de ossos
e membros cortados, e os seus dezoito braços
formavam uma roda vertiginosa.
Ela brandia espadas e fachos ardentes.
Sangue ainda quente fumegava na taça feita de um crânio
que com uma das mãos levava à boca,
enquanto uma poça de sangue se estendia a seus pés.»
op. cit., p. 74
novembro 29, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 41
«Obedecendo ao impulso do seu coração,
Shridaman exprimiu o desejo de parar
e prestar homenagem à Deusa.
«Voltarei dentro de poucos minutos.
— disse aos companheiros.
— Esperem aqui.»»
op. cit., p.73
Shridaman exprimiu o desejo de parar
e prestar homenagem à Deusa.
«Voltarei dentro de poucos minutos.
— disse aos companheiros.
— Esperem aqui.»»
op. cit., p.73
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 40
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 39
«Quando, finalmente, o dia rompeu, procuraram por todos os lados uma saída; ao atingirem a orla da selva, encontraram um estreito desfiladeiro entre rochedos e chegaram a um templo talhado na própria rocha»
op.cit., p.72
op.cit., p.72
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 38
novembro 28, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 37
«Sem luar, tendo apenas as estrelas para se orientar, entrou por um caminho que, daí a pouco, já não era caminho de espécie alguma mas uma vereda entre árvores, ainda assim ilusória e traiçoeira, pois a vegetação, tornando-se cada vez mais densa, transformava-se em cerrada floresta, onde logo se perdeu a senda pela qual podiam ter voltado.»
op. cit., p.72
op. cit., p.72
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 36
«A escuridão coadunava-se com os ânimos perturbados. Inconscientemente, projectavam no ambiente a confusão que lhes ia na alma — o que fez com que perdessem a direcção. Nanda esqueceu-se de guiar o zebu e o dromedário pelo atalho que, separando-se da estrada, levava à aldeia natal de Sita.»
op.cit., p.71
op.cit., p.71
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 35
«Viajavam, de preferência, nas trevas da noite ou melhor antes do amanhecer, evitando o calor opressivo do meio-dia, medida sensata, inspirada, no entanto, em outros motivos que não a sensatez.»
op.cit., p.71
op.cit., p.71
novembro 27, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 34
«Assim, em silêncio, prosseguiam a jornada,
mas a respiração dos três acelerava-se-lhes,
como se tivessem corrido.
Uma pessoa dotada de clarividência teria,
certamente, percebido a sombra
que sobre eles pairava
qual asa negra.»
op.cit., p.71
mas a respiração dos três acelerava-se-lhes,
como se tivessem corrido.
Uma pessoa dotada de clarividência teria,
certamente, percebido a sombra
que sobre eles pairava
qual asa negra.»
op.cit., p.71
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 33
«Foram num carro coberto, fechado por cortinas e puxado por um zebu e um dromedário. Nanda, servindo de condutor, ia sentado em frente do casal, as pernas pendentes balouçando. Os esposos permaneciam silenciosos, sentado atrás de Nanda, de tal modo que os seus olhares, quando dirigidos para a frente pousariam no seu pescoço; e assim faziam os da jovem mulher.»
op. cit., p.70
op. cit., p.70
novembro 26, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 32
«Seis meses decorreram desde que a mãe de Shridaman acolhera a linda Sita nos seus braços, na qualidade de filha e desde que esta concedera ao marido pleno gozo das delícias conjugais.
Passara o pesado Verão e, em breve, a estação das chuvas passaria também, quando, obtido o consentimento dos pais de Shridaman, os recém-casados combinaram com o seu amigo Nanda uma visita à família de Sita.»
op.cit., p.69
Passara o pesado Verão e, em breve, a estação das chuvas passaria também, quando, obtido o consentimento dos pais de Shridaman, os recém-casados combinaram com o seu amigo Nanda uma visita à família de Sita.»
op.cit., p.69
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 31
«Aqui advertimos o ouvinte, talvez levado pelo até agora
feliz desenrolar da narrativa, para que não se iluda
quanto ao seu verdadeiro carácter.»
op.cit., p.69
feliz desenrolar da narrativa, para que não se iluda
quanto ao seu verdadeiro carácter.»
op.cit., p.69
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 30
«Ali, entre beijos, gracejos e lágrimas, todos se despediram.
Nanda, que estivera a seu lado em todos os momentos,
foi o último a transpor o limiar da porta.»
op.cit., p.65
Nanda, que estivera a seu lado em todos os momentos,
foi o último a transpor o limiar da porta.»
op.cit., p.65
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 29
«Lá, novos ritos de bom augúrio se cumpriram, lá também caminharam em volta do fogo; ele deu-lhe cana-de-açúcar e deixou-lhe cair no regaço o anel nupcial. No banquete sentaram-se outra vez, cercados de parentes e amigos.
Depois de comerem e beberem, e após a aspersão de água de rosas e água do Ganges, foram acompanhados por todos os convidados até à alcova nupcial, que recebeu o nome de «aposento do par feliz», e onde se erguia o tálamo juncado de flores.»
op.cit., p.65
Depois de comerem e beberem, e após a aspersão de água de rosas e água do Ganges, foram acompanhados por todos os convidados até à alcova nupcial, que recebeu o nome de «aposento do par feliz», e onde se erguia o tálamo juncado de flores.»
op.cit., p.65
novembro 25, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 28
«E assim chegou o dia em que Sita, a de membros delicados, o corpo ungido de sândalo, cânfora e óleo de coco, ornada de jóias, cingida nas vestes nupciais, a cabeça envolta num vaporoso véu, fixou, pela primeira vez, os olhos no esposo que lhe fora destinado. Depois, em solene cortejo, num carro puxado por touros brancos, partiram para a sua aldeia e para junto da sua mãe.»
op. cit., p.64
op. cit., p.64
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 27
«O dia do casamento, escolhido conforme o conselho dos versados na interpretação dos signos celestes, aproximava-se. A fogueira nupcial foi feita sobre montes de bosta de vaca, no pátio da casa pertencente aos pais de Sita.»
op. cit., p.64
op. cit., p.64





















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