dezembro 16, 2012

Image in blog Sapere Aude!

«Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles. A gramática, com a sua mistura de regra lógica e de uso arbitrário, propõe ao jovem espírito um antegosto pelo que lhe oferecerão mais tarde as ciências do comportamento humano, o direito ou a moral, todos esses sistemas em que o homem codificou a sua experiência instintiva. Quanto aos exercícios de retórica em que éramos sucessivamente Xerxes e Temístocles, Octávio e Marco António, exaltavam-me; sentia-me Proteu. Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis.»                       


Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Lisboa, Ulisseia, 1981,  
p.34-5

dezembro 13, 2012


«O país, embora por vezes apresente um aspecto diferente, é em geral eriçado de florestas e cortado por horríveis pântanos, mais húmido do lado das Gálias, mais batido pelos ventos do lado em que a Germânia defronta quer o Nórdico, quer a Panónia. O solo, fértil em grão, recusa-se à cultura das árvores de fruto. O gado abunda, mas é quase sempre de pequena estatura, e mesmo os animais de trabalho não têm a corpulência dos nossos. Os germanos sentem-se orgulhosos por os possuírem em grande número; é a sua única riqueza, é o bem que mais estimam. Os deuses — Seria por bondade? Seria por cólera? Não me pronuncio — negaram-lhes a prata e o ouro; eu não ousaria contudo afirmar que na Germânia nenhuma mina exista que produza ouro ou prata; quem poderá ter a certeza disso? São menos sensíveis do que nós aos atractivos da posse ou do uso destes metais. Podem ver-se entre eles vasos de prata oferecidos como presentes aos seus embaixadores e aos seus chefes; não fazem mais caso deles do que se fossem de barro. Contudo, os que habitam mais próximos de nós apreciam para as transacções comerciais o emprego do oiro e da prata e conhecem certos tipos da nossa moeda, aos quais dão a sua preferência; os do interior, mais fiéis à antiga simplicidade, traficam por meio de trocas. Os outros gostam sobretudo das nossas moedas antigas e há muito conhecidas, aquelas cuja borda é dentada em forma de serra e que têm a efígie dum carro puxado por dois cavalos; mostram também mais gosto pela prata do que pelo oiro, não em consequência de qualquer predilecção, mas porque as moedas de prata são de um uso mais cómodo para homens que só compram objectos comuns e de pouco valor.»

Tácito, A Germânia,
Lisboa, Ed. Inquérito, Lda, pp.12-3

dezembro 10, 2012


«A fama destes dois grandes homens [Epaminondas e Pelópidas] atraia todos os aliados que, sem serem obrigados a isso por nenhuma ordem, nenhum decreto público, os seguiam em silêncio para toda a parte onde eles quisessem levá-los. É, com efeito, a primeira e a mais poderosa de todas as leis, esta lei natural segundo a qual todo o homem que tem necessidade de defesa reconhece como chefe aquele que é capaz de o defender. Os passageiros de um barco, quando o mar está calmo e estão num ancoradouro seguro, dizem mal dos pilotos; mas se se vêem ameaçados pela tempestade, fixam os olhos neles e depositam todas as esperanças no seu auxílio.»

Plutarco, Pelópidas e a supremacia de Tebas,
Lisboa, Ed. Inquérito Lda, 1939, p.49

dezembro 06, 2012


«A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minha primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas.»


Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p.34

novembro 21, 2012


[ a crise, a burguesia e a falsificação de obras de arte ]

«O pânico instalara-se de modo intolerável e chegava à Europa. Em Portugal, por exemplo, ainda não era, mas ia passar a ser chiquíssimo as classes dominantes dizerem coisa como «estamos outra vez tesos, filha», The Economist bem escrevia vingativamente they claim now everything was wrong before, e os compradores da véspera tinham pedido aos seus advogados que começassem a engendrar toda uma série de razões técnicas para não procederem ao levantamento e muito menos ao pagamento dos quadros licitados, por razões de austeridade, morigeração de costumes e preconceitos estéticos, e dizia-se mesmo que alguns maridos, que tinham investido forte , receavam voltar a perder completamente a ponta, o que era susceptível de lhes causar contratempos nada discipiendos, como se diz que já tinha acontecido aquando do vinte e cinco de Abril.
Também por cá havia indícios seguros de que a questão ia passar a ser a do real fake. Nas colunas sociais, as ladies da nossa melhor sociedade começavam a deixar-se fotografar torcendo o nariz aristocrático a umas borradelas gigantescas que as tinham extasiado havia algumas semanas apenas e tinham agora a bolinha vermelha da reserva já meia descascada e esquecida.»

:)

op.cit., p.272-3

novembro 15, 2012


«Oh, o hábito de nos aferrarmos ao que não existe. [ ]
Há uma questão a decidir. [ ] É uma questão bem chata, oh.
De um lado a vida toda; e do outro, o nada todo dela.»

Vergílio Ferreira, Nítido Nulo (1969),
Lisboa, Quetzal, 2012, p. 257.


novembro 07, 2012

E na sequência daquela surpresa, outra surgiu numa bela e singela história de um episódio de vida, onde a pesca desportiva ao longo do mar de Sesimbra e da Arrábida se cruza com um inesperado enamoramento numa loja da Rua Augusta; tudo na escrita airosa de Carlos Espírito Santo de Mello, na Lisboa dos anos cinquenta. :)



novembro 04, 2012

Surpreendeu-me ver um livro de Carlos Espírito Santo de Mello à venda, num escaparate do centro comercial de Via Catarina, no Porto, um autor do clássico Análise de Balanços, sua obra de escrita cristalina e escorreita sobre o tema universitário de economia que li e estudei há mais de cinquenta anos! Folheei o livro, editado em 2005 pela editora Civilização, a proprietária das livrarias Bulhosa, e encantou-me ver o meu apreciado autor debruçar-se sobre uma disciplina que hoje em dia parece ter poucos cultores e que sempre apreciei: a geografia huimana.

Mostro este excerto onde se denuncia a manipulação da verdade a que os interesses económicos submetem a  realidade dos povos, ocultando-lhes a causa e os causadores da sua miséria.


«Como em toda a África até à década de quarenta também na Etiópia, a alta imortalidade infantil tendia a manter estável a população. Para as mulheres africanas a perda de prole logo na primeira infância era um acontecimento de rotina pouco preocupante. Os sobreviventes eram cuidados e fontes de redobrado prazer. Esse método da natureza para manter estáveis as populações (e assegurar boa genética) parece rude face às bitolas de hoje. Surge, porém, uma questão pertinente: será preferível que uma criança morra pouco de pois de nascida — antes de poder sequer saber o que é a morte — ou ser salva para um subsequente falecimento lento e torturado numa curta vida de carência alimentar ou, ainda, como acontece a milhões no Subcontinente Indiano, viver os seus dias acorrentada ao local de trabalho?

Na Etiópia, não se punham tais dilemas. A meio do século XX, uma população estável e auto-suficiente era estimada em dezoito milhões.

Depois veio o dilúvio…
… da penicilina.

Reagiu tudo com entusiasmo:
— As mães, ao verem cinco, seis ou mais filhos a sobreviverem em vez dos habituais dois ou três.
— Os autoproclamados benfeitores e missionários desvanecidos com a resposta de Deus às suas preces.
— E as empresas farmcêuticas, essas, a engordar…

… e alguém fez contas ao custo e à logística, ainda que apenas de “alimentar” [ ], de todas as bocas em explosão? [ ]

E aconteceu que os 18 milhões de almas de 1950 deram origem a 36 milhões em 1981. Também aconteceu que aperfeiçoamentos farmacológicos fizessem já em 2004 os Etíopes ultrapassar os 72 milhões [ ]… o mesmo é dizer, de bocas.»                    
                    - - - - - - - // - - - - - - -

«Quanto precede leva mais cedo ou mais tarde à pergunta do porquê da relutância dos média em dar a importância devida aos factores populacionais. Neste particular a primeira coisa a tomar em conta é que a vasta maioria dos média no mundo ocidental é privada e por isso tem que, de algum modo aferir as saus exteriorizações com a motivação do lucro — essencial à sua própria existência. Ora a espectadores e ouvintes pouco interessam as progressões numéricas. Deleitam-se, sim, com as grandes corrupções, os ataques de bombistas suicidas, as crises de fome aqui, ou ali, sempre devida a grandes secas, pragas de gafanhotos ou inundações (mas não à sobrepopulação!) tudo com a correspondente filmagem de crianças esqueléticas, bem apontada ao âmago dos instintos maternos e paternos. A inexorável progressão dos números que tudo condiciona pois essa não tem conteúdo emocional.»

                  - - - - - - - // - - - - - - -

«Anos após a definição dos “direitos do homem” acrescentou a ONU um pronunciamento acerca dos “direitos das crianças”. Exigem elas vestuário, habitação, alimentos, educação e assitência médica. A utopia de ver generalizados estes direitos  é evidente para qualquer um que veja noticiários televisionados. Neste contexto, porém, seria de indispensável coerência acrescentar o direito a “não nascer, sempre que os cinco demais direitos não estivessem assegurados”. Esse claro direito de não vir ao mundo apenas para sofrer, resulta mais imperioso sempre que se torne evidente que nem um só dos cinco direitos enunciados esteja assegurado. A inacção culposa dos média face a esta realidade, bem como — mais evidente e gravoso — a oposição de entidades religiosas ao seu cumprimento, são obviamente atentados aos universalmente proclamados direitos da crianças.»
  
Carlos Espírito Santo de Mello, O que Os
Média Não Dizem, («The Media’s Taboo
— An Essay on Population Growth», 2001)
Porto, Civilização Editora, 2005, p.19-20; 290; 292.

novembro 01, 2012


No decurso de leituras avulsas dos filósofos sempre vi menorizada a filosofia de Aristóteles e da escolástica medieval.

Realmente, no liceu, a breve incursão pela Antiguidade Grega e pela silogística das proposições, logo era destituída pela subsequente exposição da doutrina dos racionalistas de seiscentos.

Descartes empalidecia o saber antigo com a sua magistral conclusão da existência do facto indubitável de haver pensamento — no que hoje se me afigura mais conforme à filosofia clássica do que o imaginava no liceu.

Pois, na verdade, era impossível a um jovem não ficar impressionado com a algebrização do espaço na deslumbrante geometria analítica de Descartes, e com a radicalidade da exigência do seu método de ordenar as ideias claras e simples, na condução do pensamento, independente do que os livros antigos ensinassem ou não, partindo do evidente até alcançar a certeza do conhecimento.

Sucedeu-me, contudo, uma surpresa serôdia quando há um ano vi nos escaparates da Bulhosa de Oeiras um livrinho com o preço de € 3.00, editado pela Guimarães Editores intitulado “Exaltação da Filosofia Derrotada” (1983) de autoria de Orlando Vitorino. Fiquei com curiosidade, comprei-o, trouxe-o para casa.

Ao lê-lo, tomei conhecimento, ao fim de tantos anos de leituras dispersas de filósofos, de uma argumentação séria e convincente em favor da tal filosofia derrotada, a clássica, de Aristóteles, invertida e desfigurada pela filosofia crítica de Kant, inábil suporte das diversas ciências modernas de autónomos “sectores” da realidade!

Hei-de tentar expor o que aprendi e apreciei nesta aprendizagem original de Aristóteles que sempre vi considerado quase ‘desactualizado’. Há argumentos em contrário. E mesmo no domínio da ciência económica, que me surpreenderam muito.

Como é possível Orlando Vitorino não ser comentado? Os excertos de Álvaro Ribeiro, em torno do “Estudos Gerais” do Trivium e do Quadrivium, achei-os deliciosos e situaram-me melhor no que foi o pensamento dos filósofos  siscentistas. Voltarei ao tema.


outubro 31, 2012


(continuação 20)

«Os verbos dialécticos cobrem a fecundidade ou infecundidade da cópula. Outros verbos, e outros modos, aqueles que designam os movimentos classificados e graduados pela evolução da ciência, demonstram que da relação entre o agente e o paciente algo de novo há-de surgir, o terceiro termo significativo.

As leis da ciência, quando perfeitamente traduzidas em altissonante linguagem humana, revelam a virtude, a força ou o poder do verbo. A cada verbo corresponde uma ciência, garantia intelectiva das actividades humanas, que são o jogo, a arte e o trabalho, foco iluminante das paixões humanas, que o estudioso regista nos livros de ética, de moral e de política.

Quando os termos ou extremos que circundam o verbo, na condição de agentes ou pacientes, deixam de ser imagens para ser conceitos humanos ou até para serem imagens divinas, o pensamento altera-se para ser científico, filosófico ou religioso.

O silogismo de quem pensa aventurosamente na relação com o incógnito, o oculto ou o misterioso, representa um aperfeiçoamento da arte de adivinhar. Esta arte é paradigmática da investigação científica. A procura de leis, causas e formas ainda não conhecidas realiza-se pela atenção prestada ao verbo.

Ante uma substância, um substantivo ou um ser, pergunta Aristóteles qual o movimento que lhe é próprio, qual a virtude que lhe é essencial. a virtude e a virtualidade exprimem-se por verbos em modos activos, e não já por particípios, adjectivos ou substantivos, conforme se lê nas proposições da gramática, retórica e dialéctica. [ ]

Depois da actividade própria vem a actividade específica, e dpois da específica a genérica. Nesta consideração ascendente é possível determinar, prever e adivinhar o comportamento futuro dos seres, ou pelo menos o comportamento normal, se não houver concorrência de causas que provoquem acidentes.

A lógica aristotélica, muito afastada já da gramática, da retórica e da dialéctica, escolhe os seus exemplos na física, na fisiologia e na cosmologia, reinos da experiência e da finalidade.»


Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.120-21.

outubro 29, 2012


(continuação 19)

«Tomada à letra, mal interpretada pelos comentadores gregos e conservada durante séculos pelos escolásticos, a doutrina do silogismo recaiu num desanimado esquematismo, de utilidade mnemónica, mas afastou-se do racionalismo formal.

A forma da necessidade poderá talvez ser a primeira, mas a forma da constância e a forma da casualidade também existem na situação modal e na gradação científica.

O silogismo expresso pelos verbos triviais, como ser, estar, ter, haver, etc., e restrito ao modo indicativo, exigido pela dialéctica, não cobre os aspectos contingentes da existência no espaço e no tempo.

Ora, sem determinação de espaço e de tempo não há existir, que é um modo de ser, nem há articulação lógica de um racicínio completo.

O silogismo aristotélico, para ser bem interpretado segundo a lógica formal, há-de incluir as noções de experiência e de finalidade. O silogismo não é uma equação. Se assim for, ressurgem as justas críticas de quantos dizem ser o silogismo inválido porque tautológico ou vicioso, fechado em círculo, inútil para a investigação.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.119-20.

outubro 23, 2012


(continuação 18)

«A aptidão para filosofar evidencia-se naqueles espíritos que, a propósito de tudo, se interrogam sobre as possíveis relações entre dois termos distantes. [ ] Não se aquieta o espírito filosófico perante a resposta negativa da ciência ou da ignorância. Ele aposta, postula ou jura que uma incógnita relação existe, enquanto espera pacientemente o momento de vê-la acrescentada ao quadro das funções intelectivas, ou efectivamente descoberta na realidade. [ ]

Em vez da disjunção dialéctica, a filosofia adopta a conjunção silogística, aproximando, associando, unindo dois termos que à primeira vista pareciam estranhos e, mais ainda, incompatíveis, quer dizer, incapazes de paixão e de acção.

Aludimos já, noutro lugar, à função da experiência na metodologia de Aristóteles. A união dos corpos, das imagens e dos conceitos, quando geratriz de um novo ser, representa adequadamente o que Aristóteles designou pela primeira vez por silogismo.

No primeiro dos livros analíticos, e também no primeiro livro de tópicos, Aristóteles define o silogismo em termos de posição e composição, ou sejam de tese e síntese, sem intermediário. A virtude criadora do intelecto activo depende do princípio de finalidade.

Enquadrada nas disciplinas triviais, na gramática, na retórica e na dialéctica, esta definição do silogismo esclarece-se pela distinção das duas premissas e pelas virtudes dos conceitos. A necessidade da conclusão não resulta da intervenção de um elemento exterior.

Distingue depois Aristóteles duas espécies de silogismos: aqueles que resultam de proposições acerca das quais não temos certeza, mas que servem para exercício dialéctico, retórico ou gramático, e aqueles cujas premissas já comprovadas, ou tidas por verdadeiras, concluem necessariamente a modo de demonstração científica.»

(continua)


Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.117-8.

outubro 19, 2012


(continuação 17)

«Fácil será ver, pelo estudo da história da filosofia moderna e contemporânea, que os quadros de categorias se restringem ao modo indicativo, tornando presente, fixo e eterno o verbo expressivo dos conceitos puros da ciência e dos métodos admitidos pela epistemologia.

A verdade não é, porém, o único valor que o filósofo está a inserir mentalmente na realidade que o surpreende; o pensador exprime e comunica; também são valores a beleza e a bondade.

Admite o filósofo que os conceitos puros da ciência tenham prioridade sobre os conceitos impuros da estética e da ética, prioridade e até função significativa; mas nunca admitirá um racionalismo simplista ou abstractivista que condene o segundo e o terceiro valor como indignos de figurar no quadro dos processos gnósicos e, portanto, no quadrívio complementar do ensino trivial.

A beleza da palavra humana, a eloquência, está portanto incluída nos domínios de arte de filosofar. [ ] A eloquência é uma indagação que tem por fim apresentar sensivelmente o insensível. Tornar audível, pelo ritmo musical, uma realidade inefável, é já uma arte cujo artifício se estuda na fonética, na métrica e na versificação. A poesia actua, porém, com palavras de significação insensível mas, digamos, sensibilizada por virtude da imaginação.

A verdade da poesia surge, porém, de mais alta sintaxe. Umas imagens alegorizam outras [ ]. O pensador substitui a imagem do mundo sensível, sempre fugaz e evanescente, por outra imagem mais actual, que universaliza a primeira, ou então pelo verbo que lhe confere perene verdade.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.113-5.

outubro 17, 2012


(continuação 16)

«A lei dialéctica de Fichte, com as suas três fases de tese, antítese e síntese, domina a cronologia de Hegel muito mais do que as categorias de quantidade, qualidade e relação.

Toda a perplexidade pensante se interroga sobre se os contrários foram postos antes do movimento, se os seres naturais e artificiais, ou históricos, estão realmente subordinados a essa tríade inflexível, ou se a transposição e conversão dos relativos em opostos e contrários não passa de ficção útil, mas inconforme com a descrição sincera do devir empírico e acidental.

A dúvida leva a perguntar se as alterações da mesma essência serão acidentes ou aparências, porque da alternativa depende o problema da substância.

A intelecção do movimento não é possível sem a consideração do móvel nas determinações de tempo e de espaço. O movimento é a noção primitiva, de que todas as outras parecem derivadas.

Assim, contrariamente à doutrina subjectivista de Kant, o espaço e o tempo, determinações objectivas, hão-de ser restituídas ao quadro das categorias, conforme a tradição aristotélica. Acontece, porém, que a sucessão e a localização, susceptíveis de medida, estão ocultas ou resumidas na categoria de quantidade.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.108-9.

outubro 13, 2012


(continuação 15)

«A substância mineral, ou elementar, corresponde ao reino do silêncio, sem vida de natureza. Com a planta fixa e com o animal movente representam-se-nos as palavras distintas mas necessariamente obedientes às suas leis. A palavra, substância do discurso, na sua identidade pode significar uma coisa, uma imagem ou um conceito cujas determinações são apreendidas pelos processos já descritos de distinção entre as aparências e as essências.

Substante, a palavra é sujeito de predicados, epítetos e atributos. Predicado significa o já anteriormente dito, o já sabido, o já classificado, pelo que a predicação tende a cair no pleonasmo e na tautologia. É o regresso incessante da retórica à mnemónica e à memória. O epíteto adjunta ou adjectiva qualidades externas ou superficiais. O atributo acentua propriedades internas, incógnitas, remotas. A atribuição procede sem certeza, pelo que é muitas vezes comparada à hipótese, mas a adjectivação exalta com evidência graciosa. Estas três operações mentais de classificação, análise e síntese mantêm estante, estático ou estável o sujeito idêntico no fluir do discurso.

A palavra representativa da coisa, da imagem ou do conceito, quando dotada de mobilidade, poderá ser transferida de casa para casa, ao longo de graduados tópicos ou de categorias agrupadas num quadro mnemónico, para maior facilidade das operações intelectivas. [ ]

As inferências imediatas e mediatas da retórica implicavam a noção de conceito, sem que o substantivo perdesse a sua identidade. Não assim no trânsito categorial, porque a mudança de ambiente põe à prova, ou à experiência, a extensão e a compreensão do conceito; [ ].

A deslocação da palavra e o trânsito do conceito, ao longo de estados, estádios e estações, de frases, metamorfoses e ciclos, de casas, classes e graus, foram sempre valorados pelos observadores, mas pelo caminho, ou método categorial, que é crónico e lógico, o pensamento científico alcança mais concretas determinações.»


(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.107-8.

outubro 11, 2012


(continuação 14)

«Correspondendo, assim, ao pessimismo dos homens que se encontram na crise da adolescência, idade que as exigências dos sociólogos prolongam para além do que seria normal e natural, a dialéctica moderna seduz e atrai quantos pensam em negação àquela realidade desconhecida, ou ainda não conhecida, que os espera na adulta idade.

Entre as leis do agir e as leis do pensar, inerentes e coerentes no conceito da Antiguidade, foi efectuada modernamente uma disjunção que tudo corrompe e que a dialéctica interpreta satisfatoriamente.

Ao adolescente afigura-se-lhe que toda a determinação é negação, segundo o célebre aforismo de Espinosa, que necessariamente conclui pela substância unitarista.

Enquanto lhe for vedado atingir a idade adulta, não entenderá o homem que a geração tem por finalidade o conceito, e que a determinação é, sem dúvida, o aspecto fenomenal da criação.

Entre o indicativo do ser e o imperativo do dever, existem os modos irreais ou ideais da arte, cujo verbo existe para completar, aperfeiçoar e redimir a natureza.»


Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.105-6.

outubro 07, 2012


(continuação 13)

«Hegel promove o regresso do modo imperativo ao modo indicativo, afirmando que a filosofia não se ocupa do dever ser, preocupada acima de tudo com o ser.

A preocupação escolástica de adunar o pensar com o ser conduz Hegel a escrever a última ontologia, mas também a prescrever ao pensamento um necessitarismo puro de qualquer influência da vontade (Fichte) ou do sentimento (Schelling).

Elimina, por isso, a categoria da modalidade, reduzindo de doze a nove os conceitos puros do intelecto que haviam sido propostos na tábua mnemónica de Kant. Os conceitos puros agrupam-se agora em novenas, ou enéadas, para usar a designação de Plotino.

Eis o quadro abstracto das tríades concretas que Hegel estudou na sua longa obra:

Quantidade: 1. tese 2. antítese 3. síntese
Qualidade: 4. tese 5. antítese 6. síntese
Relação: 7. tese 8. antítese 9. síntese

[ ] A filosofia alemã, representada agora por este ou aquele nome ilustre, de Kant a Hegel, [ ] atrai, como ponto de de referência ou como ponto de quietação, a actividade intelectual de todo o mundo culto. Não nos cumpre historiar os motivos, os processos e os êxitos [deste] domínio [ ]; pretendemos apenas mostrar que a cultura alemã, fixista pelo uso da mnemónica nos compêndios didácticos, aliás coerente com atribuir à memória a estrutura intelectual da humanidade, expande mecânicamente e propaga materialmente o seu normativismo temerário.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.104-5.

outubro 05, 2012


(continuação 12)

«O mundo das aparências, ou do que aparece à nossa sensitividade [ ] é um mundo subjectivo [ ] mas universalmente submetido pela actividade judicativa aos conceitos puros do intelecto. [ ] [a] tábua das categorias [ ] parece ter sido apenas constituída para facilitar a tarefa de coordenar e subordinar os fenómenos segundo leis e princípios. A tábua das categorias marca o limite da inquietação. Que não é possivel deslocar a fronteira establelcida entre os fenómenos e os númenos [ ]

A categoria da modalidade adverte-nos, porém, de que o propósito de Kant consistiu em estabelecer para a ética, a moral e a política, uma normatividade científica de grau superior ao da clássica retórica de Aristóteles, Cícero e Quintiliano. Ao modo indicativo do ser sobrepõe-se o modo imperativo do dever ser.

A liberdade humana, já diminuída em seus aspectos cognoscitivos, haveria de ser ainda limitada pela ciência do bem e do mal, segundo o quadro das categorias morais que aparece publicado na Crítica da Razão Prática. O imperativismo torna-se imperialista em consequência das suas pretensões universais, mudando o sinal teórico para sinal prático à inquietação humana, que utiliza a máquina, a mnemónica e a memória.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.103-4.

outubro 03, 2012



(continuação 11)

«A mais importante reforma do quadro das categorias, aquela que conseguiu pôr de lado a ordenação aristotélica e escolástica, foi levada a efeito por Immanuel Kant em consideração do sistema científico de Galileu, Kepler e Newton. [ ]

Depois de procurar cingir a estrutura universal do espírito humano nas obras que autores ingleses dedicaram ao mesmo escopo, nomeadamente Locke, Berkeley e Hume, concluiu Kant pela redução do espírito ao intelecto, cujas funções aparecem descritas nos conceitos puros que, por sua vez, se agrupam segundo quatro categorias.

Estas funções judicativas distinguem-se, portanto, das estruturas reais e dos objectos situados no mundo sensível. Para Kant, nem o espaço nem o tempo são categorias, como também não será categoria a substância.

O espírito humano atinge assim a sua quietação, não já numa dogmática de artigos de fé, que secretamente alimentem os anseios da alma, mas num quadro mnemónico, que transportará consigo para incentivar o progresso das ciências.

É fácil de reter a série descendente das quatro categorias: quantidade, qualidade, relação, modalidade, e fixar () a cada uma delas a tríade de conceitos puros, indispensáveis para objectivar as subjectivas intuições sensíveis.

Quantidade: Unidade / Pluralidade / Totalidade Qualidade: Realidade / Negação / Limitação
Relação: Substância / Causa / Reciprocidade
Modalidade: Possibilidade / Existência / Necessidade

Convém, no entanto, esclarecer que [o termo alemão begrieff significa realmente laço judicativo e não exactamente o termo conceito usado na tradução para várias línguas românicas que apela mais ao sentido semântico daquilo que foi concebido, o produto da mente, do mentar e até do mentir].

O [‘conceito’] de Kant («begrieff») não é um ente mental, dotado de extensão e de compreensão, mas um agrafe mnemónico indispensável à actividade que julga, reparte ou analisa os dados sensíveis, apresentações ou representações.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.100-103.


outubro 01, 2012


(continuação 10)

«Convém notar que a doutrina exposta no primeiro livro do Organon está demasiado referida aos problemas de gramática, retórica e dialéctica, pelo que se nos afigura demasiado contaminada por assuntos triviais. Se lermos, porém, os livros científicos de Aristóteles, nomeadamente a Física, veremos já a redução das categorias ao número conveniente para o objecto de estudo.

Com o renascimento da ciência pitagórica e platónica, e também com a subordinação da experiência às determinações de peso, conta e medida, facilitadas pelo progresso arábico das matemáticas, a noção de substância e a noção de categoria sofreram uma alteração verificável nos textos da filosofia moderna.

Acima da natureza, isto é, das leis do nascer e do morrer, foram situadas as relações inteligíveis cuja imortalidade substituía a dos deuses da mitologia antiga.

O pensamento filosófico foi obrigado a aceitar como padrão de necessidade a sequência das relações matemáticas, relações inteligíveis, substantes, existentes em si e para si.

A relação foi refutando a pouco e pouco a substância. Os sistemas filosóficos afirmavam-se relativistas na medida em que iam sendo fenomenistas, desistindo de designar a substância absoluta.»

(continua)

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais,
Lisboa, Guimarães Editores, 1961, pp.100-101.