dezembro 20, 2007



... na própria palavra «aparência»,
ligando-as às ideias de fulgor e beleza.

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 136

«Não é em vão que a cobiça, ardilosa esposa do Deus
do amor — não é em vão que esta Deusa foi chamada
«a favorita de Maya», pois é ela quem torna encantadoras
e desejáveis as aparências, ou melhor, que assim as faz parecer.

Aliás, o elemento da percepção sensorial
está contido na própria palavra «aparência»,
ligando-as às ideias de fulgor e beleza.»

op. cit., p. 159

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 135

naquele doce anseio de uma criatura por outra
que é, precisamente, primária de todo o apego,
de todos os emaranhados laços que prendem
e envolvem o homem, de todas as quimeras
com que a vida se nutre e que a impelem
à própria perpetuação.»

op. cit., p. 158-9


... a magia de Maya

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 134

«Em circunstância alguma, a magia de Maya
— sustentáculo do Mundo, lei fundamental da vida,
feita de ilusão, engano e fantasia, que escraviza
todos os seres — manifesta o seu poder
de modo tão soberano e tormentoso
como no desejo amoroso,

op. cit., p. 158


Pouco nos é concedido, muito nos é recusado

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 133

Pouco nos é concedido, muito nos é recusado,
e devemos contentar-nos com o que podemos obter.

A esperança de que o mais algum dia nos será concedido
é e será sempre um sonho. Um sonho paradisíaco.»

op. cit., p. 154

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 132

Compromissos, renúncias e resignação são a sorte comum.
Os nossos desejos são ilimitados, porém a sua realização
é estreitamente cerceada e moderada, o «se pudesse»
esbarra a cada momento no «não pode ser»»

op. cit., p. 153-4


Era com efeito, uma felicidade
como deve ser encontrada no Paraíso...



dezembro 19, 2007

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 131

«Era com efeito, uma felicidade como deve ser encontrada
no Paraíso, porém raras vezes sobre a Terra, pois as alegrias
terrenas, as satisfações que cabem à grande maioria dos mortais
sujeitos às múltiplas inibições e coacções de ordem moral e social,
são restringidas pela lei, pela piedade, pelas convenções sociais.»

op. cit., p. 153

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 130

«De regresso a Bem-Estar das Vacas,
Sita e Shridaman passaram os seus dias e noites
em pleno gozo dos prazeres dos sentidos e, a princípio
nenhuma sombra obscurecia o límpido céu da felicidade.»

op. cit., p. 153

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 129

«Quando Nanda já ia a pequena distância,
Sita correu para ele e, abraçando-o,
disse:

— Sê feliz! Afinal, foste o meu primeiro esposo,
acordaste-me para a vida e para o amor,
e se o conheço a ti o devo.

Diga o que disser o santo homem a respeito de mulheres
e cabeças, o fruto que trago no meu seio veio de ti!

Dito isto, correu para o robustecido Shridaman.»

op. cit., p. 150

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 128



«Assim se separaram, um dos outros dois.»

op. cit., p. 149

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 127

«Os outros dois não puderam censurar-lhe a resolução.
Concordaram com ele, embora se sentissem um pouco
deprimidos, e testemunharam-lhe a benevolência
que se costuma demonstrar a um homem
que perdera no contrato.»

op. cit., p. 148-9

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 126

«Abruptamente [Nanda] despediu-se dos outros.

— Muitas prosperidades — disse. — Quero
seguir o meu caminho. Procurarei um refúgio
para mim e far-me-ei eremita.»

op. cit., p. 148

dezembro 18, 2007



Deste modo, tinham agora o veredicto.

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 125

«— O que disse por último é que vale
— replicou o subjugador de desejos.

Deste modo, tinham agora o veredicto.»


op. cit., p. 148

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 124

«Foi a vez de Sita e de Shridaman erguerem as cabeças
e olharem jubilosos um para o outro.

Nanda, que ficara tão satisfeito, havia pouco,
observou desolado: — Mas antes disseste o contrário!»


op. cit., p. 148

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 123

«Depois falou:


«Esposo é quem dele a cabeça tem.
Como a mulher é a maior delícia,
a fonte da poesia,
Assim à cabeça entre os membros
cabe a primazia.»

op. cit., p. 147

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 122

«Mas isto é apenas a premissa — continuou o eremita,
elevando a voz. — Segue-se-lhe a conclusão
que a sobrepuja e ultrapassa,

para que a verdade arremate o silogismo.
Esperem um instante, peço.»

op. cit., p. 147

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 121

«Com um grito exultante, Nanda
pôs-se de um pulo sobre os finos pés.»

op. cit., p. 147

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 120

«— O julgamento — replicou o santo homem
— está praticamente pronunciado. ( )


No acto de casamento, estende-se à noiva
a mão direita: a mão, no entanto,
pertence ao corpo;

e o corpo é do amigo.

op. cit., p. 147

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 119

«— Mas nós também sabemos tudo isso por nós próprios,
grande Kamadamana — disse Nanda, com mal refreada
impaciência. — Queres ter a bondade de entrar

no assunto e dizer-nos quem é o esposo de Sita,
a fim de que, finalmente, fiquemos cientes e
possamos agir de acordo com o veredicto?»

op. cit., p. 146

dezembro 17, 2007

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 118

«— mas basta, tudo isso eu sei, de tudo estou informado…»

op. cit., p. 146


... um incitando o outro a mais completos arrebatamentos



o frescor das gémeas redondezas...


... ágil dorso coleante


... oh! pasto de amor!

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 117

«Das insaciáveis mãos, oh! pasto de amor!
Formosas ancas, ágil dorso coleante,
macio ventre docemente respirando,

o calor dos deleitosos braços,
as coxas tão felinas e atrás delas
o frescor das gémeas redondezas,

e tudo isso que, inflamado de luxúria,
delirante, se procura, se enlaça no escuro
tépido e ofegante, um incitando o outro a mais
completos arrebatamentos, até que se transportam
ao paraíso de estáticos deslumbramentos…
toda essa embriaguez e todo esse mel

op. cit., p. 146

... à procura dos ternamente estrelados seios


... a graciosa curva provocante dos ombros.


Sim, sim, já sei: o voluptuoso corpo adorado...


espalha uma fumaraça
que se poderia cortar à faca...

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 116

«— Uf! — fez ele. — Estava, naturalmente, preparado
para um conto cheio dos mais pungentes bafejos da vida.

Mas este que me contaram espalha uma fumaraça
que se poderia cortar à faca. Sim, sim, já sei:
o voluptuoso corpo adorado, profusamente
orvalhado de acerbo desejo; a graciosa
curva provocante dos ombros.

Nariz que fareja, boca ávida à procura
dos ternamente estrelados seios,
os ninhos das axilas humedecidas de suor.

op. cit., p. 145

dezembro 16, 2007

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 115

«— Sim, faz-nos saber isso, ó subjugador dos desejos
— exclamou Nanda em voz alta e confiante.»

op. cit., p. 145


E quem é, na verdade, o seu esposo?

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 114

«Finalmente, Shridaman chegou ao fim
e formulou a pergunta.

— Assim — disse — a cabeça do marido
foi posta sobre o corpo do amigo e
a cabeça deste no corpo daquele.

Condescende, portanto, ó Santo Kamadamana,
na tua sabedoria, em pronunciares-te
sobre a nossa confusa situação.

A quem pertence esta mulher,
formosa em todos os membros?
E quem é, na verdade, o seu esposo?»

op. cit., p. 144

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 113

«Narrou tudo com veracidade, como nós o fizemos,
e, em parte, com as mesmas palavras.

Para tornar claro o ponto litigioso, teria sido suficiente
contar apenas a fase final, mas Shridaman referiu tudo,
desde o princípio, exactamente como se passara.»

op. cit., p. 143

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 112

«Mandou que os hóspedes se sentassem,
o que fizeram com presteza e modéstia.


Cabendo a missão de narrador a Shridaman,
em virtude das qualidades intelectuais
que distinguiam a sua cabeça,

este iniciou o relato dos acontecimentos
que ali os haviam trazido,

expondo a desconcertante questão
que só podia ser solucionada

por uma terceira pessoa,
tal como um santo ou um rei.»

op. cit., p. 142


... porque há no trio uma mulher

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 111

«— Naturalmente, o meu primeiro impulso
foi enxotá-los dos meus domínios.

Os vapores da vida que de vocês se desprendem
oprimem-me o peito e abrasam-me as faces penosamente.


Mas estou disposto a suportá-los sobretudo
porque há no trio uma mulher cujas formas
os sentidos chamarão deslumbrantes:

esbelta e flexível como uma vinha,
de coxas roliças e túrgidos seios, oh sim!
Salve, ó mulher!

Ouvirei então a história, palavra por palavra, apesar
dos asfixiantes vapores da vida que me assaltarão.»

op.cit., p. 139-40

dezembro 15, 2007

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 110

«— Kamadamana, subjugador dos desejos
— respondeu Nanda, com a devida humildade
— perdoa a audácia dos que te procuram em desamparo!

Digna-te, ó touro entre os sábios, a dar-nos o teu parecer
e o teu inestimável conselho! Deparou-se-nos um problema
que nós próprios não podemos solucionar, de modo que
necessitamos da tua decisão e do teu julgamento.»

op. cit., p. 138


Que procurais no meu deserto?

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 109

«— Fora daqui! — berrou. Basbaques e vadios!
Que procurais no meu deserto?»

op. cit., p. 138

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 108

«De longe, aperceberam-lhe a cabeça branca como a cal,
com os cabelos entrançados, e os braços semelhantes
a galhos mortos, erguidos aos céus, a emergirem
de uma pantanosa poça em que se mantinha
de pé, concentrando no espírito
toda a vida das células.»


«Tiveram que esperar uma boa hora,
a respeitosa distância do charco,
antes que ele dali saísse,
inteiramente nu,

escorrendo lama da barba e dos pêlos do corpo.
Ao aproximar-se do grupo que se mantinha à sua espera,
ameaçou-os, brandindo a vassoura.»

op. cit., p. 137-8


Kamadamana, o subjugador dos desejos.


Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 107

«Não foi fácil aos peregrinos, viajando de solidão em solidão,
informar-se do caminho que os levaria até junto de
Kamadamana, o subjugador dos desejos.»

op. cit., p. 135

dezembro 14, 2007



a floresta de Dankala, reverdecida pelas chuvas...

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 106

«Ao terceiro dia, alcançaram a floresta de Dankala,
reverdecida pelas chuvas e densamente povoada
de santos homens, proporcionando a cada um
o almejado isolamento e um austero retiro
inteiramente solitário.»


op. cit., p. 135

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 105

«Estabelecido o acordo neste ponto,
deixaram o templo e voltaram ao carro,
ainda parado no desfiladeiro.»

op. cit., p. 131

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 104

«— Compreendo — disse Shridaman — que estamos
em presença de um problema objectivo que não pode
ser solucionado por nós três, mas, somente,
pela sabedoria alheia.

Concordo, portanto, com a sugestão.»

op. cit., p. 130

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 103

«— Se é assim — disse Nanda, após
um momento de silencio e de perplexidade,
e se Sita não pode decidir ou escolher entre nós,

então a decisão deve vir de um terceiro.


Travei conhecimento com um homem
experimentado na mortificação que vive
na floresta de Dankaka.


Procuremos esse sábio, contemos-lhe
a nossa história e ele que decida
qual de nós é esposo de Sita

e que a sua palavra prevaleça.»

op. cit., p. 129


... e partiram-me o coração



Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 102

«—Não posso — soluçava. — Não me obrigues a decidir. Sou apenas uma fraca mulher e isso está acima das minhas forças. A princípio, tudo parecia muito fácil e por mais que me envergonhasse do meu engano, senti-me feliz, sobretudo quando vi ambos também felizes. Mas as palavras que pronunciaram perturbaram-me a razão e partiram-me o coração, de modo que uma metade se levanta contra a outra, como vocês se levantam um contra o outro.»

op. cit., p. 128

dezembro 13, 2007



... ocultou o rosto nas mãos e chorou.

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" 101

«Perturbada, Sita olhava ora um, ora outro.
Depois, ocultou o rosto nas mãos e chorou.»

op. cit., p. 128

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 100

«— Não — disse Shridaman — não esperava isso de ti.
Porém, não há razão nem propósito em prolongar a discussão.
Aqui está Sita. A ela cabe dizer a quem pertence e ser o árbitro,
tanto da nossa como da sua própria felicidade.»

op. cit., p. 127-8


és egoísta...

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 99

«— És egoísta. Compreendeste-me mal. Não me refiro
a este corpo de esposo que me é recente e sim à minha
própria cabeça que tu mesmo consideras decisiva
e que me caracteriza como Nanda.

Sita, ultimamente, quando a mim se me dirigia
— falando naquela voz doce e maviosa que receava ouvir,
com medo de responder no mesmo tom — olhava-me
o rosto e chamava-me «Nanda», «querido Nanda».

Naquele momento parecia desnecessário mas, agora,
reconheço que era de alta significação espiritual.

Agora, tenho não somente a cabeça e os olhos
que ela tão ternamente sondava,
mas também o corpo do esposo

— e a situação está, portanto,
fundamentalmente alterada
em favor de Sita e no meu.»

op. cit., p. 126

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 98

«— Deveras? — replicou Shridaman, com a voz
levemente trémula. — Não teria ousado afirmá-lo,
quando o teu actual corpo ainda era meu e dormia
ao lado de Sita. Pois não era esse corpo a quem
realmente ela abraçava, como soube para meu
próprio sofrimento, ao ouvi-la murmurar em sonho.
Ao contrário, era aquele a que chamo agora meu.»

op. cit., p. 125

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 97

«— Nem eu tão-pouco estou ressentido contigo, Sita.
Sempre almejei possuir um corpo fino como este.

Uma coisa, no entanto, devo dizer:
a minha pobre cabeça não se pode eximir a pensar
no corpo que lhe coube e salvaguardar-lhe os direitos,

[pelo que] Sita, a das lindas curvas,
é minha esposa e o seu fruto
foi engendrado por mim.»

op. cit., p. 124

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 96

«— Se Nanda — disse Shridaman — não se envergonhar
do corpo que lhe coube, só posso afirmar
que me julgo o mais feliz dos homens.

Sempre desejei possuir um físico como este.»

op. cit., p. 122

dezembro 12, 2007



... ela tivera razão em dirigir-se aos
amigos ressuscitados de acordo
com as cabeças

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 95

«Duas coisas se tornaram imediatamente claras.
Primeiro, que ela tivera razão em dirigir-se aos amigos
ressuscitados de acordo com as cabeças; segundo: era
evidente que nenhum deles estava ressentido com Sita,
pelo contrário ambos encontravam, na verdade,
grande prazer na sua nova aparência.»

op. cit., p. 121-22

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 94

«Rivalizando em magnanimidade,
os dois jovens transformados curvaram-se,
levantaram-na, um com os braços do outro
e os três ficaram enlaçados, chorando e rindo.»


op. cit., p. 121

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 93

«Dizei-me, estão desesperados com a maneira como se operou
a ressurreição de ambos, e amaldiçoar-me-ão eternamente?

Se assim for, levarei a efeito o acto em que fui interrompida
por Aquela que existiu antes dos tempos.

Ou estão inclinados a perdoar-me?»

op. cit., p. 121

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 92

«Pensem que estive prestes a estrangular-me
e que tive um colóquio com a Inacessível
e lhe ouvi a voz de trovão,

o que me privou quase dos sentidos!


Tudo me girava em torno. Mal distingui
qual cabeça e quais membros tinha entre mãos
e pude apenas confiar na sorte.

op. cit., p. 120

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 91

«— Perdoem-se se puderem! — gritou.
— Oh! Têm que perdoar-me!

Lembrem-se do horrível feito que, sob as formas anteriores,
ambos perpetraram e do desespero a que fui levada.

op. cit., p. 120

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 90

«A excitação com que agiste é compreensível,
mas não podias ter aberto os olhos um pouco mais?
Tu colaste em cada um a cabeça do outro.

A cabeça de Nanda ao corpo de Shridaman
e a cabeça de Shridaman ao copro de Nanda.

Enfim, estão de pé, diante de ti,
não o esposo e o amigo,
na ordem respectiva,
mas misturados.

Que situação!

Tudo consequência da excessiva precipitação!»

op. cit., p. 118-19

dezembro 11, 2007



Sita, que fizeste? Que aconteceu?

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 89

«Com as cabeças no seu lugar, sem sinal nem cicatriz,
ergueram-se diante dela os dois jovens.

Olharam-na e depois olharam-se a si próprios.
Sita, que fizeste? Que aconteceu?»

op. cit., p. 117-8

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 88

«Atravessou quase sem respirar a sala da audiência
e a antecâmara, até ao santuário; aí, ante a hedionda
imagem da Deusa, empreendeu, trepidante de febril energia,
a tarefa prescrita. A atracção entre cabeças e troncos dava tempo
para que o sangue pudesse refluir pelos sulcos,

o que se fez com mágica rapidez.»

op. cit., p. 117

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 87

«A linda Sita nada mais disse, nem mesmo «obrigada»;
partiu direita ao templo, correndo tão depressa
quanto lho permitiam as vestes envolventes.»

op. cit., p. 117

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 86

«Toma as duas cabeças pelos cabelos e ajusta-as novamente
aos pobres troncos. Não aproximes as cabeças dos corpos
muito rapidamente. É preciso dar tempo ao sangue
para refluir e ser absorvido. Anda, corre!
Mas faz a coisa com acerto. Vai, anda!

Se esperas até amanhã, será demasiado tarde.»

op. cit., p. 113

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 85

«— Compadeço-me de ti, embora não o mereças,
bem como da pálida e cega semente do teu ventre.

Também me compadeço dos dois jovens que estão lá dentro.
Por isso, aguça os ouvidos e escuta o que te digo!
Larga essa trepadeira e volta ao templo.
Nada de desmaios ou de hesitações!
Ouviste?

op. cit., p. 113

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 84

«— Ah! Santa Deusa e Grande Mãe! — exclamou Sita.
— Se pudesses fazer isso! Se pudesses anular
estes feitos tremendos e devolver-me
o esposo e o amigo

para que tudo fosse como dantes
— como te abençoaria!»

op. cit., p. 112

dezembro 10, 2007

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 83

«Sinto-me pouco inclinada a receber-lhes o sangue
e aceitar a oferenda. Pois bem, se eu agora ressarcir
o duplo sacrifício e reconstituir tudo como era,

posso esperar que te comportes
com mais decência
no futuro?»

op. cit., p. 112

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 82

«Proíbo-te que pronuncies tais palavras,
ainda que talvez alguma verdade haja nelas.

Porquanto estamos em presença de um acto determinado
por motivos confusos, não sendo, em consequência, muito claro.

op. cit., p. 111

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 81

«— Tu não passas de uma tola desmiolada
— disse a Deusa, em voz trovejante.

Preparas-me esta atrapalhação e, ainda não contente,
dizes-me toda a espécie de desaforos, querendo insinuar
que os meus filhos não se imolaram para que o seu sangue
afluísse ao meu altar.

op. cit., p. 110

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 80

«Depois, Nanda foi à procura dele e,
não querendo aceitar-lhe o sacrifício,
separou a própria cabeça dos seus membros.

E inútil ficou a minha vida. Estou, também,
praticamente privada de cabeça, sem esposo nem amigo.»

op. cit., p. 110


... que pudéssemos viver os nossos dias
em pleno gozo da carne.

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 79

«Em tais circunstâncias, Mãe do Mundo,
empreendemos a viagem de visita a meus pais,
e, desviando-nos do caminho certo, chegámos à tua casa.

Shridaman, no teu altar de sacrifícios,
despojou a sua venerável cabeça dos membros,
abandonando-me à miserável condição da viuvez.

Fez este sacrifício a mim e ao amigo,
para que pudéssemos viver os nossos dias
em pleno gozo da carne.

op. cit., p. 109

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 78

«Nem Nanda tão-pouco; não porque não se sentisse tentado,
pois certamente o estava; podia mesmo jurar que terrivelmente!
Mas, na sua invencível lealdade para com o amigo, resistiu à tentação
e eu, também — crê-me. Mas o resultado foi que fiquei sem marido
algum e que passámos os três a viver num penoso estado de renúncia.

op. cit., p. 109

dezembro 09, 2007



Tirei esta conclusão da sua melancolia
e do seu afastamento...

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 77

«Assim descobriu Shridaman que eu rompia os votos
nupciais nos seus meigos braços. Magoei-o cruelmente.
Tirei esta conclusão da sua melancolia e do seu afastamento
— pois, desde então, nunca mais me tocou.

op. cit., p. 108-9

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 76

«Eis porque, quando Shridaman se aproximava de mim,
durante a noite, eu empalidecia com o desgosto
de que fosse ele, e não o outro, e fechava
os olhos para poder imaginar
que Nanda me abraçava.

Cheguei a ponto de não conter o meu ardor
e de murmurar o nome daquele que eu desejava
me tivesse despertado.


op. cit., p. 108

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 75

«Quando o seu braço roçava o meu, a pele arrepiava-se-me
de prazer. Quando pensava nas suas magníficas pernas e o via
andar e movê-las, imaginava como me apertariam no jogo do amor
e os meus seios palpitavam de anseio. Cada vez me parecia mais belo.

Já não compreendia como fora possível que, ao vê-lo na festa do Sol,
tivesse ficado adormecida e insensível.

op. cit., p. 107-8

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 74

«Como era possível afastar Nanda dos meus pensamentos,
se permanecia sempre diante da minha vista?

Costumava contemplar-lhe o peito, os seus quadris estreitos
e as suas nádegas tão pequenas, a par das minhas tão grandes
— e perdia o domínio de mim própria.

op. cit., p. 107


a ideia de que a voluptuosidade lhe conviria...

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 73

«A curiosidade que Nanda me despertava, a ideia
de que a voluptuosidade lhe conviria,
tanto à cabeça como aos membros;

que talvez fosse o homem capaz de elevar o meu prazer
à altura dos meus desejos — cravara-se-me na carne
e na alma como o anzol na boca do peixe,
e não a podia arrancar, pois o anzol
era farpado.

op. cit., p. 107

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 72

«Entretanto, eu via constantemente o nosso amigo Nanda.


Não o via, apenas, olhava-o como o matrimónio me ensinara
a ver e a olhar os homens; e, nos meus devaneios e sonhos,

insinuava-se a pergunta: que faria Nanda,
como procederia ele a divina união
em lugar do meu marido?

op. cit., p. 106

dezembro 06, 2007

Thomas Mann, As cabeças trocadas - 71

«O amor carnal não convinha ao meu esposo,
nem à sua cabeça, nem ao seu corpo o qual,
afinal de contas, concordarás,
é o factor essencial.

O corpo que além jaz, tão lamentavelmente separado da cabeça,
não sabia consumar os ritos do amor de modo que
todo o meu coração a eles se prendesse.
É verdade que me despertava desejos
mas não os sabia aplacar.

op. cit., p. 106

Thomas Mann, As cabeças trocadas - 70

«Ah! Deusa todo-poderosa, não sou tão vil que não quisesse
ao meu senhor e esposo e mais ainda que não o honrasse
e temesse. Mas, apesar de todo o respeito devido,
involuntariamente perguntava a mim própria
se ele era, realmente, o homem indicado
para me fazer mulher e instruir
a minha virginal ignorância

nos doces e terríveis mistérios do amor.

op. cit., p. 105

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 69

«Estava sempre perto; antes do casamento, durante as bodas,
quando demos a volta à fogueira — e também depois.

Naturalmente, não estava de noite, quando eu dormia
com o seu amigo Shridaman, o meu esposo, nem
quando nos unimos pela primeira vez,
sobre o leito juncado de flores.

op. cit., p. 104-5

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 68

«Mais tarde, voltou e pediu-me em casamento para
o seu amigo Shridaman, e os nossos pais consentiram;
talvez a infelicidade começasse naqueles dias em
que Nanda me cortejou em nome do outro
que deveria abraçar-me como esposa
e a quem ainda não conhecia.

Só via Nanda junto de mim.

op. cit., p. 104

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 67

«Certo dia, veio de Bem-estar das Vacas
um jovem de nariz chato e olhos negros.

O seu corpo tinha a pureza das estátuas
e chamava-se Nanda; balouçou-me em louvor do Sol,
na festa da Primavera, mas nenhum ardor me despertou.

op. cit., p. 104

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 66

«A linda Sita, desfeita em pranto, respondeu:
— Ah! Sagrada Mãe, reconheço e confesso
a minha culpa, mas que podia fazer?

Foi um infortúnio, uma desgraça,
o cúmulo da má sorte que me fez casar,
sendo uma jovem esbelta, arredia e ingénua.

op.cit., p. 103

dezembro 05, 2007



Realmente, só uma mulher...

Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 65

«— Absurdo! Realmente, só uma mulher podia dizer
semelhante disparate. Ofereceram-se-me,
em espontânea dádiva, um após outro,
por viril piedade, ouviste?

Mas, por que o fizeram?»

op. cit., p. 103


e, com a mesma espada...