julho 31, 2013

Sá de Miranda


À SEPULTURA DE UMA DAMA

De quão pouca terra satisfeita jaz
a que toda ela a não merecia,
aquela que, triste ou leda, como ia,
assi punha tudo ou em guerra ou em paz.
Levou-no-la a morte cruel que desfaz
as maiores cousas com maior presteza.
Ah, morte! Ah, mundo! A tua riqueza
de quão pouca terra satisfeita jaz!



Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 75

julho 29, 2013

Sá de Miranda


Antre temor e desejo,
vã esperança e vã dor,
antre amor e desamor
meu triste coração vejo

Nestes extremos, cativo
ando, sem fazer mudança;
e já vivi d’esperança
e agora de choro vivo.
Contra mi mesmo pelejo,
vem d’ua dor outra dor
e dum desejo maior
nace outro moor desejo.


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 74

julho 27, 2013

Sá de Miranda


AO AMOR E À FORTUNA

Amor e Fortuna são
dous deuses que os antigos
ambos os pintaram cegos;
ambos não seguem razão;
ambos aos mores amigos
dão mores desassossegos;
ambos são sem piedade;
ambos não lhe tomais tino
do querer ou não querer;
ambos não falam verdade;
Amor é cego minino,
Fortuna é cega mulher.


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 71

julho 23, 2013

Sá de Miranda


Fuye el tiempo, está el mal quedo,
pensé morirme, y no muero;
desengañarme no quiero;
quando ya quiero, no puedo.

Todo se me va en antojos,
en esta prisión escura;
cuitados de los mis ojos
que pagan tanta locura!

De todo me pide el miedo
lágrimas como de fuero:
de lo que puedo y no quiero,
de lo que quiero y no puedo.

Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 64

julho 21, 2013

Sá de Miranda


               (CANTIGA FEITA NOS GRANDES CAMPOS DE ROMA)

Por estes campos sem fim,
onde a vista assi se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende?

Todos estes campos cheos
são de saudade e pesar,
que vem pera me matar
debaixo de céus alheos.
Em terra estranha e em ar,
mal sem meo e mal sem fim,
dor que ninguém não entende,
até quão longe se estende
o vosso poder em mim!

Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 61

julho 19, 2013

fiama hasse pais brandão

VITA  BREVIS  II

Temo que estes cristais se estilhacem
e que alguma mão lentemente se insinue
no pêndulo do relógio de pé. E contudo
não devemos amar as coisas com gratidão
porque elas nos não foram dadas realmente
nem delas vivemos, no profundo amor.
Nem qualquer coisa nos pode desprender
do futuro, que vem não obstante as coisas
decaídas. Ficamos sempre livres
depois da perda delas. Isentos, depois
de abandoná-las. Nós mesmo bendiremos
o ladrão de coisas que nos salva
da angústia de termos mais do que o desejo.

fiama hasse pais brandão, inédito
in Revista Ler, Abr.2013

julho 17, 2013

fiama hasse pais brandão


APONTAMENTO EM SOFIA
AO VER ABRIR A PORTA
DA IGREJA ARMÉNIA

Em Sófia, na igreja arménia, os responsos
cantados ao fim da tarde tombam
da boca sombria de mulheres inclinadas
como estátuas e de repente os agudos
irrompem através da espessura da cor
das vozes e dos madeiramentos,
tal como a luz abriu no portal
um caminho duplo para a alma.

fiama hasse pais brandão, inédito
in Revista Ler, Abr.2013

julho 15, 2013

fiama hasse pais brandão




CORPO MORTAL

Estou a tocar o papel com o extremo
da mão, em garatujas marco
a minha letra. Vou gradualmente ser
consubstanciada no ente de papel.

fiama hasse pais brandão, inédito
in Revista Ler, Abr.2013

julho 13, 2013

fiama hasse pais brandão



UM PALITEIRO ANTIGO

Mudo-me, seguindo o pequeno objecto
que escolhe o seu lugar. Uma ave
de prata com o longo bico bífido.
Já perguntei a poetas o que é.
Um objecto que, ao fim de tantos anos,
mantém lugar e uso, ele é apenas
uma forma luxuriosa da matéria

fiama hasse pais brandão, inédito
in Revista Ler, Abr.2013

julho 11, 2013

Inês de Castro

  


Ainda a rainha depois de morta

Arranca corações, esse punho cruel
que vem fustigando a história
dos amantes e chega até aos púlpitos, tronos,
e matérias de arte.

Na pedra burilada, os anjos muito agudos
pecam por desvelo.
Nas naves ressoa o bramar enroaldo em raiva
da realeza sepulta:
eu amei-a viva, vocês venerem-na morta.

Foi um punho cruel.
Talvez houvesse um sexo absoluto em tanto movimento
de ouro, brocado,
soluços ébrios de temor ou de outra natureza
mais embevecida.

A história neste caso é sedutora:
traz o poder ao sol de uns seios, à luz de uma vagina,
abre a flor dos sentidos, desfeita
a golpes de espada,
de traição.

Aqui neste frio erguido ao redor das naves
a matéria humana
que percorre viva a tarde histórica
tem pressa de fugir
ao pesadelo:
o amor não mata, ninguém o assassina,
é ele e só ele que se expõe
já morto.

Resumo — a poesia em 2012, poemas
escolhidos por Armando Silva Carvalho,
José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós,
Manuel de Freitas, ed. Documenta,
15 anos fnac, Lisboa, 2013, p.58

julho 09, 2013

Sá de Miranda






















Toda esperança é perdida,
tudo veo a falecer,
e o que fica da vida,
ficou para m’eu perder.

Aquela esperança minha,
assi falsa e vã como era,
co’os que eu nela tinha
a todo o mal me atrevera.
Ora, ela é toda perdida;
mas não m’hão-de fazer crer
que não há mais nesta vida
senão nascer e morrer!


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 60

(img in Poetas Apaixonados)

julho 07, 2013

Sá de Miranda

Ó meus castelos de vento
que em tal cuita me pusestes,
como me vos desfizestes!

Armei castelos erguidos,
esteve a fortuna queda
e disse: Gostos perdidos,
como is a dar tão grâ queda!
Mas, oh! fraco entendimento!
em que parte vos pusestes
que então me não socorrestes?

Caíste-me tão asinha,
caíram as esperanças;
isto não foram mudanças,
mas foram a morte minha.
Castelos sem fundamento,
quanto que me prometestes,
quanto que me falecestes!


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 59

julho 04, 2013

Plutarco


«Aqueles que, pela idade ou pelo vigor, são chamados à profissão das armas «recebem do Estado um soldo que chega para se sustentarem. Quis, pois, que a «classe do povo que não presta serviço militar e vive do seu trabalho tivesse «também a sua parte nesta distribuição dos dinheiros públicos; mas, para «que ela não se tornasse o prémio da preguiça ou da ociosidade, empreguei «estes cidadãos na construção de vastos edifícios onde toda a espécie de «artistas encontrará em que se ocupar, por muito tempo.

«Assim, aqueles que continuam em suas casas terão um meio de colher, «das receitas da república, o mesmo auxílio que os marinheiros, os «soldados e os que são encarregados da guarda das fortalezas.

«Comprámos a pedra, o bronze, o marfim, o oiro, o ébano, o cipreste; e «inúmeros operários, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, canteiros, «tintureiros, ourives, ebanistas, pintores, bordadores, torneiros, estão «ocupados em trabalhá-los.

«Os comerciantes marítimos, os marinheiros e os pilotos conduzem por mar «uma quantidade imensa de materiais; os almocreves, os carroceiros, «levam-nos por terra; os carpinteiros de carros, os cordoeiros, os que «arrancam a pedra, os albardeiros, os calceteiros, os mineiros, exercem, à «porfia, a sua indústria.

«E cada ofício tem ainda, como um general do exército, às suas ordens, um «grupo de trabalhadores sem profissão determinada, que são como um «corpo de reserva e que ele emprega como auxiliares.

«Assim, todas as idades e todas as condições são chamadas a compartilhar «na abundância que estes trabalhos espalham por toda a parte.»

Plutarco, Péricles, Reformador de Atenas (429 a.C.),
Trad. A- Lobo Vilela, Lisboa, Ed. Inquérito Lda, p.30-31

julho 02, 2013

Plutarco


 Dracma de prata ateniense. A coruja é um animal associado a deusa Atena
e personifica a sabedoria. Os dracmas atenienses se tornaram
uma poderosa moeda no mundo grego. 


«Péricles, por seu turno [argumentando contra os seus opositores], mostrava aos atenienses que não tinham que prestar contas aos aliados do dinheiro que deles recebiam.

«Nós combatemos, dizia ele, em sua defesa, e afastamos-lhes os bárbaros «das fronteiras; eles não fornecem para a guerra n em cavalos, nem «galeras, nem soldados; contribuem apenas com dinheiro que, uma vez «pago, não pertence mais àqueles que o entregam, mas sim aos que o «recebem, os quais não são obrigados senão a cumprir as condições que se «impõem recebendo-o. A cidade, abundantemente provida de todos os «meios de defesa que a guerra exige, deve empregar estas riquezas em «obras que, depois de concluídas, lhe assegurem uma glória imortal. «Oficinas de toda a espécie postas em actividade, o emprego e a fabricação «de uma quantidade imensa de matérias que alimentam a indústria e as «artes, um movimento geral que utilize todos os braços: tais são os «recursos incalculáveis que estas construções proporcionam já aos «cidadãos, que quase todos recebem, deste modo, salários do tesouro «público e é assim que a cidade tira, de si mesma, a sua subsistência e o seu embelezamento.»»

Plutarco, Péricles, Reformador de Atenas (429 a.C.),
Trad. A- Lobo Vilela, Lisboa, Ed. Inquérito Lda, p.29-30

junho 30, 2013

Sá de Miranda


Deixai-me as minhas tristezas,
que já'gora outra alegria
maior poerigo seria.

Aos males acostumados
o mesmo costume é cura.
Bens tão vãmente esperados,
quem os sofre? E quem atura
senão desapaixonados?
Criei-me com meus cuidados;
já agora não saberia
andar noutra companhia.


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p.60

junho 29, 2013

Bergson


«No fundo de todas as teorias encontramos [ ] as [ ] ilusões que muitas vezes denunciámos. [Uma] consiste em representarmos o movimento como a diminuição gradual de um intervalo entre a posição do móbil, que é uma imobilidade, e o seu termo supostamente atingido, que é imobilidade também, enquanto as posições não são mais que visões que o espírito tem do movimento indivisível: daqui a impossibilidade de restabelecermos a mobilidade verdadeira, quer dizer, as aspirações e as pressões que constituem, indirecta ou directamente, a obrigação.»

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.226.

junho 28, 2013

Sá de Miranda




No sé por qué me fatigo,
pues con razón me vencí,
no siendo nadie comigo,
y vos y yo contra mí.

Yo por haveros querido,
y vos a mí desamado,
con vuestra fuerza y mi grado
havemos a mí vencido.

Y pues fuí mi enemigo
en me dar como me dí,
quién osará ser amigo
del enemigo de sí?


Cantiga de Dom Jorge Manrique,
que foi glosada por Sá de Miranda,
in "poesia e teatro", intr. e notas por
Silvério Augusto Benedito, Ulisseia,
Lisboa, 1989, p.53

junho 27, 2013

Bergson



«O instinto guerreiro bem pode existir por si mesmo: nem por isso se agarra menos a motivos racionais. A última guerra [a Grande Guerra de 1914-18], tal como as que entrevemos no futuro se por desgraça tivermos de continuar a ter guerras, ligou-se ao carácter industrial da nossa civilização.

Se quisermos proceder a uma figuração esquemática, simplificada e estilizada, dos conflitos de hoje, deveremos começar por representar as nações como populações puramente agrícolas.

Vivem dos produtos das suas terras. Suponhamos que têm à justa o suficiente para se alimentar. Crescerão na medida em que obtenham da terra um melhor rendimento. Até aqui tudo vai bem.

Mas se houver um excesso de população, e se esta não quiser distribuir-se pelo exterior, ou se não puder fazê-lo porque o estrangeiro lhe fecha as portas, onde poderá encontrar o alimento necessário?

A indústria arranjará as coisas. A população excedentária tornar-se-á operária. Se o país não possuir força motriz para fazer funcionar as máquinas, ferro para as construir, matérias-primas para o processo de fabrico, tentará ir buscá-los ao estrangeiro. Pagará a sua dívida, e receberá suplementarmente os géneros alimentares de que não dispunha, exportando para o estrangeiro produtos manufacturados.

Os operários descobrir-se-ão assim “emigrados do interior”. O estrangeiro emprega-os como teria feito no seu território; prefere deixá-los — ou talvez tenham sido eles a preferir ficar — onde estão; mas é do estrangeiro que dependem. Se o estrangeiro deixar de aceitar os seus produtos, ou deixar de lhes fornecer os meios que permitem fabricá-los, ei-los condenados a morrer de fome.

A menos que se decidam, arrastando o país atrás de si, a partir à conquista do que lhes é recusado. Será a guerra.

É óbvio que as coisas nunca se passam tão simplesmente. Embora não se esteja em rigor sob a ameaça de morrer de fome, considerar-se-á que a vida é sem interesse à falta de conforto, de diversão, de luxo; julgar-se-á a indústria nacional insuficiente se esta se limitar a viver, se não produzir riqueza; um país acha-se incompleto se não dispõe de bons portos, de colónias, etc. (p.240)

De tudo isto pode resultar a guerra. Mas o esquema que acabamos de traçar assinala suficientemente as causas essenciais: aumento da população, perda de vias de escoamento, privação de combustível e de matérias-primas.

Eliminar estas causas ou atenuar o seu efeito, tal é a tarefa por excelência de um organismo internacional que visa a abolição da guerra. A mais grave de entre elas é o excesso populacional.

Num país com uma natalidade demasiado fraca [ ] o Estado deve fomentar sem dúvida o crescimento da população [ ]. Mas não se poderia então, inversamente, nos países com uma população superabundante, impor taxas mais ou menos pesadas por cada filho a mais?

Reconhecemos a dificuldade de fixar administrativamente um limite à população [ ]. Se aqui esboçamos uma solução, é simplesmente para vincar que o problema não nos parece insolúvel [ ].

Mas o que é certo é que [ ] em breve [ ] o mundo estará sobrepovoado, e que se não se “racionalizar” a produção do próprio homem como se começa a fazer com o trabalho, teremos a guerra.

Em nenhum outro caso é mais perigoso confiarmo-nos ao instinto. A mitologia antiga compreendera-o muito bem quando associava a deusa do amor ao deus dos combates. Deixai agir Vénus, e ela tra-vos-á Marte.

Não evitaremos a regulamentação [da natalidade]. Que se passrá, quando se manifestarem problemas quase de igual gravidade, o da repartição das matérias-primas, o da circulação mais livre ou menos livre dos produtos e, mais geralmente, o de reconhecer exigências antagónicas apresentadas por um lado e pelo outro como vitais?

É um erro perigoso acreditar que um organismo internacional obterá a paz definitiva sem intervir, com autoridade, na legislação dos diversos países e até mesmo talvez na sua administração. Mantenha-se o princípio da soberania do Estado, se assim se quiser: este terá necessariamente de ser inflectido na sua aplicação aos casos particulares.» (p.241-2)

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.240-42.

junho 25, 2013

Bergson


«É verdade que, quando se fala da pequenez do homem e da grandeza do universo, é na complicação deste que se pensa tanto como na sua dimensão. Uma pessoa produz o efeito de ser simples; o mundo material é de uma complexidade que desafia qualquer imaginação: a mais pequena parcela visível é já em si mesma um mundo. [ ]

Quando nos encontramos perante partes cuja enumeração prossegue sem fim, é possível que o todo seja simples [ ]. Leve o leitor a mão de um ponto para outro: é para si, que o percebe de dentro, um gesto indivisível. Mas eu, que o percebo de fora, e que fixo a minha atenção na linha percorrida, digo-me que o gesto teve de começar por transpor a primeira metado do intervalo, depois a metade da outra metade, depois a metade do que resta, e assim sucessivamente: poderia continuar durante biliões de séculos, nunca chegaria ao fim da enumeração dos actos nos quais se decompõe aos meus olhos o movimento que o leitor sente indivisível.

É verdade que os actos infinitamente numerosos em que decompomos um gesto de mão são puramente virtuais, determinados necessariamente na sua virtualidade pela a actualidade do gesto, enquanto as partes constitutivas do universo, e as partes dessas partes, são realidades: [ ].

Por isso, não pretendemos que a relação do complexo com o simples seja a mesma nos dois casos. Só quisemos mostrar por meio desta aproximação que a complicação, ainda que sem limites, não é sinal de importância, e que uma existência simples pode exigir condições cujo encadeamento é sem fim.»


Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.217-8.


junho 13, 2013

Bergson


«De um modo geral, consideramos que um objecto que existe é um objecto que é percebido ou que poderia sê-lo. É, portanto, dado numa experiência real ou possível. Somos livres de construir a ideia de um objecto ou de um ser, como o geómetra faz com uma figura geométrica; mas só a experiência estabelecerá se ele existe efectivamente fora da ideia assim construída.

Dir-me-ão que é aí que está toda a questão, e que se trata precisamente de saber se um certo Ser não se distinguiria de todos os outros por ser inacessível à nossa experiência e, contudo, tão real como os demais. Posso admiti-lo por um instante, embora uma afirmação desse género, e os raciocínios que se lhe acrescentam, me pareçam implicar uma ilusão fundamental. Mas faltará estabelecer que o Ser assim definido, assim demonstrado, é de facto Deus.

Alegar-se-á que o é por definição, e que somos livres de dar às palavras que definimos o sentido que entendermos? Admiti-lo-ei uma vez mais, mas se se atribuir à palavra um sentido radicalmente diferente daquele que comummente tem, será a um objecto novo que ela se aplicará; os racicínios que se fizerem deixarão de referir-se ao antigo objecto; teremos de entender, portanto, que é de outra coisa que se está a falar.

Tal é precisamente o caso, em geral, quando a filosofia fala de Deus. Trata-se tão pouco do Deus em que pensa a maior parte dos homens que, se por milagre, e contra a opinião dos filósofos, o Deus assi definido descesse ao campo da experiência, ninguém o reconheceria. Estática ou dinâmica, a verdade é que a religião o tem sobretudo por um Ser que pode entar em relação connosco: ora é disso que é incapaz o Deus de Aristóteles, adpotado com algumas modificações pela maior parte dos seus sucessores.

Sem entrarmos aqui num exame aprofundado da concepção aristotélica da divindade, digamos simplesmente que ela parece suscitar uma dupla questão: 1º porque pôs Aristóteles como primeiro princípio um Motor Imóvel, Pensamento que se pensa a si mesmo, fechado em si mesmo, e que não age senão por meio da atracção da sua perfeição? 2º porque foi que, tendo posto este princípio, Aristóteles lhe chamou Deus?

Mas a resposta é fácil nos dois casos: a teoria platónica das Ideias dominou todo o pensamento antigo, enquanto esperava o momento de penetrar a filosofia moderna; ora, a relação do primeiro princípio de Aristóteles é a mesma que Platão estbeleceu entre a Ideia e a coisa.

Para quem não vê nas ideias mais que produtos da inteligência social e individual, nada há de surpreendente em que ideias com um número determinado, imutáveis, correspondam às coisas indefinidamente variáveis e mutantes da nossa experiência: arranjamos, com efeito, maneira de descobrir semelhanças entre as coisas apesar da sua diversidade, e para assumir sobre elas pontos de vista estáveis apesar da sua instabilidade; obtemos assim ideias sobre as quais temos domínio ao passo que as coisas nos escorregam por entre as mãos. Tudo isto é de fabrico humano.

Mas aquele que começa a filosofar, quando a sociedade levou já bastante longe o seu trabalho, e descobre os respectivos resultados armazenados na linguagem pode sentir-se ferido de admiração por este sistema de ideias, pelo qual as coisas parecem regular-se.

Não seriam as ideias, na sua imutabilidade, modelos que as coisas mutantes e moventes se limitam a imitar? Não seriam a realidade verdadeira, e mudança e movimento não traduziriam a incessante e inútil tentativa de coisas quase inexistentes, correndo de certo modo atrás de si mesmas, em vista de coincidirem com a imutabilidade da Ideia?

Compreende-se, assim, que tendo posto acima do mundo sensível uma hierarquia de Ideias dominadas por essa Ideia das Ideias que é a Ideia do Bem, Platão tenha julgado que as Ideias em geral, e por maioria de razão o Bem, agiam mediante a atracão da sua perfeição. Tal é precisamente, segundo Aristóteles, o modo de acção do Pensamento do Pensamento, que não deixa de ter relação com a Ideia das Ideias.

É verdade que Platão identificava esta última com Deus: o Demiurgo do Timeu, que organiza o mundo, é distinto da Ideia do Bem. Mas o Timeu é um diálogo mítico; o Demiugo não tem, portanto, senão uma semi-existência; e Aristóteles, que renuncia aos mitos, faz coincidir com a divindade um Pensamento que mal chega a ser, dir-se-ia, um Ser pensante, e ao qual nós chamaríamos Ideia de preferência a Pensamento.

Sob este aspecto, o Deus de Aristóteles nada tem de comum com os que os gregos adoravam; também não se assemelha mais ao Deus da Bíblia, do Evangelho. Estática ou dinâmica a reiligião apresenta à filosofia um Deus que suscita problemas completamente diferentes.

No entanto, foi ao primeiro que a metafísica em geral atendeu, ainda que dispondo-se a adorná-lo com este ou aquele atributo incompatível com a sua essência.

Porque não foi procurá-lo na origem? Tê-lo-ia visto formar-se através da compressão de todas as ideias numa só. Porque não considerou estas ideias, por seu turno?

Teria visto que servem antes de mais para preparar a acção do indivíduo e da sociedade sobre as coisas, que é para isso que a sociedade as fornece ao indivíduo, e que erigir em divindade a sua quintessência consiste muito simplesmente na divinização do social.

Porque não analisou, enfim, as condições sociais de uma tal acção indivídual, e a natureza do trabalho que o indivíduo leva acabo com o auxílio da sociedade?

Teria constatado que se, para simplificar o trabalho e também para facilitar a cooperação, começamos por reduzir as coisas a um pequeno número de categorias ou de ideias traduzíveis em palavras, cada uma dessas ideias representa uma propiedade ou um estado estável colhido ao longo de um devir: o real é movente, ou antes movimento, e nós não percebemos senão continuidades de mudança; mas para agir sobre o real, e em particular para levar a bom termo o trabalho de fabrico que é o objecto próprio da inteligência humana, devemos fixar estádios por meio do pensamento, do mesmo modo que esperamos por alguns instantes de abrandamento ou de paragem relativa para disparar sobre um alvo móvel.

Mas estes repousos, que não são mais que acidentes do movimento e que se reduzem de resto a puras aparências, estas qualidades que não são mais que instantâneos tomados sobre a mudança, tornam-se aos nossos olhos o real e o essencial, justamente porque são de molde a interessar a nossa acção sobre as coisas.

O repouso torna-se assim para nós anterior e superior ao movimento, que não passaria de uma agitação visando alcançá-lo. A imutabildade estaria assim acima da mutabilidade, que não seria senão uma deficiência, uma privação, uma busca da forma definitiva.

Bem mais ainda, é por esta distância entre o ponto onde a coisa é e aquele onde deveria, onde quereria ser, que se irá definir e até mesmo medir o movimento e a mudança. A duração torna-se assim uma degradação do ser, o tempo uma privação da eternidade.

É toda esta metafísica que a concepção aristotélica da divindade implica. Consiste em divinizar tanto o trabalho social que prepara a linguagem como o trabalho indivídual de fabrico que exige padrões ou modelos: o eidos (Ideia ou Forma) é o que corresponde a este duplo trabalho; depara-se, portanto, que a Ideia das Ideias ou Pensamento do Pensamento é a própria divindade.

Quando reconstituimos assim a origem e a significação do Deus de Aristóteles, perguntamo-nos como podem os modernos tratar da existência eda natureza de Deus embaraçando-se com problemas insolúveis que só se põem quando encaramos Deus do ponto de vista aristotélico e se consentirmos dar esse nome a um ser que aos homens nunca ocorreu invocar.»

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.203-6.

junho 11, 2013

Bergson


«Voltemos a insistir, pois, nalguns traços salientes da vida, e vinquemos o carácter nitidamente empírico da concepção de um “impulso vital”.

O fenómeno vital será resolúvel, perguntávamos nós, em factos físicos e químicos? Quando o fisiologista o afirma, entende por isso, consciente ou inconscientemente, que o papel da fisiologia é investigar o que há de físico e químico no vital, que não se pode fixar antecipadamente um termo a esta investigação, e que por isso se deverá proceder como se a investigação não devesse vir a ter termo: só assim se continuará em frente. Com o que estabelece, pois, uma regra de método; não enuncia um facto. [ ] (p.102)

Agora, uma vez estabelecida a vida, como nos representaremos a evolução?
[ ] Invocando [ ] uma composição do acaso com o acaso, [ ] aplica-se a priori o princípio de economia recomendado pela ciência positiva, mas não se comprova seja como for um facto, e o resultado é deparar de imediato com dificuldades insuperáveis. [A] esta insuficiência do darwinismo [ ] opúnhamos um facto; constatávamos que a evolução da vida se realiza em direcções determinadas.

— Agora, serão as condições em que evolui a imprimir á vida aquelas direcções? Seria então necessário admitir que as modificações sofridas pelo indivíduo se transmitem aos seus descendentes [ ]. Mas a hereditariedade do adquirido é contestável e [ ] excepcional. [ ]

— Vamos mais longe. Quando se fala do progresso de um organismo ou de um orgão ao adaptar-se a condições mais complexas pretende-se, as mais das vezes, que a complexidade das condições impõe a sua forma à vida, como o molde ao gesso: só nessa condição, pensa-se, a explicação será mecânica e, por conseguinte, científica. (p.102-3)

Mas, [ ], raciocina-se, nos casos particulares, como se a adaptação fosse uma coisa completamente diferente — o que ela é com efeito —, a solução original encontrada pela vida do problema que as condições exteriores lhe põem. E é esta faculdade de resolver problemas que se deixa por explicar.
Fazendo então intervir um “impulso” [ o “impulso vital”], não fornecíamos também explicação; mas assinalávamos [ ] este carácter misterioso da vida.

Se a maravilhosa coordenação das partes com o todo não pode explicar-se mecanicamente, também não exige, em nosso entender, que a tratemos como finalidade.

O que, visto de fora, é decomponível como uma infinidade de partes coordenadas umas com as outras, talvez surgisse do interior como um acto simples: assim, um movimento da nossa mão, que sentimos indivisível, será exteriormente percebido como uma curva definível por uma equação, quer dizer como uma sobreposição de pontos em número infinito, que satisfazem todos uma mesma lei.

Evocando a imagem de um impulso, queríamos sugerir [ ] qualquer coisa mais: onde a nossa análise, permanecendo no exterior, descobre elementos positivos em número cada vez maior e os encontra, por isso, cada vez mais surpreendentemente coordenados entre si, uma intuição que se transportasse ao interior apreenderia, já não meis combinados, mas obstáculos contornados.

Uma mão invisível, atravessando bruscamente limalha de ferro, não faria mais que afastar uma resistência, mas a própria simplicidade deste acto, vista do lado da resistência, surgiria como a sobreposição, efectuada segundo uma determinada ordem, dos pedaços de limalha. [ ]

Se a vida não é resolúvel em factos físicos e químicos, age à maneira de uma causa especial, acrescentada áquilo a que chamamos comummente matéria: esta matéria é instrumento, e é também obstáculo. Divide aquilo que precisa. [ ] (p.103-4)

Se virmos duas ou três grandes linhas de evolução que se continuam livremente ao lado de outras vias que acabam num beco, e se ao longo dessas linhas se desenvolver cada vez mais um carácter essencial, poderemos conjecturar que a irrupção vital começava por apresentar tais caracteres no estado de implicação recíproca: instinto e inteligência, [ ] constitutivos de uma realidade simples na qual [ ] não seriam senão pontos de vista.

Mas ainda só implicitamente mencionámos o essencial: a imprevisibilidade das formas que a vida cria por inteiro, através de saltos descontínuos, ao longa da sua evolução.

Tanto para a doutrina do puro mecanicismo como para a da finalidade pura, as criaçõs da vida são predeterminadas, podendo o futuro ser deduzido do presente mediante um cálculo ou desenhando-se nele sob a forma de ideia, e sendo por conseguinte o tempo sem eficácia.

A experiência pura nada de semelhante sugere. [ ] Um impulso [élan] pode precisamente sugerir [ ] e fazer pensar também, pela indivisibilidade daquilo que é interiormente sentido e pela divisibilidade até ao infinito daquilo que é exteriormente percebido, nessa duração real, eficaz, que é o atributo da vida.

— Tais eram as ideias que encerrávamos na imagem do “impulso vital”. [ ] Se forem levadas em conta, teremos uma ideia carregada de matéria, empiricamente obtida, capaz de orientara a investigação, que resumirá a traço grosso o que sabemos do processo vital e assinalará também o que dele ignoramos. (p.104-5)

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.102-5.

junho 09, 2013

Bergson


«Digamos apenas [ ] que as antigas desigualdades de classe, primitivamente impostas sem dúvida pela força, admitidas depois como desigualdades de valor e de serviços prestados, se vêem cada vez mais submetidas à crítica da classe inferior: os dirigentes valem de resto cada vez menos, porque, demasiado seguros de si, afrouxam a tensão interior à qual tinham ido buscar uma maior força de inteligência e de vontade e que havia consolidado a sua dominação.

Conservar-se-iam, contudo, se continuassem unidos; mas, devido precisamente à tendência que os leva a afirmarem a sua individualidade, aparecerão, mais tarde ou mais cedo, entre eles ambiciosos que pretenderão ser os senhores e que buscarão apoio na classe inferior, sobretudo se esta já tiver conseguido certa participação nos asuntos: acabou-se, então, a superioridade nativa daquele que pertence à classe superior; quebrou-se o encanto.

É assim que as aristocracias tendem a perder-se na democracia, simpelsmente porque a desigualdade política é coisa instável, como o será de resto a igualdade políticas uma vez realizada, se não passar de um facto, se admitir por conseguinte excepções, se por exemplo tolerar a escravatura no interior da cidade.»

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.73.

junho 07, 2013

Bergson



«A moral compreende assim duas partes distintas, das quais uma tem a sua razão de ser na estrutura original da sociedade humana, e a outra no princípio explicativo dessa estrutura.

Na primeira, a obrigação representa a pressão que os elementos da sociedade exercem uns sobre os outros a fim de manter a forma do todo, pressão cujo efeito é prefigurado em cada um de nós por um sistema de hábitos que por assim dizer a precedem: este mecanismo, cujas peças são, cada uma delas, um hábito mas cujo conjunto é comparável a um instinto, foi preparado pela natureza.

Na segunda, há ainda obrigação, se assim se quiser, mas a obrigação é a força de uma aspiração ou de um impulso, do próprio impulso que desembocou na espécie humana, na vida social, num sistema de hábitos mais ou menos assimilável ao instinto: o princípio de propulsão intervém directamente e já não por intermédio dos mecanismos que montara, nos quais provisoriamente se detivera.»

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.59