novembro 27, 2013




«Lyon pode ser classificada como a cidade mais chata da França. Tem um comércio burguês e operário que vai de estreitas avenidas desembocar em acanhadas praças que desaguam noutras pequenas avenidas que levam, mais longe, ao aglomerado de fábricas que caracteriza uma cidade industrial.

Aqui produzem-se os tecidos de algodão e seda de renome nos mercados internos e externos. A gente rica vive fora da cidade, aguardando o Verão para aos magotes irem todos a Arcachon retemperar o físico e a paciência de um ano passado nos confins da alegria.

A monotonia do dinheiro preocupa-os no pé-de-meia, nos depósitos à ordem que todos avaram bem chorudos no Crédit Lyonnais. No entanto, uma espécir de vingança acorrenta-os à moleza, certa neutralidade transmitida pelo ouvir diário dos teares mecânicos da cidade onde nasceram.

O museu é de província, com muitas naturezas mortas; a Câmara Municipal — a que os operários portugueses chamam a Maria — não prima pela limpeza nem pelo interesse arquitectónico, excepto «l’élégante simplicité de sa cour intérieure l’emporte sur les ornamentations de sa façade principale»;

os cinemas são frequentados por fitas já roucas do sonoro e já lambidas nas margens; as árvores escondem-se de Inverno e os transeauntes têm a paixão da cerveja, tirada quase de mangueira de cada esquina da cidade;

os cães vadios não se habituaram ainda Lyon, nem mesmo as grandes cocottes de luxo, sempre enjoadas quando desembarcam na gare principal dos Caminhos de Ferro Franceses;

isto tudo para não falar já dos atletas de pesos e halteres que praticam os seus exercícios nos ginásios dos maiores centros de instrução de halterofilia do ocidente.

A educação física em Lyon resume-se a ligeiras corridas, saltos à corda, marchas às nove horas da manhã em frente da Prefeitura, raras vezes se salta ao eixo, e atirar a bola de uns para os outros torna-se um tormento, com o medo sempre presente que a bola caia no chão e fique suja.

O Outro que era eu aborrecia-se muito em Lyon, ao mesmo tempo que se sentia atraído pela frequência da nostalgia que as segundas cidades de qualquer país inoculam nos seus habitantes. [ ]

Quando estava abonado, convidava a família do cônsul para jantar na pensão onde se albergara e onde contava ficar hospedado até regressar novamente ao Portugal de antanho. [ ]

O Outro satisfazia-se no quaotidiano da cidade de província, quaotidiano que morre despedaçado no regular de bons dias e boas noites, que ao longo de gerações e gerações os seus naturais a abandonarem a cidade em direcção à capital.

O Outro já regularizou a sua vida ao rom-rom do levantar, comer, mexer e deitar. E, seja-se justo e afirme-se que em Lyon era fácil realizar os dados imprescindíveis da vida.

Cidade organizada para os habitantes se levantarem a horas bem matutinas, irem a correr lotar os transportes colectivos que enfileiram intermináveis nas estreitas avenidas directas à zona fabril; cidade mobilizada para as pessoas comerem em mesas de quatro, lerem o jornal que da capital trazia coisas boas, e regressarem à tarde para, de caneca em punho, beberem o chop na próxima esquina.

Ruben A., O Outro Que Era Eu (1966),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1991, p.98-101.

novembro 24, 2013

novembro 17, 2013



«O Outro que era eu empenhava-se em tirar o máximo partido da sua estada em Lyon, não queria perder pitada. E, assim, frequentava também um curso de aperfeiçoamento nesta conhecidíssima zona têxtil, sobretudo orientado nos artefactos de seda.
 
La soirie lyonnaise a mille raisons de s’enorgueillir. Elle a séduit l’univers et sa royauté n’est pas morte. La richesse du musée des tissus en témoigne. Ses collections nous racontent la plus originale des histoires.  Il y là ume anthologie.
 
Isto dava-lhe de certeza o direito a um esplêndido emprego logo que regressasse ao seu país. Havia, pois, que aproveitar ao máximo as chances que o destino lhe prodigalizava, não perder um minuto, sair cedo depois do café au lait, deixar a barba para logo à tarde e enfronhar-se nas várias secções da fábrica onde actualmente estagiava.
 
O inverno em Lyon é muito duro, motivo que afastava o Outro da prática de desportos. Aborrecia-o um pouco aos fins de tarde. Le climat, c’est probable, explique en partie ces raffinements du bien manger, dérivatif aux heures sinistres.
 
Enquanto estava na fábrica nem dava pelo tempo passar, tal era o seu interesse em os fusos dos teares mais última palavra, ainda não exportados, que lhe fora dado contactar.
 
Peça por peça desmontava a unidade, untava com a almotolia que levara de Portugal, acarinhava os ganchos, nitidamente iguais, separava os carrinhos de linha, e desmontada a parte fundamental do tear, o coração de toda a máquina que produzia o tecido, ele ficava horas e horas embevecido, apaixonado por um estileto a que queria mudar o seu centro de orientação.
 
Quando tocavam para o almoço, servido na cantina da fábrica, ele sentia um sobressalto no outro mundo em que estava a viver, absorvido em trânsito técnico, alheio às mais elementares necessidades de nutrição. Nessas alturas vinha-lhe a saudade, recordava que nunca em França poderia comer uma boa bacalhoada nem mandar vir para a mesa uma alheira com grelos e ovo escalfado.
 
Surgia-lhe o estômago a exigir pitéus de outrora, debatia-se na cantina da fábrica com a lembrança de uns ovos moles que a Tia Luísa duas vezes ao ano mandava de Arouca, juntamente com umas morcelas que durante dias eram o asunto da conversa entre familiares e amigos.
 
E sopa? Era um sofrimento. Caldo verde nunca pudera ensinar ao cozinheiro da fábrica, renitente a sair da rotina de fritos e cozidos. À hora do almoço a Pátria surgia-lhe toda construída de retalhos culinários, enganava-lhe o apetite, crescia-lhe a água na boca, uma água que inundava o copo, saía do leito, e ficava nas margens do pensamento por longos minutos até ser absorvida pelo trabalho de estampagem e branqueação que ele à tarde tinha de fazer. [ ]
 
«Ao almoço não se fala de trabalho.» «Nem de mulheres», respondia o engenheiro-chefe de máquinas [ ]. O Outro não se expandia, raro comentava, menos ainda falava daquilo que tanto o preocupava à hora do almoço. Deixava passar, com uma candura e simpatia natural que atraía os franceses à sua mesa, olhs bagos postos em Trás-os-Montes, pastéis de bacalhau que atravessavam o espírito, miragem de um eldorado na terra.»
 
Ruben A., O Outro Que Era Eu (1966),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1991, p.55-56
 


novembro 13, 2013




«[Oh] —, como eu ambicionava uma praia longínqua, como são as praias que se conhecem na costa do Atlântico, viradas ao iodo, inundadas de brisa, de um azul sem tréguas, onde estar só é ser Deus! Preso ao meu dever, cumprindo o que não percebia, os meus olhos banhavam-se num imenso mar que nunca mais seria meu, que pensar nele era já sentir-lhe a irrealidade.»            

Ruben A., O Outro Que Era Eu (1966),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1991, p.28

novembro 08, 2013

Redistribuição de rendimento de trabalho

Redistribuição do rendimento

O núcleo do debate sobre o Estado Social posiciona-se na questão da sustentabilidade do sistema de reforma de velhice, assente no esquema de redistribuição de rendimento entre os trabalhadores no activo e os reformados.

O fundo incontornável do debate é simples: quer agora, quer sempre, quem não trabalha é, ex-post, sustentado por quem trabalha. Ex-ante, quais os limites sustentáveis do esquema?

´Aritmetizando’ a redistribuição do rendimento, propomos a seguinte equação inicial

(1)            d.a = p.(1-a)

sendo d, a contribuição percentual para a segurança social incidente sobre o salário; a, a percentagem da população no activo; e p, o valor unitário da pensão de reforma.

Deste modo, as retenções na fonte dos salários dos trabalhadores no activo – d.a -, são pagas como pensões aos reformados – p.(1-a).

Neste esquema, o equilíbrio existe desde que o rácio do número de reformados por activo – (1-a)/a -, iguale a proporção do desconto no salário para a pensão de reforma –d/p:

(1.1)       d/p = (1-a)/a

Assim, por exemplo, 0.3 de desconto do salário (d) com uma pensão média unitária (p) de 0.7 do salário apenas se equilibra com um rácio de reformados por activo – (1-a)/a – de 3 para 7, i.e., 3/7.

Contudo, é desigual a produtividade do trabalho nos diferentes sectores de produção de bens e prestação de serviços, por razão quer da diversa disponibilidade de recursos naturais e pela fecundidade variável da própria natureza, quer pelo grau de desenvolvimento tecnológico dos meios de produção utilizados, quer, finalmente, com o maior ou menor esforço e inteligência dos trabalhadores e o grau de civilização atingido pela sociedade.

A capacidade de redistribuição do rendimento é altamente potenciada com o aumento da produtividade do trabalho, como vamos observar aritmeticamente.

Dividamos, então, a população activa em dois segmentos de produtividade desigual: a, a proporção de emprego de maior produtividade; b, a de produtividade normal, i.e., o caso de profissões, – necessárias, não dispensáveis, criando valor procurado, por satisfazer necessidades humanas -, cuja produtividade de desempenho é mais ou menos constante, no tempo e no espaço; por exemplo, um corte de cabelo pouco tempo de execução terá diminuído ou aumentado desde o antigo Egipto ao presente! Muitos outros trabalhos e serviços necessários se equiparam ao deste exemplo, desde a actividade de ensino à enfermagem de doentes, de uma peça de teatro ao cuidado de crianças, etc.

O emprego do tipo b, porque necessário e valioso, será remunerado com o salário suficiente a que o respectivo empregado e sua família viva conforme o padrão histórico e social vigente na comunidade em causa. O emprego do tipo a é remunerado por um múltiplo de produtividade, k, do salário do tipo b.

Nestes termos, a equação de equilíbrio (1) reescreve-se como segue:

(2)           d.(ak+b) = p.(1-a-b)

Assim, se parametrizarmos a proporção de activos de grande produtividade (a) em 0.1; mantivermos a taxa de desconto salarial (d) em 0.3; e a pensão unitária em 0.7 do salário base, i.e., o salário do tipo b, da produtividade normal, a equação (2) reflectirá o conjunto de pares de equilíbrio entre as variáveis b e k, ou, se designarmos a população reformada por r,

(2.1)        r = 1-a-b

mostramos a relação de equilíbrio entre a proporção de reformados (r) e a produtividade do trabalho (k)

(2.2)         r = 1/p. d.(ak+b)

Ou, com os valores numéricos dos parâmetros fixados, a função f(r,k):

(2.3)         r = 0.3/0.7*(0.1k+0.9-r)

Com as produtividades

k = 1, 3, 5, 7, 10;

a proporção de reformados (ou inactivos) sustentável é de

(2.4)        r = 0.30; 0.36; 0.42; 0.48; 0.57.

No entanto, esta redistribuição de rendimento é desincentivadora e injusta porque não diferencia o valor da pensão de reforma segundo a carreira contributiva de cada reformado durante a sua vida activa.

Tomando em consideração as prestações contributivas entre os assalariados do tipo a e b, e supondo que a percentagem dos reformados do tipo a é de 10% do total de reformados a equação (2) da redistribuição do rendimento reescreve-se como segue:

(3)          d.(ak+b) = p.r.(0.1k+0.9)

Ou, com os coeficientes numéricos assumidos, para d, p, e a

(3.1)         0.3*(0.1k+0.9-r) = 0.7*r*(0.1k+0.9)

Resolvendo r em função de k,

(3.1’)        r = (0.03*k+0.27)/(0.07k+0.93)

Com as produtividades

k = 1, 3, 5, 7, 10;

a proporção de reformados (ou inactivos) sustentável é de

(3.2)        r = 0.30; 0.32; 0.33; 0.34; 0.35.

Como se vê, comparando esta série (3.2) com a anterior (2.4), constata-se que o não ‘plafonamento’ das pensões reduz drasticamente a capacidade de a segurança social sustentar um volume significativo de trabalhadores reformados: - para o caso de 10% dos activos terem uma produtividade décupla da produtividade normal, a sustentabilidade do volume de reformados decai de 57% para 35%, sem um tecto para o valor máximo das reformas a conceder.

No entanto, continua a ser injusto não ponderar a carreira contributiva no valor da reforma a atribuir a cada reformado. Não é a mesma coisa ter sido quarenta anos barbeiro ou professor de física nuclear ou de filosofia contemporânea! Embora haja de convir-se que em ambos os casos as necessidades de um reformado são bem menores do que as sentidas durante a vida activa, pelo que não é razoável manter na reforma a mesma diferença salarial que existia na vida activa.

Propomos uma variação progressiva da reforma (p) com o aumento da produtividade (k) maximizada, em termos brutos (x), no triplo do salário base de produtividade normal atingido no caso de produtividade doze vezes superior à normal. A saber,

(4)            (1+x)^12 = 3

Ou,

(4.1)         x = 3^(1/12) - 1 = 0.0958

Pelo que a equação de redistribuição de rendimento se escreveria como segue:

(5)           d.(ak+b) = p.(1-a-b).[(1+x)^k .a + 1-a]

Fixando os parâmetros d, p, e a nos mesmos coeficientes numéricos anteriores e dando a x o valor referido em (4.1), teremos:

(5.1)        0.3*(0.1k+b) = 0.7*(0.9-b)*[1.0958^k*a+0.9]

Ou, explicitando b em função de r, conforme (2.1), temos

(5.2)       0.3*(0.1k+0.9-r) = 0.7*r*[1.0958^k*0.1+0.9]

Resolvendo r em função de k,

(5.2’)       r = (0.03*k+0.27)/(0.07*1.0958^k+0.93)

Com as produtividades

k = 1, 3, 5, 7, 10;

a proporção de reformados (ou inactivos) sustentável é de

(5.3)         r = 0.30; 0.35; 0.40; 0.45; 0.52.

Comparando estes resultados com os obtidos sem plafonamento, verifica-se quanto melhora a sustentabilidade da segurança social, que passa em equilíbrio, - no caso de 10% dos activos com uma produtividade décupla da normal -, da capacidade de financiar um volume de reformados de 35% para 52%, e isto com a justiça de alguma diferenciação das pensões segundo a carreira contributiva.

A falácia política na discussão pública deste tema consiste em propor, de facto, o plafonamento das pensões, mas aplicando-o também aos descontos para a segurança social durante a vida activa. Ora, tal perverte a eficácia e justiça social da redistribuição de rendimento.

Concluo com mais duas observações. No passado, os salários dos profissionais mais requestados asseguravam a existência de um vasto agregado familiar de avós, filhos e netos, quando não também, tias, sobrinhos, órfãos e afilhados. Inclusive, tais salários permitiam aquisição de casa própria para albergar todo o agregado familiar. Foi este sistema de respeito pela família e pela propriedade privada que o modelo da segurança social veio substituir, com a promessa de uma justiça social e protecção na velhice alargada a toda a população mediante a contribuição generalizada de todos os trabalhadores durante a vida activa. Cortar agora nas reformas é tão subversivo do estado de direito quanto o desrespeito do direito de propriedade privada e o confisco das poupanças dos cidadãos.

Outra observação é o facto temível, no nosso país, de a Banca e a Segurança Social tenderem a desempenhar o papel sucedâneo do banco emissor do antigo regime monetário, i.e., quando o Estado precisa de dinheiro em vez de o emitir por subscrição do capital do banco, aumentando a circulação monetária, emite obrigações de tesouro que constrange a banca e os fundos de pensões a subscrever, assim preparando as condições facilitadoras de um haircut da dívida tão confiscatório quanto a clássica inflação monetária.

outubro 29, 2013





No Outono nos separamos
como as duas conchas
da amêijoa


Matsuo Bashô



setembro 29, 2013


Aqui responde-se a tudo
numa língua primordial e nobre
tal como uma parte da vida responde
à indestrutível parte contígua

aqui nas frisadas extremidades
dos ramos do jardim apaziguado
não buscamos os horrendos grumes da seiva
que se assemelham às silhuetas afligidas
que abraçam um crucificado na noite da desgraça

e não conhecemos palavra ou sinal
que seja mais alto que qualquer outro
é aqui que vivemos aqui que somos belos

e é aqui que ao calar-nos perturbamos o real
mas se os nossos adeuses a ele são rudes
a vida também participa nisto
como se em si
uma notícia que nos é inaudível

e apartando-se de nós
como o reflexo dum arbusto na água
ficará mesmo ao lado
para em seguida ocupar
o nosso lugar

para que os espaços dos homens não sejam substituídos
senão por espaços de vida
para todo o sempre.


Aïgui, poema Aqui, «um canto à glória do que
daqui é insubstituível e sem garantia divina»,
da tradução francesa de León Robel,
inserto em

Alain Badiou, Breve Tratado de Ontologia Transitória,
(«Court Traité d’Ontologie Transitoire», 1998),
Trad. Alexandre Emílio, Ed. Instituto Piaget,
Colecção Pensamento e Filosofia, nº 54, Lisboa, 1999

Curiosa, mas não estranhamente, imagino, este poema, de um poeta do rio Volga, lembra a ontologia do ser temporal de José Reis, o professor catedrático de Coimbra, autor da Nova Filosofia, e de Sobre o Tempo, ambos editados pela Afrontamento, Porto, 1991 e 2007, respectivamente, como a do múltiplo da ontologia matemática de Alain Badiou.

Livros sérios a ler, reler e reflectir. 

setembro 27, 2013

Honoré de Balzac



«Cada vez que Helena podia avistar o pai,
agitava o lenço para o saudar mais uma vez.

Em breve o Saint-Ferdinand se afundou,
produzindo um borbulhar imediatamente
apagado pelo oceano.

Nada mais ficou então de toda aquela cena
senão uma nuvem baloiçada pela brisa;
a nuvem interpôs-se entre esta frágil
embarcação e o brigue.

A última vez que o general avistou a filha
foi através de uma abertura daquele
fumo ondulante.

Visão profética!

O lenço branco, o vestido destacava-se
sozinho naquele fundo de bistre.

Entre a água verde e o céu azul,
o brigue já nem se via, Helena não
era mais que um ponto imperceptível,
uma linha desligada, graciosa, um anjo
no céu, uma ideia, uma recordação.

Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos,
(«La Femme de Trente Ans», 1844), Trad.
Paula Reis, Livraria Civilização Editora,
Porto, 1978, p.500-1



setembro 25, 2013

Honoré de Balzac

«Não se encontram muitos homens cuja profunda nulidade é um profundo segredo para a maior parte das pessoas que os conhecem? Uma posição elevada, um nascimento ilustre, funções importantes, um certo verniz de educação, uma grande reserva no comportamento, ou os sortilégios da fortuna são, para eles, como guardas que impedem as críticas de penetrar na sua existência íntima. [ ] Essas pessoas por mérito fictício interrogam em vez de falar, têm a arte de pôr os outros em evidência para evitarem apresentar-se a si próprios diante deles; depois, com uma feliz sagacidade, eles puxam cada pessoa pelo fio das suas paixões ou por os dos seus interesses, e jogam assim homens que lhes são realmente superiores, fazem deles marionetas: e crêem-nos pequenos terem rebaixado até eles. Obtêm então o triunfo natural de um pensamento mesquinho, mas fixo, sobre a mobilidade dos grandes pensamentos. Assim, para julgar estas cabeças ocas e pesar os seus valores negativos, o observador deve possuir um espírito mais subtil que superior, mais paciência que alcance de vista, mais sagacidade e tacto que elevação e grandeza de ideias. Apesar dssio, por mais habilidade que manifestem estes usurpadores a defender os seus lados fracos, é-lhes muito difícil enganar as suas mulheres, as suas mães, os seus filhos ou o amigo da casa; mas estas pessoas guardam-lhes quase sempre o segredo duma coisa que toca, de certa maneira, a honra comum; e muitas vezes mesmo elas ajudam-nos a impor-se ao mundo. Se, graças a estas conspirações domésticas, muitos tolos passam por homens superiores, eles compensam o número de homens superiores que passam por tolos, de maneira que o Estado Social tem sempre a mesma quantidade de capacidades aparentes.»    


Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos,
(«La Femme de Trente Ans», 1844), Trad.
Paula Reis, Livraria Civilização Editora,
Porto, 1978, p.405

setembro 23, 2013

Dom Quixote de la Mancha


«Como as coisas humanas não são eternas,
indo sempre declinando desde os seus princípios
até chegar ao seu último fim, especialmente
a vida dos homens, e como a de D.Quixote
não tinha privilégio do céu, para deter
o curso do seu declínio,

chegou o seu fim e acabamento
quando ele menos esperava; [ ]»


Miguel Cervantes, O Engenhoso Fidalgo
D. Quixote de la Mancha, («Il Ingenioso
Hidalgo D. Quixote de La Mancha», 1605)
Trad. e notas de José Bento, Gravuras
de Lima de Freitas, Relógio d’Água,
Lisboa, 2005, p.936

setembro 21, 2013

Dom Quixote de la Mancha

«Aconteceu, pois, que indo D. Quixote [ ], um castelhano [ ] ergueu a voz dizendo:

— Valha-te o diabo por D. Quixote de la Mancha! Como é que chegaste até aqui, sem te terem morto as infinitas pancadas que tens às costas? Tu és louco, e se o fosses sozinho e dentro das portas da tua loucura, seria menor o mal;

mas tens a propriedade de tornar loucos e mentecaptos todos que se relacionam contigo; se não, verifiquem-no por estes senhores que te acompanham.

Volta, mentecapto, para tua casa, e toma conta da tua fazenda, da tua mulher e dos teus filhos, e deixa-te destas loucuras que te consomem os miolos e chupam o melhor da tua inteligência.»

Miguel Cervantes, O Engenhoso Fidalgo
D. Quixote de la Mancha, («Il Ingenioso
Hidalgo D. Quixote de La Mancha», 1605)
Trad. e notas de José Bento, Gravuras
de Lima de Freitas, Relógio d’Água,
Lisboa, 2005, p. 868.

setembro 19, 2013

Dom Quixote de la Mancha


«— Come, Sancho amigo — disse D. Quixote —, sustenta a vida, que mais que a mim te importa, e deixa-me morrer entregue aos meus pensamentos e à força das minhas desgraças.

Eu, Sancho, nasci para viver morrendo, e tu para morrer comendo; e para que vejas que te falo a verdade nisto, considera-me impresso em histórias, famoso nas armas, cortês nas minhas acções, respeitado por nobres senhores, desejado pelas donzelas;

ao fim e ao cabo, quando eu esperava palmas, triunfos e coroas, granjeadas e merecidas pelas minhas valorosas façanhas, vi-me esta manhã pisado e escouceado e moído pelos pés de animais imundos e grosseiros.

Meditar nisto embota-me os dentes, entorpece-me os queixais e paralisa-me as mãos, e tira-me por completo a vontade de comer, de maneira que penso deixar-me morrer de fome, que é a mais cruel de todas as mortes.»


Miguel Cervantes, O Engenhoso Fidalgo
D. Quixote de la Mancha
, («Il Ingenioso
Hidalgo D. Quixote de La Mancha»
, 1605)
Trad. e notas de José Bento, Gravuras
de Lima de Freitas, Relógio d’Água,
Lisboa, 2005, p. 847.

setembro 17, 2013

Dom Quixote de la Mancha


«E nisto começou a chorar tão amargamente, que D. Quixote, zangado e colérico, disse-lhe:

— Que receias, cobarde criatura? Porque choras, coração de manteiga com açucar? Quem te persegue ou te maltrata, espírito de ratazana caseira, ou que te falta, pobretão no meio das entranhas da abundância?

Porventura caminhas a pé descalço pelas montanhas rifenhas ou vais sentado numa tábua, como um arquiduque, pelo sereno curso deste agradável rio, de onde me breve sairemos para o vasto mar?

Mas já devemos ter saído e percorrido, pelo menos, setecentas ou oitocentas léguas; e se eu tivesse aqui um astrolábio para medir a altura do pólo, eu dir-te-ia quantas percorremos; embora, ou eu sei pouco, já passámos ou passaremos dentro de momentos pela linha equinocial, que separa e corta os opostos polos em igual distância.

— E quando chegarmos a essa lenha que vossa mercê disse — perguntou Sancho —, quanto teremos percorrido?

— Muito — repicou D. Quixote —; porque de trezentos e sessenta graus que tem o globo, da água e da terra, segundo o cômputo de Ptolomeu, que foi o maior cosmógrafo que se conhece, teremos percorrido metade, chegando à linha que te disse.»

Miguel Cervantes, O Engenhoso Fidalgo
D. Quixote de la Mancha, («Il Ingenioso
Hidalgo D. Quixote de La Mancha», 1605)
Trad. e notas de José Bento, Gravuras
de Lima de Freitas, Relógio d’Água,
Lisboa, 2005, p. 664.

setembro 15, 2013

Dom Quixote de la Mancha


«— Portanto, se é forçoso que todo o cavaleiro andante tenha de estar enamorado — disse o caminhante —, bem se pode crer que vossa mercê o está, pois é essa a sua profissão. [ ]

Aqui D. Quixote deu um grande suspiro e disse:

— Eu não poderei afirmar se à doce minha inimiga agrada ou não que o mundo saiba que eu a sirvo; somente sei dizer, respondendo ao que com tanta cortesia se me pede, que o seu nome é Dulcineia; a sua terra é Toboso, uma terra da Mancha; o seu título, pelo menos há-de ser de princesa, pois é rainha e senhora minha; a sua formosura, sobre-humana, pois nela se tornam verdadeiros todos os impossíveis e quiméricos atributos de beleza que os poetas dão às suas damas: os seus cabelos são ouro, a sua fronte campos elíseos, as suas sobrancelhas arco-íris, os seus olhos sóis, as suas faces rosas, mármore o seu peito, os seus lábios corais, pérolas os seus dentes, alabastro o seu pescoço, marfim as suas mãos, a sua brancura neve e as partes que à vista humana encobria o pudor são tais, segundo penso e entendo, que só a sábia consideração pode exaltá-las e não compará-las.»

Miguel Cervantes, O Engenhoso Fidalgo
D. Quixote de la Mancha, («Il Ingenioso
Hidalgo D. Quixote de La Mancha», 1605)
Trad. e notas de José Bento, Gravuras
de Lima de Freitas, Relógio d’Água,
Lisboa, 2005, p. 108.

setembro 13, 2013

Dom Quixote de la Mancha



«Mas nesta nossa época triunfa a moleza sobre a acção, a ociosidade sobre o trabalho, o vício sobre a virtude, a arrogância sobre a valentia e a teoria sobre o exercício das armas, que só viveram e resplandeceram nas idades do ouro e dos cavaleiros andantes.

Se não, digam-me: quem há mais honesto e mais valente que o famoso Amadis de Gaula? Quem mais sensato que Palmeirim de Inglaterra? [ ] Todos estes cavaleiros, e muitos outros que eu poderia mencionar, senhor cura, foram cavaleiros andantes, luz e glória da cavalaria.

Destes, ou tais como estes, quisera eu que fossem os escolhidos por mim; que, se o fossem, Sua Majestade se encontraria bem servido e pouparia muitos gastos, e o Turco ficaria a arrancar as próprias barbas, e, com isto, não quero ficar em minha casa, pois nenhum capelão me vem tirar daqui; e se Júpiter, como disse o barbeiro, não chover, aqui estou eu, aqui estou eu, que choverei quando me apetecer. [ ]

— Pois com esse beneplácito — respondeu o cura —, digo que o que me pesa é eu não poder convencer-me de maneira alguma que toda a caterva de cavaeiros andantes que vossa merçê, senhor D. Quixote, mencionou tenha sido real e verdadeiramente de pessoas de carne e osso no mundo; pelo contrário, imagino que tudo é ficção, fábula e mentira, sonhos contados por homens acordados, ou, para falar mehor, meio adormecidos.

— Esse é outro erro — respondeu D. Quixote — em que cairam muitos, que não acreditam que tenham existido tais cavaleiros no mundo; e eu muitas vezes, com diversas gentes e motivos, procurei trazer para a luz da verdade este quase vulgar engano; mas algumas vezes não consegui ter êxito no meu intento, e outras vezes sim, sustentando-o sobre os ombros da verdade.»

Miguel Cervantes, O Engenhoso Fidalgo
D. Quixote de la Mancha
, («Il Ingenioso
Hidalgo D. Quixote de La Mancha»
, 1605)
Trad. e notas de José Bento, Gravuras
de Lima de Freitas, Relógio d’Água,
Lisboa, 2005, p. 481-2.


setembro 11, 2013

Dom Quixote de la Mancha


«Era meia-noite em ponto, pouco mais ou menos, quando D. Quixote e Sancho deixaram o monte e entraram no Toboso. Estava a aldeia num sossegado silêncio, porque todos os seus habitantes dormiam e repousavam à perna solta, como costuma dizer-se. Na noite havia uma frouxa claridade, embora Sancho preferisse que fosse completamente escura, para achar na escuridão desculpa para a sua patetice.

Não se ouvia em toda a povoação senão ladridos de cães, que atroavam os ouvidos de D. Quixote e perturbavam o coração de Sancho. De vez em quando um jumento zurrava, grunhiam porcos, miavam gatos, cujas vozes, de sons diferentes, aumentavam com o silêncio da noite, o que o enamorado cavaleiro considerava um mau agoiro; mas, apesar de tudo isto, disse a Sancho:

— Sancho, filho, dirige-te para o palácio de Dulcineia; talvez ainda achemos acordada.
— Para que palácio tenho de seguir, diabo do raio — respondeu Sancho —, que naquele onde a vi a sua grandez não era mais que a de uma casa muito pequena?
— Devia então estar retirada — respondeu D. Quixote — em algum pequeno aposento do se alcácer, a espairecer com as suas donzelas, como é uso e costume das altas senhoras e princesas.

— Senhor — disse Sancho —, já que vossa mercê quer, contra minha vontade, que seja alcácer a casa da minha senhora Dulcineia — esta é porventura a hora de achar a porta aberta? E será conveniente que demos aldrabas para que nos ouçam e venham abrir a porta, pondo em alvoroço e barulho toda a gente? Vamos acaso nater à porta das nossas concubinas, como fazem os amancebados, que chegam, e chamam e entram a qualquer hora, por tarde que seja?

— Achemos primeiro o alcácer — replicou D. Quixote —; que então te direi o que será conveniente que façamos. E repara, Sancho, que eu vejo mal, ou aquele volume enorme e sombra que daqui se descobre deve ser do palácio de Dulcineia.

— Pois vá vossa mercê adiante — respondeu Sancho —; talvez seja isso que diz; ainda que eu o veja com os olhos e o toque com as mãos, hei-de acreditar tanto nisso como acredito que agora é de dia.

D. Quixote foi à frente e, tendo andado uns duzentos passos deu com o vulto que fazia sombra e viu uma grande torre, e depois reconheceu que o tal edifício não era um alcácer mas a igreja principal da povoação. E disse:

— Encontramos a igreja, Sancho.

— Já vejo — respondeu Sancho. — E praza a Deus que não achemos a n/a sepultura, que não é bom indício andar pelos cemitérios a uma hora destas, e mais tendo eu dito a vossa mercê, se não me lembro mal, que a casa desta senhora há-de ficar num beco sem saída.

— Maldito sejas por Deus, mentecapto! — disse D. Quixote. — Onde achaste que os alcáceres e palácios reais estejam edificados em becos sem saida?

— Senhor — respondeu Sancho —, cada terra tem seu uso; talvez se use aqui no Toboso edificar em becos os palácios e os grandes edifícios; e assim suplico a vossa mercê que me deixe buscar por estas ruas ou becos que se me oferecem: poderia ser que nalgum canto topasse com esse alcácer, que o veja eu comido pelos cães, que assim nos obriga a correr e procurar por caminhos e carreiros.

— Fala com respeito, Sancho, das coisas da minha senhora — disse D. Quixote —, gozemos a nossa festa em paz, e não atiremos a corda atrás do caldeiro.

— Eu conter-me-ei — respondeu Sancho —; mas — com que paciência poderei aguentar que vossa mercê queira que com uma única vez que vi a casa da n/a senhora a tenha de saber sempre e achá-la à meia-noite, não a achando vossa mercê, que deve tê-la visto milhares de vezes?

— Tu fazes-me irritar, Sancho — disse. — Vem cá, herege. Não te disse mil vezes que em todos os dias da minha vida nunca vi a sem par Dulcineia, nem ultrapassei jamais os umbrais do seu palácio, e que estou enamorado só por ter ouvido falar dela e pela grande fama que tem de formos e fina?

— Agora ouço-o — respondeu Sancho —; e digo que vossa mercê nunca a viu, nem eu tão-pouco.

— Isso não pode ser — replicou D. Quixote —; que, pelo menos, já me disseste que a viste crivar trigo, quando me trouxeste a resposta da carta que lhe enviei por tua mão.

— Não faça caso disso, senhor — respondeu Sancho —; porque lhe faço saber que também foi por ouvir falar dela a imagem e a resposta que lhe trouxe; porque sei tanto quem é a senhora Dulcineia como dar um soco no céu.

— Sancho, Sancho — respondeu D. Quixote —, há ocasiões que são boas para brincar e ocasiões onde caem e parecem mal as brincadeiras. Não porque eu diga que nunca vi nem falei à senhora da minha alma hás-de tu dizer também que nunca lhe falaste nem a viste, sendo tão o contrário disso, como sabes.»

Miguel Cervantes, O Engenhoso Fidalgo
D. Quixote de la Mancha
, (
«Il Ingenioso
Hidalgo D. Quixote de La Mancha»
, 1605)

Trad. e notas de José Bento, Gravuras
de Lima de Freitas, Relógio d’Água,
Lisboa, 2005, p. 524-28.

setembro 09, 2013

Dom Quixote de la Mancha


«— Deus fará pelo melhor — disse Sancho —, que Deus que dá a chaga, dá o remédio; ninguém sabe o que está para vir, daqui até amanhã muitas horas há, e numa e até num só momento, cai a casa; já vi chover e fazer sol, tudo ao mesmo tempo; há quem se deite cheio de saúde à noite e não se possa mover no dia seguinte.

E digam-me — porventura haverá quem se gabe de ter pregado um cravo a parar a roda da fortuna? Não, por certo, e entre o sim e o não da mulher não me atreveria eu a pôr uma ponta de alfinete, porque não caberia. [ ]

— Onde vais parar, Sancho, que te tornas um malvado? — disse D. Quixote. — Que quando começas a enfiar provérbios e patranhas, não te pode esperar senão o próprio Judas, que te leve. Diz-me, animal — que sabes tu de cravos e de rodas da fortuna, ou de qualquer outra coisa?

— Oh! Pois se não me entendem — respondeu Sancho —, não me assombra que as minhas sentenças sejam tidas por disparates. Mas não me importa: eu entendo-me e sei que não disse muitas asneiras naquilo que disse; [ ]»

Miguel Cervantes, O Engenhoso Fidalgo
D. Quixote de la Mancha, («Il Ingenioso
Hidalgo D. Quixote de La Mancha», 1605)
Trad. e notas de José Bento, Gravuras
de Lima de Freitas, Relógio d’Água,
Lisboa, 2005, p. 594.