abril 07, 2013


«Bom, mas o meu inesperado visitante a dizer, como se isso fosse pertinente para a inexplicitada situação em que agora se encontrava, que mesmo o relativo sucesso da sua carreira profissional dependera, em larga medida, de circunstâncias exteriores à sua vontade. Não as tendo podido determnar, soubera, no entanto, utilizá-las, como aliás competia a um diplomata de um pequeno país com passado e sem futuro. E que assim conseguira ir parecendo ter-se tornado em quem se tinha tornado na sua vida pública, a cópia de quem poderia ter sido, sabendo embora que poderia ser outro noutras circunstâncias. Ou até nas mesmas, como afinal são as circunstâncias de todos quando reduzidas às essências que, em resumo, consistem em ter nascido de alguém, mesmo se a contragosto de parte a parte, e em morrer-se só, mesmo se acompanhado pelo boca-a-boca do pronto-socorro.»

:)
Helder Macedo, Tão Longo Amor Tão Curta a Vida,
Lisboa, Presença, 2013, p.13


abril 02, 2013

                             Jules Lachelier (1834-1918)

«[ ] Dizer que um acto é livre, é dizer que é indeterminado a qualquer respeito, ou que procede de qualquer coisa indetermnada: mas a indeterminação como tal não tem nada de actual nem, por consequência, de observável [ ]. E é necessário notar que quaisquer pensamentos que não correspondessem em nós a nenhum desejo não exerceriam influência nenhuma sobre os nossos actos: porque nós não podemos agir senão tendo um bem em vista, e não podemos considerar um bem senão aquilo que para nós é objecto de um desejo.

Há mais: os próprios pensamentos que nos dão a representação de uma conduta a seguir não despertam e não se ordenam em nós senão sob a influência de um desejo, ou pelo menos de uma inclinação: porque até o nosso espírito ficaria inactivo se não fosse solicitado pela atracção de um bem, que procura possuir em ideia enquanto não o possuímos em realidade.»



«As nossas sensações, ou o que nelas há de subjectivo, as nossas afecções, serão nós próprios? […] Dizer que gozamos um prazer e sofremos uma dor, não será confessar que somos alguma coisa que se distingue desse prazer e dessa dor?  […]
Donde provém, finalmente, o nosso esforço para nos aproximarmos do que nos agrada e nos afastarmos do que nos fere, se não existe em nós um princípio de acção, uma tendência primitiva, que é estimulada pela afecção, mas não criada por ela? […]

[O] que talvez seja verdade é envolver a consciência de cada afecção, como antecedente necessário, a [consciência] de uma tendência que a produz e que nela se reflecte. A tendência não nos é dada senão pela afecção, e a necessidade mal desperta, assume para nós a forma de um mal-estar: mas sentimo-la, por assim dizer, a trabalhar, no movimento contínuo que a pouco e pouco transforma esse mal-estar em sofrimento e desse mesmo sofrimento faz nascer o prazer que acompanha a satisfação da necessidade e o bem-estar que se lhe segue.

Não é pois da percepção à vontade, mas, pelo contrário, da vontade à percepção, que se sucedem, na sua ordem de dependência, e provavelmente também de desenvolvimento histórico, os elementos da consciência. […] A consciência é essencialmente a oposição de um sujeito ou de um eu ao mundo exterior; e foi esse sujeito que sucessivamente procurámos na qualidade sensível e na afecção, para finalmente o encontrarmos na vontade.»



Jules Lachelier, Psicologia e Metafísica,
Trad. e Prefácio Adolfo Casais Monteiro
Lisboa, Cadernos Culturais Inquérito, nº 87
pp. 25-26; 41-42; 46

março 29, 2013


«Tudo quanto Cousin afirmava em nome da experiência interior, nega-o uma nova psicologia em nome dessa mesma experiência. [ ]

Suponhamos pois com Cousin que possuímos certos conhecimentos a priori: o valor objectivo destes conhecimentos não poderá consistir, como o de todos os outros, senão na sua concordância com os fenómenos: simplesmente, enquanto os nossos conhecimentos se coordenam ordinariamente pelos respectivos objectos, será necessário, se esses conhecimentos de que se fala são verdadeiramente a priori, que sejam, pelo contrário, os fenómenos que se coordenem por eles.

Foi precisamente assim que Kant o entendeu, quando empreendou o estabelecimento e não, como se supôs, a destruição, do valor objectivo dos princípios do nosso intelecto [ ].

Será mesmo lícito afirmar, em nome da observação anterior, a existência de uma espécie particular de conhecimentos  a priori? Estes conhecimentos, na psicologia de Cousin, são de duas espécies: uns, como o «princípio de substância» e o «princípio de causa», são relativos a coisas em si; os outros, como o princípio de indução, têm o seu objecto no mundo dos fenómenos.

Ora parece-nos que os primeiros, se realmente existem no nosso espírito, merecem mais o nome de crenças do que o de conhecimentos: é com efeito possível que correspondam a objectos, mas não temos possibilidades de o averiguar, visto que, por hipótese, tais objectos estão situados fora da esfera da nossa consciência.

Um juízo como o princípio de indução pode pretender, pelo contrário, o título de conhecimento, porque só de nós depende averiguar que as coisas se passam na natureza em conformidade com esse princípio: mas deverá este conhecimento ser a priori ou a posteriori?

[Direis] que o princípio de indução nos faz conhecer a priori a ordem que reina no universo: [mas] concordais ser a experiência que dá valor de objectividade [àquele] princípio e que, se ele existe a priori no nosso espírito, só a posteriori adquire o título e a categoria de conhecimento.

[ ] Não temos pois motivo nenhum para admitir, sob o nome de razão, uma faculdade original, a menos que essa faculdade seja a de formular, sobre as coisas em si, juízos cujo valor e a própria existência fogem a qualquer discussão.»

Jules Lachelier, Psicologia e Metafísica,
Trad. e Prefácio Adolfo Casais Monteiro, Lisboa,
Cadernos Culturais Inquérito, nº 87, pp. 20 a 22

março 27, 2013



«Observamos em nós próprios certos factos de um género particular, aos quais chamamos pensamentos, sentimentos, vontades, que não se desenvolvem no espaço e são unicamente visíveis pela consciência. [ ]

Os factos da consciência, com excepção contudo dos «factos voluntários», estão submetidos a leis análogas às que regem o mundo exterior. Podemos descobrir estas leis pelo mesmo processo que às outras leis da natureza, isto é, observando os factos e notando o que há de regular na sucessão deles.

Relacionamos, em geral, os factos da consciência com certas propriedades duráveis do nosso ser, às quais chamamos faculdades; mas, no caso particular dos «factos voluntários», apreendemos directamente a causa produtora ao mesmo tempo que o efeito produzido: temos consciência da nossa vontade como potência activa, e é à imagem desta que representamos as nossas ouras faculdades.»

Jules Lachelier, Psicologia e Metafísica,
Trad. e Prefácio Adolfo Casais Monteiro, Lisboa,
Cadernos Culturais Inquérito, nº 87, pp. 15-16

março 25, 2013


Era uma vez uma serpente infinita. como era infinita
não havia maneira de saber onde estava a sua cabeça.
de cada vez que se lhe tirava uma vértebra
não fazia falta nenhuma. podia-se mesmo
parti-la deslocá-la emendá-la.
ficava sempre infinita.

quem quisesse levar-lhe um bocado para casa podia pô-lo
na parede e contemplar um fragmento de serpente infinita.

:)
ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, # 68

março 23, 2013


«Queremos todavia insistir no significado essencial que tem para a ciência o alargamento que fazemos da realidade mediante a nossa imaginação construtiva. A realidade do físico, disseram já, não se reduz ao mundo fragmentário dos fenómenos, estende-se ainda a todo um mundo de objectos e fenómenos possíveis em que a razão reconhece uma ordem mais plausível, conforme às suas próprias exigências. Parece, à primeira vista que o cientista sonha, e no sonho procura realizar o ideal que não encontra à sua volta. Porque pretende dar vida aos fantasmas do seu pensamento, encontrando de novo os objectos que supomos arbitrariamente pensados?

E contudo este é o mais alto valor do postulado da racionalidade da ciência. Tudo o que é pensado como possível deve verificar-se, mais cedo ou mais tarde, no universo da realidade. O pensamento torna-se assim um olhar de ante-descoberta voltado para o desconhecido; o seu teorizar não é trabalho de vã abstracção, antes esforço para enriquecer a realidade dilatando-lhe os limites.

O princípio que entra aqui em jogo foi largamente empregado por Leibniz e por ele determinado com a «razão suficiente», e é fácil de ver que domina o desenvolvimento da ciência dos tempos mais remotos aos modernos.

Já Anaximandro de Mileto (cerca de 600 a.C.) [ — um dos mestres de Pitágoras, com Tales —] respondia às dúvidas dos que não compreendiam como a Terra possa estar isolada no espaço sem cair, dizendo que por estar colocada igualmente em relação aos outros corpos celestes não há razão para que caia de preferência para o alto do que para o baixo, para a direita ou para a esquerda. E por outro lado pensava que a realização das condições que dão origem ao nosso mundo não deve constituir um caso único, por isso infinitos mundos semelhantes viriam a produzir-se no espaço infinito e sucessivamente no tempo.»

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«A realidade fragmentária dos fenómenos deve ser pensada pelo físico dentro do quadro duma realidade possível, onde as causas operem por contiguidade no espaço e no tempo; e esta realidade física abrange dentro de si inclusive os factos da história. Quando nos volvemos a considerar a concatenação destes factos, somos obrigados precisamente a procurar a continuidade na ordem dos motivos humanos dos quais recebem o seu próprio significado. Uma acção responde a um objectivo, fora do qual não é inteligível; uma descoberta responde a uma ideia, e uma ideia supõe, em geral, todo um desenvolvimento anterior de ideias.»

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Federigo Enriques, O Pensamento Científico,
Trad. e Pref. de V. de Magalhães Godinho,
Lisboa, Cadernos Culturais Inquérito nº 45,
p.37-38; 63-54

março 20, 2013


«Si on cherche profondément le vrai
Et qu’on désire ne pas se fourvoyer,
On doit réfléchir sur soi sa lumière intérieur,
Concentrer les amples mouvements de sa pensée
Et apprendre à son âme que ce qu’elle entreprend
                                                            au-dehors,
Elle le possède déjà, déposé secrètement en elle.
Ce que naguère recouvrait le noir nouage de l’er
                                                                  -reur,
Brillera plus distinctement que Phébus en personne.
Car l’âme ne s’est pas vu ravir toute sa lumière
Par la masse d’oubli dont l’a recouverte le corps.
Sans nul doute une semence de vrai reste fixée à
                                                              l’intérieur
Que vient ranimer un enseignement refraîchissant.
Comment réprondiez-vous spontanément juste aux
                                                              questions
Si rien ne l’entretenaient au plus profond de votre
                                                                    coeur?
Si la Muse de Platon fait entendre le vrai,
Quando on apprend, on se souvient sans s’en rendre
                                                                  compte.»

Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.141

março 18, 2013


«Com quão grande variedade de formas
os animais percorrem as terras!
De facto, uns têm um corpo alongado e arrastam-se no pó,
marcando no solo um sulco contínuo
ao arrastarem-se esforçadamente,
outros têm a leveza errante das asas,
para fustigarem os ares
e atravessarem em voo os espaços do amplo céu;
outros ainda, deslocando-se a andar,
alegram-se ao imprimirem no solo
a marca dos seus passos,
seja para atravessarem verdes planícies
seja para se embrenharem nos bosques.
O facto de todos estes animais,
embora os vejas diferentes entre si
pela variedade das formas,
terem a face voltada para baixo
basta para lhes tornar embotados e pesados os sentidos.
So a raça dos homens ergue mais alto a excelsa cabeça,
e, leve, ergue-se com o corpo direito
e olha de cima para as terras.
o que esta postura ensina, a não ser que,
como ser terreno, não percebas mesmo nada, é o seguinte:
Tu, que procuras o céu com o rosto levantado,
e ergues a fronte,
ergue também o teu espírito para o alto,
para que a mente, pesada,
não tenda para baixo, sendo inferior ao corpo
que se ergur com maior leveza para as alturas.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 5, Metro 5, p.189-90.

março 16, 2013


«Qu’est-ce donc, mon garçon, qui t’a plongé dans la mélancolie et le désespoir? Tu as vu, j’en suis sûre, quelque chose d’extraordinaire et d’inhabituel. Tu penses que la Fortune a changé à ton égard: tu te trompes!

Elle a toujours les mêmes pratiques: c’est dans sa nature. Elle est restée à ton égard constante, à vrai dire, dams son inconstance même. Elle était la même quand elle te flattait, quand elle se jouait de toi en te faisant miroiter un faux bonheur.

Tu as découvert le double visage de cette puissance aveugle. Alors qu’elle dissimule encore son vrai visage aux autres, devant toi, elle a véritablement jetée le masque. Si tu l’apprécies, aie recours à ses pratiques; ne t’en plains pas. Mais si sa duplicité te fait horreur, dédaigne-la, repousse-la: ses jeux sont funestes. Au lieu de provoquer en toi tout ce désespoir, elle aurait dû te procurer la tranquillité. Car au moins elle t’a laissé, alors que personne ne peut jamais avoir la certitude de la garder auprés de soi.

Accorde-tu vraiment du prix à un bonheur en sursis? Et apprécies-tu la présence à tes côtés d’une Fortune dont tu n’est pas sûr qu’elle reste et dont le départ te plongerá dans le désespoir? Si on ne peut la retenir comme ont veut et si elle séme la catastrophe derrière elle, qu’est-elle d’autre, cette inconstante, que le signe annonciateur de la catastrophe?

Il ne suffit pas de regarder la situation qu’on a sous les yeux; la sagesse consiste à évaluer la finalité de toutes choses et c’est précisément cette faculté de passer d’un extrême à l’autre qui ne rend pas redoutables les menaces de la Fortune, ni souhaitables, ses séductions.

Enfin, tu dois tolérer sans te plaindre tout ce qui s’accomplit à l’intérieur du champ d’action de la Fortune, une fois que tu as accepté son joug sur ta nuque.»

Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.72-3

março 14, 2013


«Aqueles reis que vês altivos,
sentados no alto dos seus tronos,
magníficos com as suas roupas
de púrpura resplandecente,
rodeados de tristes armas, olhando com ar ameaçador,
resfolegando com a sanha do seu coração,
se alguém lhes retirar, a estes soberbos,
a cobertura do seu vão aspecto exterior,
logo verá que lá por dentro aqueles homens altivos
carregam apertadas cadeias:
de um lado, o desejo faz-lhes voltear os corações
com venenos de ansiedade,
do outro, a torva ira flagela-lhes a mente,
erguendo vagas de furor,
ou então é a tristeza que faz esmorecer
aqueles de que se apoderou,
ou é uma esperança vã que os atormenta.
Ora, embora tu vejas muitos tiranos,
eles fazem parte, no fundo, de um só indivíduo,
e esse, subjugado por amos iníquos,
não faz aquilo que ele próprio quer.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 4, Metro 2, p.136

março 12, 2013


«Ainda que o ganacioso,
rico em ouro devido ao abismo que flui,
recolha riquezas que não são capazes de o satisfazer,
e carregue o pescoço com pérolas do Mar Vermelho,
com cem bois lavre campos de magnífica fertilidade,
nem a mordaz angústia o abandona enquanto é vivo,
nem as efémeras riquezas o acompanham quando morre.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 3, Metro 3, p.86

março 10, 2013


«Quando Febo começa a espalhar pelo pólo
a luz com as róseas quadrigas,
empalidece a estrela, ofuscado o seu rosto luminoso
pelas chamas opressoras.
Quando o bosque com as rosas primaveris enrubesce,
com o sopro do tépido Zéfiro,
basta que sopre desvairadamente o Austro nebuloso
e a beleza das suas pétalas apartar-se-á dos espinhos.
Muitas vezes resplandece o mar, com o bom tempo,
com as ondas imóveis;
muitas vezes o Aquilão desencadeia
tempestuosas procelas,
subvertendo a lisa superfície das águas.
Se é rara a forma que perdura no mundo,
se varia com tantas alterações,
fia-te agora nas efémeras fortunas dos homens,
fia-te nos fugazes bens!
É coisa conhecida e está estabelecido por uma lei eterna
que nada do que foi criado seja firme.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 2, Metro 3, p.54

fevereiro 28, 2013


«Que l’univers dans une parfaite stabilité
Connaisse des variations harmonieuses,
Que les éléments en concurrence
Observent un pacte perpétuel,
Que Phébus emmène la lumière rose
Du jour sur son char d’or
Pour que Phébée commande aux nuits
Amenées par Vesper,
Pour que la mer insatiable contienne
Ses flots dans une limite déterminée,
Pour que les sols mouvants ne puissent
Se déployer sur de vastes étendues,
Voilá une série de phénomènes controlés
Par ce qui régit la terre et la mer
Et qui commande au ciel: l’amour.
Si jamais il relâche les rênes,
Lá où il règne aujourd’hui,
La guerre aura tôt fait de s’installer
Et le mécanisme actuellement mû
Avec cohérence et beauté
Ne pourra résister aux forces destructives.
C’est aussi l’amour qui maintient les peuples
Unis para un pacte inviolable,
C’est lui qui noue les liens sacrés
Du mariage par des vertueux rapports,
C’est également lui qui dicte ses lois
Aux compagnons fidèles.
O bienheureux genre humain
Si votre coeur obéit à l’amour
Auquel obéit le ciel.»

Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.100-1

fevereiro 26, 2013


«Ainda que a Abundância, com o corno repleto,
derrame tantas riquezas
quantas as areias o mar agitado por violentos ventos faz
rolar,
quantos astros brilham num céu limpo,
nas noites estreladas,
e não volte atrás a mão, nem assim
o género humano deixará de se lastimar
com míseros queixumes.
Ainda que Deus acolha benevolente os votos,
pródigo de grandes quantidades de ouro,
e ornamente com preclaras honrarias os que ardentemente
as ambicionam,
nada disto será considerado suficiente,
mas a cruel ganância,
devorando aquilo que tinha perseguido,
inventa novas necessidades.
Que freios onde travar, com um limite fixo,
o desejo que se lança para diante de cabeça,
se quanto mais abundantemente tem, mais quer ter?
Nunca poderá ser rico o homem
que, temeroso e descontente, se julga necessitado.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae», 524 d.C.), Trad. Luís M.G. Cerqueira, Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 2011, Livro 2, Metro 2, p.50-1


fevereiro 24, 2013


«Num consultório manhoso de um bairro lisboeta, duas mulheres esperam a chegada do médico, em Novembro de 1975. Nas ruas cheias o ambiente é tenso e sucedem-se as manifestações, naquela sala lúgubre elas estão sós consigo próprias, aguardando a hora de serem atendidas. A segunda a chegar mete conversa e descobre conhecer a sua ocasional «parceira»: ambas são do Porto, da Foz, de classe social muito diferente (a mãe de uma trabalhou para a mãe da outra) e compercursos de vida completamente distintos. E são estes percursos que, afinal, no fundo, também têm muito em comum, é o «retrato» mais íntimo das duas mulheres, que o leitor vai descobrindo através de magistrais diálogos, pungentes e divertidos, entre ambas — e, em simultâneo, interiores. Enquanto o médico não chega — e acabará mesmo por não chegar…»

Vasco Graça Moura, Duas Mulheres em Novembro,
Contos Inéditos Visão, Lisboa, 2006, texto da contracapa.

fevereiro 22, 2013

«Coimbra, com os altos e baixos da sua topografia íngreme e escuramente acanhada, era então um meio muito provinciano, uma rapariga vinda de fora e dita de boas famílias tinha de ir para um lar ou para casa de uma família respeitável, não podia sair sozinha à noite para não se arriscar a ficar completamente queimada pela má-língua, o curso de Românicas quase só tinha mulheres que se destinavam invariavelmente  ao professorado a não ser que casassem antes de concluí-lo e deixassem de pensar no canudo, os namoros eram o mais discretos possível, nem sequer se podia andar na rua de mãos dadas ou ir um parzinho ao cinema sem o inevitável «arame farpado» de mais alguém, enfim, coisas daquele tempo, segunda metade dos anos quarenta, entrada dos anos cinquenta, a seguir ao fim da guerra, qualidade de vida medíocre, hipocrisia moral generalizada, expectativas de mudança política em nome da democracia brandidas aqui e ali com todas as cautelas, gerandes discussões teóricas sobre a autenticidade da expressão artística e a função social da arte, medo da polícia, sobretudo medo da polícia, organização ainda imperfeita da esquerda comunista e da oposição unitária no meio académico e também alguns problemas complicados de implantação no meio operário, sobretudo na metade Norte do país.» 

Vasco Graça Moura, O Enigma de Zulmira,
Quetzal Editores, Lisboa/ 2002, pp.53-4

fevereiro 20, 2013


«A certa altura, apesar da chuva e da pressa, da violência da escuridão a desdobrar-se sem fim e da confusão do percurso, apeteceu-me sair da auto-estrada, meter por uma via secundária, percorrer sítios onde fosse forçado a abrandar e a olhar, sem a hipnose forçada das faixas brancas no alcatrão, mesmo sabendo que, de noite, pouco ou nada poderia avistar, mas precisava de ter consciência de que havia árvores nas bermas, de que atravessava povoações adormecidas, [ ] para depois ainda, voltar a sentir-me completamente só nessa luta contra os elementos como num corpo a corpo contra o tempo e o espaço e o próprio destino.»

Vasco Graça Moura, Meu amor, era de noite,
Quetzal Editores, Lisboa/ 2001, p.69

fevereiro 10, 2013


«Para compreender alguma coisa em filosofia e conhecer o verdadeiro alcance da razão é preciso investigar primeiro aquilo que torna possível a existência dos juízos certos, universais e necessários — juízos a priori —, em que se exprimem as relações experimentais entre as coisas, relações que não poderíamos atingir pela análise pura e simples das nossas ideias.

Kant descobriu e expôs esta justificação na Crítica da Razão Pura (1781); e nessa obra fundamental demonstra que a nossa maneira natural e comum de conhecer as coisas exige previamente que as coisas estejam submetidas ao princípio da causalidade, de modo geral, às condições a priori do conhecimento científico.

A análise de Kant não incide sobre as condições psicológicas em que a consciência humana conhece os objectos, mas sobre outras condições mais remotas desse conhecimento.

Efectivamente, o facto psicológico é já em nós qualquer coisa de organizado; antes da impressão sensível, a percepção deve ser uma dispersão sem lei, uma diversidade sem nexo.

O acto primeiro da sensibilidade consiste, pois, na síntese prévia dessa diversidade pura e sem coesão; mas a síntese dos elementos indefiníveis não é mera justaposição ou associação: é uma transformação de natureza.

A justaposição no espaço e a sucessão no tempo resultam desse acto; por ele a sensibilidade humana impõe à diversidade certas formas a priori, por intermédio das quais todas as coisas se nos dão a conhecer daí em diante.

Desta idealidade do espaço e do tempo(*) resulta que o nosso conhecimento é apenas de fenómenos, e não da realidade, da coisa em si: o númeno

«(*) O espaço e o tempo são apenas formas prévias, vazias e inertes que tornam simplesmente possíveis a medida e a localização. Para que surja através delas um objecto é preciso que a poeira de impressões que vai preencher essas formas seja agrupada pela nossa consciência. Mas este agrupamento não constitui ainda o conhecimento do objecto: é preciso que o pensamento una essas impressões e as reconheça como suas. A unidade provém de um acto do entendimento — não ligação psicológica dada na experiência, mas «apercepção transcendental», que é a condição de qualquer experiência, um «eu penso» anterior ao conhecimento. A unidade de um «eu» universal, que age em todos nós uniforme e irresistivelmente, é o fundamento da ordem que encontramos nas coisas. A mola do pensamento é a condição de possibilidade do objecto.»


Pierre Ducassé (1905-1983), As Grandes Correntes da Filosofia,
(«Les Grandes Philosophies», 1972) Trad. Álvaro Salema, Lisboa, Public. Europa-América, Colecção Saber nº 10, pp.88-89 e n.53

fevereiro 06, 2013

fevereiro 04, 2013


(continuação)

Cláudio exerceu também a censura, o que não se fazia há muito [ ], mas igualmente no desempenho destas funções mostrou irregularidade de carácter e de comportamento.
Ocupou-se sempre com a maior solicitude do abastecimento e segurança de Roma. [ ] Iniciou grandes trabalhos, embora se preocupasse mais com o número deles do que com a sua utilidade. Distribuiu frequentes vezes gratificações ao povo. Deu também muitos espectáculos magníficos [ ]. (p.282-85)

Em Roma e fora dela, reformou Cláudio ou restabeleceu ou instituiu muitos usos relativos às cerimónias religiosas, aos costumes civis ou militares, aos direitos das diferentes ordens do Estado [ ]. Regulamentou a promoção militar dos cavaleiros [ ]. Estabeleceu um soldo e um género de serviço fictício, a que deu o nome de supranumerário, que conferia um título sem funções. (p.287)

Muito jovem ainda, teve duas mulheres [ ]. Repudiou a primeira, ainda virgem, porque os pais dela tinham caído em desgraça junto de Augusto; a outra perdeu-a, por doença, no próprio dia fixado para a boda. Desposou em seguida Pláucia Urgulanila, de família triunfal, e depois Elisa Petina, filha de um consular.

De uma e outra se separou pelo divórcio: de Petina, por causa de faltas ligeiras; de Urgulanila, em virtude das suas vergonhosas devassidões ligeiras [ ]. Contraiu depois matrimónio com Valéria Messalina [ ]. Mas quando soube que além dos seus excessos e crimes [ ] mandou-a matar, declarando [ ] «que, como se saía mal nos casamentos, ficaria solteiro; e que, se violasse o seu juramento, consentia deixar-se matar [ ]».

Apesar disso, tratou, dentro de pouco, de nova união com a mesma Petina, a quem repudiara, e com Sólia Paulina, que fora casada com Caio César [Calígula]. Mas, seduzido pelos encantos de Agripina, filha de Germânico, seu irmão [falecido], [ ] subornou senadores, levando-os a proporem [ ] que ele fosse casado com ela, visto que aquela união ser de importância capital para o Estado. (p.288-89)

Teve filhos das suas três mulheres: de Urgulanila, Druso e Cláudia; de Petina, António; de Messalina, Octávio e Germânico, a que cognominou pouco depois de Britânico. Entre os libertos de quem mais se afeiçoou contam-se o eunuco Posides, a quem se atreveu a honrar com uma lança sem ferro [recompensa militar], na presença de soldados valorosos [ ]. (p.289)

Governado [ ], pelos seus libertos e pelas esposas, viveu mais como escravo que como imperador. Dignidades, comandos, impunidades, suplícios, tudo isto ele distribuiu para satisfazer os seus desejos e caprichos, e as mais das vezes sem dar por tal. (p.290-91)

Não deixava de haver em toda a sua pessoa um certo ar de grandeza e dignidade, quer de pé quer sentado, mas principalmente quando em repouso. [ ] De saúde má, desde que tomou conta do império, melhorou, salvo no que toca ao estômago [ ]. Organizou grandes e frequentes banquetes [ ]. Estava sempre pronto a comer e a beber a qualquer hora e em qualquer lugar. (p.291-92-93)

Amou apaixonadamente as mulheres, mas nunca teve comércio amoroso com homens. Apreciava muito os jogos de azar; chegou mesmo a publicar um tratado sobre esta arte. Deu provas de um natural cruel e sanguinário tanto nas pequenas como nas grandes coisas. [ ] Mas o traço mais saliente do seu carácter era desconfiança e o medo. [ ] O seu amor por Messalina, por mais ardente que fosse, resistiu menos ao ressentimento dos seus ultrajes que ao receio das suas maquinações [ ]. (p.298)

Para o fim da vida, deu Cláudio provas evidentes de arrependimento por ter casado com Agripina e adoptado Nero. Um dia em que os seus libertos celebravam na sua presença a equidade de uma sentença contra uma mulher adúltera, disse-lhes ele «que a sorte lhe havia dado também esposas impúdicas, mas não impunes».»

Suetónio, Os Doze Césares,
trad. e notas João Gaspar Simões
Lisboa, Biblioteca editores Independentes, 2007