janeiro 03, 2014

Redistribuição do rendimento de capital


Redistribuição do rendimento de capital

É curioso que haja quem se surpreenda com a situação frequente de a taxa de juro ser inferior à da inflação ou, quando não é o caso, pouco lhe ser superior. No fundo, essa perplexidade decorre de não se entender o que é o dinheiro, o capital e o juro.

Conceptualizo-os assim: o dinheiro, primitivamente uma mercadoria como outras, mas de aceitação universal no espaço e no tempo, é actualmente um instrumento politicamente imposto como meio de pagamento e liquidação de dívidas, dada a emissão das moedas soberanas ser inconvertível em ouro e os bancos, receptores de depósitos e credores de empréstimos, serem nacionalizados e resgatados por impostos sobre os contribuintes antes e em vez de falirem.

A troco de um juro baixo, os emissores de moeda inconvertível – estados e bancos – operam no mercado aberto de títulos de dívida através da emissão e, ou, amortização de obrigações quer do Tesouro quer de empresas, públicas ou privadas, bancárias ou não, arrecadando ou lançando papel-moeda em circulação ou, nas operações das empresas, diminuindo ou aumentando a liquidez dos depositantes dos bancos em troca de obrigações, i.e., compromissos de reembolso em data futura dos empréstimos contraídos, mediante o pagamento de um juro periódico a dada taxa incidente sobre o valor da obrigação. Essa taxa de juro é maior ou menor consoante a avaliação, em cada tipo de operação, do risco de incumprimento do mutuário.

O processo financeiro parece assim incrementar o dinheiro (D) no decurso do tempo (t) segundo uma taxa de crescimento, o juro (i) por unidade de tempo,

(1)    D(i,t) = D*(1+i)^t

Se o dinheiro se desvalorizar pela inflação a determinada taxa (d), esta será descontada da taxa nominal i para compor a capitalização ao juro real,

(2)    D(i,t,d) = D*(1+i)^t*(1+d)^-t

Ainda que este algoritmo de capitalização do dinheiro formule o respectivo cálculo não explica nem fundamenta o fenómeno do crescimento do dinheiro pelo simples decurso do tempo. Em si, o empréstimo a juros parece ser um mero locupletamento à custa alheia, uma usura injustificada e infundada.

Ora o núcleo do esquema de circulação de capital – e por capital (K) designa-se não só dinheiro acumulado, como tudo o que lhe equivalha por representar poder de aquisição ou dação em pagamento, seja stocks de bens de consumo ou de produção – é justamente o que o faz circular, a saber a capacidade de, aplicando-o num processo de trabalho produtivo adequado (T), criar valor e enriquecer (K´>K) – individual ou colectivamente conforme a ordem jurídica consagre ou não o direito de propriedade privada.  

(3)     K à T à K’             (circulação de capital)

Sendo assim, o rendimento é precisamente todo o valor criado (K’-K) pelo trabalho produtivo o qual remunera distributivamente o trabalho actual, vivo, prestado pelos assalariados no processo produtivo, coadjuvados pelo trabalho pretérito, engenhado e incorporado nos meios de produção que os trabalhadores utilizam na respectiva produção de bens e serviços.

O rendimento originado pelo valor criado na produção é apropriado pelos detentores dos meios de produção, – matérias-primas, equipamento, instalações –, que são igualmente quem contrata os trabalhadores – a força de trabalho viva aplicada na produção –, a quem pagam os salários que remuneram o compromisso do trabalho a que se obrigam. A diferença entre o valor da produção realizada e a soma dos salários com as demais despesas de materiais, fornecimentos e desgaste de equipamento, é o lucro, se o houver, de que o proprietário, o capitalista ou o responsável da iniciativa de produção (empresário), jurídica e legalmente se apropria.

Deste modo, o valor criado em cada período (K´-K) gera o correspondente rendimento distribuível (Y), no pressuposto da utilidade objectiva do produto obtido como bem vendível, – note-se, contudo que a economia não distingue entre utilidade real e fictícia dos bens produzidos ou serviços prestados.

Assim, o rendimento distribui-se pelas duas classes intervenientes na relação de produção, os trabalhadores e os proprietários dos meios de produção (capitalistas), os factores de produção, trabalho e capital, na forma de salários (W), e lucro (L).

(4)    Y = W + L = (1 + L/W)*W

 
A dupla natureza material e financeira do conceito de capital é fulcral para o genuíno entendimento do capitalismo como sistema económico e social quer este assuma uma componente dominante privada, colectiva ou mista. O conceito de capital está assim no centro do textuário explicativo da actividade económica dos indivíduos em sociedade, seja enquanto governantes seja como governados.

A produção de valor em que o trabalho e o capital se aplicam, só gera o rendimento distribuído a esses factores pela transacção dos respectivos bens entre quem os produz e quem os procura e compra, pagando por eles o preço acordado, que tende a nivelar-se em equilíbrio com o custo de produção mais elevado da última, marginal, quantidade de produzida e efectivamente vendável ao preço que vigore no mercado.

 É esse estado de produção equilibrada com a procura que proporciona a sustentável distribuição do correspondente rendimento pelo capital e pelo trabalho.

Antes de desenvolvermos a temática da redistribuição do lucro entre os detentores de capital, advirta-se que, na classe trabalhadora coexistem diversos e muito diferenciados tipos de trabalho, cuja desigual qualificação, produtividade e responsabilidade, fundamenta a desigual remuneração dessas distintas categorias de trabalho, seja na forma de prémios de produtividade, participação nos lucros, fringe benefits ou compensações diversas. De modo geral, a intensidade capitalística do processo produtivo, pode exigir maior qualificação da mão-de-obra para operar o equipamento, e, sobretudo, na indústria de produção dos próprios equipamentos e meios de produção, que são engenhados para causar os efeitos planeados com a sua utilização no fabrico de bens.

Assim, se o quisermos, podemos relevar no rendimento criado a produtividade remunerada (v) do próprio factor-trabalho:

(5)    Y = W + L = (1 + v)*W + L = (1 + v + L/W) * W                            

Se todo o valor emerge da combinação produtiva do trabalho e capital própria da actividade económica, como surge então o juro, enquanto categoria distinta do rendimento criado pelo trabalho, mas autónoma na globalidade do lucro? Surge como consequência do reconhecimento social e jurídico do direito à propriedade privada não só de bens de consumo mas igualmente do dinheiro economizado, dos bens produzidos e dos meios da sua produção, ou seja do conjunto do capital.

É o que vamos mostrar.

O empreendedor que tome a iniciativa de produzir e colocar no mercado uma dada produção reunirá os meios para o conseguir (K) – instalações, bens de equipamento, mão-de-obra habilitada à produção em vista – a partir do que iniciará uma corrente de gastos e receitas periódicas segundo os custos e proveitos da produção transaccionada (l).

Denomina-se taxa interna de rentabilidade (r) do investimento K, aquela a que o fluxo de rendimento líquido futuro gerado na actividade do empreendimento recupera os gastos efectuados:

 
(6)    - K + S  l*(1+r)^-t = 0             (t = 0, 1, 2, …, n)

 
Ora, a reunião dos capitais necessários requer ou a prévia poupança da totalidade do dinheiro a investir ou parte dele, a ser completada por sócios do empreendedor ou por financiadores que se disponham a emprestar o capital em falta. No primeiro caso, os lucros líquidos do investimento repartir-se-ão segundo a comparticipação de cada sócio; no caso de empréstimo, o juro, o prazo e o calendário de reembolso são acordados entre o mutuante e o mutuário.

Genericamente, um investimento só é vantajoso se a taxa interna da rentabilidade esperada for superior à taxa de juro praticada no mercado (r>i), para operações de prazo semelhante, de forma a compensar o maior risco incorrido numa operação de investimento de longo prazo.

Na modalidade do mútuo de fundos para a realização de investimentos produtivos, temos uma primeira redistribuição dos rendimentos de capital, na distinção entre juros e lucros distribuídos aos sócios, aqueles menos incertos que estes.

Iremos mostrar como os detentores de capital estão submetidos aos efeitos da lei dos rendimentos decrescentes a qual exibe a irredutibilidade das situações menos eficientes de monopólio, – que são a única garantia de rendimento sem trabalho –, embora sujeito à eventual baixa tendencial da taxa de lucro do capital acumulado.

Antes de o provar, porém, saliente-se liminarmente que todo o rendimento é criado pelos produtores, condicionado à utilidade dos bens e serviços produzidos, que é o fundamento da respectiva procura. No entanto, deve observar-se que a produtividade do trabalho aumenta com a adequação dos instrumentos de trabalho e dos meios de produção aplicados no processo produtivo. É à fecundidade da natureza e à inteligência e conhecimento engenhados nos meios de produção e utensílios de trabalho, – para causar os efeitos programados com a sua utilização adequada –, que se deve a grande produtividade do trabalho humano na fase actual da civilização, e não a qualquer noção abstracta de capital financeiro ou ficção fetichista de capital técnico.

Como surge então o lucro puro e se forma a renda de monopólio?       

Em economia, designa-se por acumulação primitiva o fenómeno da reunião de capitais nas mãos de um indivíduo ou grupo de indivíduos, seja qual for a proveniência de tais capitais e a sua natureza: dinheiro, ouro, jóias, gado, terras, casas, escravos; roubo, jogo, embuste, guerra, pirataria, casamento, herança ou donativo. Em economia, o ponto é o que o detentor de tal riqueza vai fazer com ela: conservar o seu tesouro, gastá-lo, ou aplicá-lo produtivamente? No primeiro caso, o entesouramento torna estéril a respectiva fortuna; no caso do consumo sumptuário alguma animação no sector de bens de luxo pode sobrevir; no último caso, o do investimento produtivo, há aumento do volume e valor da produção da sociedade.

O enriquecimento causado pelo mero empobrecimento doutrem, o chamado locupletamento à custa alheia, é um fenómeno social e jurídico distinto da origem económica genuína do enriquecimento individual ou colectivo que vamos mostrar, através do exemplo aritmético abaixo editado.

O exemplo é o de um hipotético sector de produção composto de três tipos de empresa: (1) empresa intra-marginal, que opera com os mais baixos custos unitários; (2) empresa média, normal ou representativa que opera com custos unitários médios do sector; (3) empresa marginal que labora com os custos unitários mais elevados.

Por hipótese, as empresas concorrem entre si; a quantidade total produzida é vendida e corresponde à procura global dos consumidores, isto é, mesmo a produção da empresa marginal é necessária à satisfação do nível de consumo existente.

Nestas condições, o custo unitário da empresa marginal iguala o preço corrente do mercado, pelo que o lucro líquido da empresa é zero. Se a curva da procura dos consumidores se deslocar em sentido descendente, a empresa marginal ou abre falência ou passa a praticar salários mais baixos aos seus empregados. No caso contrário, de deslocação ascendente da curva, o preço de venda mais elevado proporciona algum ganho adicional à empresa marginal – e, às demais empresas do sector – ou algum aumento de salários, e incentiva a entrada de novos produtores no mercado.

De qualquer modo, enquanto coexistirem estes três tipos de empresa em concorrência, a do primeiro tipo, a empresa intra-marginal, beneficia de um lucro supra-normal por comparação com a empresa média do sector. Esta situação pode ser temporária ou não, estável ou precária, mas enquanto existir define e compõe uma renda de monopólio, um lucro puro, a favor da empresa mais produtiva, mais eficiente, a que labora com menores custos comparativos.

É verdade que, pode considerar-se que nada é estático, nada perdura sem mudança. De facto, os ganhos de produtividade devidos a novas tecnologias, a inovação de processos de fabrico, acaba por se generalizar a todas as empresas, reduzindo a vantagem pioneira da invenção, – a sua renda de monopólio –, à percepção de alguns royalties ou franchising de algum modelo de negócio.

Contudo, é também comum, o sector evoluir de concorrencial para monopolista, oligopolista ou de concorrência monopolista. Em todos estes casos, as empresas intra-marginais consolidam, estabilizam e aumentam os seus lucros supra-normais, rendas de monopólio – que essa é a sua verdadeira natureza –, restringindo a produção, incrementando o preço de venda, concertando entre si essas práticas ilegais, ou simplesmente publicitando à outrance a (discutível) excelência dos seus produtos de marca, face aos sucedâneos da concorrência.

Todas estas situações de mercado são menos eficientes no plano económico porque se apropriam de recursos sem contrapartida de valor criado.

Conceda-se que os exemplos mais flagrantes de captura de rendas de monopólio são a prática oligopolista de restrição da exploração de petróleo dos países da OPEP, de modo a impelir o aumento do preço do crude, e o arrendamento e cotação de terrenos e do imobiliário nos espaços urbanos e suburbanos das grandes metrópoles e das simples cidades.

No caso do petróleo, o custo de exploração nos poços da Arábia Saudita é, imagino, três, quatro ou cinco vezes menor do que o da extracção no Mar do Norte ou no Golfo do México. Ora, como a produção total que vai ao mercado é toda necessária ao nível de consumo existente, a cotação do petróleo nunca é inferior à do custo marginal, mais elevado, da exploração no alto mar. E mesmo que este puro constrangimento natural não existisse, precisamente os oligopolistas da OPEP encarregar-se-iam, como de facto o fizeram no passado, por concertar entre si o preço pretendido de venda, restringindo a extracção pelo quantum necessário ao efeito.

O arrendamento, compra e venda de terrenos e imobiliário é tão sobejamente conhecido que nem vale a pena exemplificar com nenhum caso específico. Talvez, a contrariu sensu, reflectir sobre o que sucedeu em Portugal, décadas a fio, com o congelamento das rendas, imposto pela Iª República, mantido por Salazar e só agora liberalizado o regime de arrendamento urbano. Envelheceu sem manutenção todo o edificado habitacional das cidades, rarefez-se a oferta de casas para alugar, os trespasses comerciais de lojas arrendadas atingiram sempre altos preços compensadores dada a economia proporcionada pelo baixo encargo do aluguer, ou seja, a ilustração óbvia de captura de rendas de monopólio, neste caso invertido, não pelos senhorios mas pelos inquilinos favorecidos pelo dito congelamento das rendas.

 Abaixo, listo as variáveis e símbolos do sector de produção hipotético, composto pelos referidos três tipos de empresa e mostro os resultados numéricos dos fluxos e rácios económicos de cada exploração sempre pela ordem fixa seguinte:

{(S)Total do sector; (1) – e. intra-marginal; (2) – e. intra-marginal; (3) – e. marginal}

No nosso exemplo, a taxa interna de rentabilidade (r) do sector e das empresas é a da sequência seguinte:

(7)    (r) = { 9.0%; 11.5%; 7.3%; 2.2%}

Para esta grandeza de rentabilidade esperada, o valor actual líquido (net presente value) de cada empresa variará em função da taxa de juro (i) em vigor no mercado.

À sequência de taxas de juro (i) seguinte:

(8)    (i) = {8%; 6%; 4%; 2%; ¼%; -1.5%},

corresponde a sequência de cotações do capital da empresa intra-marginal (npv) como segue:

(9)    (npv) = {336; 579; 871; 1224; 1595; 2036};

Se quisermos evidenciar as variações de cotação tomando para base 100 o valor actual líquido à taxa de juro de 4%, teremos a sucessão

(10) (npv) = {39; 66; 100; 141; 183; 234}

Este exemplo hipotético ilustra à perfeição qual o grande operador de redistribuição das rendas de monopólio, os também chamados rendimentos de capital: - o mercado primário e secundário de emissão e subscrição de acções e obrigações, e sua ulterior transacção de compra e venda no mercado bolsista.

A descida das taxas de juro, o aumento da moeda em circulação, da concessão de crédito e da amortização da dívida pública anima o mercado bolsista das acções, elevando-lhes a cotação. O aumento das taxas de juro, a redução do quantitative easing, a emissão de dívida pública, impelindo à restrição do crédito, deprime a cotação das acções, tornando mais atractiva a colocação do aforro em títulos de rendimento fixo.

Em que sentido opera este mecanismo de repartição de rendimento (rendas monopolistas)?

Não é fácil destacar-lhe um sentido inequívoco. Aparentemente, muitos parecem «ganhar dinheiro» comprando e vendendo, incessantes lotes de títulos segundo os boatos correntes na praça… No entanto, as estatísticas parecem permitir inferir que nos tempos de maior crise, são as grandes fortunas que mais enriquecem, não constando um grande florescimento entre os pequenos aforradores.

Sobre a eventual tendência à baixa da taxa média de lucro do capital acumulado, também não parece possível afirmá-lo de modo definido. Há tendências e contra tendências a actuar. Cada onda de inovações permite a reanimação de ganhos vultuosos, mas, por outro lado, os gastos em investigação e desenvolvimento não originam necessariamente quaisquer invenções práticas, e podem redundar em puro desperdício de recursos sem qualquer proveito. O mesmo aliás se diga do esforço de guerra, expressão eloquente de desinvestimento e redução de capital acumulado, como de resto o são também as falências dos devedores nos períodos de depressão económica.

Até ao momento, o que se conhece é a tendência cíclica de fases de euforia e depressão de negócios, cada qual com os seus efeitos benéficos e nefastos. O problema político ou de economia política tal como o formulou David Ricardo é o da redistribuição do rendimento, designadamente, a tributação redistributiva da renda de monopólio.

As experiências colectivistas da Rússia e da China acabaram por resumir-se à constituição de uma nomenklatura de Estado que concentrou ditatorialmente o poder económico e político, acelerando o desenvolvimento rápido da indústria de bens de equipamento, de meios de produção, e contendo a de bens de consumo à satisfação das necessidades básicas da população, assegurando-lhe, contudo, a instrução pública generalizada. Estes regimes acabaram finalmente por desembocar num capitalismo misto, estadual e privado, onde rapidamente se formaram monopólios das anteriores empresas públicas, privatizadas por preços muito abaixo do valor de mercado a “camaradas” da anterior nomenklatura.

No Ocidente, os Estados Unidos continuam com a sua economia pilotada pelos grandes monopólios da banca, das multinacionais da indústria, material de guerra, exploração do espaço, investigação e desenvolvimento, informática, etc. No software informático é notável o caso exemplar da Microsoft: sem que se lhe averbem quaisquer invenções próprias – tudo foi descoberto e desenvolvido por outros – a empresa de Bill Gates soube apoderar-se e consolidar a sua posição monopolista no domínio do software estandardizado, praticando dumping contra as tentativas de concorrentes, distribuindo as suas soluções a preço-zero e embutindo-as de erros aleatórios ao coexistirem com outros programas. Hoje, a fortuna do fundador ascende várias dezenas de milhares de milhões de euros, a maior do planeta de um só accionista.  

Já na Europa, ignora-se como resolver a conflitualidade objectiva do desigual desenvolvimento dos estados do norte e os do sul, por não existir qualquer orçamento comum embora haja um desejo de união. O mundo mediterrânico, dividido entre duas culturas distintas, cristã e islâmica, pode desequilibrar-se quer por razões económicas quer políticas. Tal como na Bolsa, ninguém sabe o que o futuro traz, mas todos fazem a sua aposta. Com história ainda só no futuro, restam África e a América Hispânica, e como diria Hobbes, «Future is not yet».

dezembro 30, 2013

Redistribuição do rendimento de capital


 

Lista de variáveis e símbolos:


1        Matérias primas e outros consumos         MP
2        Salários        W
3        Capital circulante (1+2)       Ac

4        Equipamento e out. meios de produção    Af (Qa)
5        Custo dos factores de produção (3+4)       K
                
6        Produção física        Q
7        Volume de emprego (H/A)   N
8        Prazo de reintegração do equipamento     n
9        Prazo de rotação do Fundo de maneio      r
10      Valor residual do equipamento       vr
                  
11      Indicadores de economicidade:     
12      Produtividade do trabalho    Q/N
13      Salário per capita     W/N
14      Intensidade tecnológica       Af/N
15      Economicidade de consumos         MP/Q
                
16      Preço de venda unitário      p
17      Valor total de vendas         V= p.Q
18      Lucro (17-5)   L = V-K
19      Taxa de lucro l = L/V
20      Repartição do rendimento   L/W
               
21      Meios Libertos (Cash-flow):
22      ano 0  -Af-r*Ac
23      anos intermédios      ML=L+Qa
24      último ano     vr*Af+ML+Ac
25      S Cash-flow  (22+23+24)     
                 
26      Taxa interna de rentabilidade        TIR
27      Valor actual da actividade (à taxa x%) VAL
 


Fluxos e rácios económicos:



MP = 480 = 250 + 160 +  70

 W  = 220 = 66 +  88 +  66 

Ac = 700 = 316 + 248 + 136

[Af] Qa = 300 = 170 + 100 +  30

K = 1000 = 486 + 348 + 166                           

Q = 114 = 60 + 38 + 16 
N = 55 = 11 + 22 + 22 
n = 10                      
r  = 1                       
vr = 5%                                              

Q/N = 2,1 --->  5,5; 1,7; 0,7 
W/N  = 4 --->   6; 4; 3 
Af/N  = 5,5 ---> 15,5; 4,5; 1,4 

MP/Q = 4,21 --->  4,17; 4,21; 4,38

                          
P =     10,71  
V = p.Q = 1 221 = 643 + 407 + 171 
L = V-K = 221 = 157 + 59 + 5

 l = L/V = 18,1% ---> 24,4%; 14,5%; 3,2%

L/W = 1,0 ---> 2,4; 0,7; 0,1
                           
CxFlow ano 0 = -Af-r*Ac = -3 700 = -2 016 -1 248 -436
CxFlow ano 1 a 9 = ML = L+Qa = + 521 = + 327 + 159 + 35 
CxFlow ano 10 = vr*Af+ML+Ac = + 1 371 = + 728 + 457 + 186 
CxFlow ano 0 a 10 = + 2 364 = + 1 653 + 641 + 69

 TIR = 9,0% ---> 11,5%; 7,3%; 2,2%
Val à taxa de 6% = 612 ---> 613; 90; -91

dezembro 26, 2013

 
 



















«Júlio sentiu-se humilhado ao reconhecer a prodigiosa inteligência graças à qual o porteiro tomara o seu partido e a habilidade com que achava os meios de o servir. O empenho dos inferiores a sua particular habilidade para comprometer os patrões que se comprometem, já ele os conhecia, o perigo em tê-los como cúmplices no que quer que fosse, já o apreciara; mas não tinha pensado na sua dignidade pessoal senão no momento em que se sentiu tão subitamente aviltado. Que triunfo para o escravo incapaz de se elevar até ao amo é fazer o amo descer até junto dele! Júlio mostrou-se brusco e duro. Mais um erro seu. Mas ele sofria tanto! A sua vida, até aí recta, tão dura, tornava-se tortuosa; e agora via-se obrigado a usar de astúcia, a mentir.»

 

Honoré de Balzac, “Ferragus, Chefe dos Devorantes” (1833)

trad. Paula Reis, in A Comédia Humana, VII Volume

– “Cenas da Vida de Província”, Porto, Livraria

Civilização Editora, 1980, p. 311-12  

dezembro 04, 2013



«O Relatório é na administração actual o que é o limbo no cristianismo. Jacquet conhecia a mania dos relatórios e não esperara por esta ocasião para gemer acerca desse ridículo burocrático. Sabia que após a invasão dos gabinetes pelos relatórios, revolução administrativa consumada em 1804, não havia um ministro que tomasse sobre si a responsabilidade de ter uma opinião, de decidir a menor coisa, sem que essa opinião, esse assunto, tivesse sido joeirado, peneirado, descascado, pelos rabiscadores, pelos «rapadores», e pelas sublimes inteligências dos seus escritórios.

Jacquet (que era um desses homens dignos de ter Plutarco como biógrafo) reconheceu que se tinha enganado acerca da marcha daquele assunto e o tornara impraticável ao tentar proceder legalmente. [ ]

A legalidade constitucional e administrativa não produz fruto algum, é um fruto infecundo para os povos, para os reis e para os interesses privados; mas os povos não sabem soletrar senão os princípios escritos com sangue, ora os infortúnios da legalidade são sempre pacíficos; ela nivela uma nação, eis tudo. Jacquet, homem amante da liberdade, regressou, então, sonhando com as vantagens do arbitrário porque o homem não aprecia as leis senão à luz das suas paixões.»

 

Honoré de Balzac, “Ferragus, Chefe dos Devorantes” (1833)
trad. Paula Reis, in A Comédia Humana, VII Volume
– “Cenas da Vida de Província”, Porto, Livraria
Civilização Editora, 1980, p. 335-36  

dezembro 01, 2013













«Todos que passavam à minha beira iam cheios de uma linguagem tão íntima, tão pessoal, tão intransmissível, que por mais esforços das autoridades, nada se apurava do pensamento momentâneo de cada um.

Eu ouvia as ondas curtas de outros países, com ligeiros ruídos locais, e admirava-me como havia pessoas que tinham paciência para ouvirem diariamente ondas curtas.

São pessoas que percebem meia coisa ou lhes basta para viverem meia palavra. Ouvem mais os ruídos do que os sons e alegram-se a roer apenas a superfície da etimologia.

Fiquei apenas com o meu nome próprio e deixei de ter o apelido, assim podia considerar-me ténue fio de existência perante a exigência dos outros.

Ruben A., O Outro Que Era Eu (1966),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1991, p.106.

novembro 27, 2013




«Lyon pode ser classificada como a cidade mais chata da França. Tem um comércio burguês e operário que vai de estreitas avenidas desembocar em acanhadas praças que desaguam noutras pequenas avenidas que levam, mais longe, ao aglomerado de fábricas que caracteriza uma cidade industrial.

Aqui produzem-se os tecidos de algodão e seda de renome nos mercados internos e externos. A gente rica vive fora da cidade, aguardando o Verão para aos magotes irem todos a Arcachon retemperar o físico e a paciência de um ano passado nos confins da alegria.

A monotonia do dinheiro preocupa-os no pé-de-meia, nos depósitos à ordem que todos avaram bem chorudos no Crédit Lyonnais. No entanto, uma espécir de vingança acorrenta-os à moleza, certa neutralidade transmitida pelo ouvir diário dos teares mecânicos da cidade onde nasceram.

O museu é de província, com muitas naturezas mortas; a Câmara Municipal — a que os operários portugueses chamam a Maria — não prima pela limpeza nem pelo interesse arquitectónico, excepto «l’élégante simplicité de sa cour intérieure l’emporte sur les ornamentations de sa façade principale»;

os cinemas são frequentados por fitas já roucas do sonoro e já lambidas nas margens; as árvores escondem-se de Inverno e os transeauntes têm a paixão da cerveja, tirada quase de mangueira de cada esquina da cidade;

os cães vadios não se habituaram ainda Lyon, nem mesmo as grandes cocottes de luxo, sempre enjoadas quando desembarcam na gare principal dos Caminhos de Ferro Franceses;

isto tudo para não falar já dos atletas de pesos e halteres que praticam os seus exercícios nos ginásios dos maiores centros de instrução de halterofilia do ocidente.

A educação física em Lyon resume-se a ligeiras corridas, saltos à corda, marchas às nove horas da manhã em frente da Prefeitura, raras vezes se salta ao eixo, e atirar a bola de uns para os outros torna-se um tormento, com o medo sempre presente que a bola caia no chão e fique suja.

O Outro que era eu aborrecia-se muito em Lyon, ao mesmo tempo que se sentia atraído pela frequência da nostalgia que as segundas cidades de qualquer país inoculam nos seus habitantes. [ ]

Quando estava abonado, convidava a família do cônsul para jantar na pensão onde se albergara e onde contava ficar hospedado até regressar novamente ao Portugal de antanho. [ ]

O Outro satisfazia-se no quaotidiano da cidade de província, quaotidiano que morre despedaçado no regular de bons dias e boas noites, que ao longo de gerações e gerações os seus naturais a abandonarem a cidade em direcção à capital.

O Outro já regularizou a sua vida ao rom-rom do levantar, comer, mexer e deitar. E, seja-se justo e afirme-se que em Lyon era fácil realizar os dados imprescindíveis da vida.

Cidade organizada para os habitantes se levantarem a horas bem matutinas, irem a correr lotar os transportes colectivos que enfileiram intermináveis nas estreitas avenidas directas à zona fabril; cidade mobilizada para as pessoas comerem em mesas de quatro, lerem o jornal que da capital trazia coisas boas, e regressarem à tarde para, de caneca em punho, beberem o chop na próxima esquina.

Ruben A., O Outro Que Era Eu (1966),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1991, p.98-101.

novembro 24, 2013

novembro 17, 2013



«O Outro que era eu empenhava-se em tirar o máximo partido da sua estada em Lyon, não queria perder pitada. E, assim, frequentava também um curso de aperfeiçoamento nesta conhecidíssima zona têxtil, sobretudo orientado nos artefactos de seda.
 
La soirie lyonnaise a mille raisons de s’enorgueillir. Elle a séduit l’univers et sa royauté n’est pas morte. La richesse du musée des tissus en témoigne. Ses collections nous racontent la plus originale des histoires.  Il y là ume anthologie.
 
Isto dava-lhe de certeza o direito a um esplêndido emprego logo que regressasse ao seu país. Havia, pois, que aproveitar ao máximo as chances que o destino lhe prodigalizava, não perder um minuto, sair cedo depois do café au lait, deixar a barba para logo à tarde e enfronhar-se nas várias secções da fábrica onde actualmente estagiava.
 
O inverno em Lyon é muito duro, motivo que afastava o Outro da prática de desportos. Aborrecia-o um pouco aos fins de tarde. Le climat, c’est probable, explique en partie ces raffinements du bien manger, dérivatif aux heures sinistres.
 
Enquanto estava na fábrica nem dava pelo tempo passar, tal era o seu interesse em os fusos dos teares mais última palavra, ainda não exportados, que lhe fora dado contactar.
 
Peça por peça desmontava a unidade, untava com a almotolia que levara de Portugal, acarinhava os ganchos, nitidamente iguais, separava os carrinhos de linha, e desmontada a parte fundamental do tear, o coração de toda a máquina que produzia o tecido, ele ficava horas e horas embevecido, apaixonado por um estileto a que queria mudar o seu centro de orientação.
 
Quando tocavam para o almoço, servido na cantina da fábrica, ele sentia um sobressalto no outro mundo em que estava a viver, absorvido em trânsito técnico, alheio às mais elementares necessidades de nutrição. Nessas alturas vinha-lhe a saudade, recordava que nunca em França poderia comer uma boa bacalhoada nem mandar vir para a mesa uma alheira com grelos e ovo escalfado.
 
Surgia-lhe o estômago a exigir pitéus de outrora, debatia-se na cantina da fábrica com a lembrança de uns ovos moles que a Tia Luísa duas vezes ao ano mandava de Arouca, juntamente com umas morcelas que durante dias eram o asunto da conversa entre familiares e amigos.
 
E sopa? Era um sofrimento. Caldo verde nunca pudera ensinar ao cozinheiro da fábrica, renitente a sair da rotina de fritos e cozidos. À hora do almoço a Pátria surgia-lhe toda construída de retalhos culinários, enganava-lhe o apetite, crescia-lhe a água na boca, uma água que inundava o copo, saía do leito, e ficava nas margens do pensamento por longos minutos até ser absorvida pelo trabalho de estampagem e branqueação que ele à tarde tinha de fazer. [ ]
 
«Ao almoço não se fala de trabalho.» «Nem de mulheres», respondia o engenheiro-chefe de máquinas [ ]. O Outro não se expandia, raro comentava, menos ainda falava daquilo que tanto o preocupava à hora do almoço. Deixava passar, com uma candura e simpatia natural que atraía os franceses à sua mesa, olhs bagos postos em Trás-os-Montes, pastéis de bacalhau que atravessavam o espírito, miragem de um eldorado na terra.»
 
Ruben A., O Outro Que Era Eu (1966),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1991, p.55-56
 


novembro 13, 2013




«[Oh] —, como eu ambicionava uma praia longínqua, como são as praias que se conhecem na costa do Atlântico, viradas ao iodo, inundadas de brisa, de um azul sem tréguas, onde estar só é ser Deus! Preso ao meu dever, cumprindo o que não percebia, os meus olhos banhavam-se num imenso mar que nunca mais seria meu, que pensar nele era já sentir-lhe a irrealidade.»            

Ruben A., O Outro Que Era Eu (1966),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1991, p.28

novembro 08, 2013

Redistribuição de rendimento de trabalho

Redistribuição do rendimento

O núcleo do debate sobre o Estado Social posiciona-se na questão da sustentabilidade do sistema de reforma de velhice, assente no esquema de redistribuição de rendimento entre os trabalhadores no activo e os reformados.

O fundo incontornável do debate é simples: quer agora, quer sempre, quem não trabalha é, ex-post, sustentado por quem trabalha. Ex-ante, quais os limites sustentáveis do esquema?

´Aritmetizando’ a redistribuição do rendimento, propomos a seguinte equação inicial

(1)            d.a = p.(1-a)

sendo d, a contribuição percentual para a segurança social incidente sobre o salário; a, a percentagem da população no activo; e p, o valor unitário da pensão de reforma.

Deste modo, as retenções na fonte dos salários dos trabalhadores no activo – d.a -, são pagas como pensões aos reformados – p.(1-a).

Neste esquema, o equilíbrio existe desde que o rácio do número de reformados por activo – (1-a)/a -, iguale a proporção do desconto no salário para a pensão de reforma –d/p:

(1.1)       d/p = (1-a)/a

Assim, por exemplo, 0.3 de desconto do salário (d) com uma pensão média unitária (p) de 0.7 do salário apenas se equilibra com um rácio de reformados por activo – (1-a)/a – de 3 para 7, i.e., 3/7.

Contudo, é desigual a produtividade do trabalho nos diferentes sectores de produção de bens e prestação de serviços, por razão quer da diversa disponibilidade de recursos naturais e pela fecundidade variável da própria natureza, quer pelo grau de desenvolvimento tecnológico dos meios de produção utilizados, quer, finalmente, com o maior ou menor esforço e inteligência dos trabalhadores e o grau de civilização atingido pela sociedade.

A capacidade de redistribuição do rendimento é altamente potenciada com o aumento da produtividade do trabalho, como vamos observar aritmeticamente.

Dividamos, então, a população activa em dois segmentos de produtividade desigual: a, a proporção de emprego de maior produtividade; b, a de produtividade normal, i.e., o caso de profissões, – necessárias, não dispensáveis, criando valor procurado, por satisfazer necessidades humanas -, cuja produtividade de desempenho é mais ou menos constante, no tempo e no espaço; por exemplo, um corte de cabelo pouco tempo de execução terá diminuído ou aumentado desde o antigo Egipto ao presente! Muitos outros trabalhos e serviços necessários se equiparam ao deste exemplo, desde a actividade de ensino à enfermagem de doentes, de uma peça de teatro ao cuidado de crianças, etc.

O emprego do tipo b, porque necessário e valioso, será remunerado com o salário suficiente a que o respectivo empregado e sua família viva conforme o padrão histórico e social vigente na comunidade em causa. O emprego do tipo a é remunerado por um múltiplo de produtividade, k, do salário do tipo b.

Nestes termos, a equação de equilíbrio (1) reescreve-se como segue:

(2)           d.(ak+b) = p.(1-a-b)

Assim, se parametrizarmos a proporção de activos de grande produtividade (a) em 0.1; mantivermos a taxa de desconto salarial (d) em 0.3; e a pensão unitária em 0.7 do salário base, i.e., o salário do tipo b, da produtividade normal, a equação (2) reflectirá o conjunto de pares de equilíbrio entre as variáveis b e k, ou, se designarmos a população reformada por r,

(2.1)        r = 1-a-b

mostramos a relação de equilíbrio entre a proporção de reformados (r) e a produtividade do trabalho (k)

(2.2)         r = 1/p. d.(ak+b)

Ou, com os valores numéricos dos parâmetros fixados, a função f(r,k):

(2.3)         r = 0.3/0.7*(0.1k+0.9-r)

Com as produtividades

k = 1, 3, 5, 7, 10;

a proporção de reformados (ou inactivos) sustentável é de

(2.4)        r = 0.30; 0.36; 0.42; 0.48; 0.57.

No entanto, esta redistribuição de rendimento é desincentivadora e injusta porque não diferencia o valor da pensão de reforma segundo a carreira contributiva de cada reformado durante a sua vida activa.

Tomando em consideração as prestações contributivas entre os assalariados do tipo a e b, e supondo que a percentagem dos reformados do tipo a é de 10% do total de reformados a equação (2) da redistribuição do rendimento reescreve-se como segue:

(3)          d.(ak+b) = p.r.(0.1k+0.9)

Ou, com os coeficientes numéricos assumidos, para d, p, e a

(3.1)         0.3*(0.1k+0.9-r) = 0.7*r*(0.1k+0.9)

Resolvendo r em função de k,

(3.1’)        r = (0.03*k+0.27)/(0.07k+0.93)

Com as produtividades

k = 1, 3, 5, 7, 10;

a proporção de reformados (ou inactivos) sustentável é de

(3.2)        r = 0.30; 0.32; 0.33; 0.34; 0.35.

Como se vê, comparando esta série (3.2) com a anterior (2.4), constata-se que o não ‘plafonamento’ das pensões reduz drasticamente a capacidade de a segurança social sustentar um volume significativo de trabalhadores reformados: - para o caso de 10% dos activos terem uma produtividade décupla da produtividade normal, a sustentabilidade do volume de reformados decai de 57% para 35%, sem um tecto para o valor máximo das reformas a conceder.

No entanto, continua a ser injusto não ponderar a carreira contributiva no valor da reforma a atribuir a cada reformado. Não é a mesma coisa ter sido quarenta anos barbeiro ou professor de física nuclear ou de filosofia contemporânea! Embora haja de convir-se que em ambos os casos as necessidades de um reformado são bem menores do que as sentidas durante a vida activa, pelo que não é razoável manter na reforma a mesma diferença salarial que existia na vida activa.

Propomos uma variação progressiva da reforma (p) com o aumento da produtividade (k) maximizada, em termos brutos (x), no triplo do salário base de produtividade normal atingido no caso de produtividade doze vezes superior à normal. A saber,

(4)            (1+x)^12 = 3

Ou,

(4.1)         x = 3^(1/12) - 1 = 0.0958

Pelo que a equação de redistribuição de rendimento se escreveria como segue:

(5)           d.(ak+b) = p.(1-a-b).[(1+x)^k .a + 1-a]

Fixando os parâmetros d, p, e a nos mesmos coeficientes numéricos anteriores e dando a x o valor referido em (4.1), teremos:

(5.1)        0.3*(0.1k+b) = 0.7*(0.9-b)*[1.0958^k*a+0.9]

Ou, explicitando b em função de r, conforme (2.1), temos

(5.2)       0.3*(0.1k+0.9-r) = 0.7*r*[1.0958^k*0.1+0.9]

Resolvendo r em função de k,

(5.2’)       r = (0.03*k+0.27)/(0.07*1.0958^k+0.93)

Com as produtividades

k = 1, 3, 5, 7, 10;

a proporção de reformados (ou inactivos) sustentável é de

(5.3)         r = 0.30; 0.35; 0.40; 0.45; 0.52.

Comparando estes resultados com os obtidos sem plafonamento, verifica-se quanto melhora a sustentabilidade da segurança social, que passa em equilíbrio, - no caso de 10% dos activos com uma produtividade décupla da normal -, da capacidade de financiar um volume de reformados de 35% para 52%, e isto com a justiça de alguma diferenciação das pensões segundo a carreira contributiva.

A falácia política na discussão pública deste tema consiste em propor, de facto, o plafonamento das pensões, mas aplicando-o também aos descontos para a segurança social durante a vida activa. Ora, tal perverte a eficácia e justiça social da redistribuição de rendimento.

Concluo com mais duas observações. No passado, os salários dos profissionais mais requestados asseguravam a existência de um vasto agregado familiar de avós, filhos e netos, quando não também, tias, sobrinhos, órfãos e afilhados. Inclusive, tais salários permitiam aquisição de casa própria para albergar todo o agregado familiar. Foi este sistema de respeito pela família e pela propriedade privada que o modelo da segurança social veio substituir, com a promessa de uma justiça social e protecção na velhice alargada a toda a população mediante a contribuição generalizada de todos os trabalhadores durante a vida activa. Cortar agora nas reformas é tão subversivo do estado de direito quanto o desrespeito do direito de propriedade privada e o confisco das poupanças dos cidadãos.

Outra observação é o facto temível, no nosso país, de a Banca e a Segurança Social tenderem a desempenhar o papel sucedâneo do banco emissor do antigo regime monetário, i.e., quando o Estado precisa de dinheiro em vez de o emitir por subscrição do capital do banco, aumentando a circulação monetária, emite obrigações de tesouro que constrange a banca e os fundos de pensões a subscrever, assim preparando as condições facilitadoras de um haircut da dívida tão confiscatório quanto a clássica inflação monetária.