abril 05, 2014
Esta rosa entra na rosa.
E o vidro absorve as outras
que estão vivas nos reflexos.
Tripla beleza que aparece
e termina pela virtude
da omnipresença dos versos.
Ouvem-se as variações das vozes
das aves sobre os jazigos sós,
no cemitério onde persigo adrede
a personagem do início,
o ser que está a ser.
Fiama Hasse Pais Brandão
março 31, 2014
março 22, 2014
março 21, 2014
março 20, 2014
março 18, 2014
Ainda Balzac, hoje como há duzentos anos
«Se as pessoas ricas à maneira do barão de Nucingen têm mais ocasiões do que as outras de perder dinheiro, têm também mais ocasiões de o ganhar, mesmo quando se entregam às suas loucuras.
Embora a política financeira da famosa casa Nucingen se encontre explicada em outro lado, não é inútil fazer notar que fortunas tão consideráveis não se adquirem, não se constituem, não se avolumam, não se conservam, no meio das revoluções comerciais, políticas e industriais da nossa época, sem que haja imensas perdas de capitais ou, se quiserem, tributações lançadas sobre as fortunas particulares.
Muito poucos são os novos valores vertidos no tesouro comum do globo. Qualquer nova acumulação de riquezas representa nova desigualdade na repartição geral. O que o Estado pede ele o restitui. Mas o que uma casa Nucingen recebe guarda-o.
[ ]
Forçar os Estados europeus a contrair empréstimos a 20% ou 10% por cento, ganhar esses 10% ou 20% com os capitais do público, expoliar à grande as indústrias, apoderando-se das matérias-primas, lançar ao fundador de um negócio uma corda para omanter fora de água até pescar a sua empresa asfixiada, enfim, todas essas batalhas de francos ganhos constituem a alta política do dinheiro.
Decerto deparam-se riscos ao banqueiro, como riscos há para o conquistador. Mas são tão escassas as pessoas em situação de se meterem em tais combates que as ovelhas nada têm aí que ver. Essas grandes coisas passam-se entre pastores.
Assim como os executados (o termo consagrado na gíria da bolsa) são culpados de terem querido ganhar em demasia, muito pouco o público se interessa pelas desgraças causadas pelas maquinações dos Nucingen.
Que um especulador dê um tiro nos miolos, que um corretor de câmbios se ponha em fuga, que um notário leve consigo as poupanças de cem famílias, o que é pior do que matar um homem; que um banqueiro declare bancarrota; todas essas catástrofes, esquecidas em Paris em poucos meses, em breve são cobertas pela agitação quase marítima desta cidade.
As fortunas colossais dos Jacques Coeur, dos Médicis, dos Anjos de Dieppe, dos Auffredi de La Rochelle, dos Fuggers, dos Tiepolos, dos Corners, foram outrora lealmente conquistadas pelos privilégios resultantes da ignorância em que se vivia das proveniências de todas as mercadorias preciosas.
Mas hoje as noções geográficas penetraram de tal modo nas massas, a concorrência limitou a tal ponto os lucros, que toda a fortuna rapidamente feita é: ou obra de um acaso e de uma descoberta, ou resultado de um roubo legal.
Pervertido por escandalosos exemplos, o pequeno comércio tem respondido, sobretudo nestes últimos dez anos, à perfídia das concepções do grande comércio, com atentados odiosos sobre as matérias-primas. Por toda a parte onde se pratica a química não se bebe mais vinho.
Por isso, a indústria do vinho está a sucumbir. Vende-se sal falsificado, para escapar ao fisco. Os tribunais estão estupefactos com esta improbidade geral. Enfim, o comércio francês é suspeito aos olhos do mundo inteiro e a Inglaterra desmoraliza-se também.»
------ // ------
«– Então, meu caro senhor – exclamou o duque Grandlieu –, comprou, ao que se diz, as terras Rubempré. Felicito-o. É uma resposta àqueles que o diziam cheio de dívidas. Quanto a nós, podemos, como a França e a Inglaterra, ter uma Dívida Pública. Mas, veja bem, as pessoas sem haveres, os principiantes, não se podem dar a esse luxo…»
Honoré de Balzac, Esplendores e Misérias das Cortesãs – I,
Publicações Europa-América, Lisboa, 1977, Colecção
Livros de Bolso nº 166, pp.187-8;244.
fevereiro 24, 2014
Leonard Cohen - Take This Waltz [Official Music Video]
Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning
And it hangs in the Gallery of Frost
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz with the clamp on its jaws
Oh I want you, I want you, I want you
On a chair with a dead magazine
In the cave at the tip of the lily
In some hallways where love's never been
On a bed where the moon has been sweating
In a cry filled with footsteps and sand
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take its broken waist in your hand
This waltz, this waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea
There's a concert hall in Vienna
Where your mouth had a thousand reviews
There's a bar where the boys have stopped talking
They've been sentenced to death by the blues
Ah, but who is it climbs to your picture
With a garland of freshly cut tears?
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz it's been dying for years
There's an attic where children are playing
Where I've got to lie down with you soon
In a dream of Hungarian lanterns
In the mist of some sweet afternoon
And I'll see what you've chained to your sorrow
All your sheep and your lilies of snow
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
With its "I'll never forget you, you know!"
This waltz, this waltz, this waltz, this waltz ...
And I'll dance with you in Vienna
I'll be wearing a river's disguise
The hyacinth wild on my shoulder,
My mouth on the dew of your thighs
And I'll bury my soul in a scrapbook,
With the photographs there, and the moss
And I'll yield to the flood of your beauty
My cheap violin and my cross
And you'll carry me down on your dancing
To the pools that you lift on your wrist
Oh my love, Oh my love
Take this waltz, take this waltz
It's yours now. It's all that there is
fevereiro 12, 2014
Beijei teu retrato,
esborratou-se a tinta,
num corpo abstracto
que a saudade pinta...
E a esquadrinhar teus traços já dei por mim louca:
‘Diz-me lá, Picasso, onde ele tem a boca?’
Esse teu retrato
vou expô-lo em Paris,
já usado e gasto
ver se alguém me diz
onde é que te encontro,
se não te perdi...
Por te ter chorado
desfiz o meu rosto
e num triste fado
encontrei encosto.
Dei-me a outros braços mas nada que preste...
‘Diz-me lá, Picasso, que amor é este?’
Este meu retrato
vou expô-lo em Paris,
e assim ao teu lado
eu hei-de ser feliz.
Se nunca te encontro
nunca te perdi.
Sei...
não há só tangos em Paris,
e nos fados que vivi
só te encontro em estilhaços
Pois bem,
Tão certa, espero por ti.
Se com um beijo te desfiz,
com um beijo te refaço!
"Não Há Só Tangos Em Paris"
Pedro da Silva Martins
fevereiro 09, 2014
fevereiro 04, 2014
Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos.
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas.
Não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demência dos olhares,
Alegre festa de pranto.
São furor obediente,
São frios raios solares.
Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
«Habitando a paciência da ondulada
sombra vibramos numa rede
de veemências suaves de sabores secretos
e sentimos a terra deslizando connosco.»
António Ramos Rosa, in Dinâmica Subtil, 1984,
in "Antologia poética", Selecção, Prefácio e Bibliografia
de Ana Paula Coutinho Mendes, Public. Dom Quixote,
Lisboa, 2001, p. 214.
(img in blog Olhar)
fevereiro 03, 2014
Helena Almeida, Pintura habitada (1975)
«Num ponto qualquer
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa.»
António Ramos Rosa, in Dinâmica Subtil, 1984,
in "Antologia poética", Selecção, Prefácio e Bibliografia
de Ana Paula Coutinho Mendes, Public. Dom Quixote,
Lisboa, 2001, p. 213.
janeiro 30, 2014
Mas,
assim como ao princípio os homens puderam,
com instrumentos naturais,
embora dificultosa e imperfeitamente,
fazer certas coisas muito fáceis, e,
conseguidas estas, levaram a cabo outras difíceis
com menor trabalho e maior perfeição,
e passando desta forma gradualmente
de artefacos muito simples aos instrumentos
e dos instrumentos a outros artefactos e instrumentos,
chegaram ao ponto de realizar muitas coisas e tão difíceis com pequeno esforço,
assim também o entendimento, por sua força inata,
produz para si instrumentos intelectuais,
através dos quais alcança outras forças para outras obras intelectuais
e, destas obras outros instrumentos, ou seja,
o poder de levar mais longe a investigação,
progredindo assim gradualmente até atingir
a culminância da sabedoria.
(Espinosa, Tratado da reforma do entendimento, § 31)
--------------- // ---------------
Belíssimo, este texto de Espinosa.
Sem dúvida, a produtividade do trabalho
depende primordialmente da fecundidade da natureza,
da inteligência humana e do conhecimento acumulado
na evolução histórica das civilizações.
No entanto, só pelo trabalho dos produtores, as sociedades
criam a riqueza, o bem-estar e o domínio da natureza,
por obediência inteligente às leis físicas que a governam.
Assim se desenvolvem os povos e as nações.
Todo o rendimento provém da criação de valor pelos produtores.
assim como ao princípio os homens puderam,
com instrumentos naturais,
embora dificultosa e imperfeitamente,
fazer certas coisas muito fáceis, e,
conseguidas estas, levaram a cabo outras difíceis
com menor trabalho e maior perfeição,
e passando desta forma gradualmente
de artefacos muito simples aos instrumentos
e dos instrumentos a outros artefactos e instrumentos,
chegaram ao ponto de realizar muitas coisas e tão difíceis com pequeno esforço,
assim também o entendimento, por sua força inata,
produz para si instrumentos intelectuais,
através dos quais alcança outras forças para outras obras intelectuais
e, destas obras outros instrumentos, ou seja,
o poder de levar mais longe a investigação,
progredindo assim gradualmente até atingir
a culminância da sabedoria.
(Espinosa, Tratado da reforma do entendimento, § 31)
--------------- // ---------------
Belíssimo, este texto de Espinosa.
Sem dúvida, a produtividade do trabalho
depende primordialmente da fecundidade da natureza,
da inteligência humana e do conhecimento acumulado
na evolução histórica das civilizações.
No entanto, só pelo trabalho dos produtores, as sociedades
criam a riqueza, o bem-estar e o domínio da natureza,
por obediência inteligente às leis físicas que a governam.
Assim se desenvolvem os povos e as nações.
Todo o rendimento provém da criação de valor pelos produtores.
janeiro 03, 2014
Redistribuição do rendimento de capital
Redistribuição do rendimento de capital
É curioso que haja quem se surpreenda com a situação frequente
de a taxa de juro ser inferior à da inflação ou, quando não é o caso, pouco lhe
ser superior. No fundo, essa perplexidade decorre de não se entender o que é o
dinheiro, o capital e o juro.
Conceptualizo-os assim: o dinheiro, primitivamente uma
mercadoria como outras, mas de aceitação universal no espaço e no tempo, é
actualmente um instrumento politicamente imposto como meio de pagamento e
liquidação de dívidas, dada a emissão das moedas soberanas ser inconvertível em
ouro e os bancos, receptores de depósitos e credores de empréstimos, serem
nacionalizados e resgatados por impostos sobre os contribuintes antes e em vez
de falirem.
A troco de um juro baixo, os emissores de moeda
inconvertível – estados e bancos – operam no mercado aberto de títulos de
dívida através da emissão e, ou, amortização de obrigações quer do Tesouro quer
de empresas, públicas ou privadas, bancárias ou não, arrecadando ou lançando papel-moeda
em circulação ou, nas operações das empresas, diminuindo ou aumentando a
liquidez dos depositantes dos bancos em troca de obrigações, i.e., compromissos
de reembolso em data futura dos empréstimos contraídos, mediante o pagamento de
um juro periódico a dada taxa incidente sobre o valor da obrigação. Essa taxa de
juro é maior ou menor consoante a avaliação, em cada tipo de operação, do risco
de incumprimento do mutuário.
O processo financeiro parece assim incrementar o dinheiro (D)
no decurso do tempo (t) segundo uma taxa de crescimento, o juro (i) por unidade
de tempo,
(1)
D(i,t) = D*(1+i)^t
Se o dinheiro se desvalorizar pela inflação a determinada
taxa (d), esta será descontada da taxa nominal i para compor a capitalização ao
juro real,
(2)
D(i,t,d) = D*(1+i)^t*(1+d)^-t
Ainda que este algoritmo de capitalização do dinheiro
formule o respectivo cálculo não explica
nem fundamenta o fenómeno do crescimento do dinheiro pelo simples decurso
do tempo. Em si, o empréstimo a juros parece ser um mero locupletamento à custa
alheia, uma usura injustificada e infundada.
Ora o núcleo do esquema de circulação de capital – e por capital (K) designa-se não só dinheiro
acumulado, como tudo o que lhe equivalha por representar poder de aquisição ou
dação em pagamento, seja stocks de bens de consumo ou de produção – é
justamente o que o faz circular, a
saber a capacidade de, aplicando-o num processo de trabalho produtivo adequado
(T), criar valor e enriquecer (K´>K) – individual ou colectivamente conforme
a ordem jurídica consagre ou não o direito de propriedade privada.
(3) K
à T à K’ (circulação de capital)
Sendo assim, o rendimento é precisamente todo o valor criado
(K’-K) pelo trabalho produtivo o qual remunera distributivamente o trabalho
actual, vivo, prestado pelos assalariados no processo produtivo, coadjuvados
pelo trabalho pretérito, engenhado e incorporado nos meios de produção que os
trabalhadores utilizam na respectiva produção de bens e serviços.
O rendimento originado pelo valor criado na produção é
apropriado pelos detentores dos meios de produção, – matérias-primas,
equipamento, instalações –, que são igualmente quem contrata os trabalhadores –
a força de trabalho viva aplicada na produção –, a quem pagam os salários que remuneram
o compromisso do trabalho a que se obrigam. A diferença entre o valor da
produção realizada e a soma dos salários com as demais despesas de materiais,
fornecimentos e desgaste de equipamento, é o lucro, se o houver, de que o proprietário, o capitalista ou o responsável
da iniciativa de produção (empresário), jurídica e legalmente se apropria.
Deste modo, o valor criado em cada período (K´-K) gera o
correspondente rendimento distribuível (Y), no pressuposto da utilidade
objectiva do produto obtido como bem vendível, – note-se, contudo que a
economia não distingue entre utilidade real e fictícia dos bens produzidos ou
serviços prestados.
Assim, o rendimento distribui-se pelas duas classes
intervenientes na relação de produção,
os trabalhadores e os proprietários dos meios de produção (capitalistas), os factores
de produção, trabalho e capital, na forma de salários (W), e lucro (L).
(4)
Y = W + L = (1 + L/W)*W
A produção de valor em que o trabalho e o capital se aplicam,
só gera o rendimento distribuído a esses factores pela transacção dos respectivos
bens entre quem os produz e quem os procura e compra, pagando por eles o preço acordado,
que tende a nivelar-se em equilíbrio com o custo de produção mais elevado da última,
marginal, quantidade de produzida e efectivamente vendável ao preço que vigore
no mercado.
É esse estado de produção equilibrada com a procura que proporciona
a sustentável distribuição do correspondente rendimento pelo capital e pelo
trabalho.
Antes de desenvolvermos a temática da redistribuição do
lucro entre os detentores de capital, advirta-se que, na classe trabalhadora
coexistem diversos e muito diferenciados tipos de trabalho, cuja desigual
qualificação, produtividade e responsabilidade, fundamenta a desigual remuneração
dessas distintas categorias de trabalho, seja na forma de prémios de
produtividade, participação nos lucros, fringe
benefits ou compensações diversas. De modo geral, a intensidade capitalística
do processo produtivo, pode exigir maior qualificação da mão-de-obra para
operar o equipamento, e, sobretudo, na indústria de produção dos próprios
equipamentos e meios de produção, que são engenhados para causar os efeitos
planeados com a sua utilização no fabrico de bens.
Assim, se o quisermos, podemos relevar no rendimento criado
a produtividade remunerada (v) do próprio factor-trabalho:
(5)
Y = W + L = (1 + v)*W + L = (1 + v + L/W) * W
Se todo o valor emerge da combinação produtiva do trabalho e
capital própria da actividade económica, como surge então o juro, enquanto
categoria distinta do rendimento criado pelo trabalho, mas autónoma na
globalidade do lucro? Surge como consequência do reconhecimento social e
jurídico do direito à propriedade privada não só de bens de consumo mas
igualmente do dinheiro economizado,
dos bens produzidos e dos meios da sua produção, ou seja do conjunto do capital.
É o que vamos mostrar.
O empreendedor que tome a iniciativa de produzir e colocar
no mercado uma dada produção reunirá os meios para o conseguir (K) –
instalações, bens de equipamento, mão-de-obra habilitada à produção em vista –
a partir do que iniciará uma corrente de gastos e receitas periódicas segundo
os custos e proveitos da produção transaccionada (l).
Denomina-se taxa
interna de rentabilidade (r) do investimento K, aquela a que o fluxo de
rendimento líquido futuro gerado na actividade do empreendimento recupera os
gastos efectuados:
(6)
- K + S l*(1+r)^-t = 0 (t = 0, 1, 2, …, n)
Ora, a reunião dos capitais necessários requer ou a prévia
poupança da totalidade do dinheiro a investir ou parte dele, a ser completada
por sócios do empreendedor ou por financiadores que se disponham a emprestar o
capital em falta. No primeiro caso, os lucros líquidos do investimento
repartir-se-ão segundo a comparticipação de cada sócio; no caso de empréstimo,
o juro, o prazo e o calendário de reembolso são acordados entre o mutuante e o
mutuário.
Genericamente, um investimento só é vantajoso se a taxa
interna da rentabilidade esperada for superior à taxa de juro praticada no
mercado (r>i), para operações de prazo semelhante, de forma a compensar o
maior risco incorrido numa operação de investimento de longo prazo.
Na modalidade do mútuo de fundos para a realização de
investimentos produtivos, temos uma primeira redistribuição dos rendimentos de
capital, na distinção entre juros e lucros distribuídos aos sócios, aqueles menos incertos que estes.
Iremos mostrar como os detentores de capital estão
submetidos aos efeitos da lei dos rendimentos decrescentes a qual exibe a
irredutibilidade das situações menos eficientes de monopólio, – que são a única
garantia de rendimento sem trabalho –, embora sujeito à eventual baixa
tendencial da taxa de lucro do capital acumulado.
Antes de o provar, porém, saliente-se liminarmente que todo
o rendimento é criado pelos produtores, condicionado à utilidade dos bens e
serviços produzidos, que é o fundamento da respectiva procura. No entanto, deve
observar-se que a produtividade do trabalho aumenta com a adequação dos
instrumentos de trabalho e dos meios de produção aplicados no processo
produtivo. É à fecundidade da natureza
e à inteligência e conhecimento engenhados nos meios de produção e utensílios de
trabalho, – para causar os efeitos programados com a sua utilização adequada –,
que se deve a grande produtividade do trabalho humano na fase actual da
civilização, e não a qualquer noção abstracta de capital financeiro ou ficção
fetichista de capital técnico.
Como surge então o lucro
puro e se forma a renda de monopólio?
Em economia, designa-se por acumulação primitiva o fenómeno da reunião de capitais nas mãos de
um indivíduo ou grupo de indivíduos, seja qual for a proveniência de tais
capitais e a sua natureza: dinheiro, ouro, jóias, gado, terras, casas, escravos;
roubo, jogo, embuste, guerra, pirataria, casamento, herança ou donativo. Em
economia, o ponto é o que o detentor
de tal riqueza vai fazer com ela: conservar o seu tesouro, gastá-lo, ou
aplicá-lo produtivamente? No primeiro caso, o entesouramento torna estéril a
respectiva fortuna; no caso do consumo sumptuário alguma animação no sector de
bens de luxo pode sobrevir; no último caso, o do investimento produtivo, há
aumento do volume e valor da produção da sociedade.
O enriquecimento causado pelo mero empobrecimento doutrem, o
chamado locupletamento à custa alheia, é um fenómeno social e jurídico distinto
da origem económica genuína do
enriquecimento individual ou colectivo que vamos mostrar, através do exemplo
aritmético abaixo editado.
O exemplo é o de um hipotético
sector de produção composto de três tipos de empresa: (1) empresa intra-marginal, que opera com os
mais baixos custos unitários; (2) empresa média, normal ou representativa que
opera com custos unitários médios do sector; (3) empresa marginal que labora
com os custos unitários mais elevados.
Por hipótese, as empresas concorrem entre si; a quantidade
total produzida é vendida e corresponde à procura global dos consumidores, isto
é, mesmo a produção da empresa marginal é necessária à satisfação do nível de
consumo existente.
Nestas condições, o custo unitário da empresa marginal
iguala o preço corrente do mercado, pelo que o lucro líquido da empresa é zero.
Se a curva da procura dos consumidores se deslocar em sentido descendente, a
empresa marginal ou abre falência ou passa a praticar salários mais baixos aos
seus empregados. No caso contrário, de deslocação ascendente da curva, o preço
de venda mais elevado proporciona algum ganho adicional à empresa marginal – e,
às demais empresas do sector – ou algum aumento de salários, e incentiva a
entrada de novos produtores no mercado.
De qualquer modo, enquanto coexistirem estes três tipos de
empresa em concorrência, a do primeiro tipo, a empresa intra-marginal,
beneficia de um lucro supra-normal por comparação com a empresa média do sector.
Esta situação pode ser temporária ou não, estável ou precária, mas enquanto
existir define e compõe uma renda de
monopólio, um lucro puro, a favor
da empresa mais produtiva, mais eficiente, a que labora com menores custos
comparativos.
É verdade que, pode considerar-se que nada é estático, nada
perdura sem mudança. De facto, os ganhos de produtividade devidos a novas
tecnologias, a inovação de processos de fabrico, acaba por se generalizar a
todas as empresas, reduzindo a vantagem pioneira da invenção, – a sua renda de
monopólio –, à percepção de alguns royalties
ou franchising de algum modelo de
negócio.
Contudo, é também comum, o sector evoluir de concorrencial
para monopolista, oligopolista ou de concorrência monopolista. Em todos estes
casos, as empresas intra-marginais consolidam, estabilizam e aumentam os seus
lucros supra-normais, rendas de monopólio – que essa é a sua verdadeira
natureza –, restringindo a produção, incrementando o preço de venda,
concertando entre si essas práticas ilegais, ou simplesmente publicitando à outrance a (discutível) excelência dos
seus produtos de marca, face aos sucedâneos da concorrência.
Todas estas situações de mercado são menos eficientes no plano
económico porque se apropriam de recursos sem contrapartida de valor criado.
Conceda-se que os exemplos mais flagrantes de captura de rendas de monopólio são a
prática oligopolista de restrição da exploração de petróleo dos países da OPEP, de modo a impelir o aumento do preço
do crude, e o arrendamento e cotação de terrenos
e do imobiliário nos espaços urbanos
e suburbanos das grandes metrópoles e das simples cidades.
No caso do petróleo, o custo de exploração nos poços da
Arábia Saudita é, imagino, três, quatro ou cinco vezes menor do que o da
extracção no Mar do Norte ou no Golfo do México. Ora, como a produção total que
vai ao mercado é toda necessária ao nível de consumo existente, a cotação do
petróleo nunca é inferior à do custo marginal, mais elevado, da exploração no
alto mar. E mesmo que este puro constrangimento natural não existisse,
precisamente os oligopolistas da OPEP encarregar-se-iam, como de facto o
fizeram no passado, por concertar entre si o preço pretendido de venda,
restringindo a extracção pelo quantum
necessário ao efeito.
O arrendamento, compra e venda de terrenos e imobiliário é
tão sobejamente conhecido que nem vale a pena exemplificar com nenhum caso
específico. Talvez, a contrariu sensu,
reflectir sobre o que sucedeu em Portugal, décadas a fio, com o congelamento
das rendas, imposto pela Iª República, mantido por Salazar e só agora
liberalizado o regime de arrendamento urbano. Envelheceu sem manutenção todo o edificado
habitacional das cidades, rarefez-se a oferta de casas para alugar, os
trespasses comerciais de lojas arrendadas atingiram sempre altos preços compensadores
dada a economia proporcionada pelo baixo encargo do aluguer, ou seja, a ilustração
óbvia de captura de rendas de monopólio,
neste caso invertido, não pelos senhorios mas pelos inquilinos favorecidos pelo
dito congelamento das rendas.
{(S)Total do sector;
(1) – e. intra-marginal; (2) – e. intra-marginal; (3) – e. marginal}
No nosso exemplo, a taxa interna de rentabilidade (r) do
sector e das empresas é a da sequência seguinte:
(7)
(r) = { 9.0%; 11.5%; 7.3%; 2.2%}
Para esta grandeza de rentabilidade esperada, o valor actual
líquido (net presente value) de cada
empresa variará em função da taxa de juro (i) em vigor no mercado.
À sequência de taxas de juro (i) seguinte:
(8)
(i) = {8%; 6%; 4%; 2%; ¼%; -1.5%},
corresponde a sequência de cotações do capital da empresa
intra-marginal (npv) como segue:
(9)
(npv) = {336; 579; 871; 1224; 1595; 2036};
Se quisermos evidenciar as variações de cotação tomando para base 100 o valor actual líquido à
taxa de juro de 4%, teremos a sucessão
(10) (npv) = {39; 66; 100; 141; 183; 234}
Este exemplo hipotético ilustra à perfeição qual o grande operador de redistribuição das rendas de
monopólio, os também chamados rendimentos
de capital: - o mercado primário e secundário de emissão e subscrição de
acções e obrigações, e sua ulterior transacção de compra e venda no mercado
bolsista.
A descida das taxas de juro, o aumento da moeda em
circulação, da concessão de crédito e da amortização da dívida pública anima o
mercado bolsista das acções, elevando-lhes a cotação. O aumento das taxas de
juro, a redução do quantitative easing,
a emissão de dívida pública, impelindo à restrição do crédito, deprime a
cotação das acções, tornando mais atractiva a colocação do aforro em títulos de
rendimento fixo.
Em que sentido opera este mecanismo de repartição de
rendimento (rendas monopolistas)?
Não é fácil destacar-lhe um sentido inequívoco.
Aparentemente, muitos parecem «ganhar dinheiro» comprando e vendendo,
incessantes lotes de títulos segundo os boatos correntes na praça… No entanto,
as estatísticas parecem permitir inferir que nos tempos de maior crise, são as
grandes fortunas que mais enriquecem, não constando um grande florescimento
entre os pequenos aforradores.
Sobre a eventual tendência à baixa da taxa média de lucro do
capital acumulado, também não parece possível afirmá-lo de modo definido. Há
tendências e contra tendências a actuar. Cada onda de inovações permite a
reanimação de ganhos vultuosos, mas, por outro lado, os gastos em investigação
e desenvolvimento não originam necessariamente quaisquer invenções práticas, e
podem redundar em puro desperdício de recursos sem qualquer proveito. O mesmo
aliás se diga do esforço de guerra, expressão eloquente de desinvestimento e
redução de capital acumulado, como de resto o são também as falências dos
devedores nos períodos de depressão económica.
Até ao momento, o que se conhece é a tendência cíclica de
fases de euforia e depressão de negócios, cada qual com os seus efeitos
benéficos e nefastos. O problema político ou de economia política tal como o
formulou David Ricardo é o da redistribuição do rendimento, designadamente, a
tributação redistributiva da renda de monopólio.
As experiências colectivistas da Rússia e da China acabaram
por resumir-se à constituição de uma nomenklatura
de Estado que concentrou ditatorialmente o poder económico e político, acelerando
o desenvolvimento rápido da indústria de bens de equipamento, de meios de
produção, e contendo a de bens de consumo à satisfação das necessidades básicas
da população, assegurando-lhe, contudo, a instrução pública generalizada. Estes
regimes acabaram finalmente por desembocar num capitalismo misto, estadual e
privado, onde rapidamente se formaram monopólios das anteriores empresas
públicas, privatizadas por preços muito abaixo do valor de mercado a
“camaradas” da anterior nomenklatura.
No Ocidente, os Estados Unidos continuam com a sua economia
pilotada pelos grandes monopólios da banca, das multinacionais da indústria,
material de guerra, exploração do espaço, investigação e desenvolvimento,
informática, etc. No software informático é notável o caso exemplar da
Microsoft: sem que se lhe averbem quaisquer invenções próprias – tudo foi
descoberto e desenvolvido por outros – a empresa de Bill Gates soube
apoderar-se e consolidar a sua posição monopolista no domínio do software
estandardizado, praticando dumping contra as tentativas de concorrentes,
distribuindo as suas soluções a preço-zero e embutindo-as de erros aleatórios
ao coexistirem com outros programas. Hoje, a fortuna do fundador ascende várias
dezenas de milhares de milhões de euros, a maior do planeta de um só
accionista.
Já na Europa, ignora-se como resolver a conflitualidade
objectiva do desigual desenvolvimento dos estados do norte e os do sul, por não
existir qualquer orçamento comum embora haja um desejo de união. O mundo
mediterrânico, dividido entre duas culturas distintas, cristã e islâmica, pode
desequilibrar-se quer por razões económicas quer políticas. Tal como na Bolsa,
ninguém sabe o que o futuro traz, mas todos fazem a sua aposta. Com história
ainda só no futuro, restam África e a América Hispânica, e como diria Hobbes, «Future is not yet».
dezembro 30, 2013
Redistribuição do rendimento de capital
Lista de variáveis e símbolos:
1 Matérias
primas e outros consumos MP
2 Salários W3 Capital circulante (1+2) Ac
4 Equipamento e out. meios de produção Af (Qa)
5 Custo dos factores de produção (3+4) K
6 Produção
física Q
7 Volume
de emprego (H/A) N
8 Prazo de
reintegração do equipamento n
9 Prazo de
rotação do Fundo de maneio r
10 Valor
residual do equipamento vr
11 Indicadores
de economicidade:
12 Produtividade
do trabalho Q/N
13 Salário
per capita W/N
14 Intensidade
tecnológica Af/N
15 Economicidade
de consumos MP/Q
16 Preço de venda unitário p
17 Valor
total de vendas V= p.Q
18 Lucro (17-5) L = V-K
19 Taxa de
lucro l = L/V
20 Repartição
do rendimento L/W
21 Meios Libertos (Cash-flow):
22 ano 0 -Af-r*Ac
23 anos
intermédios ML=L+Qa
24 último
ano vr*Af+ML+Ac
25 S Cash-flow
(22+23+24)
26 Taxa
interna de rentabilidade TIR
27 Valor
actual da actividade (à
taxa x%) VAL
Fluxos e rácios económicos:
MP = 480 = 250 + 160 +
70
Ac = 700 = 316 + 248 + 136
[Af] Qa = 300 = 170 + 100 +
30
K = 1000 = 486 + 348 + 166
Q = 114 = 60 + 38 + 16
N = 55 = 11 + 22 + 22
n = 10
r = 1
vr = 5%
Q/N = 2,1 --->
5,5; 1,7; 0,7
W/N = 4 ---> 6; 4; 3
Af/N = 5,5 --->
15,5; 4,5; 1,4
MP/Q = 4,21 --->
4,17; 4,21; 4,38
P = 10,71
V = p.Q = 1 221 = 643 + 407 + 171
L = V-K = 221 = 157 + 59 + 5
L/W = 1,0 ---> 2,4; 0,7; 0,1
CxFlow ano 0 = -Af-r*Ac = -3 700 = -2 016 -1 248 -436
CxFlow ano 1 a 9 = ML = L+Qa = + 521 = + 327 + 159 + 35
CxFlow ano 10 = vr*Af+ML+Ac = + 1 371 = + 728 + 457 + 186
CxFlow ano 0 a 10 = + 2 364 = + 1 653 + 641 + 69
Val à taxa de 6% = 612 ---> 613; 90; -91
dezembro 26, 2013
«Júlio sentiu-se humilhado ao reconhecer a prodigiosa inteligência graças à qual o porteiro tomara o seu partido e a habilidade com que achava os meios de o servir. O empenho dos inferiores a sua particular habilidade para comprometer os patrões que se comprometem, já ele os conhecia, o perigo em tê-los como cúmplices no que quer que fosse, já o apreciara; mas não tinha pensado na sua dignidade pessoal senão no momento em que se sentiu tão subitamente aviltado. Que triunfo para o escravo incapaz de se elevar até ao amo é fazer o amo descer até junto dele! Júlio mostrou-se brusco e duro. Mais um erro seu. Mas ele sofria tanto! A sua vida, até aí recta, tão dura, tornava-se tortuosa; e agora via-se obrigado a usar de astúcia, a mentir.»
Honoré de Balzac, “Ferragus, Chefe dos Devorantes” (1833)
trad. Paula Reis, in A
Comédia Humana, VII Volume
– “Cenas da Vida de Província”, Porto, Livraria
Civilização Editora, 1980, p. 311-12
dezembro 04, 2013
«O Relatório é na administração actual o que é o limbo no cristianismo. Jacquet conhecia a mania dos relatórios e não esperara por esta ocasião para gemer acerca desse ridículo burocrático. Sabia que após a invasão dos gabinetes pelos relatórios, revolução administrativa consumada em 1804, não havia um ministro que tomasse sobre si a responsabilidade de ter uma opinião, de decidir a menor coisa, sem que essa opinião, esse assunto, tivesse sido joeirado, peneirado, descascado, pelos rabiscadores, pelos «rapadores», e pelas sublimes inteligências dos seus escritórios.
Jacquet
(que era um desses homens dignos de ter Plutarco como biógrafo) reconheceu que
se tinha enganado acerca da marcha daquele assunto e o tornara impraticável ao
tentar proceder legalmente. [ ]
A
legalidade constitucional e administrativa não produz fruto algum, é um fruto infecundo
para os povos, para os reis e para os interesses privados; mas os povos não
sabem soletrar senão os princípios escritos com sangue, ora os infortúnios da
legalidade são sempre pacíficos; ela nivela uma nação, eis tudo. Jacquet, homem
amante da liberdade, regressou, então, sonhando com as vantagens do arbitrário
porque o homem não aprecia as leis senão à luz das suas paixões.»
Honoré de Balzac, “Ferragus, Chefe dos Devorantes” (1833)
trad. Paula Reis, in A
Comédia Humana, VII Volume – “Cenas da Vida de Província”, Porto, Livraria
Civilização Editora, 1980, p. 335-36
dezembro 01, 2013
«Todos que passavam à minha beira iam cheios de uma
linguagem tão íntima, tão pessoal, tão intransmissível, que por mais esforços
das autoridades, nada se apurava do pensamento momentâneo de cada um.
Eu ouvia as ondas curtas de outros países, com ligeiros
ruídos locais, e admirava-me como havia pessoas que tinham paciência para
ouvirem diariamente ondas curtas.
São pessoas que percebem meia coisa ou lhes basta para
viverem meia palavra. Ouvem mais os ruídos do que os sons e alegram-se a roer
apenas a superfície da etimologia.
Fiquei apenas com o meu nome próprio e deixei de ter o
apelido, assim podia considerar-me ténue fio de existência perante a exigência
dos outros.
Ruben A., O Outro Que Era Eu (1966),
Assírio & Alvim, Lisboa,
1991, p.106.

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