junho 03, 2011

«Isto é, em cada novo parágrafo, segundo escrevi nesse caderno da Joseph Gibert que me desapareceu, teria de encontrar uma nova ideia para desenvolver. No fundo, é este o princípio da criação; e procurei segui-lo nessa manhã, depois de perder as duas mulheres, uma por entre a luz intensa de uma rua em que ela se metera, e a outra depois de ter ido retocar a pintura dos olhos, nessa casa de banho de um café de onde saí o tempo suficiente para que ela se cansasse de me esperar.»



«Pergunto, então, para quem escrevo? E se não tenho uma resposta, não é porque não houvesse um destinatário para esse caderno de pautado francês, em que desenvolvi a minha relação entre eu e tu, interrogando-me sobre a ausência de plural no meu universo de referência. Só não sei qual delas, Isabelle, Rosina ou a explicadora de francês, se encontrava no horizonte das minhas dúvidas. Por isso o entreguei à explicadora de francês, para que ela lhe desse um destino. No fundo, tudo começara com as suas lições, e com essa imagem de um perfil da tocadora de piano, numa pausa de música, à janela em que a fixei, e o seu rosto veio ao encontro de um arquétipo de beleza que eu imaginava, e que ela materializou no meu espírito, sem que nunca o soubesse.»


Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009; pp. 141; 147

Sem comentários: