junho 11, 2012



«É apenas no silêncio que funciona o único e verdadeiramente
poderoso meio de informação que é o murmúrio. Cada povo,
mesmo que oprimido pelo mais censurador dos tiranos,
sempre conseguiu saber tudo aquilo que acontece
no mundo através do murmúrio.

Os editores sabem que os livros que se tornaram um best-seller
não se tornaram tal pela publicidade ou pelas recensões,
mas por um termo que, em francês, se diz
bouche à oreille, em inglês se diz
word of mouth, em italiano
diz-se passaparola:

os livros atingem o sucesso
apenas através do murmúrio.

Perdendo a condição do silêncio, perde-se a possibilidade
de captar o murmúrio, que é o único meio fundamental
e fidedigno de comunicação.


Eis que, portanto, e em conclusão, direi que um dos problemas
éticos que se põe é como voltar ao silêncio. E um
dos problemas semióticos que poderemos
enfrentar é estudar melhor a função
do silêncio nos vários modos
de comunicação.

Abordar uma semiótica do silêncio: pode ser
uma semiótica da reticência, uma
semiótica do silêncio no
teatro, uma semiótica
do silêncio em
política,

uma semiótica do silêncio no discurso político,
isto é, a longa pausa, o silêncio como
criador de suspense, o silêncio
como ameaça, o silêncio
como negação,

o silêncio na música.


E, portanto, italianos,
eu não vos convido às histórias,
mas convido-vos ao silêncio.»

Umbero Eco, Construir o Inimigo e
outros escritos ocasionais, («Construire
il Nemico a altri scritti occasionali»), trad.
Jorge Vaz de Carvalho, Lisboa, Gradiva, 2011, PP.200-1

2 comentários:

analima disse...
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vbm disse...
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