junho 08, 2010


«Era Inverno, o terrível Inverno do Egipto miserável. O dia começara no horror de um frio glacial. De início, o vento importunara a cidade moderna e as suas construções em betão armado, semelhantes a fortalezas invencíveis. Depois, irrompeu como um selvagem nos bairros populares. Aí, nenhum obstáculo sério se opunha à grandeza do seu ímpeto. Fizera as suas investidas no infinito dos casebres e inundara as vielas com o seu fôlego devastador. Um vento glacial, carregado de uma humidade nociva, passava através das paredes vacilantes dos tugúrios, modelava ruínas, enrolava-se em torno de escombros infames, suscitando,por toda a parte, o odor pestilento da miséria.»

Albert Cossery, A casa da morte certa,
(«La maison de la mort certain», 1975),
trad. Ana Margarida Paixão, Antígona,
Lisboa, 2001, (p.7)

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