Mostrar mensagens com a etiqueta diderot. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta diderot. Mostrar todas as mensagens

junho 02, 2011



«TIAGO — Que o diabo me leve se não houver uma causa. O meu capitão dizia: «Ponham uma causa, logo se lhe segue um efeito; a uma causa fraca, um fraco efeito; a uma causa momentânea,
o efeito de um momento; a uma causa intermitente, um efeito intermitente; a uma causa contrariada, um efeito frouxo; a uma causa cessante, um efeito nulo.»
O AMO — Mas parece-me que sinto dentro de mim que sou livre,
como sinto que penso.
TIAGO — O meu capitão dizia: «Sim, agora que nada lhe apetece,
é capaz de se deitar debaixo do cavalo?»
O AMO — Sou capaz disso.
TIAGO — Algremente, sem repugnância, sem esforço,
como gostaria de descer à porta de um albergue?
O AMO — De maneira nenhuma; mas que importa,
desde que me atire e que prove que sou livre?
TIAGO — O meu capitão rebatia: «Qual quê!,
não vê que se não fosse a minha contradição nunca lhe passaria pela cabeça a fantasia de partir o pescoço? Sou eu, portanto, quem o agarra pelo pé e o atira para fora de sela. Se a sua queda prova alguma coisa, não é que seja livre, mas antes doido.» O meu capitão acrescentava ainda que o gozo de uma liberdade que se pode exercer sem motivo seria a prova de verdadeira tendência maníaca.»

:)

Denis Diderot, Tiago, o Fatalista,
trad. João Fonseca Amaral,
Editorial Estampa, 1988, p.219

junho 01, 2011



«Como é que eles se encontraram?
Por acaso, como toda a gente.

Como se chamavam?
Isso que lhe importa?

Donde vinham?
Do lugar mais próximo.

Para onde iam?
Dar-se-á o caso de a gente saber para onde vai?

Que diziam? O amo, nada; Tiago dizia que o seu capitão
afirmava que tudo o que nos acontece, cá em baixo,
de bem ou de mal, está escrito lá em cima.»

:)

Denis Diderot, Tiago, o Fatalista,
trad. João Fonseca Amaral,
Editorial Estampa, 1988, p.9

abril 04, 2010



— Ah, príncipe — clamou Mirzoza —, sonhar dá-vos
que fazer. Gostaria que tivesseis passado uma boa
noite; mas, agora que conheço o vosso sonho,
ficaria desiludida se não o houvesseis tido.

— Senhora — disse Mangogul —, conheço noites
mais proveitosas do que a deste sonho que tanto
vos agrada; e se tivesse sido senhor da minha
viagem, é muito provável que, não esperando
encontrar-vos na região das hipóteses,
orientasse os meus passos noutra direcção.
Não estaria neste momento com a dor
de cabeça que me aflige ou, pelo menos,
teria motivo para suportá-la.

[ ]

FIM DO SONHO DE MANGOGUL
OU VIAGEM À REGIÃO DAS HIPÓTESES


:))

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

abril 03, 2010



» — Fujamos — disse-me Platão —, fujamos;
este edifício pouco mais dura.
A estas palavras, retira-se; sigo-o.
O colosso chega, derruba o pórtico,
este desmorona-se ruidosamente
e eu acordo.



Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

abril 02, 2010



» acabava de me dar esta breve resposta
quando vi a Experiência aproximar-se
e as colunas do pórtico das hipóteses
oscilar, as abobadas abater
e o pavimento a abrir-se
debaixo dos nossos pés

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

abril 01, 2010



Sacudia com a mão direita um archote cuja luz
se espalhava pelos ares, iluminava o fundo das águas
e penetrava nas entranhas da terra.

» — Que figura gigantesca — perguntei
a Platão — é esta que se dirige a nós?
» — Reconheça a Experiência —
respondeu-me — porque é ela.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9


março 31, 2010



Era então um enorme colosso;
a cabeça tocava nos céus,
os pés perdiam-se no abismo
e os braços estendiam-se
para um e outro polo.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 30, 2010

No progresso dos seus aumentos sucessivos, apareceu-me sob cem formas diversas; vi-a dirigir para o céu um comprido telescópio,



calcular com a ajuda de um pêndulo



a queda dos corpos,



verificar com um tubo cheio de mercúrio o peso do ar,



e, de prisma na mão, decompor a luz.




Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 29, 2010



» Acabava de soltar esta exclamação patética
quando vi à distância uma criança que se
dirigia para nós a passo lento mas seguro.
Tinha a cabeça pequena, o corpo franzino,
os braços débeis e as pernas curtas; mas
todos os seus membros engrossavam e se
alongavam à medida que avançava.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 28, 2010



» — Compreendo — disse eu — e esses farrapos
serviam-lhes de etiquetas, a eles e à sua posteridade…
» — Quem reunirá estes bocados — continuou Platão —
e nos restituirá a túnica de Sócrates?


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 27, 2010



»— Não, não — respondeu Platão. — Não foi assim
que mereceu dos deuses o nome do mais sábio
dos homens; foi a fazer cabeças, a formar
corações, que se ocupou enquanto viveu.
O segredo perdeu-se com a sua morte.
Sócrates morreu e os belos dias da filosofia
passaram. Estes farrapos, que os sistemáticos
usam orgulhosamente, são bocados da sua
roupa. Ainda mal tinha fechado os olhos,
já os que aspiravam ao título de filósofos
se lançavm sobre a sua túnica e a despedaçavam.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 26, 2010



» — Como! — exclamei, interrompendo-o.
— Sócrates tinha uma palha e também soprava bolhas?...



Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 25, 2010



» — Essa ocupações são belas; mas que significam
todos esse bocados de pano que mais os faz
parecer mendigos do que filósofos?
» — Que me pergunta? — disse ele suspirando.
— E que recordação me faz evocar? Este templo
foi outrora o da filosofia. Ah, como estes lugares
estão mudados! A cátedra de Sócrates ficava aqui…


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 24, 2010



» — Mas por que acaso — repliquei — se encontra
aqui o divino Platão? E que faz no meio destes
insensatos?...
» — Recrutas — disse-me ele. — Tenho longe
deste pórtico um pequeno santuário para onde
levo os que chegam dos sistemas.

» — E em que os ocupa?
» — Em conhecer o homem, praticar
a virtude e sacrificar às graças…

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 23, 2010



»— Quem é você? Onde estou? E quem são todas
estas pessoas? — perguntei-lhe sem cerimónias.
» — Sou Platão — respondeu-me. — Você
está na região das hipóteses e estas
pessoas são sistemáticos.




Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 22, 2010



» Vi um cujos ombros estavam meio cobertos
de farrapos tão bem remendados que a arte
furtava aos olhos as costuras. Ia e vinha
pela multidão, incomodando-se muito pouco
com o que se passava. Notei que tinha um
ar afável, boca risonha, andar solene,
olhar suave, e fui direito a ele.



Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 21, 2010



» As pequenas amostras de pano voltaram a impressionar-me
e notei que quanto maiores eram menos os que as usavam se
interessavam pelas bolhas. Esta observação singular encorajou-me
a abordar aquele que me pareceu menos despido.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 20, 2010



» — Onde estou? — perguntei a mim mesmo, confuso
com estas puerilidades. — Que quer dizer este soprador
com as suas bolhas e todas estas crianças decrépitas
ocupadas em fazê-las voar? Quem me explicará estas
coisas?...

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 19, 2010



Molhava, numa taça cheia de um fluido
subtil, uma palha que levava à boca
e soprava bolhas a uma multidão
de espectadores que o
rodeavam e se
reforçavam

por projectá-las até às nuvens.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 18, 2010



Cem vezes tremi pela personagem que a ocupava.
Era um velho de longa barba, tão seco e mais nu
do que qualquer outro dos seus discípulos.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9