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agosto 14, 2010



«Porque um dos detalhes característicos da minha atitude espiritual
é que a atenção não deve ser cultivada exageradamente,
e mesmo o sonho deve ser olhado alto,

com uma consciência aristocrática de o estar fazendo existir.


Dar demasiada importância ao sonho
seria dar demasiada importância, afinal,
a uma coisa que se separou de nós próprios,
que se ergueu, conforme pôde,
em realidade,

e que,
por isso,

perdeu o direito absoluto à nossa delicadeza para com ela.»

:)


Bernardo Soares, Livro do Desassossego,
Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith,
Lisboa 1998, #199.

dezembro 11, 2009



«Não tenho sentimento nenhum político ou social.
Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.
Minha pátria é a língua portuguesa.

Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal,
desde que não me incomodassem pessoalmente.

Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto,
não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe,
não quem escreve com ortografia simplificada,

mas a página mal escrita, como pessoa própria,
a sintaxe errada, como gente em que se bata,
a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo
que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente.
A palavra é completa vista e ouvida.

E a gala da transliteração greco-romana
veste-ma do seu vero manto régio,
pelo qual é senhora e rainha.»


Bernardo Soares, Livro do Desassossego,
Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith,
Lisboa 1998, #259.

dezembro 02, 2009

«Tive sempre uma repugnância física pelas coisas secretas
— intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo.
Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas
— a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos
com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles,
exclusos todos nós outros — os grandes segredos
que são os caboucos do mundo.

Não posso crer que isso seja assim.
Posso crer que alguém o julgue assim.
Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida?
Por serem vários? Mas há alucinações colectivas.

O que sobretudo me impressiona,
nesses mestres e sabedores do invisível,
é que, quando escrevem para nos contar
ou sugerir os seus mistérios,
escrevem todos mal.

Ofende-me o entendimento
que um homem seja capaz de dominar o Diabo
e não seja capaz de dominar a língua portuguesa.

Por que há o comércio com os demónios
ser mais fácil que o comércio com a gramática?»

Bernardo Soares

novembro 06, 2009


E por hoje me terem lembrado Fernando Pessoa,
aqui deixo o superior texto 199 do Desassossego:


«[ ] Porque um dos detalhes característicos
da minha atitude espiritual é que a atenção
não deve ser cultivada exageradamente,
e mesmo o sonho deve ser olhado alto,
com uma consciência aristocrática
de o estar fazendo existir.

Dar demasiada importância ao sonho
seria dar demasiada importância, afinal,
a uma coisa que se separou de nós próprios,
que se ergueu, conforme pôde, em realidade,
e que, por isso, perdeu o direito absoluto
à nossa delicadeza para com ela.»

(edição de Richard Zenith)

Soberbo!
:))

julho 31, 2009



LISBON REVISITED
(1923)

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem
conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

O céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

junho 17, 2009


Imagem: pesquisa google

Ainda a propósito
da linha do horizonte
em Fernando Pessoa,

«Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe, a abstracta linha.»



leiamos a geometria táctil
de Henri Bergson,
in Matéria e Memória:

«À medida que o meu horizonte se alarga,
as imagens que me cercam parecem desenhar-se
sobre um fundo mais uniforme e tornarem-se
indiferentes para mim.

Quanto mais contraio esse horizonte, tanto mais
os objectos que ele circunscreve se escalonam
distintamente de acordo com
a maior ou menor
facilidade do meu corpo para tocá-los e movê-los.

Eles devolvem portanto ao meu corpo, como
o faria um espelho, a sua influência eventual;
ordenam-se conforme os poderes crescentes
ou decrescentes do meu corpo.
Os objectos
que cercam o meu corpo reflectem a acção

possível do meu corpo sobre eles.»


:)

junho 10, 2009


Gosto mais de Camões do que de Pessoa.
Mas há dois poemas deste
que me fascinam
e empolgam:


[ ]

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe, a abstracta linha
.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e com sensíveis
Movimentos de esperança e da vontade
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte

Os beijos merecidos da Verdade.




As rosas amo do jardim de Adónis
Que em o dia em que nascem
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos
.

janeiro 22, 2009



«Não evoluo, viajo.»