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agosto 15, 2013

Sá de Miranda


A ANTÓNIO PEREIRA, SENHOR DO BASTO,
QUANDO SE PARTIU PARA A CORTE CO’A
                     CASA TODA

[…]

Oh! vida dos lavradores!
Se eles conhecessem bem
as avantages que tem,
co’aqueles santos suores
que a si e o mundo mantém,

Tratando co’a madre antiga
que, de quanto em si recebe
(não entre engano, ou má liga)
singelamente se obriga
a pagar mais do que deve!

[…]

Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 222

agosto 13, 2013

Sá de Miranda


A ANTÓNIO PEREIRA, SENHOR DO BASTO,
QUANDO SE PARTIU PARA A CORTE CO’A
                     CASA TODA

[…]

Peitos, que sonhando andais,
o muito não no troqueis
por nadas, como o trocais;
as perlas orientais
aos porcos as não lanceis.

[…]

Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 221

agosto 09, 2013

Sá de Miranda

A ANTÓNIO PEREIRA, SENHOR DO BASTO,
QUANDO SE PARTIU PARA A CORTE CO’A
                     CASA TODA

[…]

Não me temo de Castela,
donde inda guerra não soa;
mas temo-me de Lisboa,
que, ao cheiro desta canela,
o Reino nos despovoa.

E que algum embique e caia
(afora vá mau agouro!)
falar por aquela praia
da grandeza de Cambaia,
Narsinga das torres d’ouro!

Ouves, Viriato, o estrago
que cá vai dos teus costumes?
Os leitos, mesas e o lumes,
todo cheira: eu óleos trago;
vem outros, trazem perfumes.

E ao bom trajo dos pastores,
com que saíste à peleja
dos Romãos tam vencedores,
são mudados os louvores;
não há lá quem t’haja enveja.

Entrou, dias há, peçonha
clara pelos nossos portos,
sem que remédio se ponha:
uns dormentes, outros mortos,
alguém polas ruas sonha.

Fez no começo a pobreza
vencer os ventos e o mar,
vencer quási a natureza;
medo hei de novo à riqueza,
que nos venha a cativar.

[…]

Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 215-16

agosto 07, 2013


Diógenes, claro o dia,
buscava andando à candea,
que nunca a cabeça erguia,
em Atenas — em que aldea! —
Já cansado assi dezia:
— Vou-me por aqui buscando
entre tantos homens um;
neste vão trabalho ando,
qu’inda não achei nenhum.


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 201

agosto 05, 2013

Sá de Miranda



EM DIÁLOGO DE DUAS NINFAS: NISA E FÍLIS

— Qu’es esto, Fílis, qu’estás tan turbada,
sola, demudada, y sin color
cab’esta fuente? Tanto ruiseñor,
y tanta outra avezilla enamorada!

Si lo que ves y que oyes no te agrada,
qué te puede agradar ni dar sabor?
Ves tanta diferencia y tanta flor,
de que la tierra está como esmaltada?

— Ó Nisa, Nisa! Leda y deseosa
de cazar, vine a la fresca ribera,
todo olvidé por esta fuente hermosa.

No soy la Nisa, no, que dantes era;
salteóme aquí un cuidado, ah! flaca cosa!
la vida muy aína aqui muriera!


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 161

agosto 03, 2013

Sá de Miranda


Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 160

agosto 01, 2013

Sá de Miranda


Los bosques sombrios, los sombrios valles,
los montes, las peñas, mis lamentaciones
escuchen, y quebrense los corazones
oyendo; y oyanme los animales;
los hombres no me oyan y sean mis males
tan solamente al hombre encubiertos,
que a ellos huyendo busqué los desiertos,
los bosques sombríos, los sombríos valles.

Ay generación perversa y malvada!
no te maravilles si mi mal descubro
a las alimañas y de ti me encubro,
ca su crueldad ante ti no es nada.
Pasaron los hombres, la fe ya es pasada,
amor ya no reina, reunam niñerias.
Si oyeses mis daños, como te ririas,
Ay generación perversa y malvada!

[…]


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 76

julho 31, 2013

Sá de Miranda


À SEPULTURA DE UMA DAMA

De quão pouca terra satisfeita jaz
a que toda ela a não merecia,
aquela que, triste ou leda, como ia,
assi punha tudo ou em guerra ou em paz.
Levou-no-la a morte cruel que desfaz
as maiores cousas com maior presteza.
Ah, morte! Ah, mundo! A tua riqueza
de quão pouca terra satisfeita jaz!



Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 75

julho 29, 2013

Sá de Miranda


Antre temor e desejo,
vã esperança e vã dor,
antre amor e desamor
meu triste coração vejo

Nestes extremos, cativo
ando, sem fazer mudança;
e já vivi d’esperança
e agora de choro vivo.
Contra mi mesmo pelejo,
vem d’ua dor outra dor
e dum desejo maior
nace outro moor desejo.


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 74

julho 27, 2013

Sá de Miranda


AO AMOR E À FORTUNA

Amor e Fortuna são
dous deuses que os antigos
ambos os pintaram cegos;
ambos não seguem razão;
ambos aos mores amigos
dão mores desassossegos;
ambos são sem piedade;
ambos não lhe tomais tino
do querer ou não querer;
ambos não falam verdade;
Amor é cego minino,
Fortuna é cega mulher.


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 71

julho 23, 2013

Sá de Miranda


Fuye el tiempo, está el mal quedo,
pensé morirme, y no muero;
desengañarme no quiero;
quando ya quiero, no puedo.

Todo se me va en antojos,
en esta prisión escura;
cuitados de los mis ojos
que pagan tanta locura!

De todo me pide el miedo
lágrimas como de fuero:
de lo que puedo y no quiero,
de lo que quiero y no puedo.

Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 64

julho 21, 2013

Sá de Miranda


               (CANTIGA FEITA NOS GRANDES CAMPOS DE ROMA)

Por estes campos sem fim,
onde a vista assi se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende?

Todos estes campos cheos
são de saudade e pesar,
que vem pera me matar
debaixo de céus alheos.
Em terra estranha e em ar,
mal sem meo e mal sem fim,
dor que ninguém não entende,
até quão longe se estende
o vosso poder em mim!

Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 61

julho 09, 2013

Sá de Miranda






















Toda esperança é perdida,
tudo veo a falecer,
e o que fica da vida,
ficou para m’eu perder.

Aquela esperança minha,
assi falsa e vã como era,
co’os que eu nela tinha
a todo o mal me atrevera.
Ora, ela é toda perdida;
mas não m’hão-de fazer crer
que não há mais nesta vida
senão nascer e morrer!


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 60

(img in Poetas Apaixonados)

julho 07, 2013

Sá de Miranda

Ó meus castelos de vento
que em tal cuita me pusestes,
como me vos desfizestes!

Armei castelos erguidos,
esteve a fortuna queda
e disse: Gostos perdidos,
como is a dar tão grâ queda!
Mas, oh! fraco entendimento!
em que parte vos pusestes
que então me não socorrestes?

Caíste-me tão asinha,
caíram as esperanças;
isto não foram mudanças,
mas foram a morte minha.
Castelos sem fundamento,
quanto que me prometestes,
quanto que me falecestes!


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p. 59

junho 30, 2013

Sá de Miranda


Deixai-me as minhas tristezas,
que já'gora outra alegria
maior poerigo seria.

Aos males acostumados
o mesmo costume é cura.
Bens tão vãmente esperados,
quem os sofre? E quem atura
senão desapaixonados?
Criei-me com meus cuidados;
já agora não saberia
andar noutra companhia.


Sá de Miranda, “Poesia e Teatro”,
selecção, introd. e notas por
Silvério Augusto Benedito,
Ulisseia, Lisboa, 1989, p.60

junho 28, 2013

Sá de Miranda




No sé por qué me fatigo,
pues con razón me vencí,
no siendo nadie comigo,
y vos y yo contra mí.

Yo por haveros querido,
y vos a mí desamado,
con vuestra fuerza y mi grado
havemos a mí vencido.

Y pues fuí mi enemigo
en me dar como me dí,
quién osará ser amigo
del enemigo de sí?


Cantiga de Dom Jorge Manrique,
que foi glosada por Sá de Miranda,
in "poesia e teatro", intr. e notas por
Silvério Augusto Benedito, Ulisseia,
Lisboa, 1989, p.53

fevereiro 09, 2011

Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra, em 1481(?), tendo estudado Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou depois a Universidade, ao tempo estabelecida em Lisboa, onde fez o curso de Leis, passando de aluno aplicado a professor considerado.

Frequentou nessa altura a Corte. Para o Paço, compôs cantigas, vilancetes e esparsas, ao gosto dos poetas do séc. XV.Tendo-lhe falecido o pai, parte, em 1521, para Itália. Graças a uma parente abastada, Vitória Colona, marquesa de Pescara, pôde conviver com algumas personalidades do Renascimento italiano, apreciando muito a estética literária que todos os humanistas cultivavam com entusiasmo.

Regressou a Portugal em 1526. Já se encontrava em Coimbra quando o rei D. João III residia, com a sua Corte, naquela cidade, decidindo difundir entre nós o novo estilo clássico. É na Quinta das Duas Igrejas, junto ao Rio Neiva, que compõe quase toda a sua obra, em novos moldes, por influência da estética italiana.[ ]Nos séculos XVI e XVII foi o poeta mais admirado depois de Camões.

fevereiro 03, 2011




O sol é grande, caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão que sói ser fria:
Esta água, que d'alto cai, acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó coisas todas vãs, todas mudaves,
Qual é o coração que em vós confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
Incertos todos mais que ao vento as naves!

Eu vi já por aqui sombras e flores,
Vi águas, e vi fontes, vi verdura;
As aves vi cantar todas d'amores.

Mudo e seco é já tudo; e de mistura,
Também fazendo-me eu fui doutras cores;
E tudo o mais renova, isto é sem cura.


Sá de Miranda

janeiro 27, 2011



Comigo me desavim,
Vejo-me em grande perigo;
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.

Antes que este mal tivesse,
Da outra gente fugia.
Agora já fugiria
De mim se de mim pudesse.

Que cabo espero ou que fim,
Deste cuidado que sigo,
Pois trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim.


Sá de Miranda