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junho 25, 2011


Imagem in blog Mar à Vista

«Ninguém pode ler dois mil livros.
... Aliás não é ler que importa, mas reler.»


JL Borges, O Livro de Areia

outubro 29, 2009

Com um poema assim, fica
este blog "just perfect",
como a Catharsis

o qualificou :):



As causas

Todas as gerações e os poemas.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.



Jorge Luís Borges, História da noite,
in Obras Completas, Vol. III,
Círculo de Leitores,
Lisboa, 1998, p. 203

maio 07, 2009

E por falar
em Kafka...




Ein Traum

Sabiam os três.
Ela era a companheira de Kafka.
Kafka tinha-a sonhado.
Sabiam os três.
Ele era amigo de Kafka.
Kafka tinha-o sonhado.
Sabiam os três.
A mulher disse ao amigo:
«Quero que esta noite me desejes.»
Sabiam os três.
O homem respondeu-lhe:«Se pecamos,
Kafka deixará de nos sonhar.»
Um deles soube.
Na terra não havia mais ninguém.
Kafka disse:
«Agora que partiram ambos, fiquei só.
Deixarei de me sonhar.»

Jorge Luís Borges,
in "A moeda de ferro"

dezembro 11, 2008


fotografia de Michelle Clement


Es el amor.

Tendré que ocultarme o que huir.
crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado, pero como siempre es la única.

De qué me servirán mis talismanes: el ejercicio de las letras,
la vaga erudición, el aprendizaje de las palabras que usó el áspero norte
para cantar sus mares y sus espadas, la serena amistad,

las galerías de las bibliotecas, las cosas comunes,
los hábitos, el joven amor de mi madre,
la sombra militar de mis muertos,
la noche intemporal,
el sabor del sueño?

estar o no estar contigo es la medida de mi tiempo.

ya el cántaro se quiebra sobre la fuente,
ya el hombre se levanta a la voz del ave,
ya se han oscurecido los que miran por las ventanas,

pero la sombra no ha traido la paz.
es, ya lo sé, el amor: la ansiedad y el alivio de oír tu voz,
la espera y la memoria, el horror de vivir en lo sucesivo.
es el amor con sus mitologías, con sus pequeñas magias inútiles.

hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
ya los ejércitos me cercan, las hordas.

esta habitación es irreal; ella no la ha visto.

el nombre de una mujer me delata.
me duele una mujer en todo el cuerpo
.

JORGE L. BORGES
(el oro de los tigres, 1972)

março 12, 2008

Descartes


Geraldo de Barros

Descartes
Sou o único homem na terra e talvez não haja terra nem homem.
Talvez um deus me engane.
Talvez um deus me condenasse ao tempo, essa longa ilusão.
Sonho a lua e sonho os meus olhos que percepcionam a lua.
Sonhei a tarde e a manhã do primeiro dia.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei Lucano.
Sonhei a colina do Gólgota e as cruzes de Roma.
Sonhei a geometria.
Sonhei o ponto, a linha, o plano e o volume.
Sonhei o amarelo, o azul e o vermelho.
Sonhei a minha infância adoentada.
Sonhei os mapas e os reinos e aquele duelo na alba.
Sonhei a inconcebível dor.
Sonhei a minha espada.
Sonhei Isabel da Boémia.
Sonhei a dúvida e a certeza.
Sonhei o dia de ontem.
Talvez não tenha tido ontem, talvez não tenha nascido.
Talvez sonhe ter sonhado.
Sinto um pouco de frio, um pouco de medo.
Sobre o Danúbio está a noite.
Continuarei a sonhar Descartes e a fé dos seus pais.

JL Borges, A cifra, in Obras Completas, Vol. III,
Círculo de Leitores, Lisboa, 1998, p. 309

março 06, 2008


«Estar o no estar contigo es la medida de mi tiempo.»
«Estar ou não estar contigo é a medida do meu tempo.»

JL Borges, El oro de los tigres («O ouro dos tigres»), 1972