Mostrar mensagens com a etiqueta julia kristeva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta julia kristeva. Mostrar todas as mensagens

abril 15, 2013

«É a Eisenstein [ ] que devemos os primeiros tratados magistrais sobre a forma e a significação no cinema nos quais demonstra a importância da montagem na produção cinematográfica e, consequentemente, em qualquer produção significante. O cinema não copia de um modo «objectivo», naturalista ou contínuo uma realidade que lhe é proposta: corta sequências, isola planos, e recombina-os através de nova montagem. O cinema não reproduz coisas: manipula-as, organiza-as, estrutura-as. E só na nova estrutura obtida pela montagem dos elementos é que estes ganham um sentido. Este princípio de montagem, ou melhor da junção de elementos isolados, semelhantes ou contraditórios, e cujo choque provoca uma significação que eles não têm em si mesmos, foi Eisenstein encontrá-lo na escrita hieroglífica. [ ] Segundo ele, o filme deve ser um texto hieroglífico em que cada elemento isolado só tem sentido na combinatória contextual e em função do seu lugar na estrutura.»  


Julia Kristeva, História da Linguagem,
Le langage, cet inconnu», 1969),
Lisboa, Edições 70, 1988,
pp.360-61

abril 11, 2013


A base filosófica sobre a qual se desenvolveram as teorias da linguagem na Idade Média foi a importante questão dos universais: — Têm todos os universais exemplos ou haverá universais não exemplificados? que foi a célebre discussão entre realistas  e nominalistas.

Os realistas, de que Duns Scot (1266-1308) foi o principal representante, defendiam a tese de ser real o ser infinito, de que as coisas são mera exteriorização ou cópia. Quanto à linguagem, para Scot, as palavras estavam numa relação intrínseca com as ideias ou conceitos, que passam a existir logo que há  palavras que as designem.

Os nominalistas, representados principalmente por Guilherme Occam (1300-1350, aprox.), defendiam a existência real de coisas particulares, cujo universal — ideia ou conceito — apenas existia na alma dos sujeitos cognoscentes. No plano da linguagem, não consideravam  equivalente a ideia e a palavra. Por exemplo, na frase «O homem corre», não é a palavra homem que corre, nem a ideia de espécie humana, mas a pessoa concreta individual que está a correr. Occam constrói, assim, a sua doutrina do discurso em função das palavras ou termos utilizados no discurso, donde o nome da sua doutrina: nominalismo ou terminalismo.

Já no fim da Idade Média, a defesa das línguas nacionais requer a elaboração de gramáticas apropriadas às especificidades de cada uma. A língua vulgar de cada país, como língua falada, é valorizada não apenas contra o latim, mas por revelar um fundo primitivo, lógico e natural, de algum modo universal. Para comunicar as suas concepções aos seus semelhantes, o homem forja signos de natureza racional e sensível; racional, por o falante o criar na razão dialogante com o seu semelhante; sensível, por a comunicação humana se efectuar somente por intermédio dos sentidos. Assim, o signo, a matéria da linguagem vulgar, é sensível pela sua natureza como som, e racional pela sua significação cognitiva como ideia.
 
Julia Kristeva, História da Linguagem,
(«Le langage, cet inconnu», 1969),
Trad. Mª Margarida Barahona,
Lisboa, Edições 70, pp. 165-7

abril 09, 2013

«Todo o texto se constrói como mosaico de citações, todo o texto é absorção e transformação de um outro texto. No lugar da noção de intersubjectividade instala-se a de intertextualidade, e a linguagem poética lê-se, pelo menos, como dupla(p.72)

«Há três dimensões do espaço textual: o sujeito da escrita, o destinatário e os textos exteriores (três elementos em diálogo). O estatuto da palavra define-se então: a) horizontalmente: a palavra do texto pertence ao mesmo tempo ao sujeito da escrita e ao destinatário, e b) verticalmente, a palavra do texto é orientada para um corpus literário anterior ou sincrónico.» (p.71)

Julia Kristeva, Semiótica do Romance,
Dir., Pref. e revisão da trad. Maria Alzira Seixo,
Lisboa, Editora Arcádia, 1977

junho 14, 2009



(continuação)

«O eterno retorno que conta com a criança
e a ela regressa para a refazer é uma ideia
de eternidade inconstante. Descuidada.
Uma imortalidade instável. Mutável.
Uma eternidade barroca.»


(fim)

(op. cit., p. 190)

junho 12, 2009


(continuação)

«Que mais ainda? Literalmente, o tempo fabrica crianças.
O tempo engendra. Aqui, uma cesura faz uma mossa
na roda sem a deter: os mortos acompanham
e relançam as gerações. Mas, no jogo
supremo que consiste em jogar ao
genitor sem deixar de ser
profundamente criança

não se fala da morte que implicitamente regula a partida. ( )»


(continua)


op.cit., p.190

junho 09, 2009


(continuação)

«O tempo faz, pois, de criança.
Como uma criança atira dados, piões, bolas,
papagaios de papel, máquinas de calcular.
E volta ao princípio

(continua)

op.cit., p.190

junho 07, 2009


O Jogo de Cartas, de Balthus, em 1948-50

(continuação)

««O tempo é uma criança que faz (de) criança, que joga.»

Perversa ligeireza do jogo infantil: o tempo cíclico é como ela,
lamina-nos divertindo-nos, mas esta espiral não tem fim,

porque todos os jogos sobrevivem aos seus jogadores
e escolhem novos que chegam;

os jogos estruturam o mundo, e só os jogadores ingénuos ou
megalómanos acreditam que são eles que o conduzem.»

(continua)

op. cit., p.190

junho 05, 2009



«Heraclito, o mágico obscuro, deu-se ao luxo de atravancar
a sua posteridade — e a eternidade — com milhares de traduções
de uma só frase, todas possíveis e todas insuficientes:

«O tempo é uma criança que faz (de) criança, que joga.»

(continua)

(op. cit., p. 190)

junho 03, 2009

........

…..…«Não sou capaz de me concentrar ( )
…..…já não ouço, pura e simplesmente.
…..…As palavras dos outros já não me dizem nada.
…..…[Estarei] apaixonada?

…..… ( ) há muito tempo, eu já sabia. Mas para sempre?

…..…Ele acha que sim. Basta que um dos dois esteja convencido
…..…para o outro perder a cabeça. O outro sou eu.

…..…Já não tenho ouvidos. Apenas os olhos para o seu desejo velado
…..…de ternura quando pensa que ninguém está a olhar para nós. ( )

…..…Eu suspeitava de qualquer coisa, é claro,
…..…as mulheres suspeitam de tudo nos romances (…)

…..…Volto a ter um corpo. As costas endireitam-se,
…..…os seios crescem-me.

…..…Basta-me imaginá-[l]o, pensar nele, não pensar em nada aliás,
…..…repetir simplesmente a mim mesma que ele está algures
…..…nesta cidade, que ele respira e de certeza pensa em mim,
…..…para que a excitação baralhe o que me resta de entendimento.
…..…Uma adolescente.

…..…Desde quando me havia eu esquecido de que tinha um corpo?

…..… (…) a sua paixão consegue contornar as palavras,
…..…ele ama com a epiderme, os músculos, os lábios,
…..…o sexo, as mãos, os braços, as coxas.

…..…Nunca imaginei que o corpo de homem
…..…pudesse ser tão múltiplo e fluido.

…..…A verdade é que não o imagino, experimento-o,
…..…e ele restitui-me realmente o meu,
…..…igualmente diferenciado e igualmente sensual.
…..…Delicadeza só em gestos, carícias, atitudes.

…..…A alma dissolvida em actos de ternura ( ).
…..…Apetece-me embonecar-me, comprar vestidos,
…..…bâtons extravagantes, sapatos novos.

…..…Passo para o outro lado, saio do meu túmulo,
…..…de novo me torno grácil. ( ) mudei de perfume.

…..…Como tornei a ser adolescente ( ), procuro o risco.
…..…A surpresa à beira do escândalo, porque não?»

op. cit.

junho 01, 2009



«A capacidade de fingir impressiona-me mais que a estupidez
ou a doença. Nada mais duro, mais partilhado e eterno
que a falsidade. Os que a dominam são os jogadores
que conduzem o mundo.

Devo dizer que as minhas reticências morais depõem armas perante
o meu fascínio pela sua destreza em fingir que não fingem ,
quando fingem e nada mais fazem que isso, negando sempre.

Porque, no fim de contas, não será a arte de fingir, de mimar,
de macaquear, indispensável ao bebé para se tornar
um ser autónomo, o indivíduo à parte
que todos sonhamos ser?

Fingir faz parte do tornar-se-verdade,
Sabem-no pais e educadores.

O erro — e o horror — começa quando o movimento se bloqueia:
Já não fazem mais nada a não ser fingir,
E não o sabem (os pasmados), ou,
Sabendo, insistem (os cínicos)
(…)»

maio 30, 2009

Agarro-me a sinais, a formas


«Agarro-me a sinais, a formas que me conduzem a outros sinais,
a outras formas, fito os passos da minha memória

para fugir ao que me rodeia
e que não tem memória
. ( )


— Detesta o artifício, não é? Ora bem, aqui tudo é fogo-de-artifício!
( ) Acompanha com uma gargalhada a explosão da rolha.

Como falar com um homem que usa um pseudónimo?
Inclino-me a pensar que ele esconde um desconhecido de si mesmo.
( ). Portanto, não respondo, faço-lhe um grande sorriso;
a lógica não é decerto terapêutica. Mas talvez
corresponda melhor ao mundo em que estamos.»

op. cit.

maio 27, 2009



«O cocktail ( ), festa ritual da sociedade intelectual ( )

O salão de recepção e o jardim coberto pela tenda
do fornecedor de banquetes são pequenos de mais
para conter tanta coisa falsa; as pessoas
não estão
lado a lado, apertam-se umas contra as outras.

Têm ciúmes e detestam-se ao ponto de fazer
sorrisos que significam insolentemente

que não significam nada.

( ) Toda a gente se anula numa banalidade sem apetite.»

Júlia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

maio 21, 2009


«Estou, portanto, mergulhada no horror.
Não me queixo, é o meu ofício.

As pessoas pagam-me para serem na minha presença
estúpidas e más, abjectas de vez em quando,

tendo como prémio, não menos abjecto mas tocante,
de renascerem, de construírem uma vida nova. ( )


Na realidade, parece ser antes o encontro surrealista ( );
disseco as frases-biombo para referenciar a sílaba,
a palavra onde se esconde o não-dito
; ( )

Sou desejada, amo: pois sim, não é um jogo, não,
É uma paixão louca!

No entanto, somos dois, insisto.
O meu papel é manter que somos mesmo dois.


Todo este mundo intelectual, literário (…) como se podem escrever romances,
e portanto construir falsificações, um mundo como desejamos e não como é,
quando todos estamos doentes de mentiras?

Julga-se curar a mentira com uma bela mentira. ( ) Diário íntimo? ( )
Erotomania da mulher que, passados os trinta, exprime pela escrita
os seus desejos reprimidos?

Interpretar: dar uma forma que resulta do que escolhi eliminar.
Interpretar está, portanto, mais perto de escrever do que se imagina.

( ) O escritor persegue o perseguidor. ( )
O inimigo não tomou forma no exterior; invadiu-me
e eu combato-o unicamente pela repulsa.

Repulsa em que estamos ligados, o horror e eu:
que é que eu expulso, o horror ou eu?

Nem um nem outro, ambos ao mesmo tempo.
Nesta miséria desponta a minha certeza,
que pode tornar-se hostil,
de ser outra

Júlia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

maio 19, 2009



«Os pormenores do quotidiano, insignificantes, mesquinhos ou horríveis...
Sou capaz de imaginar todos os pontos de vista e de representar os papeis
correspondentes: ser insignificante, mesquinha, horrível.

Afinal, oiço melhor o que me dizem
(ou antes: mais perto do excesso ou da insensatez)
quando decido ouvir, na insignificância da murmuração,
uma abjecção que exige ser perdoada.

Para quê? Para nos conhecermos,
talvez para nos deslocarmos um furo
em direcção a outro horror, menos assassino,
e assim sucessivamente, isto é,


indefinidamente indiferente e
às vezes engraçada


:)


Júlia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

abril 24, 2009


O Diário de… “Jöelle Cabarus“

............«Durante anos, este Diário deixou de existir; ( )

............Não anotava nada de pessoal, a não ser as minhas

...........................................................interpretações,
............que são a minha ligação com os outros, ou antes,
............o meu intervalo relativamente ao que
............eles julgam ser o sentido
............do que dizem.


............Não duvido de que tinha também necessidade de guardar
............fora das palavras, e fora deste caderno,

............o que tenho de mais pessoal,
............exactamente, de mais sensual.

............É que isso não se pode dizer, ou então
............teria de cair na poesia, na música ou na pintura.

............Calo-me.
............Continuo no meu silêncio».

:)

Julia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

abril 23, 2009


«A língua escapa-se à reflexão, e nunca à paixão: a palavra
é sempre de um pensamento injustamente verdadeiro.»

Julia Kristeva, op.cit., p. 53

abril 22, 2009


Julia Kristeva, O velho e os lobos («Le vieil homme et les loups», 1991),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, Lisboa,1993



Um conto filosófico alusivo à convulsão social nos países de Leste,
após a queda do muro de Berlim, pela diferenciação abolida
entre exploradores e explorados,
restaurando a velha selva
homo homini lupus.



Escreve Kristeva, «persisto em pensar [ ]
que quodlibet ens não é «o ser não importa qual»,
mas «o ser tal que de qualquer maneira importe».

[No fundo,] «o desejo mútuo das nossas qualidades vulgares».
«Há um X tal que que pretence a Y.» — Crisipo divertia-se
a extrair valores morais dessa trivialidade lógica.

[ ] Nós somos assim, e pronto.
Oferecidos nas nossas maneiras,
gerados pelas nossas maneiras.


[ ] Sim, na noite dos grandes homens,
o meu quodlibet reparte para a raíz
do «principium individuationis».

Afinal, é a ele que seria preciso salvar urgentemente [ ]
Ele o quodlibet [ ]. Por favor, peço uma trégua [ ].

Por agora, tentem pensar que existe um X tal que
se vos expõe: irritante, pensável, amável.»

(pp. 161-3)

:))
Tine Thing Helseth: Haydn Trumpet Concerto, 3rd mvt


«Sabia também que o raciocínio tem o poder enigmático
de não situar seja quem for em parte alguma.»


Julia Kristeva, O velho e os lobos
(«Le vieil homme et les loups», 1991),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, Lisboa,1993