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agosto 31, 2008

Não descansa, não mora
santa felicidade
em torres, em tesouros, em grandezas.
Errada vaidade!
Isso são bens de fora;
nosso só é o saber, que tanto prezas.

Tudo al são pobrezas
num ânimo contente,
que mil mundos despreza, e só deseja
deixar à sua gente,
por honra e por riquezas,
saber, e vida livre de ódio e de inveja.


António Ferreira, Poemas Lusitanos ("Livro I das Odes -5")

agosto 06, 2008

Se meu desejo só é sempre ver-vos,
que causará, senhora, qu’em vos vendo
assi me encolho logo, e arrependo,
que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
no pensamento meu, porque em querendo
cuidar em vós, se vai entristecendo,
nem ousa meu espírito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim vejo.
Mas que tudo é amor entendo e creio,
e no qu’entendo e creio, nisso espero.

António Ferreira (1528-1569)