Mostrar mensagens com a etiqueta vasco graça moura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vasco graça moura. Mostrar todas as mensagens

fevereiro 24, 2013


«Num consultório manhoso de um bairro lisboeta, duas mulheres esperam a chegada do médico, em Novembro de 1975. Nas ruas cheias o ambiente é tenso e sucedem-se as manifestações, naquela sala lúgubre elas estão sós consigo próprias, aguardando a hora de serem atendidas. A segunda a chegar mete conversa e descobre conhecer a sua ocasional «parceira»: ambas são do Porto, da Foz, de classe social muito diferente (a mãe de uma trabalhou para a mãe da outra) e compercursos de vida completamente distintos. E são estes percursos que, afinal, no fundo, também têm muito em comum, é o «retrato» mais íntimo das duas mulheres, que o leitor vai descobrindo através de magistrais diálogos, pungentes e divertidos, entre ambas — e, em simultâneo, interiores. Enquanto o médico não chega — e acabará mesmo por não chegar…»

Vasco Graça Moura, Duas Mulheres em Novembro,
Contos Inéditos Visão, Lisboa, 2006, texto da contracapa.

fevereiro 22, 2013

«Coimbra, com os altos e baixos da sua topografia íngreme e escuramente acanhada, era então um meio muito provinciano, uma rapariga vinda de fora e dita de boas famílias tinha de ir para um lar ou para casa de uma família respeitável, não podia sair sozinha à noite para não se arriscar a ficar completamente queimada pela má-língua, o curso de Românicas quase só tinha mulheres que se destinavam invariavelmente  ao professorado a não ser que casassem antes de concluí-lo e deixassem de pensar no canudo, os namoros eram o mais discretos possível, nem sequer se podia andar na rua de mãos dadas ou ir um parzinho ao cinema sem o inevitável «arame farpado» de mais alguém, enfim, coisas daquele tempo, segunda metade dos anos quarenta, entrada dos anos cinquenta, a seguir ao fim da guerra, qualidade de vida medíocre, hipocrisia moral generalizada, expectativas de mudança política em nome da democracia brandidas aqui e ali com todas as cautelas, gerandes discussões teóricas sobre a autenticidade da expressão artística e a função social da arte, medo da polícia, sobretudo medo da polícia, organização ainda imperfeita da esquerda comunista e da oposição unitária no meio académico e também alguns problemas complicados de implantação no meio operário, sobretudo na metade Norte do país.» 

Vasco Graça Moura, O Enigma de Zulmira,
Quetzal Editores, Lisboa/ 2002, pp.53-4

fevereiro 20, 2013


«A certa altura, apesar da chuva e da pressa, da violência da escuridão a desdobrar-se sem fim e da confusão do percurso, apeteceu-me sair da auto-estrada, meter por uma via secundária, percorrer sítios onde fosse forçado a abrandar e a olhar, sem a hipnose forçada das faixas brancas no alcatrão, mesmo sabendo que, de noite, pouco ou nada poderia avistar, mas precisava de ter consciência de que havia árvores nas bermas, de que atravessava povoações adormecidas, [ ] para depois ainda, voltar a sentir-me completamente só nessa luta contra os elementos como num corpo a corpo contra o tempo e o espaço e o próprio destino.»

Vasco Graça Moura, Meu amor, era de noite,
Quetzal Editores, Lisboa/ 2001, p.69

novembro 21, 2012


[ a crise, a burguesia e a falsificação de obras de arte ]

«O pânico instalara-se de modo intolerável e chegava à Europa. Em Portugal, por exemplo, ainda não era, mas ia passar a ser chiquíssimo as classes dominantes dizerem coisa como «estamos outra vez tesos, filha», The Economist bem escrevia vingativamente they claim now everything was wrong before, e os compradores da véspera tinham pedido aos seus advogados que começassem a engendrar toda uma série de razões técnicas para não procederem ao levantamento e muito menos ao pagamento dos quadros licitados, por razões de austeridade, morigeração de costumes e preconceitos estéticos, e dizia-se mesmo que alguns maridos, que tinham investido forte , receavam voltar a perder completamente a ponta, o que era susceptível de lhes causar contratempos nada discipiendos, como se diz que já tinha acontecido aquando do vinte e cinco de Abril.
Também por cá havia indícios seguros de que a questão ia passar a ser a do real fake. Nas colunas sociais, as ladies da nossa melhor sociedade começavam a deixar-se fotografar torcendo o nariz aristocrático a umas borradelas gigantescas que as tinham extasiado havia algumas semanas apenas e tinham agora a bolinha vermelha da reserva já meia descascada e esquecida.»

:)

op.cit., p.272-3

setembro 01, 2012


«É como se [ ] tudo nascesse de temores que ignoramos, nos sobressaltos do mundo, como um punhado de causas sumárias e truculentas. [ ] esquecem-se de que a substituição das pátrias pelas ideologias deu historicamente outros sentidos à traição. De resto, sempre a traição está para além do limite chamado oposição legal ao poder. Você conhece o prefácio do Raymond Aron a um livro de André Thérive? Já tem mais de quarenta anos, mas dá que pensar, quando equaciona traição e sociedades totalitárias. Espere um instante. Está aqui. Lembro-me de que termina dizendo… cá está: la trahison ne sera plus la chose du monde mieux partagée. Tout au contraire, rare et sublime, elle sera le dernier refuge de la liberté.»

Vasco Graça-Moura, op.cit., pp. 91-2


agosto 31, 2012


«É claro que Você pode pegar nisto [que lhe escrevo], dar-lhe alguma cor local, misturar com algumas idas ao Casino Estoril e umas portas entreabertas, trocas de olhares sobre a mesa de um restaurante, conversas de espiões alemães com o embaixador do Eixo, meter um ou dois negociantes de volfrâmio em competição, e um sujeito de gabardine a olhar de viés e a agir na sombra, com a cumplicidade de qualquer engraxador ou moço de recados. O chapéu dos protagonistas, agentes secretos ou espiões, fica sempre melhor descaído sobre os olhos. É um efeito exterior de ocultação do olhar que ajuda a traduzir o que lhes vai por dentro e dá um toque mais perigosamente enigmático.»

:)
Vasco Graça Moura, A morte de ninguém,
Lisboa, Quetzal, 1998, p.74


março 17, 2011


«Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.»