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março 20, 2013


«Si on cherche profondément le vrai
Et qu’on désire ne pas se fourvoyer,
On doit réfléchir sur soi sa lumière intérieur,
Concentrer les amples mouvements de sa pensée
Et apprendre à son âme que ce qu’elle entreprend
                                                            au-dehors,
Elle le possède déjà, déposé secrètement en elle.
Ce que naguère recouvrait le noir nouage de l’er
                                                                  -reur,
Brillera plus distinctement que Phébus en personne.
Car l’âme ne s’est pas vu ravir toute sa lumière
Par la masse d’oubli dont l’a recouverte le corps.
Sans nul doute une semence de vrai reste fixée à
                                                              l’intérieur
Que vient ranimer un enseignement refraîchissant.
Comment réprondiez-vous spontanément juste aux
                                                              questions
Si rien ne l’entretenaient au plus profond de votre
                                                                    coeur?
Si la Muse de Platon fait entendre le vrai,
Quando on apprend, on se souvient sans s’en rendre
                                                                  compte.»

Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.141

março 18, 2013


«Com quão grande variedade de formas
os animais percorrem as terras!
De facto, uns têm um corpo alongado e arrastam-se no pó,
marcando no solo um sulco contínuo
ao arrastarem-se esforçadamente,
outros têm a leveza errante das asas,
para fustigarem os ares
e atravessarem em voo os espaços do amplo céu;
outros ainda, deslocando-se a andar,
alegram-se ao imprimirem no solo
a marca dos seus passos,
seja para atravessarem verdes planícies
seja para se embrenharem nos bosques.
O facto de todos estes animais,
embora os vejas diferentes entre si
pela variedade das formas,
terem a face voltada para baixo
basta para lhes tornar embotados e pesados os sentidos.
So a raça dos homens ergue mais alto a excelsa cabeça,
e, leve, ergue-se com o corpo direito
e olha de cima para as terras.
o que esta postura ensina, a não ser que,
como ser terreno, não percebas mesmo nada, é o seguinte:
Tu, que procuras o céu com o rosto levantado,
e ergues a fronte,
ergue também o teu espírito para o alto,
para que a mente, pesada,
não tenda para baixo, sendo inferior ao corpo
que se ergur com maior leveza para as alturas.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 5, Metro 5, p.189-90.

março 16, 2013


«Qu’est-ce donc, mon garçon, qui t’a plongé dans la mélancolie et le désespoir? Tu as vu, j’en suis sûre, quelque chose d’extraordinaire et d’inhabituel. Tu penses que la Fortune a changé à ton égard: tu te trompes!

Elle a toujours les mêmes pratiques: c’est dans sa nature. Elle est restée à ton égard constante, à vrai dire, dams son inconstance même. Elle était la même quand elle te flattait, quand elle se jouait de toi en te faisant miroiter un faux bonheur.

Tu as découvert le double visage de cette puissance aveugle. Alors qu’elle dissimule encore son vrai visage aux autres, devant toi, elle a véritablement jetée le masque. Si tu l’apprécies, aie recours à ses pratiques; ne t’en plains pas. Mais si sa duplicité te fait horreur, dédaigne-la, repousse-la: ses jeux sont funestes. Au lieu de provoquer en toi tout ce désespoir, elle aurait dû te procurer la tranquillité. Car au moins elle t’a laissé, alors que personne ne peut jamais avoir la certitude de la garder auprés de soi.

Accorde-tu vraiment du prix à un bonheur en sursis? Et apprécies-tu la présence à tes côtés d’une Fortune dont tu n’est pas sûr qu’elle reste et dont le départ te plongerá dans le désespoir? Si on ne peut la retenir comme ont veut et si elle séme la catastrophe derrière elle, qu’est-elle d’autre, cette inconstante, que le signe annonciateur de la catastrophe?

Il ne suffit pas de regarder la situation qu’on a sous les yeux; la sagesse consiste à évaluer la finalité de toutes choses et c’est précisément cette faculté de passer d’un extrême à l’autre qui ne rend pas redoutables les menaces de la Fortune, ni souhaitables, ses séductions.

Enfin, tu dois tolérer sans te plaindre tout ce qui s’accomplit à l’intérieur du champ d’action de la Fortune, une fois que tu as accepté son joug sur ta nuque.»

Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.72-3

março 14, 2013


«Aqueles reis que vês altivos,
sentados no alto dos seus tronos,
magníficos com as suas roupas
de púrpura resplandecente,
rodeados de tristes armas, olhando com ar ameaçador,
resfolegando com a sanha do seu coração,
se alguém lhes retirar, a estes soberbos,
a cobertura do seu vão aspecto exterior,
logo verá que lá por dentro aqueles homens altivos
carregam apertadas cadeias:
de um lado, o desejo faz-lhes voltear os corações
com venenos de ansiedade,
do outro, a torva ira flagela-lhes a mente,
erguendo vagas de furor,
ou então é a tristeza que faz esmorecer
aqueles de que se apoderou,
ou é uma esperança vã que os atormenta.
Ora, embora tu vejas muitos tiranos,
eles fazem parte, no fundo, de um só indivíduo,
e esse, subjugado por amos iníquos,
não faz aquilo que ele próprio quer.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 4, Metro 2, p.136

março 12, 2013


«Ainda que o ganacioso,
rico em ouro devido ao abismo que flui,
recolha riquezas que não são capazes de o satisfazer,
e carregue o pescoço com pérolas do Mar Vermelho,
com cem bois lavre campos de magnífica fertilidade,
nem a mordaz angústia o abandona enquanto é vivo,
nem as efémeras riquezas o acompanham quando morre.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 3, Metro 3, p.86

março 10, 2013


«Quando Febo começa a espalhar pelo pólo
a luz com as róseas quadrigas,
empalidece a estrela, ofuscado o seu rosto luminoso
pelas chamas opressoras.
Quando o bosque com as rosas primaveris enrubesce,
com o sopro do tépido Zéfiro,
basta que sopre desvairadamente o Austro nebuloso
e a beleza das suas pétalas apartar-se-á dos espinhos.
Muitas vezes resplandece o mar, com o bom tempo,
com as ondas imóveis;
muitas vezes o Aquilão desencadeia
tempestuosas procelas,
subvertendo a lisa superfície das águas.
Se é rara a forma que perdura no mundo,
se varia com tantas alterações,
fia-te agora nas efémeras fortunas dos homens,
fia-te nos fugazes bens!
É coisa conhecida e está estabelecido por uma lei eterna
que nada do que foi criado seja firme.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae»),
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, Livro 2, Metro 3, p.54

fevereiro 28, 2013


«Que l’univers dans une parfaite stabilité
Connaisse des variations harmonieuses,
Que les éléments en concurrence
Observent un pacte perpétuel,
Que Phébus emmène la lumière rose
Du jour sur son char d’or
Pour que Phébée commande aux nuits
Amenées par Vesper,
Pour que la mer insatiable contienne
Ses flots dans une limite déterminée,
Pour que les sols mouvants ne puissent
Se déployer sur de vastes étendues,
Voilá une série de phénomènes controlés
Par ce qui régit la terre et la mer
Et qui commande au ciel: l’amour.
Si jamais il relâche les rênes,
Lá où il règne aujourd’hui,
La guerre aura tôt fait de s’installer
Et le mécanisme actuellement mû
Avec cohérence et beauté
Ne pourra résister aux forces destructives.
C’est aussi l’amour qui maintient les peuples
Unis para un pacte inviolable,
C’est lui qui noue les liens sacrés
Du mariage par des vertueux rapports,
C’est également lui qui dicte ses lois
Aux compagnons fidèles.
O bienheureux genre humain
Si votre coeur obéit à l’amour
Auquel obéit le ciel.»

Boèce, Consolation de la Philosophie (524 d.C.),
Préface de Marc Fumaroli, Paris, Éditions
Payot & Rivages, pp.100-1

fevereiro 26, 2013


«Ainda que a Abundância, com o corno repleto,
derrame tantas riquezas
quantas as areias o mar agitado por violentos ventos faz
rolar,
quantos astros brilham num céu limpo,
nas noites estreladas,
e não volte atrás a mão, nem assim
o género humano deixará de se lastimar
com míseros queixumes.
Ainda que Deus acolha benevolente os votos,
pródigo de grandes quantidades de ouro,
e ornamente com preclaras honrarias os que ardentemente
as ambicionam,
nada disto será considerado suficiente,
mas a cruel ganância,
devorando aquilo que tinha perseguido,
inventa novas necessidades.
Que freios onde travar, com um limite fixo,
o desejo que se lança para diante de cabeça,
se quanto mais abundantemente tem, mais quer ter?
Nunca poderá ser rico o homem
que, temeroso e descontente, se julga necessitado.»

Boécio, Consolação da Filosofia («De consolatione Philosophiae», 524 d.C.), Trad. Luís M.G. Cerqueira, Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 2011, Livro 2, Metro 2, p.50-1