«Pela primeira vez, há muito tempo,
pensei na minha mãe.
Julguei ter compreendido porque é que,
no fim de uma vida, arranjara um “noivo”,
porque é que fingira recomeçar.
Também lá, em redor desse asilo
onde as vidas se apagavam, a noite
era como uma treva melancólica.
Tão perto da morte, a minha mãe
deve ter-se sentido libertada
e pronta a tudo reviver.
Como se esta grande cólera me tivesse limpo
do mal, esvaziado da esperança, diante
desta noite carregada de sinais
e de estrelas, eu abria-me
pela primeira vez
à terna indiferença do Mundo.»
(Albert Camus, O estrangeiro)
Um texto mágico,
a que costumo associar este outro:
«Em que meditas, meu amigo?
Será nos teus antepassados?
Todos eles são pó no pó.
Meditas nas virtudes deles?
Repara só como sorrio.
Toma desta copa e bebamos,
Ouvindo sem inquietação
O grande silêncio do mundo.»
Omar Khayyam, Rubaiyat