fevereiro 16, 2008



EURÍDICE

Há uma pequena ruga de silêncio
A macular-te o rosto...
Que secreto desgosto
Ocultas ao teu velho companheiro?
Preciso de sabê-lo, bem amada.
O tempo é traiçoeiro,
E quero a tua imagem preservada.

Mulher de Orfeu, minha mulher, portanto,
É o encanto
Da eterna juventude
Que dás ao nosso lar imaginado.
Sem ela, que seria
Desta humana harmonia
Em que temos vivido lado a lado?

Diapasão que afina a minha lira,
A tua voz preced a minha voz.
Ouvir-te é começar...
Não emudeças, pois, musa da vida!
O poema é o luar:
A luz do sol, apenas reflectida...

Miguel Torga

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