novembro 30, 2008



«A memória é essa claridade fictícia das sobreposições
que se anulam. O significado é essa espécie
de mapa das interpretações que se cruzam
como cicatrizes de sucessivas pancadas.

Os nossos sentimentos.

A intensidade do sentir é intolerável.

Do sentir ao sentido do sentido ao significado:
o que resta é impacto que substitui impacto
— eis a invenção.»

Ana Hatherly, in 'Tisanas'

novembro 29, 2008



Eis os três primeiros indemonstráveis
da lógica estóica de Crisipo (277-204),
cf. expostos por Gilbert Hottois:

1º ) Primeiro Indemonstrável:
«Se o primeiro, então o segundo;
ora o primeiro, logo o segundo.»
= modus (ponendo) ponens:
[(p>q)•p]>q

2º) Segundo Indemonstrável:
«Se o primeiro, o segundo;
ora não o segundo, logo não o primeiro.»

= modus (tollendo) tollens:
[(p>q)•-q]>-p

3º) Terceiro Indemonstrável:
«Não (o primeiro e o segundo);
ora o primeiro, logo não o segundo.»

= modus ponendo-tollens:
[-(p•q)•p]>-p

novembro 10, 2008

«a arte de imitar está muito afastada do verdadeiro; e
a razão por que faz tantas coisas é que só toma
uma pequena parte de cada uma,
e esta mesmo não passa
de simulacro ou
fantasma.»


(A República, X)

novembro 02, 2008

«E se vivo como cego no meio dos homens,
como se não os conhecesse,

é para que a minha mão
não perca inteiramente
a confiança num
apoio firme.»

(Nietzsche)

outubro 30, 2008



«És ignorante por natureza,
se pensas mais alto
que os deuses!»


(Eurípedes)

outubro 23, 2008


Imagem in blog-do-otário
Poema in Modus Vivendi


Dos acasos literários

A vida tem destes acasos literários:
um comboio, dois livros e a pior
das razões para nos apaixonarmos.
Tenho vinte e dois anos e o equivalente
em retratos teus -periféricos ou não-
catalogados de acordo com as horas psicologicamente
intermináveis do teu sorriso.

O nosso amor é como o lado vazio de uma ampulheta,
ou seja, inverso ao próprio tempo que não marca
o surgir inesperado daquelas noites em que tudo acontece
numa peça de teatro à qual nunca comparecemos.

As tuas mãos são um jardim demasiado inconstante
para fazer fila e esperar a morte. Tens seis letras no nome
e antes que amanheça saberei em que lugar do meu corpo
cada uma delas cabe.


David Teles Pereira

outubro 21, 2008


The Last Laugh - George Parr - Subprime - subtitulos
Enviado por erioluk


Um jardim, uma mulher, vinho,
Meu desejo e minha amargura:
Eis o meu Céu e o Inferno.
Mas quem já viu o Céu e o Inferno?

Omar Khayyam

outubro 12, 2008



«espio,
entre os gestos,
a arte de ordenar e desordenar as imagens,

como se simples fosse o jugo dos tectos
que abrigam todas as memórias,

como se, cheirando ao jasmim,
simples fosse o nomear de todas as que,

incessantemente, estão em construção.»

Ana de Sousa, Fragmentos #245

setembro 17, 2008


"paleta de cores para pintar os sonhos"
(1864-1927) Serusier em Modus Vivendi

Jejuei sob o nome das coisas desejadas,
com a boca presa aos resíduos do medo
na secura dos olhos.

Herdei a nomenclatura dos vadios
e fico onde não sei,
à procura de tudo e de nada.
Apátrida. Sem rota. Terra ocupada.

O meu poema não cabe nesta angústia
de ter nos pés o funambulismo
litigioso dos sonhos.

Sobrevivo a todas as memórias,
mesmo às que definham no rosto dos velhos.


E a minha voz tornou-se tão plural como o silêncio.

Graça Pires, Labirintos
Câmara Municipal de Murça, 1997

setembro 14, 2008



Profundamente
Tudo é tão importante
Como um olhar furtivo



(Ana Hatherly)

setembro 01, 2008

ana karenina



«Era o retrato de Ana pintado ( ) Levine examinou o retrato
que avultava na sua moldura sob a chapa da luz.
Não podia apartar dele a vista.

Esqueceu até mesmo onde estava,
e sem prestar a menor atenção ao que se dizia,
quedou-se de olhos fascinados.

Não era um quadro. Era uma mulher viva e fascinante.
Só não estava viva, por ser mais bela do que a mais bela mulher real.

— «Tenho muito prazer» — disse, de súbito, uma voz junto aos ouvidos de Levine.
Essa voz dirigia-se a ele, naturalmente; e era a voz da mulher cujo retrato contemplava.

Ana vinha ao seu encontro e Levine pôde ver,
na meia-luz do escritório, a mulher do retrato ( ).

Embora a sua atitude e a sua expressão fossem outras,
a beleza era do mesmo género da representada pelo pintor.

Com efeito, era menos deslumbrante mas, em compensação,
havia nela algo de novo e de atraente que o quadro não tinha.»


Um instantâneo algo 'platónico'
dado o imediato confronto entre
a 'cópia' e o 'original.

:)

agosto 31, 2008

Não descansa, não mora
santa felicidade
em torres, em tesouros, em grandezas.
Errada vaidade!
Isso são bens de fora;
nosso só é o saber, que tanto prezas.

Tudo al são pobrezas
num ânimo contente,
que mil mundos despreza, e só deseja
deixar à sua gente,
por honra e por riquezas,
saber, e vida livre de ódio e de inveja.


António Ferreira, Poemas Lusitanos ("Livro I das Odes -5")

agosto 29, 2008


Ne chantez pas la Mort, c'est un sujet morbide
Le mot seul jette un froid, aussitôt qu'il est dit
Les gens du "show-business" vous prédiront le "bide"
C'est un sujet tabou... Pour poète maudit
La Mort... La Mort...
Je la chante et, dès lors, miracle des voyelles
Il semble que la Mort est la soeur de l'amour
La Mort qui nous attend, l'amour que l'on appelle
Et si lui ne vient pas, elle viendra toujours
La Mort... La Mort...

La mienne n'aura pas, comme dans le Larousse
Un squelette, un linceul, dans la main une faux
Mais, fille de vingt ans à chevelure rousse
En voile de mariée, elle aura ce qu'il faut
La Mort... La Mort...
De grands yeux d'océan, la voix d'une ingénue
Un sourire d'enfant sur des lèvres carmin
Douce, elle apaisera sur sa poitrine nue
Mes paupières brûlées, ma gueule en parchemin
La Mort... La Mort...

"Requiem" de Mozart et non "Danse Macabre"
Pauvre valse musette au musée de Saint-Saëns !
La Mort c'est la beauté, c'est l'éclair vif du sabre
C'est le doux penthotal de l'esprit et des sens
La Mort... La Mort...
Et n'allez pas confondre et l'effet et la cause
La Mort est délivrance, elle sait que le Temps
Quotidiennement nous vole quelque chose
La poignée de cheveux et l'ivoire des dents
La Mort... La Mort...

Elle est Euthanasie, la suprême infirmière
Elle survient, à temps, pour arrêter ce jeu
Près du soldat blessé dans la boue des rizières
Chez le vieillard glacé dans la chambre sans feu
La Mort... La Mort...
Le Temps, c'est le tic-tac monstrueux de la montre
La Mort, c'est l'infini dans son éternité
Mais qu'advient-il de ceux qui vont à sa rencontre ?
Comme on gagne sa vie, nous faut-il mériter
La Mort... La Mort...

Cliquez ici: La Mort ?...

agosto 19, 2008



Au pays parfumé que le soleil caresse
J'ai connu, sous un dais d'arbres tout empourprés
Et de palmiers d'où pleut sur les yeux la paresse,
Une dame créole aux charmes ignorés.

Son teint est pâle et chaud; la brume enchanteresse
A dans le cou des airs noblement maniérés;
Grande et svelte en marchant comme une chasseresse,
Son sourire est tranquille et ses yeux assurés.

Si vous alliez, Madame, au vrai pays de gloire,
Sur les bords de la Seine ou de la verte Loire,
Belle digne d’orner les antiques manoirs,

Vous feriez, à l’abri des ombreuses retraites
Germer mille sonnets dans le cœur des poètes,
Que vos grands yeux rendraient plus soumis que vos noirs.

Baudelaire

agosto 17, 2008


Presumível retrato da poetisa grega Safo ?

O HOMEM INVISÍVEL

O homem que se senta a meu lado
É um homem inventado
É um homem invisível:
...Fita-me sem me olhar
...E eu vejo-o sem o ver

Quando se ama
Qual é a relação entre o corpo e o espaço?

O invisível tem velocidade própria
E nos limites do impensado
Não existe batalha visual
Na câmara escura do sentir


Ana Hatherly, A neo-Penélope,
& etc, Lisboa, 2007

agosto 06, 2008

Se meu desejo só é sempre ver-vos,
que causará, senhora, qu’em vos vendo
assi me encolho logo, e arrependo,
que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
no pensamento meu, porque em querendo
cuidar em vós, se vai entristecendo,
nem ousa meu espírito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim vejo.
Mas que tudo é amor entendo e creio,
e no qu’entendo e creio, nisso espero.

António Ferreira (1528-1569)