novembro 14, 2014

«Cada sentimento que a vida diária apreende
de um modo difícil ou astucioso
é eterno. [ ]

Não procuro fugir às referências
mais do que o que necessito
para tornar legítimos
os contornos duvidosos. [ ]

Cada consciência, ao atingir uma grande fracção
de factos ou, por vezes, de pontos siderais,
deixa de ser súbdita do universo.»


Fiama Hasse Pais Brandão, F de Fiama,
Ed. Teorema, Lisboa, 1986, p.71

novembro 07, 2014
















A fala final de Sócrates a Teeteto,
sumariando o que lhe terá ensinado:

«Se daqui em diante tentares conceber outros pensamentos,
e os deres à luz, Teeteto, serão melhores graças a esta discussão;
e se te conservares estéril, tornar-te-ás menos impertinente para
aqueles com quem conversares, e mais compreensivo,
porque serás bastantes sensato para não supores
que sabes o que desconheces.»

Platão, Teeteto, Trad, A. Lobo Vilela,
Edições da «Seara Nova», Lisboa, 1947, p.148

novembro 06, 2014

novembro 05, 2014

 
 

Passagem do Outono entre formas
com o interior dourado. Eu também
na borda do rio observo o gradeamento
gasto, o insecto da ferrugem a roê-
lo. Mais do que ausente o mundo
dos insectos é oculto, fabuloso e
mortal. Os olhos são feitos de
centelhas. O Outono dá-me pate-
ticamente um tom de cobre.




Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p.430

novembro 04, 2014

[Economistas]*

Habituados a decifrar a faixa de nuvens
sobre a serra de Sintra no  horizonte,
ao fim da tarde falávamos
como arúspices. As nossas palavras
seriam no dia seguinte os próprios ventos.


Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p.442


(*) Título meu.

setembro 24, 2014

setembro 02, 2014

(continuação 2)

A  FOLHA  E  A  SOMBRA  DELA

      III

Mas na verdade não é bem assim.

No instante em que as duas se encontram,
a sombra morre sem mais consequências.

A folha porém, despojada da sombra,
levará muito mais tempo a morrer
e morrendo dissolver-se-á na terra,
servirá de nutriente a outras árvores,
que por sua vez darão as suas próprias folhas
que terão as suas próprias sombras
e que cada ano os ventos do Outono
pintarão de amarelo e soprarão para longe
com a sombra a persegui-las até ao reencontro

– deixando acaso uma folha solitária
com que esta fabula se repita e se renove
até ao fim dos tempos.


   a.m. pires cabral, gaveta de fundo,
   Lisboa, Tinta da China, 2013, p. 65

setembro 01, 2014

 (continuação 1)


A  FOLHA  E  A  SOMBRA  DELA

      II

Folha e sombra não são, é evidente,
feitas da mesma matéria, Mesmo assim
existe algo que as liga, uma espécie
de instável mas tenaz cordão umbilical.

Senão, vejamos.

Para maior facilidade, imaginemos
que está sol e faz vento,
e que nesse vento chega por fim a hora
de cair a folha de que vimos falando.

Observe-se: no momento em que a folha
se desprende e vem, revolvendo-se no ar
caprichosamente, em direcção ao solo

– a sombra faz exactamente a mesma coisa:
desprende-se também da sombra da árvore
e faz o seu caminho, repetindo ao rés-da-terra
os gestos e solavancos da folha no ar

– e converge para ela com sofreguidão,
como quem está há longo tempo
separado de si mesmo
e anseia por reunir-se.

E o encontro dá-se no preciso instante
em que a folha pousa no chão
e como que absorve a sua sombra,
reunindo-se as duas na completa
e decisiva identidade final
a que ambas aspiravam.

Ou talvez melhor: reavendo a folha
uma parte de si que andava ausente.

Parece isto uma coisa de Platão,
não parece?

   a.m. pires cabral, gaveta de fundo,
   Lisboa, Tinta da China, 2013, p. 63-4

agosto 31, 2014

Mas a sombra existir e não existir,
o que depende não só da matriz
mas de «haver sol ou não haver»,

continua a ser explicado pelo poeta,
nas fases II e III do poema
A folha e a sombra dela


(continua)

agosto 30, 2014

A  FOLHA  E  A  SOMBRA  DELA

Para maior facilidade de compreensão,
tomemos um exemplo: uma árvore
a que o Outono sucessivamente
arrebatou todas as folhas – menos uma.

Essa folha poupada pelo Outono
parece solitária na nudez da árvore.
Porém, se o sol abrir, logo projecta
uma sombra no chão.

Reparem, agora que justamente
acaba de abrir o sol:
a sombra da árvore, e algures no meio
da sombra dos ramos em desordem
a sombra da tal folha solitária.
É insofismável: ela está lá, existe.

Digamos, pois, que por ter umasombra,
a folha não está inteiramente só:
ela tem, cá em baixo, uma réplica exacta.
(Bem entendido: uma réplica incolor,
incorpórea. Mas deixemos isso agora,
que podia levar-nos muito longe.)

Para já, digamos apenas que, embora
dependendo da folha para existir,
a sombra é exterior a ela.
Uma espécie de alter ego à distância,
mas também algo que uma simples nuvem
que oculte o sol ocultará também.

Ou seja, a sombra existe e não existe:
isso não depende apenas de ter uma matriz,
mas também de haver sol ou não haver.

a.m. pires cabral, gaveta de fundo,
Lisboa, Tinta da China, 2013, p. 61-2

agosto 29, 2014

FECHOU  A  ESCOLA  EM  GRIJÓ

   Ao Frederico Amaral Neves

Dantes ouviam-se as crianças a caminho da escola
e eram como pássaros de som nas manhãs de Grijó.
Não eram muitas, mas as vozes joviais
davam sinal de que a aldeia resistia,
continha à distância o deserto que a ronda
como a alcateia ronda uma rês tresmalhada.


Agora as crianças, todas as manhãs,
são acondicionadas como mercadorias
numa viatura com vocação de furgoneta.
Lembram judeus amontoados
em vagões jota a caminho de algures.
Vão aprender em terra estranha o que os seus pais
e os pais dos seus pais aprenderam em Grijó.


a.m. pires cabral, gaveta de fundo,
Lisboa, Tinta da China, 2013, p. 33

agosto 28, 2014

SEARA

Qualquer lugar onde tenha havido trigo
guarda sempre dele algum sinal
que não deixa esquecer a antiga seara

— aquela que ondulava aos ventos de Maio
igual a um rebanho verde subindo encosta acima,
sem pastor nem cães para o guiar.
(Quem precisa de guias quando é Maio?)

Talvez se trate de uma questão de cheiro.
Ou de algum outro sentido
que ainda está por identificar.
Ou de uma espécie ignorada de memória
que se agarra ao lugar e nele persiste.

Seja o que for,
anda ainda no ar a presença de espigas
mesmo quando o desuso as expulsou
e ervas bravias lhes tomaram o lugar

– e por isso tanto nos magoa
toda a terra de que lavoura alguma
já não extrai o pão.

a.m. pires cabral, gaveta de fundo,
Lisboa, Tinta da China, 2013, p. 16






























Só conhecia de nome, a.m. pires cabral.
Mas folheando a [i]gaveta do fundo[/i]
fiquei encantado com a expressiva simplicidade
do que o poeta nos faz ver.

Destaco três poemas,
que me lembram como a agricultura
e a educação deste país desgovernado,
se desterritorializa e despovoa
num ensombramento progressivo
de «cinzas, pó e nada»!

agosto 08, 2014

agosto 05, 2014

O sistema (monetário) tem de ser mudado, não pode continuar a anarquia de o endividamento automaticamente equivaler a emissão de moeda. É verdade que a economia de um país não é nunca um reflexo mimético da economia de uma família - nem esta uma mimese da de um país como ensaiou o grupo Espírito  Santo! - mas, justamente por serem abordagens distintas importa ancorar o crédito e o endividamento a algum rigor que imponha a exigência de uma preferência por aplicações não apenas individual mas também colectivamente rentáveis! Antigamente, a sóbria e difícil extracção de ouro, disciplinava preços, valorizava poupanças e requeria boas taxas de retorno de investimento para avançar empréstimos.  Depois, a ligação do ouro ao dólar, nos acordos de Bretton Woods, prosseguiu mais aliviadamente essa disciplina. A partir da 2ª crise de petróleo de 1979, e dado o desgoverno em que o dólar já andava com a administração Nixon e a guerra do Vietnam, tudo se desregulou e o único critério de emprestar dinheiro passou a ser a especialidade dos investimentos puramente inflacionários em bolhas especulativas que arruínam países e populações. Ora, é bom que as respectivas explosões de bolhas passem também a rebentar como verdadeiras implosões nas mãos manipuladoras das próprias especulações, para que os bancos e os mutuantes aprendam a distinguir quem trabalha e produz a riqueza de um povo, de quem somente vigariza os incautos e aparvalhados zés ninguém!
"O bom gosto costuma ser sempre
um ante-gosto das palavras mais modestas.»

Nietzsche, in Para Além do Bem e do Mal
(«Jenseits von Gut und Böse»), trad.
de Hermann Pflüger, Guimarães Editores,
Lisboa, 1958, aforismo 186, p. 91

julho 27, 2014


Reciprocity

There are catalogues of catalogues.
There are poems about poems.
There are plays about actors played by actors.
Letters due to letters.
Words used to clarify words.
Brains occupied with studying brains.
There are griefs as infectious as laughter.
Papers emerging from waste papers.
Seen glances.
Conditions conditioned by the conditional.
Large rivers with major contributions from small ones.
Forests grown over and above by forests.
Machines designed to make machines.
Dreams that wake us suddenly from dreams.
Health needed for regaining health.
Stairs leading as much up as down.
Glasses for finding glasses.
Inspiration born of expiration.
And even if only from time to time
hatred of hatred.
All in all,
ignorance of ignorance
and hands employed to wash hands.


Wislawa Szymborska
(translated from the Polish by Clare Cavanagh)
in The New Yorker, Feb. 3, 2014

 

junho 26, 2014

















«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco. Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei orfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele.» (Jo 14, 15-21)