julho 29, 2011



«Il me reste beaucoup d’autres choses à examiner,
touchant les attributs de Dieu, et touchant ma propre nature,
c’est-à-dire celle de mon esprit : mais j’en reprendrai
peut-être une autre fois la recherche.

Maintenant (après avoir remarqué ce qu’il faut faire ou éviter
pour parvenir à la connaissance de la vérité),
ce que j’ai principalement à faire,
est d’essayer de sortir et de me débarrasser
de tous les doutes où je suis tombé ces jours passés,
et voir si l’on ne peut rien connaître de certain
touchant les choses matérielles.


Mais avant que j’examine s’il y a de telles choses
qui existent hors de moi, je dois considérer leurs idées,
en tant qu’elles sont en ma pensée, et voir quelles sont celles
qui sont distinctes, et quelles sont celles qui sont confuses.»




Cinquième Méditation

julho 24, 2011



«Je me suis tellement accoutumé ces jours passés
à détacher mon esprit des sens, et j’ai si exactement
remarqué qu’il y a fort peu de choses que l’on connaisse
avec certitude touchant les choses corporelles, qu’il y en a
beaucoup plus qui nous sont connues touchant l’esprit humain,
et beaucoup plus encore de Dieu même, que maintenant
je détournerai sans aucune difficulté ma pensée
de la considération des choses sensibles ou ~
imaginables, pour la porter à celles qui,
étant dégagées de toute matière,
sont purement intelligibles.»

Quatrième méditation

julho 22, 2011



Le déserteur

Paroles: Boris Vian, adaptation: Mouloudji. Musique: Harold Berg 1954

Messieurs qu'on nomme Grands
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Messieurs qu'on nomme Grands
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Les guerres sont des bétises
Le monde en a assez

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir des pères
J'ai vu partir des frères
Et pleurer des enfants
Des mères ont tant souffert
Et d'autres se gambergent
Et vivent à leur aise
Malgré la boue de sang
Il y a des prisonniers
On a vole leur âme
On a vole leur femme
Et tout leur cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai par les chemins

Je vagabonderai
Sur la terre et sur l'onde
Du Vieux au Nouveau Monde
Et je dirai aux gens:
Profitez de la vie
Eloignez la misère
Vous êtes tous des frères
Pauvres de tous les pays
S'il faut verser le sang
Allez verser le vôtre
Messieurs les bon apôtres
Messieurs qu'on nomme Grands
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer
Et qu'ils pourront tirer...


Nota:
La version initiale des 2 derniers vers était:
"que je tiendrai une arme ,
et que je sais tirer ..."
corrigée pour conserver le côté pacifiste de la chanson.

julho 19, 2011


blog katelouise
«A existência individual carece de sombra.»

Paula Cristina Pereira, Do sentir e do Pensar
Edições Afrontamento, Porto, 2007

julho 18, 2011



«Je fermerai maintenant les yeux, je boucherai mes oreilles,
je détournerai tous mes sens, j’effacerai même de ma pensée
toutes les images des choses corporelles, ou du moins,
parce qu’à peine cela se peut-il faire, je les réputerai
comme vaines et comme fausses ; et ainsi m’entretenant
seulement moi-même, et considérant mon intérieur,
je tâcherai de me rendre peu à peu plus connu
et plus familier à moi-même.»



Troisième Méditation



julho 15, 2011



«Je crois que le corps, la figure, l'étendue,
le mouvement et le lieu ne sont que des fictions
de mon esprit. Qu'est-ce donc qui pourra être estimé
véritable? Peut-être rien autre chose, sinon
qu'il n'y a rien au monde de certain.»

Deuxième méditation

julho 11, 2011



«Tout ce que j'ai reçu jusqu'à présent pour le plus vrai et assuré,
je l'ai appris des sens, ou par les sens: or j'ai quelque fois éprouvé
que ces sens étaient trompeurs, et il est de la prudence
de ne se fier jamais entièrement
à ceux que nous ont une fois
trompés.»
Première Méditation

julho 05, 2011








Dance me to your beauty with a burning violin
Deixa-me dançar à volta da tua beleza ao som de um ardente violino

Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Ajuda-me a vencer o pânico até que entre a salvo no teu coração

Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Ergue-me como um ramo de oliveira e sê meu ninho de pomba

Dance me to the end of love
Dança comigo até ao fim do amor

Dance me to the end of love

Let me see your beauty when the witnesses are gone
Deixa-me contemplar a tua beleza quando todas as testemunhas tiverem saído

Let me feel you moving like they do in Babylon
Deixa-me sentir o teu corpo mover-se como era o costume na Babilónia

Show me slowly what I only know the limits of
Mostra-me devagar aquilo de que só conheço os limites

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dança agora comigo até à boda, outra e outra vez

Dance me very tenderly and dance me very long
Dança ternamente comigo por muito e muito tempo

We're both of us beneath our love, we're both of us above
Nós somos ambos inferiores ao nosso amor e somos-lhe ambos superiores

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dança comigo até às crianças que necessitam ser criadas

Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Dança comigo por entre as cortinas que os nossos beijos romperam

Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Ergue agora uma tenda que nos abrigue ainda que o tecido esteja gasto

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in

Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Toca-me com a tua mão nua ou toca-me com a tua luva

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love



julho 01, 2011



«Sento-me à mesa de trabalho, destapo a máquina de escrever
vou começar o meu retrato. Escrevo: não vivo no meu
endereço. Nunca vivi no endereço que dei. A singularidade
da minha experiência reside na observância da singularidade
da sua percepção. Paro e leio o que escrevi. Depois acrescento:
A história do mundo atravessa-me.»


[ana hatherly]
__________________________________________________________




A poetisa não se introspeciona nem se explica a si própria,
qual mónada singular do universo, onde se atravessa
a história do mundo o qual, enquanto causa de si,
existe em si e por si, sem outra essência
que a de simplesmente existir.

A poetisa mimetiza o seu criador! :)

junho 29, 2011



— «Via perfilar-se a cosa mentale, [ ] e pude então afirmar que compreendera. O prazer sexual não só era superior, em requinte e violência, a todos os outros prazeres que a vida podia comportar; não só era o único prazer não acompanhado de danos para o organismo, como contribuía, pelo contrário, para o manter ao mais alto nível da vitalidade e da força; era na verdade o único prazer, o único objectivo da existência humana, e todos os outros — associados a alimentos de luxo, ao tabaco, às bebidas alcoólicas ou à droga — eram apenas compensações irrisórias e desesperadas, mini-suicídios que não tinham a coragem de se nomear, tentativas para destruir mais rapidamente um corpo que já não tinha acesso ao prazer único.»

Michel Hoellebecq, op.cit.,p.320

junho 26, 2011


NGC 3132: The Eight Burst Nebula

«A nossa pertença a um espaço comum estava destinada a permanecer puramente teórica; nenhuma daquelas pessoas se deslocava num campo de realidade com o qual pudéssemos interagir, fosse de que maneira fosse; não tinham mais existência aos nossos olhos do que se fossem imagens num ecrã de cinema, diria mesmo menos.»

Michel Houellebecq, A possibilidade de uma ilha,
Lisboa, Public. Dom Quixote, p.215

junho 25, 2011


Imagem in blog Mar à Vista

«Ninguém pode ler dois mil livros.
... Aliás não é ler que importa, mas reler.»


JL Borges, O Livro de Areia

junho 20, 2011




«Ninguém se lembraria de explicar o movimento
por considerações de cor,

ao passo que o contrário
é ou foi tentado.



Há, pois diversidade.

Talvez por sermos fonte de movimentos,
e não de cores - e este poder ser

condição de explicação

(Paul Valéry, Op. cit., p. 103)

junho 17, 2011



«Não leio no jornal
aquele drama sonoro, aquele sucesso
que faz palpitar os corações.

A que lado me levariam, senão
ao verdadeiro limiar destes problemas abstractos
em que já me encontro instalado por inteiro?»



(Paul Valéry, O senhor Teste, Relógio d'Água, 1985, p. 53)

junho 08, 2011


Serge Latouche, Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno,
(«Petit Traité de la Décroissance Sereine», 2007),
Trad. Victor Silva, Edições 70, Lisboa, 2011


Eis um título que me suscitou curiosidade por propor um resultado que nunca vi defendido embora o suspeite necessário: um decrescimento sereno! Sempre considerei que o capitalismo produz uma importante porção de bens e serviços que não serve para nada, de utilidade nula!

Por outro lado, repugnou-me desde novo a desenfreada mercantilização de cada segmento de prazer, apropriando-se os capitalistas da natureza, para cobrar preços por actividades que, — sei —, são livres e exercidas gratuitamente nos países menos desenvolvidos; rarificam assim a abundância natural, pelo fraccionamento de serviços e bens, que passam a vender a preços desmesurados aos povos já subjugados pelo comércio capitalista.

Por fim, sempre fui e sou consciente da validade objectiva da lei de Malthus, que é aliás logicamente incontroversa, porque não pode haver nenhum desenvolvimento ilimitado de qualquer singularidade dependente dum meio finito, limitado!

Por estas razões, era grande a minha curiosidade de ver como o autor trataria estes “adquiridos” do meu pré-juízo e como proporia o que se me afigurava deveras adequado: um descrescimento da produção, particularmente a dos bens e serviços inúteis! :)

(continua)
[vide abaixo]
(continuação 1)





Serge Latouche ilustra a eminência da catástrofe ecológica no planeta com o fenómeno do crescimento de uma alga verde num lago. Supondo uma duplicação anual da alga na superfície do lago, uma alga inicial ocupando a nonagésima terceira bilionésima parte da área lacustre, ocupar-lhe-á toda a superfície ao fim de trinta anos. É o desenvolvimento de um ser vivo em progressão geométrica de razão dois num meio finito como o do lago, nele gerando a eutrofização da água, asfixia da vida subaquática e a morte do sistema lacustre.

Vejam-se os termos da progressão geométrica

S=1= Superfície total do lago.
A0 = área da alga inicial implantada no lago= 93/100 000 000 000=
=9.3^10^-10=1/(2^30)=2^-30
(Nota:— O sinal “^” lê-se «elevado a»).

A área da alga no lago,
no final de cada ano,
progride como segue:

A1= 2x(2^-30)=2xA0
A2= 2xA1=2x2xA0=2^2xA0
A3= 2xA2=2x2x2xA0=2^3xA0
...
An= área da alga no final do nº ano= 2^nxA0
...
A24= 2^24xA0=2^-6=1.5625%
A25= 2^25xA0=2^-5=3.125%
A26= 2^26xA0=2^-4=6.25%
A27= 2^27xA0=2^-3=12.5%
A28= 2^28xA0=2^-2=25%
A29= 2^29xA0=2^-1=50%
A30= 2^30xA0=2^-0=100%

Ou seja, enquanto que para alcançar a cobertura de pouco mais de 3% da superfície do lago, a alga demorou duas décadas e meia, daí em diante o crescimento é galopante e num lustro a vida lacustre extingue-se.




Serge Latouche contrapõe a este destino ameaçador, a sabedoria de um outro ser vivo, o caracol, que para lá de ensinar a lentidão, ilustra como se inverte uma progressão de crescimento: o caracol constrói a arquitectura delicada da sua casca acrescentando sucessivamente espirais cada vez maiores; porém, bruscamente, inicia enrolamentos decrescentes, assim contendo o crescimento da casca nos limites da sua finalidade vital.

Conclui o autor: «Este afastasmento do caracol em relação à progressão geométrica, que, no entanto, abraçara durante algum tempo, aponta-nos o caminho para pensar uma sociedade do “decrescimento”, se possível serena e convivial.»

op. cit., pp.35-37.

(continua)
[vide abaixo]
(continuação 2)

Concordando embora quer com este diagnóstico malthusiano da coexistência precária do homem no planeta quer com a necessidade da inversão do sistema produtivista global e irrestrito, mantenho forte resistência à ecolatria dos novos cultos ecológicos.

Aplaudo sem reservas as medidas que reduzam o desperdício de energia, as que penalizem as despesas de publicidade, a abolição da obsolescência programada, a irrestrição do crédito, a par das que impulsionam a multiplicação de bens relacionais, como a amizade, a instrução e a ciência.

A relocalização de inúmeras actividades na proximidade dos núcleos habitacionais, restringindo as grandes superfícies comerciais, o restauro da agricultura camponesa, encorajando o consumo da produção mais local, mais sazonal e tradicional são medidas positivas de um eficaz decrescimento enquanto programa político.



Muito importante, as externalidades negativas da sociedade moribunda do crescimento têm de ser tributadas por taxas que “internalizem” nos custos dos seus agentes os danos que provocam à colectividade — inversamente, devem os agentes ser recompensados com subsídios pelos efeitos externos positivos que geram na comunidade. Este é o princípio do poluidor-pagador, que o Prof. Arthur Cecil Pigou, um economista ortodoxo, foi o primeiro a defender para que se atinja o óptimo, o bem-estar máximo do conjunto dos consumidores e produtores.


De certo modo, quase direi que limito a especifidades deste tipo o que de válido porventura há no ecológico “decrescimento sereno” de Serge Latouche.


(continua)
[vide abaixo]
(continuação 3)



No último capítulo do seu Pequeno Tratado, Serge Latouche interroga-se se o Decrescimento é um Humanismo. Aparentemente, defende que não, embora tente que não seja um anti-humanismo nem um anti-universalismo. Consegue-o? Não sei; mas por mim, eu limito-o pragmaticamente à condicionalidade social do princípio poluidor-pagador, defendido por Pigou há mais de oitenta anos.

Na verdade, os ecologistas rejeitam o «antropocentrismo das Luzes» e vinculam-se a um «ecocentrismo total»: - os seres humanos são uma das múltiplas espécies viventes e a sua realidade substancial não passa de um «denominador comum» dos seres humanos particulares realmente existentes.

Esta posição reconduz-nos ao debate metafísico do realismo aristotélico versus o de Platão. Para este, a realidade da humanidade não se limita à simples existência da espécie, porquanto há uma humanidade dos seres como seres humanos que independe dos seres humanos concretos (presentes, passados ou futuros), ou seja a substância do tipo «ser humano» é conceptualizável como uma abstracção e não como mero atributo comum de seres que existem de facto, como defende Aristóteles.

Enquanto a concepção aristotélica integra o homem no particularismo da sua cultura, religião, comunidade, relativizando as diferentes sociedades por um respeito equalizado por todas, independentemente das suas diferenças serem desprezáveis ou estimáveis, a concepção platónica aceita invariantes transculturais inquestionáveis como, por exemplo, os direitos do Homem, a democracia, a economia, repudiando o “comunitarismo” das culturas concretas, cujo relativismo “legitima e alimenta a barbárie” (Maryam Namazie)

Serge Latouche procura não ceder a nenhuma ecolatria buscando um meio termo entre a sacralização animista da natureza e o antropocentrismo, não tratando «os animais e as coisas como pessoas nem as pessoas como coisas (como o faz a tecnoeconomia). Há respeito pelas coisas, os seres e as pessoas», ou seja um verdadeiro ecoantropocentrismo, imprescindível à propria sobrevivência da humanidade.


(fim)
[vide abaixo, pos-escrito]

«O semelhante reconhece o semelhante.»

Pós-escrito: — Têm todos os universais exemplos
ou haverá universais não exemplificados?

Os realistas dividem-se quanto à resposta a dar a esta questão (Q):

(Q) há universais que não são exemplificados (E) por nada?

O realismo platónico responde que sim:
há propriedades universais que não são exemplificadas por nenhuma coisa.


O realismo aristotélico responde que não:
toda a propriedade universal é exemplificada, pelo menos, por uma coisa.

Note-se que é comum às duas correntes do realismo
admitir a existência de universais.

E, também, o próprio predicado E = “é exemplificado por”
deve ser interpretado num sentido intemporal, i.e., no sentido
de ter sido (passado) ou estar a ser (presente) ou vir a ser (futuro) exemplificado.


Um argumento a favor do realismo platónico é o da perfeição.
Nenhuma figura ou forma ou qualquer facto empírico
é a expressão perfeita das propriedades que exprime;
logo, os universais são necessários porque só com eles
os particulares exemplificados podem ser explicados.

Contudo, poderá replicar-se que, pelo menos, em alguns casos,
haverá particulares perfeitos. Ora, é bem possível: o próprio Platão,
o primeiro filósofo que de algum modo abordou a questão de estética
na cultura ocidental, admitia que o belo sensível era uma expressão
directa do Bem Supremo no mundo das sombras dos sentidos! :))

Outro argumento a favor do realismo platónico é o de que,
propriedades e relações não exemplificadas, podem ser
indispensáveis do ponto de vista da explicação causal,
científica. Aliás, como mostrou Hume e Quine, o nexo causal
entre dois acontecimentos, não sendo nem uma necessidade lógica,
nem uma relação observável intrinsecamente, é sempre
uma relação abstracta que obtém satisfação
na conjunção constante observada
do par ordenado causa-efeito.

No plano realista, a liberdade conceptual de inventar objectos abstractos, numa operatória simbólica prévia, e subtraída com sobriedade aos constrangimentos empíricos é, na minha opinião, uma condição de criatividade e investigação, de experiência de pensamento, qualitativamente superior às limitações do realismo aristotélico, e como tal, preferível.

junho 06, 2011

«É então que o problema da morte nos toca; mas sentia-me indiferente perante ela, com a mesma irónica impassibilidade que percorre o rosto de Rosina no seu confronto com o esqueleto. No fundo, [ ] sentia-me no lugar do corpo que na Lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp de Rembrandt, é objecto de um discurso sobre os mecanismos da vida; mas esse discurso só pode ser feito quando o coração deixou de bater, e o instrumento cirúrgico do anatomista desvenda os enigmas da circulação do sangue e de ideias que constitui a realidade de uma pessoa.»


Rembrandt, De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp, 1632

«Também na Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp o escalpelo começa o seu trabalho oelo baixo-ventre, pondo para fora o intestino do cadáver de Adriaan Adriaansz, mais conhecido por Het Kint, que fora posto à disposiçaõ do médico após ter sido enforcado. Não sei que crime terá sido cometido [ ]. No entanto, essa condenação fez com que o seu corpopermanecesse para além da vida, deitado na mesa do teatro anatómico do Dr. Nicolaes Tulp, sob os olhos atentos de sete discípulos que parecem ofuscados pela brancura do morto, onde só os lábios têm a púrpura da morte.»


Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009;
pp. 119; 131