maio 14, 2008



Não fiques corado!
Todos adivinharão
que dormimos juntos
sob as pregas enrugadas
deste manto avermelhado.

Isumi Shikibu (974?-1034?), in "O Japão no Feminino - I - Tanka
- Séculos IX a XI" Organização e versão portuguesa Luísa Freire,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2007, p. 41.

maio 01, 2008


Ukiyo-e (estampa japonesa, in Modus Vivendi)

Mesmo quando um rio
de lágrimas atravessa
e molha este corpo,
não chega para apagar
todo o fogo do amor.

Isumi Shikibu (974?-1034?), in "O Japão no Feminino - I
- Tanka - Séculos IX a XI" Organização e versão portuguesa
Luísa Freire, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007, p. 59.

abril 28, 2008


Ukiyo-e (estampa japonesa)

Mesmo que eu agora
te visse uma vez que fosse,
o meu desejo de ti
atravessaria mundos,
todos esses mundos.*


*Escrito a um homem que lhe pediu que se encontrassem,
mesmo que fosse por uma única vez. Uma singular
mensagem de rejeição em que, ao recusar
o convite, se alega que um só encontro
a deixaria sempre com saudades.

:))

Isumi Shikibu (974?-1034?), in "O Japão no Feminino - I
- Tanka - Séculos IX a XI" Organização e versão portuguesa
Luísa Freire, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007, n.3 p. 41

abril 26, 2008

“Oh, admirável mundo novo!”

“– Estabilidade – disse o Administrador – Estabilidade. Não há civilização sem estabilidade social. Não há estabilidade social sem estabilidade individual.”

“ - ... é bem o modo de os senhores procederem. Livrar-se de tudo o que é desagradável, em vez de aprender a suportá-lo. Se é mais nobre para a alma sofrer os golpes de funda e as flechas da fortuna adversa, ou pegar em armas contra um oceano de desgraças e, fazendo-lhes frente, destruí-las, mas os senhores não fazem nem uma coisa nem outra. Não sofrem e não enfrentam. Suprimem, simplesmente, as pedras e as flechas. É fácil demais.”

Aldous Huxley

março 25, 2008


William Etty - imagem in blog Modus Vivendi

Percursos

Hoje sinto-me vazia de mim
e
no afago da espera adivinho o percurso da sereia
no oceano de rumores que de meus sonhos,
flutuantes, se erguem.

Liberto desenhos, sinais,
expulso a voz do peito
e espero que sigas meu corpo e o alcances
já que eu o não consigo.

De mim a vontade desfaz-se num último lume,
precária respiração

Tornei-me nómada
e pergunto-me se não estarei agora em ti.

(Ana Sousa, Fragmentos)

março 21, 2008


Numa conversa com a menina bluegift e o 'menino' Peter,
no blog Conversas de Xaxa, enunciei a seguinte tese:
.
«A causalidade que vamos identificando na casualidade
caótica dos eventos, apenas se reporta à regularidade
pretérita das sequências em que os observamos,
e as suposições que permitem dedutivamente explicá-los,
podem averar-se não ser as únicas que os causam.»
.
Isto está devidamente formulado em Raymond Boudon,
O Justo e o Verdadeiro, Instituto Piaget, Lisboa, 1998,
.
p. 104-5: - Suponhamos uma teoria T deduzida
de um conjunto de premissas {P}.
.
Ora, pode acontecer que, na realidade,
a teoria de facto explicativa seja T', a qual ,
para além de {P}, inclua um conjunto
de proposições implícitas {P'},
ou seja T' = {P} + {P'}.
.
Assim, pode dar-se que T -> C, isto é,
que a conclusão C se deduza de T
conforme o saber científico e,
.
na realidade,
.
o que ocorre é T' -> C',
por nem todas as suposições teóricas
estarem devidamente explicitadas.
.
Ora, ignorando-se {P'}, a ciência concluirá,
erradamente, que T -> C' o que
não é o caso realmente.
.
:)

março 19, 2008


esculturas de Gustav Vigeland (1869-1943),
no Frogner Park em Oslo, na Noruega

Escultura de amanhã
Dentro de um secular sossego
nós somos
a escultura de amanhã

(trilhos de formiga
descem no cabelo
patinado de pó o coração)

Tu e eu
só estátuas de amanhã
Não temos na mão a flor
um livro uma espingarda
uma cadeira gasta onde morrer
E sem o monstro gótico apunhalado aos pés

(Todos os sonhos são de pedra ou bronze
não os meus de palha ou de papel)

Tu e eu
baixo-relevo
vendidos tocados expostos em vida
perseguidos pelos milionários
e pelos mortos talvez que invadiram já
o pedestal das estátuas

Tu e eu
elípticos de sexo
ontem gritada no teu peito
hoje secreto no meu ventre

deserdados da sombra
já sem gesto
escultura de amanhã


Luiza Neto Jorge

Cortesia imagem e poema,
blogs Modus vivendi e aluaflutua

março 17, 2008



«Era uma vez uma pedra que incutia a
sabedoria na cabeça dos insensatos.

Os melhores resultados obtinham-se
quando era lançada de bem alto.»

ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006

março 12, 2008

Descartes


Geraldo de Barros

Descartes
Sou o único homem na terra e talvez não haja terra nem homem.
Talvez um deus me engane.
Talvez um deus me condenasse ao tempo, essa longa ilusão.
Sonho a lua e sonho os meus olhos que percepcionam a lua.
Sonhei a tarde e a manhã do primeiro dia.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei Lucano.
Sonhei a colina do Gólgota e as cruzes de Roma.
Sonhei a geometria.
Sonhei o ponto, a linha, o plano e o volume.
Sonhei o amarelo, o azul e o vermelho.
Sonhei a minha infância adoentada.
Sonhei os mapas e os reinos e aquele duelo na alba.
Sonhei a inconcebível dor.
Sonhei a minha espada.
Sonhei Isabel da Boémia.
Sonhei a dúvida e a certeza.
Sonhei o dia de ontem.
Talvez não tenha tido ontem, talvez não tenha nascido.
Talvez sonhe ter sonhado.
Sinto um pouco de frio, um pouco de medo.
Sobre o Danúbio está a noite.
Continuarei a sonhar Descartes e a fé dos seus pais.

JL Borges, A cifra, in Obras Completas, Vol. III,
Círculo de Leitores, Lisboa, 1998, p. 309

março 06, 2008


«Estar o no estar contigo es la medida de mi tiempo.»
«Estar ou não estar contigo é a medida do meu tempo.»

JL Borges, El oro de los tigres («O ouro dos tigres»), 1972

março 04, 2008

Sonata ao Luar



Também vi que a minha forma humana não podia ser definitiva;
que durante a minha vida aqui eu devia ir sempre mais longe
nesse corpo para, mais tarde e noutro lugar, poder reconhecer
o meu espírito pelas marcas indeléveis que nele houvera
deixado — condição sine qua non para não me dissolver
no tudo desconhecido.

Maria Gabriela Llansol, Contos do mal errante,
ed. Rolim, Lisboa, 1986

fevereiro 24, 2008


Tamara de Lempicka,
Portrait of Suzy Solidor, 1933
.
Deixei o meu coração no caminho das provas
E faço-o correr vinculado a teus passos.
O vento trouxe-me hoje o teu perfume
E entreguei-lhe o coração em agradecimento.

Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat


fevereiro 21, 2008

Já a raiz é rio

As raizes
depois de pensadas
pesam

Um fio
com o peso da germinação
então um rio
condiz
raiz
com o chão

Já a raiz é rio
e sai do chão
com peso para cima
tal como cai
do pensamento a rima.

É mais perfeito o peso
da raiz
quando se diz
que o pensamento a gera

fiama hasse pais brandão, F de Fiama,
Teorema, Lisboa, 1986, p. 14