«[ ] não vislumbrei as nascentes do Tigre e do Eufrates,
que talvez nesse labirinto de ruas de água que suportam
o mundo / a vida presente, Tejo-rio se tenha perdido.»
Maria Gabriela Llansol, Um arco singular - Livro de Horas II,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 233
novembro 19, 2010
Christopher Latham Sholes, inventor que deu início à indústria de máquinas de escrever. Sholes acreditava que sua invenção fora fundamental na emancipação feminina, pois possibilitou que a mulher ingressasse no mercado de trabalho dos escritórios. (Herkimer County Historical Society)
«Escrevem à máquina em face deste campo; milhões de folhas de papel para triliões de folhas de árvores; mulheres sentadas oito horas por dia a escrever cartas e a dar forma lapidar à evidência. Senhor doutor, senhor ovo de sabedoria, senhor de gema perdida; é o meio-dia das duas horas livres para continuar à tarde; com este horário de contenção biológica, com esta incubadora de leis, política vai gerando político, eternamente.
Acumulam-se informaçóes, mas o Estado, composto por estes milhões de homens machos que vomitam frases e testículos e lugares comuns de há séculos, não vota a lei do seu desaparecimento.»
Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão - Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 95
novembro 17, 2010
Tamara de Lempicka
«Sim, diz-me a mulher, pousando as mãos nos meus joelhos.
Desejo encontar alguém que me ame com bondade e que seja um homem.
Alguém que queira ressuscitar para ti? Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.»
maria gabriela llansol, amigo e amiga, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p.240
novembro 16, 2010
Se uma coisa existe, esse facto prova que ela é possível.
Uma coisa comprovada possível, mas que não exista,
que espécie de realidade tem? A realidade deve
restringir-se ao que existe ou também
alargar-se ao que é possível existir?
E não haverá coisas possíveis
de existir que nós, humanos,
desconhecemos, como aliás
desconhecemos muitas
coisas que existem?
Ora, pergunto,
essas coisas
ignotas,
mas
existentes
ou
possíveis,
são ainda realidade?
E se nós,
que meditamos
sobre a realidade,
nem sequer existíssemos,
mas o mundo fosse tal como
o conhecemos (e desconhecemos),
o que seria então a realidade sem
ninguém para a percepcionar,
senão potencialmente?
novembro 15, 2010
novembro 13, 2010
«É que levantar os olhos, de cá de baixo, da terra, para uma nuvem é a melhor forma de interrogar os nossos mais íntimos desejos.»
André Breton, O amor louco, («L’amour fou», 1937), trad. Luísa Neto Jorge, Lisboa, Estampa, 1987, p.112
novembro 11, 2010
Renoir
Era um dorso como uma face sem rosto
como se fosse um campo inteiro um estuário a forma imóvel do vento com um fulgor de lava
Era um círculo do abandono puro a densidade absoluta de um repouso a lisa nudez do ser completo António Ramos Rosa
novembro 09, 2010
Regressar ao objecto. Partilhar a figura na ressurreição. A ausência não é o nada, mas o manancial. De um lado e de outro, vigiam-nos as formas naturais consonantes. Conseguiremos atenuar na Natureza o afastamento. Assim como tu, ela assgura-me a emoção. A separação é o abstracto de vários vestígios. Um vestígio do próximo reconhecimento. Tanto mais sei que regressas ao abismo da minha memória subtil. És tu quem se ausenta entre uma ala de árvores. Pertences à Natureza, tanto quanto te pertences.
Fiama Hasse Pais Brandão
novembro 08, 2010
Portugal produz por ano bens e serviços no valor de aprox. 150 mil milhões de euros, 30 mil milhões de contos.
Ao estrangeiro deve cerca de 300 mil milhões, i.e. 2 anos de produção; metade da dívida é do Estado, a outra metade é devida pelos bancos, empresas e famílias.
Mudar esta dependência dos credores exige que as empresas, o estado, as famílias paguem o que devem,
aceitando manter algum nível de dívida digamos entre ¼ ou ½ da produção anual, ou seja entre 37 e 80 milhões de euros.
Uma redução do endividamento desta grandeza, de 300 para digamos 50 mil milhões, em p.e., 5 anos, exigiria uma amortização anual de 50 mil milhões, ou seja 1/3 do produto anual, um quadrimestre de produção.
Se alargarmos o período de redução da dívida de 5 para 10 anos, mesmo assim, 2 meses de produção e rendimento teriam de aplicar-se anualmente ao pagamento da dívida.
Vendo o problema em termos per capita, na perspectiva de rendimento de um assalariado ou pensionista,
2/14 a 4/14 avos do rendimento anual algo como 15 a 30 % do salário ou pensão tem de ser pago aos credores,
ou na forma de redução do consumo ou na de passar a produzir em 3 dias tanto quanto antigamente em 4 dias;
isto em paralelo com idêntico sacrifício nos rendimentos dos pensionistas, rentistas, capitalistas e usurários.
No quadro desta situação é inadmissível não exigir austeridade a todas as instituições e classes sociais.
novembro 07, 2010
Les sabots d'Hélène Etaient tout crottés Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De les déchausser Les sabots d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Dans les sabots de la pauvre Hélène Dans ses sabots crottés Moi j'ai trouvé les pieds d'une reine Et je les ai gardés
Son jupon de laine Etait tout mité Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De le retrousser Le jupon d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Sous le jupon de la pauvre Hélène Sous son jupon mité Moi j'ai trouvé des jambes de reine Et je les ai gardés
Et le cœur d'Hélène N'savait pas chanter Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De m'y arrêter Dans le cœur d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Et dans le cœur de la pauvre Hélène Qu'avait jamais chanté Moi j'ai trouvé l'amour d'une reine Et moi je l'ai gardé
novembro 06, 2010
Não ouvia esta canção desde a minha alta meninice!
:)
E o Júlio Isidro ensinou-me hoje na rádio que foi Patachou quem apresentou Georges Brassens ao público!
novembro 04, 2010
SEGREDO
Não contes do meu vestido que tiro pela cabeça
nem que corro os cortinados para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o anel em redor do teu pescoço com as minhas longas pernas e a sombra do meu poço
Não contes do meu novelo nem da roca de fiar
nem o que faço com eles a fim de te ouvir gritar
Maria Teresa Horta
novembro 02, 2010
imagem in blog 'coisas minhas'
«Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente – O êxito está no Circuito É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer A esplêndida surpresa da Verdade
Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças Com uma amável explicação A Verdade deve ofuscar gradualmente Ou cada homem ficará cego –»
Emily Dickinson
outubro 31, 2010
Não há como vê-lo nesta noite sem luar — estou deitada e desperta, os seios ardendo em desejo e o coração em chamas.
Ono No Komachi (834?-?)
outubro 29, 2010
«Quebrei os meus compromissos por causa do amigo; seria capaz de quebrar a amizade por causa do amor.»
(Hölderlin)
outubro 27, 2010
Quadro de Melyta
«Não sei se este pensamento elucida o dia, se a noite. Veio às cinco da manhã, e às dezoito do mesmo dia. Aqui o deixo__________________________ a ilha é
Um lugar onde o mar ruge por todos os lados. Quando O vento a submerge, batem nas rochas e nas escarpas Peixes, assinalados por terem morrido em vão.»
Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.196
outubro 25, 2010
«Mas a ti nem mil impropérios seriam capazes de te morder. Tal é o impudor inato que possuis.»
Eurípedes, Medeia (1344-5)
outubro 23, 2010
«As folhas da bananeira são suficientemente amplas para ocultarem uma paixão. Quando expostas às intempéries recordam-me ora a cauda ferida de uma fénix ora um leque verde rasgado pelo vento. A bananeira floresce. Todavia as suas flores nada têm de atraente. O mesmo acontece com o tronco enorme. Talvez por isso a bananeira acabou por conquistar o meu coração. Sento-me debaixo dela enquanto o vento e a chuva a fustigam.»
Matsuo Bashô, O gosto solitário do orvalho, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p. 15
outubro 21, 2010
Do Raio de Sol
Raio de Sol na ombreira da porta, na trave da cadeira, vindo da gelosia, peço-te para amanhã voltares mais arqueado pela esfericidade da Terra, um raio não decididamente recto cravado no meu tórax côncavo, mas no meu coração curvo como um globo
Fiama Hasse Pais Brandão, As fábulas
outubro 19, 2010
Devota como ramo curvado pelos nevões alegre como fogueira nas colinas esquecidas
sobre acutíssimas lâminas em branca camisa de urtigas, te ensinarei, minha alma, este passo do adeus...
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Devota come ramo curvato da molte nevi allegra come fallò per colline d'oblio,
su acutissime làmine in bianca maglia d'ortiche, ti insegnerò, mia anima, questo passo d'addio...
Cristina Campo, O Passo do Adeus, Trad de José Tolentino Mendonça; Assírio & Alvim, pp. 38-39