novembro 21, 2010



«[ ] não vislumbrei as nascentes do Tigre e do Eufrates,
que talvez nesse labirinto de ruas de água que suportam
o mundo / a vida presente, Tejo-rio se tenha perdido.»


Maria Gabriela Llansol, Um arco singular - Livro de Horas II,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 233

novembro 19, 2010


Christopher Latham Sholes, inventor que deu início à indústria
de máquinas de escrever. Sholes acreditava que sua invenção
fora fundamental na emancipação feminina, pois possibilitou
que a mulher ingressasse no mercado de trabalho dos escritórios.

(Herkimer County Historical Society)

«Escrevem à máquina em face deste campo; milhões de folhas
de papel para triliões de folhas de árvores; mulheres sentadas
oito horas por dia a escrever cartas e a dar forma lapidar
à evidência. Senhor doutor, senhor ovo de sabedoria,
senhor de gema perdida; é o meio-dia das duas
horas livres para continuar à tarde; com
este horário de contenção biológica,
com esta incubadora de leis,
política vai gerando político,

eternamente.

Acumulam-se informaçóes, mas
o Estado, composto por estes
milhões de homens machos
que vomitam frases
e testículos e

lugares comuns de há séculos,
não vota a lei do seu desaparecimento.»


Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão
- Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 95

novembro 17, 2010


Tamara de Lempicka

«Sim, diz-me a mulher,
pousando as mãos nos meus joelhos.

Desejo encontar alguém
que me ame com bondade
e que seja um homem.


Alguém que queira ressuscitar para ti?
Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.»


maria gabriela llansol, amigo e amiga,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p.240

novembro 16, 2010


Se uma coisa existe, esse facto prova que ela é possível.
Uma coisa comprovada possível, mas que não exista,
que espécie de realidade tem? A realidade deve
restringir-se ao que existe ou também
alargar-se ao que é possível existir?
E não haverá coisas possíveis
de existir que nós, humanos,
desconhecemos, como aliás
desconhecemos muitas
coisas que existem?
Ora, pergunto,
essas coisas
ignotas,
mas
existentes
ou
possíveis,
são ainda realidade?
E se nós,
que meditamos
sobre a realidade,
nem sequer existíssemos,
mas o mundo fosse tal como
o conhecemos (e desconhecemos),
o que seria então a realidade sem
ninguém para a percepcionar,
senão potencialmente?

novembro 15, 2010

novembro 13, 2010



«É que levantar os olhos, de cá de baixo,
da terra, para uma nuvem é a melhor forma
de interrogar os nossos mais íntimos desejos.»

André Breton, O amor louco, («L’amour fou», 1937),
trad. Luísa Neto Jorge, Lisboa, Estampa, 1987, p.112

novembro 11, 2010


Renoir

Era um dorso
como uma face sem rosto

como se fosse um campo inteiro
um estuário
a forma imóvel do vento
com um fulgor de lava

Era um círculo do abandono puro
a densidade absoluta de um repouso
a lisa nudez do ser completo


António Ramos Rosa

novembro 09, 2010



Regressar ao objecto. Partilhar a figura
na ressurreição. A ausência
não é o nada, mas o manancial.
De um lado e de outro, vigiam-nos
as formas naturais consonantes.
Conseguiremos atenuar na Natureza
o afastamento. Assim como tu,
ela assgura-me a emoção.
A separação é o abstracto
de vários vestígios. Um vestígio
do próximo reconhecimento.
Tanto mais sei que regressas ao abismo
da minha memória subtil. És tu quem se ausenta
entre uma ala de árvores. Pertences
à Natureza, tanto quanto te pertences.


Fiama Hasse Pais Brandão

novembro 08, 2010



Portugal produz por ano bens e serviços no valor de aprox.
150 mil milhões de euros, 30 mil milhões de contos.

Ao estrangeiro deve cerca de 300 mil milhões,
i.e. 2 anos de produção; metade da dívida
é do Estado, a outra metade é devida
pelos bancos, empresas e famílias.


Mudar esta dependência dos credores
exige que as empresas, o estado,
as famílias paguem
o que devem,

aceitando manter algum nível de dívida
digamos entre ¼ ou ½ da produção anual,
ou seja entre 37 e 80 milhões de euros.


Uma redução do endividamento desta grandeza,
de 300 para digamos 50 mil milhões, em p.e.,
5 anos, exigiria uma amortização anual
de 50 mil milhões, ou seja 1/3 do produto
anual, um quadrimestre de produção.

Se alargarmos o período de redução da dívida
de 5 para 10 anos, mesmo assim, 2 meses
de produção e rendimento
teriam de aplicar-se
anualmente ao

pagamento
da dívida.


Vendo o problema em termos per capita,
na perspectiva de rendimento de um
assalariado ou pensionista,

2/14 a 4/14 avos do rendimento anual
algo como 15 a 30 % do salário ou pensão
tem de ser pago aos credores,

ou na forma de redução do consumo
ou na de passar a produzir
em 3 dias tanto quanto
antigamente
em 4 dias;

isto em paralelo com idêntico
sacrifício nos rendimentos
dos pensionistas, rentistas,
capitalistas e usurários.


No quadro desta situação
é inadmissível não exigir
austeridade a todas
as instituições e classes sociais.

novembro 07, 2010



Les sabots d'Hélène
Etaient tout crottés
Les trois capitaines
L'auraient appelée vilaine
Et la pauvre Hélène
Etait comme une âme en peine
Ne cherche plus longtemps de fontaine
Toi qui as besoin d'eau
Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène
Va-t'en remplir ton seau

Moi j'ai pris la peine
De les déchausser
Les sabots d'Hélèn'
Moi qui ne suis pas capitaine
Et j'ai vu ma peine
Bien récompensée
Dans les sabots de la pauvre Hélène
Dans ses sabots crottés
Moi j'ai trouvé les pieds d'une reine
Et je les ai gardés

Son jupon de laine
Etait tout mité
Les trois capitaines
L'auraient appelée vilaine
Et la pauvre Hélène
Etait comme une âme en peine
Ne cherche plus longtemps de fontaine
Toi qui as besoin d'eau
Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène
Va-t'en remplir ton seau

Moi j'ai pris la peine
De le retrousser
Le jupon d'Hélèn'
Moi qui ne suis pas capitaine
Et j'ai vu ma peine
Bien récompensée
Sous le jupon de la pauvre Hélène
Sous son jupon mité
Moi j'ai trouvé des jambes de reine
Et je les ai gardés

Et le cœur d'Hélène
N'savait pas chanter
Les trois capitaines
L'auraient appelée vilaine
Et la pauvre Hélène
Etait comme une âme en peine
Ne cherche plus longtemps de fontaine
Toi qui as besoin d'eau
Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène
Va-t'en remplir ton seau

Moi j'ai pris la peine
De m'y arrêter
Dans le cœur d'Hélèn'
Moi qui ne suis pas capitaine
Et j'ai vu ma peine
Bien récompensée
Et dans le cœur de la pauvre Hélène
Qu'avait jamais chanté
Moi j'ai trouvé l'amour d'une reine
Et moi je l'ai gardé

novembro 06, 2010

Não ouvia esta canção
desde a minha alta meninice!

:)



E o Júlio Isidro ensinou-me
hoje na rádio que foi Patachou
quem apresentou Georges
Brassens ao público!

novembro 04, 2010



SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar


Maria Teresa Horta

novembro 02, 2010


imagem in blog 'coisas minhas'

«Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente –
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade

Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego –»


Emily Dickinson

outubro 31, 2010



Não há como vê-lo
nesta noite sem luar —
estou deitada e desperta,
os seios ardendo em desejo
e o coração em chamas.


Ono No Komachi (834?-?)

outubro 29, 2010



«Quebrei os meus compromissos por causa do amigo;
seria capaz de quebrar a amizade por causa do amor.»

(Hölderlin)

outubro 27, 2010


Quadro de Melyta

«Não sei se este pensamento elucida o dia, se a noite.
Veio às cinco da manhã, e às dezoito do mesmo dia.
Aqui o deixo__________________________ a ilha é

Um lugar onde o mar ruge por todos os lados. Quando
O vento a submerge, batem nas rochas e nas escarpas
Peixes, assinalados por terem morrido em vão.»



Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.196

outubro 25, 2010



«Mas a ti nem mil impropérios
seriam capazes de te morder.
Tal é o impudor inato que possuis.»


Eurípedes, Medeia (1344-5)

outubro 23, 2010



«As folhas da bananeira são suficientemente amplas
para ocultarem uma paixão. Quando expostas às
intempéries recordam-me ora a cauda ferida de
uma fénix ora um leque verde rasgado pelo vento.
A bananeira floresce. Todavia as suas flores nada
têm de atraente. O mesmo acontece com o tronco
enorme. Talvez por isso a bananeira acabou por
conquistar o meu coração. Sento-me debaixo dela
enquanto o vento e a chuva a fustigam.»


Matsuo Bashô, O gosto solitário do orvalho,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p. 15

outubro 21, 2010



Do Raio de Sol

Raio de Sol na ombreira da porta,
na trave da cadeira, vindo da gelosia,
peço-te para amanhã voltares
mais arqueado pela esfericidade da Terra,
um raio não decididamente recto
cravado no meu tórax côncavo,
mas no meu coração curvo como um globo


Fiama Hasse Pais Brandão, As fábulas

outubro 19, 2010



Devota como ramo
curvado pelos nevões
alegre como fogueira
nas colinas esquecidas

sobre acutíssimas lâminas
em branca camisa de urtigas,
te ensinarei, minha alma,
este passo do adeus...


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Devota come ramo
curvato da molte nevi
allegra come fallò
per colline d'oblio,

su acutissime làmine
in bianca maglia d'ortiche,
ti insegnerò, mia anima,
questo passo d'addio...


Cristina Campo, O Passo do Adeus,
Trad de José Tolentino Mendonça;
Assírio & Alvim, pp. 38-39