(Gaia Ciência, Livro III, § 127)
novembro 04, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 127)
novembro 03, 2009
novembro 02, 2009
novembro 01, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 121)
outubro 31, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 112)
outubro 30, 2009

Diebenkorn, R.Untitled
(Reclining nude, right arm raised)
(1965) in Branco no Branco
«Pensamento medieval: quantos anjos podem caber
em cima da cabeça de um alfinete? E quantos
em cima da minha cabeça?
E o que é que isso interessa?
O cosmos é vagaroso e eu
estou presa do lado de fora das grades.»
Ana Hatherly, Tisana #432
outubro 29, 2009
este blog "just perfect",
como a Catharsis
o qualificou :):
As causas
Todas as gerações e os poemas.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.
Jorge Luís Borges, História da noite,
in Obras Completas, Vol. III,
Círculo de Leitores,
Lisboa, 1998, p. 203
outubro 28, 2009
que consegui perceber, na sua
tão subtil sensualidade:
.........................SUBJACENTE
O instante em que se torna incompreensível não ouvir a
...............................................chuva semelhante
ao tom humano instrumentos que são as vozes autênticas
em que contornas debaixo do flanco e da espádua sobre
...........................................................madeira
subjacente a minha forma. O que eu ouvi era apenas a epiderme
junto à raiz das tábuas que me sustinha que provém
.................................................constantemente
da árvore assim como súplica e êxtase do amor paralelo
a um início no mundo inaudível. Se me disseres para além
.......................................................do pavimento
do tecto ouvirmos uma voz infantil eu afasto o tímpano de um
................................................................berço
porque a atenção rigorosa se esquiva aos sons de que duvido
se fixa no centro da passagem do corpo ao longo de todo
.......................................................o espírito
como uma consciência pelo interior da sua inconsciência
........................................................ tornada
vibrante e inacessível às lágrimas aos ruídos excedentes.
A parte mais próxima do corpo próximo é idêntica ao meu
.....................................................corpo rodeado
de significações e da convenção dos sentidos habituais
que o meu desconhecimento transforma em inverosimilhança.
O artifício da chuva o brado de uma silhueta distanciando-se
de uma criança puderam logo ser reconstituidos depois do
................................................tempo atravessar
a extensão de pólo a pólo do meu corpo subjacente.
fiama hasse pais brandão
:)

Estou deveras contente e feliz
por a 'minha' estimada leitora
do blog Catharsis ter atribuído
a este modesto acervo de leituras
o prémio de blog "Just Perfect"!
Lamento não poder prosseguir
a cadeia apreciativa de blogs
porque ainda estou muito ignorante :(,
mas logo que consiga fá-lo-ei com muito gosto :)
outubro 27, 2009

"A Jóia"
«Ela refulge. Essa ela sem igual.
Ela é sempre única. E tem sagrada cólera.
Mas quando é colar de pérolas
brilha macia como uma piedade de Ave-Maria.
Colar de pérolas precisa de estar em contacto
com a pele da gente para receber nosso calor.
Senão fenece.
Uma, duas, três, sete,
quantos ovos peroláceos de madrepérola?
E termina com um delicadíssimo fecho
de brilhantes engastados em ouro branco.»
Clarice Lispector, Um sopro de vida,
cit. in Carlos Mendes de Sousa,
Clarice Lispector - Figuras da Escrita,
Centro de Estudos Humanísticos,
Universidade do Minho,
Braga, 2000, p.143
outubro 26, 2009

Recebi o Selinho do Divã da Grande Jóia!
Fiquei contente, pois se lembrou de mim.
Mas esta obrigação de agora me deitar nele,
embaraça-me posto que o que diga será
diferente do que poderia dizer!...
As regras são as seguintes:
1. Postar o Selo - Está feito.
2. Dizer quem me indicou- Grande Jóia.
3. Escrever três conflitos que me levaram ao Divã - Ei-los:
— Só no meu próprio divã me deito; o único contacto tido com um psicólogo,
há muitos anos, redundou num insucesso absoluto, por o especialista me
ter achado muito esperto, mas não o suficiente para o convencer! E, assim, acabou a terapia! Digamos, até: — esse foi o meu primeiro caso de divã!
— Outro caso: a net! A primeira vez que nela interagi, apaixonei-me! Felizmente, por pessoa amiga menos enamorada do que eu. De modo que tudo correu bem. Aprendi a lição: paixão, só na realidade; não, na net. :)
— Último caso: dou comigo a pensar que a net rouba-me mais tempo
do que devia… É verdade, é um estímulo a ler, a pensar;
mas melhor seria se se-originasse na vida social
em vez de neste espaço dessensualizado…
4. Passar o selinho a seis amigos…? Não posso, não tenho coragem. Talvez um dia… :)
outubro 25, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 111)
outubro 24, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 110)
outubro 14, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 109)
outubro 13, 2009
outubro 12, 2009
PERFUME DA ROSA
Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
Com esse aroma delira?
Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E nesse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?
- Ninguém? – Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.
E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?
Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástia sentida
Tremes tanto ao pôr do Sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem?
Não a vi aflita, ansiada…
- Era de prazer ou de dor?
- Mentiste, rosa, és amada,
E tu também amas, flor.
Mas ai!, se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há-de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.
Almeida Garrett, Folhas Caídas
outubro 11, 2009
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
outubro 01, 2009
setembro 30, 2009
poético da primeira
à última página.

«África é o mais sensual dos continentes.»
«Assim que saímos da cidade,
desabou o céu: nunca vi tamanho dilúvio.
Tivemos que parar porque a estrada
não oferecia segurança.
[ ]
Pensava que sabia o que era chover.
Naquele momento, porém, eu revia os verbos
e receava que, em lugar da viatura,
deveria ter alugado um barco.
Depois de a chuva terminar, porém,
é que sucedeu a inundação:
um dilúvio de luz.
Intensa, total, capaz de cegar.
E me surgiram quase indistintas:
a água e a luz. Ambas em excesso, ambas
confirmando a minha infinita pequenez.
Como se houvesse milhares de sóis,
incontáveis fontes de luz
dentro e fora de mim.
Eis o meu lado solar,
nunca antes revelado.
Todas as cores descoloriram,
todo o espectro se tornou num
lençol de brancura.»
(p. 184-5)
setembro 28, 2009
(Gaia Ciência, Livro V, § 374)
O que nada surpreende
setembro 27, 2009
(Gaia Ciência, Livro III, § 124)
setembro 26, 2009
Roy Lichtenstein in Modus Vivendi
PARA NOVOS MARES
Para lá — quero eu ir; e em mim
E nos meus pulsos confio.
Aberto o mar, para o azul
Vara de Génova o meu navio.
Tudo novo e mais novo aos olhos brilha,
Por sobre Espaço e Tempo o Meio-Dia dorme —:
Só o teu olhar, ó Infinidade!,
Olha pra mim, enorme!
Poema de Nietzsche
Tradução de Paulo Quintela
setembro 25, 2009
de Margueritte Duras.
Pela estranheza e impressão
que causa nalguns espectadores
fico com grande curiosidade
de o ver...
Como poderei?
Em que grande ecrã vai?
Contudo, adivinho,
causa a impressão
que me deixou
o seu livro
Verão 80
«Disse para comigo
que se continuava a escrever sobre
o corpo morto do mundo e,
do mesmo modo
sobre o corpo morto do amor.
Que era nos estados de ausência
que o escrito se engolfava
para não substituir nada do que
tinha sido vivido
ou suposto tê-lo sido,
mas para ali consignar
o deserto por ele deixado.»
(Marguerite Duras, Verão 80)
(Gaia Ciência, Livro III, § 253)
setembro 24, 2009
setembro 23, 2009
(Gaia Ciência, Livro I, § 3)
setembro 22, 2009
"Alta Velocidade à Meia- Noite"
CANAIS FERROVIÁRIOS
O reflexo aqui é o ponto estável
num mundo percorrido; a imagem
exausta na lívida ou na escura noite
em que no teu rosto havia a densidade
dos vapores que eram o opaco. Regresso
a esse ciclo, ao vidro; são duas noites vivas e cindidas,
laterais. A, do lado, de águas que eram espaço
negro, e negras, a esfera absoluta. Imaginar?
Do outro lado, de uma ou de outra noite, o rebordo
das luzes, entre clarões. Seria
essa recta ou o infindável? Vou neste afastamento
agora entre o metálico, a porcelana, o vidro.
Nesta soturna câmara são punidos
presença, luzes, fogos nus. De fora dos meus olhos
ou no interior do mundo que Hegel me dissera ser dos olhos,
sendo por sua vez os olhos o precipício
para a alma, e alma exactamente só no mundo e não algures.
Só tu depois do espaço e do início,
na escrita deixaste-me o teu rosto, porém cercado de ferragens
e mais móvel do que o meu. Que vidro te cobria
que sem moveres o corpo, este e o rosto diminuíram
lentamente entre hastes e os cais ferroviários.
Não te perdi, só a distância assim aumenta entre dois corpos
e o tempo da memória oculta imagens.
Neste labor nocturno em que vejo
sobre campos de cereais o opalino
e contra o foco forte incandescente, a corrupção das vinhas,
noite absoluta. Tão coesa que confunde mesmo a da memória,
noite do rio, noite, o não saber.
A meio deste sítio transformável
em zonas de sentido e zonas nulas,
em faixas metalúrgicas e dúvidas, nestas imagens mistas,
pois novamente a água oscila no jarro biselado.
Só depois do extenso e tempo, o discurso inverte
estas propostas: uma cancela branca,
o quer que se ilumine nessa dispersa esfera (ainda) dos campos.
Na retina, imagem pronta
para o próximo ponto de fusão, para que não se perca nunca
sendo imagem, a tua boca chegada a um lugar distante
é a mais confusa boca e permanente.
fiama hasse pais brandão
«À medida que o meu horizonte se alarga,
as imagens que me cercam parecem desenhar-se
sobre um fundo mais uniforme e tornarem-se
indiferentes para mim.
Quanto mais contraio esse horizonte,
tanto mais os objectos que ele circunscreve
se escalonam distintamente de acordo com
a maior ou menor facilidade do meu corpo
para tocá-los e movê-los.
Eles devolvem, portanto, ao meu corpo,
como faria um espelho, a sua influência eventual;
ordenam-se conforme os poderes crescentes
ou decrescentes do meu corpo.
Os objectos que cercam o meu corpo
reflectem a acção possível do meu corpo sobre eles.»
[Assim sendo], o que [isto] significa [é] que
a minha percepção [do mundo] traça precisamente
no conjunto das imagens, à maneira de uma sombra
ou de um reflexo, as acções virtuais ou possíveis
do meu corpo [ ].
Donde, provisoriamente, estas duas definições:
Chamo de matéria o conjunto das imagens,
e de percepção da matéria, essas mesmas
imagens relacionadas à acção possível
de uma certa imagem determinada,
o meu corpo.
Henri Bergson, Matéria e Memória,
Livraria Martins Fontes, S. Paulo, 1990, p. 12-13.
setembro 21, 2009
setembro 20, 2009
setembro 19, 2009
setembro 18, 2009
subscrito pelo blog Direito e Avesso, lembro
este impressivo enunciado de Leibniz
do seu Discurso de Metafísica:
«Cada substância singular exprime todo o universo à sua maneira
e ( ) na sua noção estão compreendidos todos os seus
acontecimentos, com todas as suas circunstâncias
e toda a sequência das coisas exteriores.» (§ IX)
ou, nas palavras da escritora catalã,
Mercê Rodoreda, em A Morte e a Primavera, p.149
«… e cravei o ferro à altura do meu coração e a minha vida
ficou fechada. E eu posso começar a contar a minha vida
por onde quiser, posso-a contar de uma forma diferente…
mas faça o que fizer a minha vida ficou fechada…
não posso mudar nada da minha vida.
A morte fugiu pelo coração e
quando já não tinha a morte
dentro de mim,
morri…»
:))
setembro 17, 2009
(Gaia Ciência, Livro I, § 41)
setembro 16, 2009
setembro 15, 2009
(Gaia Ciência, Livro I, § 2)
setembro 14, 2009
(Gaia Ciência, Livro IV, § 279)
setembro 12, 2009
( )
Razão! Ó razão importuna!
Levas-nos muito depressa ao nosso fim.
Mas ao voar aprendi o meu limite...
Já sinto coragem, e sangue, e novas seivas
Para uma vida nova e para novo jogo...
Pensar sózinho, sim, é a sabedoria,
Mas cantar sózinho... seria estúpido!
Ouvi pois uma canção em vossa honra,
E fazei silêncio em redor,
Pássaros maldosos.
( )
(Excerto do poema, de Nietzsche)
Gentil, a Sol, do Branco no Branco, premiou-me com a distinção do mérito do Vale a pena ficar de olho neste blog, que me honra e anima por o meu ser um simples blog de leituras. Pelo regulamento, deveria retribuir nomeando outros dez blogs a premiar, mas a verdade é que estou com dificuldade em fazê-lo porque quase não conheço blogs nenhuns... Já me comprometi a eliminar esta ignorância. Em todo o caso, gostaria de substituir aquela obrigação do regulamento e mencionar, em alternativa, dez ou doze escritores ou poetas que só depois de ter ingressado neste universo da net vim a conhecer pela primeira vez ou a alargar o conhecimento. Ei-los, com o meu obrigado ao convívio e estímulo que os amigos da net desde há dez anos me proporcionam:
Clarice Lispector
Eugénio de Andrade
Amin Maalouf
Emily Dickinson
Maria Gabriela Llansol
Michel Tournier
António Ramos Rosa
Fiama Hasse Paes Brandão
Franz Kafka
Thomas Mann
Fiodor Dostoiévski
Jorge Luís Borges
setembro 11, 2009
(Gaia Ciência, Livro IV, § 304)
setembro 10, 2009
(Gaia Ciência, Livro II, § 58)
em que D'eus observam
aquelas galáxias - tal como
existiam há vários milhões
de anos - ecoa no espaço
a música que a lua azul
nos sugere :)
setembro 09, 2009
(Gaia Ciência, Livro II, § 57)
setembro 08, 2009

Envaidecido, agradeço ao blog Catharsis
o prémio 'viciante' que me atribuiu.
As regras dizem que devo observar os seguintes pontos:
1. Mencionar três compromissos para o futuro
Assumo estes:
i) Mostrar o pensamento poético de maria gabriela llansol
e clarice lispector assim como a bela poesia
de fiama hasse pais brandão;
ii) Visitar e procurar conhecer outros e mais variados
blogs, designadamente os premiados
pelo Lemniscata e pelo "Viciante"
iii) Evitar 'viciar-me' seja na biosfera,
na blogosfera ou na noosfera!
2. Indicar 10 blogues viciantes
Não posso por enquanto, porque tenho primeiro
de cumprir o compromisso ii) e, eventualmente
incumprir o iii)!
Impacto de um cometa de 1 km de comprimento
no planeta Júpiter, segundo imagem do telescópio
espacial Hubble, e primeiro notado em 19 de Julho
de 2009 por um astrónomo amador. Vide notícia.
setembro 06, 2009
setembro 05, 2009

A ti eu dei asas, com as quais sobrevoarás
o mar ilimitado e toda a terra, elevando-te
facilmente. Que estejas nos banquetes e nas cerimônias
todas, repousando nas bocas de muitos
e, com flautinhas de som agudo, amáveis jovens
juntos cantarão ordenadamente coisas belas e harmoniosas
a teu respeito. E quando, sob as entranhas escuras da terra,
tu fores para as moradas multilamentosas do Hades,
nunca, nem estando morto, perderás tua glória, mas sempre
tu importarás aos homens tendo nome imperecível.
Ó Kyrnos, vagando pela terra da Hélade e por suas ilhas,
cruzando por sobre o piscoso mar estéril,
não tendo-te sentado nos dorsos dos cavalos, por certo os dons
esplêndidos das Musas de coroas de violetas te enviarão.
Para todos quantos o canto importa e para os que virão a existir,
tu existirás da mesma forma, enquanto existirem terra e sol.
No entanto, eu não obtenho nem um pouco de respeito de ti,
mas como a uma pequena criança tu me enganas com palavras.
Teógnis de Mégara (séc.VI a.c.), fr. 237-254 A
setembro 04, 2009
As palavras são as imagens das palavras
(continuação e fecho)

Pintura de Gustav Klimt
Uma longa sucessão de cantos para alcançar
.........................................a convicção
e a exorbitância. As palavras são as imagens
das palavras. O texto não é mais eterno
.........................................do que o contexto.
Uma álea de cimento, uma figura nova
.....................................entre as áleas de terra.
Depois da estrofe banho-me de sol assim como
teogonis bebia pelo seu escudo. Desde há muitos séculos
.........................................................o Ocidente
está obcecado pelo sentido do indivíduo
.........................................e o da solidão.
Uiva, em intenção do meu nome, o mastim, que eu
como parte integrante do meu ser observo
...........................................na iluminura.
:)
setembro 03, 2009
Quando o céu está vermelho
uma forista dos idos de 2000,
que me mostrou e deu a conhecer
fiama hasse pais brandão. O poema
inicial que me encantou
foi a sua TÁBUA DAS COMPARAÇÕES :))
Quando o céu está vermelho comparo-o,
e embora o fogo ainda esteja próximo
da semiologia da fosforescência eu distancio-o
com a frase divinatória: amanhã a alva
há-de romper de sangue. Pela separação semântica
coloco o tom sanguíneo à distância
sobre uma árvore calva. Nos seus ramos
o pardal acumula também a premonição
da noite, consente que na elipse do horizonte
a grande mancha seja comparada a um sinal
ignoto que engendra os sinais.
Se tudo é cognoscível a quem está no reino
do conhecimento com as beatas palavras (felizes)
geradas no horizonte, a tarde esplêndida
acende como uma tocha a madrugada. Este silêncio
místico prepara a tábua rasa das comparações.
:))
agosto 29, 2009
Tudo o que vivêramos
de Fiama, em Carcavelos



Urbanização
Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.
Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.
Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas, 2002
agosto 24, 2009
esperanças são discursos
Esperanças renovadas - óleo sobre tela 100X80cm
«esperanças são discursos
que cada um faz a si próprio
e imagens que se pintam em nós.»
Platão, Filebo, xxiv
agosto 23, 2009
Princesa Elizabeth de Boémia

Princesa Elizabeth da Boémia (1618-1680)
Sereníssima Princesa,
O mais importante fruto que colhi dos escritos que até agora
publiquei foi o facto de Vos terdes dignado lê-los e, por esse
motivo, me terdes admitido no Vosso conhecimento, o que
me deu ocasião de conhecer os Vossos dotes, que são tais
que considero ser um serviço à humanidade propô-los
como exemplo aos séculos vindouros.
Não faria sentido que eu adulasse ou afirmasse algo não
suficientemente examinado (...); e sei que será mais grato
à Vossa generosa modéstia o juízo não afectado e simples
de um Filósofo do que os louvores adornados de homens
lisonjeiros. (...)
É evidente que este sumo cuidado [o da vontade firme e
constante de nada omitir (do que conduza) ao conhecimento
do que é recto e de fazer tudo aquilo que julgar recto] existe
em Vossa Alteza, pois nem as distracções da corte, nem a
educação habitual que costuma condenar as raparigas
à ignorância puderam impedir que investigásseis todas
as boas artes e ciências. Além disso, a grande e incomparável
perspicácia do Vosso espírito manifesta-se também no facto
de terdes inspeccionado profundamente todos os segredos
destas ciências e de em pouco tempo os terdes conhecido
em pormenor. (...)
E quando observo que esse conhecimento tão diversificado
e perfeito de todas as coisas não existe em algum sábio mestre
já idoso que tenha dedicado muitos anos a meditar, mas sim
numa jovem Princesa, que pela forma e pela idade mais faz
lembrar uma das Graças do que a penetrante Minerva ou
alguma das Musas, não posso deixar de ser tomado pela
mais elevada admiração.
Por fim, verifico que não há nada que se requeira para
a absoluta e sublime sabedoria, tanto da parte da vontade
como da parte do conhecimento, que não brilhe nos
Vossos costumes. Pois aparece neles a benignidade
e a mansidão associadas a uma certa singular
majestade, ferida por contínuas injúrias da sorte,
mas nunca perturbada nem quebrada.
E esta sabedoria que em Vós observo de tal modo
de mim exige veneração, que não só considero
que devo dedicar-lhe e consagrar-lhe esta minha
Filosofia (pois ela própria mais não é do que o estudo
da sabedoria), como prefiro antes ser servidor
devotíssimo de Vossa Sereníssima Alteza
do que ser tido por filósofo.
...............................................................Descartes
agosto 19, 2009
Descartes
Paul Valéry
«Mais pour procéder ici avec plus de franchise,
je ne dissimulerai point que je me persuade
qu’il n’y a rien autre chose par quoi nos sens
soient touchés, que cette seule superficie qui
est le terme des dimensions du corps qui
est senti ou aperçu par les sens.
Car c’est en la superficie seule
que se fait le contact, lequel est
si nécessaire pour le sentiment,
que j’estime que sans lui pas un
de nos sens pourrait être mû.»
(Descartes, Méditations métaphysiques,
"Quatrièmes réponses", AT, IX, 192)
agosto 18, 2009
E, com certeza, concluo rectamente
Imagem in Poéticas em Português
«Além disso, também a natureza me ensina que existem diversos corpos em volta do meu corpo, alguns dos quais devem ser procurados por mim, enquanto devo evitar outros. E, com certeza, concluo rectamente que do facto de sentir diversas espécies de cores, sons, odores, sabores, calor, dureza e coisa da mesma natureza, há nos corpos de que me chegam estas várias percepções dos sentidos diferenças correspondentes, embora talvez não semelhantes a elas. E, porque sucede que algumas daquelas percepções me são agradáveis, outras desagradáveis, é absolutamente certo que o meu corpo, ou melhor eu na totalidade, enquanto sou composto de corpo e espírito, posso ser afectado agradável e desagradávelmente pelos corpos circunjacentes.»
Descartes, Meditações sobre a filosofia primeira,
6ª Meditação [14]
agosto 17, 2009
Um relógio composto de rodas e pesos
«[...] Um relógio composto de rodas e pesos não observa menos cuidadosamente todas as leis da natureza quando é mal fabricado e não indica as horas certas do que quando satisfaz a todos os respeitos a intenção do artífice: analogamente, o mesmo se dá com o corpo do homem, se o considero como uma certa máquina equipada e composta de tal maneira, por ossos, nervos, músculos, veias, sangue e peles, que, mesmo que não existisse nela nenhum espírito, possuiria no entanto todos os movimentos que agora executa e não procedem do império da vontade e, por conseguinte, do espírito.»
Meditações sobre a filosofia primeira, 6ª Meditação [16]
E assim, ( ) senti que tinha uma cabeça, mãos, pés
Picasso, Mademoiselles d'Avignon
«E assim, em primeiro lugar, senti que tinha uma cabeça, mãos,
pés e os restantes membros de que consta aquele corpo
que eu considerava como parte de mim próprio
ou, possivelmente, como eu todo.
E senti que este corpo está entre muitos outros corpos,
pelos quais pode ser afectado de modo favorável ou desfavorável,
e eu media o favorável por um certo sentimento de prazer
e o desfavorável por um sentimento de dor.»
Meditações sobre a filosofia primeira,
6ª Meditação [6]
agosto 16, 2009
... de que pense um monte com vale não se conclui...
Mountain Valley
«Mas, [ ] ainda que na verdade eu não possa pensar um DeusDescartes, Meditações sobre a filosofia primeira,
a não ser existente, nem um monte sem um vale, entretanto
como de que pense um monte com vale não se conclui,
com certeza, que existe no mundo algum monte
também não parece concluir-se que Deus existe,
pelo facto de eu pensar Deus como existente.
Com efeito, o meu pensamento não impõe necessidade
às coisas: assim como me é lícito imaginar um cavalo
alado, mesmo que nenhum cavalo tenha asas,talvez
eu também possa atribuir a existência a Deus,
embora não exista nenhum Deus.»
5ª Meditação [9]
agosto 15, 2009
concebo também inúmeras particularidades
[...] Além disso, se presto atenção, concebo também
inúmeras particularidades sobre as figuras, o número,
o movimento, e coisas semelhantes, cuja verdade
é tão clara e consentânea com a minha natureza
que, logo que as começo a descobrir, parece-me
que não aprendo qualquer coisa de novo,
mas que, ao contrário, me recordo
do que já anteriormente sabia
[...]
Descartes, 5ª Meditação[4]
agosto 14, 2009
Eu sou uma coisa que pensa
agosto 12, 2009
Sandra Costa
Juliette Greco
Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est dans l'eau
Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est là-haut
Quand on est là-haut
Perdu aux creux des nuages
On regarde en bas pour voir
Son amour qui nage
Et l'on voudrait bien changer
Ses ailes en nageoires
Les arbres en plongeoir
Le ciel en baignoire
Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est là-haut
Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est dans l'eau
Quand on est dans l'eau
On veut que vienne l'orage
Qui apporterait du ciel
Bien plus qu'un message
Qui pourrait d'un coup
Changer au cours du voyage
Des plumes en écailles
Des ailes en chandail
Des algues en paille.
agosto 10, 2009
Zona Económica Exclusiva

Interessante, também, naquela entrevista
do Prof António Costa e Silva, o conceito
estratégico de Portugal como
"país-arquipélago"
com as potencialidades
que a sua Zona Económica Exclusiva,
dois milhões de quilómetros quadrados,
lhe proporciona para desenvolver
um cluster do mar.
E não se diga que o País
não tem futuro, porque
desde 1143 que Portugal
está p'ra acabar!
Matriz Energética
Há dias, o Prof. António Costa e Silva,
do IST, deu uma excelente e esperançosa
entrevista na SIC.Notícias no programa
"Negócios da Semana" de José Gomes Ferreira.
A matriz energética do futuro acentuará
a sobreposição da condição "produtor-consumidor";
a micro-geração de energia expandir-se-á; no limite,
idealmente, o próprio consumidor produziria a energia
que consome! :)). Por exemplo, os carros eléctricos
do futuro, porque não haveriam de ter tejadilho
com painel solar e ventoinha de produção
de energia eólica, do próprio vento
da deslocação automóvel,
carregando em contínuo
a bateria de lítio
de que até
há minas
em Portugal!?
:)
agosto 09, 2009
Offenbach
Le temps fuit et sans retour
Emporte nos tendresses,
Loin de cet heureux séjour
Le temps fuit sans retour.
Zéphyrs embrasés,
Versez-nous vos caresses,
Zéphyrs embrasés,
Donnez-nous vos baisers!
vos baisers! vos baisers! Ah!
Belle nuit, ô nuit d'amour,
Souris à nos ivresses,
Nuit plus douce que le jour,
Ô belle nuit d'amour!
Ah! Souris à nos ivresses!
Nuit d'amour, ô nuit d'amour!
Ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah!
Les contes d'Hoffmann
Jacques Offenbach
agosto 07, 2009
Maria del Mar Bonet
de Maria del Mar Bonet
indicada por eli:):
Cançión de la bruixa cremada
A Maria del Mar Bonet
Bruixa, que és de matinada, / Bruja, que es de mañana,
ja surten els muriacs / ja salen los murciélagos
que et fan nit a la finestra / que te velan la ventana
i t’enramen el portal. / y te enraman el portal
El portal t’enramen d’arços / El portal te enraman de espinos
i el balcó de tempestats. / y el balcón de tempestades.
Surt, la bruixa, a trenc de dia / Sale, la bruja, al apuntar el día
com una ombra al camí ral. / como una sombra en el camino real
Bruixa, arrenca’t de les trenes, / Bruja, arráncate de las trenzas,
que s’acosta el Sol botxí, / que se acerca el sol verdugo
amb el seu arc de sagetes / con su arco se flechas
mulladetes de verí. / mojaditas de veneno.
De la teva cabellera, / De tu cabellera
en farem coixí daurat / haremos cojín dorado
per als xiquets de la vila / para los mozos del pueblo
que la son els has robat. / a quien les robaste el sueño.
Bruixa, els teus ulls cremen massa: / Bruja, tus ojos queman demasiado:
per això els darem al foc. / por eso los prenderemos.
Cap fadrí darrere cendra / Ningún muchacho tras la ceniza
perdrà els passos ni la sort. / perderá ni pasos ni suerte.
Bruixa, plou sobre la vila. /Bruja, llueve en el pueblo.
Ja sols resta el teu vestit. / Sólo queda tu vestido.
A pleret la nit s’acosta / A sus anchas la noche se acerca
tota negra d’estalzim. / toda negra de tizne.
Maria Mercè Marçal Serra
agosto 04, 2009
Michel Onfray
(«La puissance d'exister», 2006)
trad. José Luís Pérez
Campo da Comunicação, Lisboa, 2009
Li. Excelente manual hedonista que nos alerta contra as múltiplas atitudes nihilistas e alienantes que pululam em algumas doutrinas filosóficas. Nada objecto à posição de Onfray antes reconheço, como ele, a pura imanência de toda a sabedoria. Contudo, para lá da busca da felicidade, é legítimo acurar e acarinhar a grande curiosidade do ser humano em conhecer o real e perscrutar a matéria do mundo que "depois do fim e para lá do fim do homem e do indivíduo" visa enunciar os «grandes discursos» da representação do mundo.
agosto 03, 2009
Cristina Ali Farah
Cristina Ali Farah
No número 01 da revista “Próximo Futuro”
da Fundação Calouste Gulbenkian
encontrei um belo poema
da escritora ítalo-somali
Cristina Ali Farah
Ei-lo em versão trilingue
Espera, deixa-me atravessar o limiar de olhos fechados
a cadeira do rei está vazia, a luva mostra a investidura
o poder está desconexo
Vendas e desvendas, olhar oblíquo, ubíquo
Como é fácil, afinal, enganar à vista
(escondes o braço imputado)
Ser mestre dos confins do vazio
Cavei a terra com as mãos nuas procurando o segredo do que fica
de três mil virgens de terracota,
veias de água, ninhos e túmulos por baixo de camadas de areia e pele
Os meus dedos desenham fragmentos e espelhos,
cancelados na memória
Volto a subir as pulsações do tempo,
minha mãe, a mãe da minha mãe, matrioskas perfuradas
Dêem-me uma vela para que eu possa olhar dentro
E recompor o mapa do amor nos corpos desconsagrados
CRISTINA ALI FARAH
Tradução: Livia Apa
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Wait, let me cross the threshold, my eyes closed,
the king’s chair is empty, the glove shows the investiture,
the power is disconnected
Veils and unveils, looking oblique, ubiquitous
How easy it is, after all, to deceive the sight
(you hide your imputed arm)
to be master of the confines of the void
I dug the earth with bare hands seeking the secret of what remains
of three thousand terracotta virgins,
veins of water, nests and tombs ’neath strata of sand and skin
My fingers draw fragments and mirrors,
cancelled from my memory
I reclimb the beats of time
My mother, my mother’s mother, perforated matryoshkas
Give me a candle so that I can I can look inside
And recompose the map of love in desecrated bodies
(Translation: John Elliott)
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Espera, déjame trasponer el umbral con los ojos cerrados
El trono del rey está vacío, el guante muestra la investidura
el poder está desmembrado
Encubres y desvelas, mirada oblicua, ubicua
Es tan fácil, sin embargo, engañar a la vista
(escondes el brazo imputado)
amaestra los confines del vacío
He cavado la tierra con las manos desnudas buscando el secreto de lo que resta
de tres mil vírgenes de terracota,
venas de agua, nidos y tumbas bajo capas de arena y piel
Mis dedos dibujan fragmentos y espejos,
cancelados en la memoria
Vuelvo a subir las pulsaciones del tiempo,
mi madre, la madre de mi madre, matrioskas perforadas
Denme una vela para que pueda mirar dentro
Y recomponer el mapa del amor en los cuerpos desconsagrados
(Traducción: Alberto Piris Guerra)
agosto 02, 2009
fiama hasse pais brandão
agosto 01, 2009
in Catharsis
haunt me
in my dreams
if you please
your breath is with me now and always
it's like a breeze
so should you ever doubt me
if it's help that you need
never dare to doubt me
and if you want to sleep
i'll be quiet
like an angel
as quiet as your soul could be
if you only knew
you had a friend like me
so should you ever doubt me
if it's help that you need
never dare to doubt me

