novembro 04, 2009

Efeito da mais antiga religiosidade. — O homem irreflectido imagina que só a vontade é actuante; querer seria uma coisa simples, encarada tal como é, indeduzível, compreensível por si mesma. Este homem imagina que quando faz alguma coisa, quando, por exemplo, vibra um soco, é ele que bate, e que bateu porque o queria fazer. Não vê nisso nenhum problema; o sentimento de ter querido basta-lhe não somente para admitir a causa e o efeito mas ainda para imaginar que compreende a sua relação. Não sabe nada do mecanismo da acção, do cêntuplo e subtil trabalho que tem de ser efectuado para que chegue a bater, do mesmo modo que não imagina a capacidade total da vontade para operar a menor parte desse trabalho. A vontade é para ele uma força que age de maneira mágica: acreditar na vontade como na causa de efeitos é acreditar em forças que agem por magia. ( ) Os princípios «não há efeito sem causa» ( ), aparecem-nos como generalizações de princípios muito mais limitados, tais como estes: «agiu-se, quis-se» ( ); mas nos tempos primitivos da humanidade ( ) os primeiros não eram generalizações dos segundos, eram os segundos que eram interpretações dos primeiros. ( ) Contráriamente [aos que acreditam que o querer é simples e imediato] ponho os princípios seguintes: em primeiro lugar, para que um querer se forme é necessário que exista uma representação de prazer e de desprazer. Em segundo lugar: que uma violenta excitação produza uma sensação de prazer ou de desprazer, é assunto do intelecto interpretador, que, aliás, na maior parte das vezes, opera sem que o saibamos. Em terceiro lugar: só há prazer, desprazer e vontade nos seres intelectuais; a enorme maioria dos organismos ignora-os.

(Gaia Ciência, Livro III, § 127)

novembro 03, 2009


Modigliani, imagem in Modus Vivendi
«Nenhuma depressão acompanha o prazer.»

André Breton, O amor louco, («L’amour fou», 1937)

novembro 02, 2009

INTERPRETAÇÃO

Se me explico, então me implico:
A mim mesmo não me posso interpretar.
Mas quem suba o seu próprio caminho,
A minha imagem leva a uma luz mais clara.


(Poema de Nietzsche, trad. Paulo Quintela)

novembro 01, 2009

A vida não é um argumento. — Arranjamos para nós um mundo no qual possamos viver, admitindo a existência de corpos, de linhas, de superfícies, de causas e de efeitos, de movimento e de repouso, de forma e de fundo: não fossem esses artigos de fé, ninguém hoje suportaria a vida! Mas isso não prova nada em seu favor. A vida não é um argumento; porque o erro poderia encontrar-se entre as condições da vida.

(Gaia Ciência, Livro III, § 121)

outubro 31, 2009

Causa e Efeito. — Costumamos empregar a palavra «explicação», e o que seria necessário dizer é «descrição», para designar aquilo que nos distingue de estágios anteriores de conhecimento e de ciência. Sabemos descrever melhor do que os nossos predecessores, explicamos tão pouco como eles. Descobrimos sucessões múltiplas nos pontos em que o homem e o sábio ingénuos das civilizações precedentes viam apenas duas coisas, «causa» e «efeito», como se dizia; aperfeiçoámos a imagem do devir, mas não fomos além dessa imagem. Em cada caso a série das «causas» apresenta-se-nos mais completa; deduzimos: é preciso que esta ou aquela coisa tenha sido precedida para que se lhe suceda outra; mas isso não nos leva a compreender nada. ( ) Só operamos com coisas que não existem, linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis e espaços divisíveis...; como havia de existir sequer possibilidade de explicar quando começamos por fazer de qualquer coisa uma imagem, a nossa imagem! ( ) aprendemos a descrever-nos a nós próprios cada vez mais exactamente descrevendo as coisas e a sua sucessão. Causa e efeito: trata-se de uma dualidade que decerto nunca existirá; assistimos, na verdade, a uma continuidade de que isolamos algumas partes; do mesmo modo que, do movimento, nunca percebemos mais do que pontos isolados, não o vemos, concluimos pela sua existência. ( ) Uma inteligência que visse causa e efeito como uma continuidade, e não, à nossa maneira, como um retalhar arbitrário, a inteligência que visse a vaga dos acontecimentos, negaria a ideia de causa e efeito e de qualquer condicionalidade.

(Gaia Ciência, Livro III, § 112)

outubro 30, 2009


Diebenkorn, R.Untitled
(Reclining nude, right arm raised)
(1965) in Branco no Branco

«Pensamento medieval: quantos anjos podem caber
em cima da cabeça de um alfinete? E quantos
em cima da minha cabeça?
E o que é que isso interessa?

O cosmos é vagaroso e eu
estou presa do lado de fora das grades.»


Ana Hatherly, Tisana #432

outubro 29, 2009

Com um poema assim, fica
este blog "just perfect",
como a Catharsis

o qualificou :):



As causas

Todas as gerações e os poemas.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.



Jorge Luís Borges, História da noite,
in Obras Completas, Vol. III,
Círculo de Leitores,
Lisboa, 1998, p. 203

outubro 28, 2009

Eis o primeiro texto hieróglífico
que consegui perceber, na sua
tão subtil sensualidade:






.........................SUBJACENTE

O instante em que se torna incompreensível não ouvir a
...............................................chuva semelhante
ao tom humano instrumentos que são as vozes autênticas
em que contornas debaixo do flanco e da espádua sobre
...........................................................madeira
subjacente a minha forma. O que eu ouvi era apenas a epiderme
junto à raiz das tábuas que me sustinha que provém
.................................................constantemente
da árvore assim como súplica e êxtase do amor paralelo

a um início no mundo inaudível. Se me disseres para além
.......................................................do pavimento
do tecto ouvirmos uma voz infantil eu afasto o tímpano de um
................................................................berço
porque a atenção rigorosa se esquiva aos sons de que duvido

se fixa no centro da passagem do corpo ao longo de todo
.......................................................o espírito
como uma consciência pelo interior da sua inconsciência
........................................................ tornada
vibrante e inacessível às lágrimas aos ruídos excedentes.

A parte mais próxima do corpo próximo é idêntica ao meu
.....................................................corpo rodeado
de significações e da convenção dos sentidos habituais
que o meu desconhecimento transforma em inverosimilhança.

O artifício da chuva o brado de uma silhueta distanciando-se
de uma criança puderam logo ser reconstituidos depois do
................................................tempo atravessar
a extensão de pólo a pólo do meu corpo subjacente.

fiama hasse pais brandão

:)


Estou deveras contente e feliz
por a 'minha' estimada leitora
do blog Catharsis ter atribuído
a este modesto acervo de leituras
o prémio de blog "Just Perfect"!

Lamento não poder prosseguir
a cadeia apreciativa de blogs
porque ainda estou muito ignorante :(,
mas logo que consiga fá-lo-ei com muito gosto :)

outubro 27, 2009

Uma jóia para



"A Jóia"

«Ela refulge. Essa ela sem igual.
Ela é sempre única. E tem sagrada cólera.

Mas quando é colar de pérolas
brilha macia como uma piedade de Ave-Maria.

Colar de pérolas precisa de estar em contacto
com a pele da gente para receber nosso calor.
Senão fenece.

Uma, duas, três, sete,
quantos ovos peroláceos de madrepérola?

E termina com um delicadíssimo fecho
de brilhantes engastados em ouro branco.»


Clarice Lispector, Um sopro de vida,
cit. in Carlos Mendes de Sousa,
Clarice Lispector - Figuras da Escrita,
Centro de Estudos Humanísticos,
Universidade do Minho,
Braga, 2000, p.143

outubro 26, 2009

Sempre é bom ter um divã



Recebi o Selinho do Divã da Grande Jóia!
Fiquei contente, pois se lembrou de mim.


Mas esta obrigação de agora me deitar nele,
embaraça-me posto que o que diga será
diferente do que poderia dizer!...

As regras são as seguintes:


1. Postar o Selo - Está feito.
2. Dizer quem me indicou- Grande Jóia.
3. Escrever três conflitos que me levaram ao Divã - Ei-los:

— Só no meu próprio divã me deito; o único contacto tido com um psicólogo,
há muitos anos, redundou num insucesso absoluto, por o especialista me
ter achado muito esperto, mas não o suficiente para o convencer! E, assim, acabou a terapia! Digamos, até: — esse foi o meu primeiro caso de divã!

— Outro caso: a net! A primeira vez que nela interagi, apaixonei-me! F
elizmente, por pessoa amiga menos enamorada do que eu. De modo que tudo correu bem. Aprendi a lição: paixão, só na realidade; não, na net. :)

— Último caso: dou comigo a pensar que a net rouba-me mais tempo
do que devia… É verdade, é um estímulo a ler, a pensar;
mas melhor seria se se-originasse na vida social
em vez de neste espaço dessensualizado…

4. Passar o selinho a seis amigos…? Não posso, não tenho coragem. Talvez um dia… :)



outubro 25, 2009

Origem do Lógico. — De onde nasceu a lógica no cérebro humano? Do ilogismo, certamente, cujo domínio, primitivamente, deve ter sido imenso. Uma multidão de seres que raciocinava de maneira completamente diversa da nossa actual desapareceu; a coisa parece cada vez mais verdadeira. O que não podia, por exemplo, descobrir com bastante rapidez as «similitudes» necessárias quanto à sua alimentação ou aos seus inimigos, aquele que classificava com demasiada lentidão, que punha demasiada prudência em fazê-lo, diminuia as suas possibilidades de duração mais do que aquele que concluía imediatamente pela semelhança na conformidade. E era essa inclinação predominante que levava a tratar as coisas que se pareciam como se elas fossem iguais, — porque, em si, não há duas coisas que sejam iguais, — foi essa inclinação que primeiro forneceu a base de toda a lógica. do mesmo modo, para que nascesse o conceito de substância indispensável à lógica, ainda que estritamente falando nada de real lhe corresponda, foi necessário que se não visse, nem sentisse, durante muito tempo o que há de mutável nas coisas; os seres que não viam muito bem tinham uma superioridade sobre aqueles que percebiam as «flutuações» de todas as coisas. ( ) A maneira como se sucedem, no cérebro de hoje, pensamentos e deduções lógicas, corresponde a um processo e a uma luta de instintos que são, em si, deveras ilógicos e injustos, só percebemos geralmente o resultado desta luta; de tal modo este antigo mecanismo funciona em nós rapidamente e agora secretamente.

(Gaia Ciência, Livro III, § 111)

outubro 24, 2009

Origem do conhecimento. — Durante longos séculos, o intelecto nunca engendrou mais do que erros; alguns mostravam-se úteis à conservação da espécie: quem os encontrava ( ) lutava com mais felicidade por si e pela sua descedência. Esses artigos de fé errados, transmitidos hereditáriamente através de gerações, acabaram por se tornar numa espécie de ( ) fundo humano: admite-se, por exemplo, que há coisas que são iguais, que existem objectos, matérias e corpos, que uma coisa é o que parece ser, que a nossa vontade é livre, que aquilo que é bom para um é bom em si. Só muito tardiamente é que apareceram pessoas que negaram ou puseram em dúvida este género de proposições, só muito tardiamente surgiu a verdade, esta forma menos eficaz das formas de conhecimento. ( ) A partir de então a fé, a convicção, deixaram de ser as únicas forças, mas também o exame, a negação, a contradição; todos os «maus» instintos foram subordinados ao conhecimento e postos ao seu serviço; ( ) O conhecimento, a partir de então, tornou-se uma parte da própria vida, e, tal como a vida, uma força que foi crescendo sem detença; ( ) O pensador: eis agora o ser no qual a necessidade da verdade e os erros antigos que mantêm a vida, se dão o seu primeiro combate desde que a necessidade da verdade se afirmou também como uma força que conserva a vida. Dada a importância desta luta tudo o mais é indiferente: ela enuncia a última pergunta sobre a condição da vida, e faz a primeira tentativa para lhe responder com a experiência. Até que ponto a verdade suporta a assimilação? tal é esta pergunta, tal é esta experiência.

(Gaia Ciência, Livro III, § 110)

outubro 14, 2009

Defendamo-nos. — Defendamo-nos de pensar que o mundo seja um ser vivo. Como se desenvolveria? De que se alimentaria? Como poderia crescer e multiplicar-se? ( ) Defendamo-nos até de pensar que o universo seja uma máquina; não foi certamente construído para um objectivo ( ). Defendamo-nos de supor por toda a parte a existência a priori de uma coisa tão bem definida como o movimento cíclico das constelações próximas da Terra; um olhar para a Via Láctea basta já para fazer nascer dúvidas ( ). A ordem astral em que vivemos é uma coisa excepcional; esta ordem e a medíocre duração que determina tornaram possível por sua vez esta excepção das excepções: a formação do orgânico. Mas o carácter do mundo é pelo contrário o de um caos eterno, não pelo facto de ausência de necessidade, mas pelo de uma ausência de ordem ( ). Ora como poderemos permitir-nos censurar ou louvar o universo! Defendamo-nos de lhe censurar uma falta de coração ou de razão, ou o contrário destas coisas: não é nem perfeito, nem belo, nem nobre, e não quer transformar-se em nada disso; não procura de forma alguma imitar o homem! Não é tocado por nenhum dos nossos juízos estéticos e morais! Não possui instinto de conservação, não possui qualquer instinto e ignora toda a espécie de lei. Defendamo-nos de dizer que eles existem na natureza. Essa só conhece necessidades: nela não há ninguém que ordene, ninguém que obedeça, ninguém que infrinja. Quando souberdes que não há fins, sabereis igualmente que não há acaso: porque é únicamente sob o olhar de um mundo de fins que a palavra «acaso» toma um sentido. Defendamo-nos de dizer que a morte é o contrário da vida. A vida não passa de uma variedade de morte, e uma variedade muito rara. ( ) Mas quando acabaremos com os nossos cuidados e as nossas precauções? Quando deixaremos de ser obscurecidos por todas estas sombras de Deus? Quando teremos completamente «desdivinizado» a natureza?

(Gaia Ciência, Livro III, § 109)

outubro 13, 2009


Miró in Modus Vivendi
«Quando tu foste gerada,
pôs-se o sol, nasceu a lua;
estava a tua mãe deitada,
andava teu pai na rua.»

(versos recitados por Villaret)

outubro 12, 2009


Matisse in Modus Vivendi

PERFUME DA ROSA

Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E nesse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?

- Ninguém? – Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.

E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?

Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmaram, ó rosa?

E porquê, na hástia sentida
Tremes tanto ao pôr do Sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol?

Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem?

Não a vi aflita, ansiada…
- Era de prazer ou de dor?
- Mentiste, rosa, és amada,
E tu também amas, flor.

Mas ai!, se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há-de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.


Almeida Garrett, Folhas Caídas

outubro 11, 2009


imagem in blog "entre outras mil"

TÂNTALO

A que Deus implorar qualquer ajuda,
Se sou eu que fabrico as divindades!
Imagino,
imagino,
E, de tanto subir, chego ao divino.

Mas nenhum sequioso mata a sede
A beber na miragem de uma fonte.
Grito, Grito,
E, quanto mais acima, mais aflito.

Miguel Torga


O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

outubro 02, 2009



Sempre o princípio de Outubro
oferece um Algarve diferente!

:)

outubro 01, 2009

«Eis a lição que aprendi em Jesusalém:
a vida não foi feita para ser pouca e breve.
E o mundo não foi feito para ter medida.»


(p.255)

setembro 30, 2009

Um romance mágico,
poético da primeira
à última página.



«África é o mais sensual dos continentes.»


«Assim que saímos da cidade,
desabou o céu: nunca vi tamanho dilúvio.
Tivemos que parar porque a estrada
não oferecia segurança.
[ ]
Pensava que sabia o que era chover.
Naquele momento, porém, eu revia os verbos
e receava que, em lugar da viatura,
deveria ter alugado um barco.

Depois de a chuva terminar, porém,
é que sucedeu a inundação:
um dilúvio de luz.
Intensa, total, capaz de cegar.

E me surgiram quase indistintas:
a água e a luz. Ambas em excesso, ambas
confirmando a minha infinita pequenez.

Como se houvesse milhares de sóis,
incontáveis fontes de luz
dentro e fora de mim.

Eis o meu lado solar,
nunca antes revelado.

Todas as cores descoloriram,
todo o espectro se tornou num
lençol de brancura.»

(p. 184-5)

setembro 28, 2009

O nosso novo «infinito». — Até aonde vai o carácter perspectivo da existência? possui ela mesmo outro carácter? uma existência sem explicação, sem «razão» não se torna precisamente uma «irrizão»? e, por outro lado, não é qualquer existência essencialmente «explicativa»? é isso que não podem decidir, como seria necessário, as análises mais zelosas do intelecto, as mais pacientes e minuciosas introspecções: porque o espírito do homem, no decurso destas análises, não se pode impedir de se ver conforme a sua própria perspectiva e só pode ver de acordo com ela. Só podemos ver com os nossos olhos; é uma curiosidade sem esperança de êxito procurar saber que outras espécies de intelecto e de perspectivas podem existir; ( ) Espero contudo que estejamos hoje longe da ridicula pretensão de decretar que o nosso cantinho é o único de onde se tem o direito de possuir uma perspectiva. Muito pelo contrário o mundo, para nós, voltou a tornar-se infinito, no sentido em que não lhe podemos recusar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações.

(Gaia Ciência, Livro V, § 374)


O que nada surpreende
nem na física, nem na política
ou na lógica. Sem que tal implique
qualquer queda no relativismo. De facto,
toda a dedução parte de um núcleo variável
de premissas, a política destitui as conclusões
apenas derivadas de opções metafísicas - e exige
o acordo num terreno comum de razoabilidade -,
e a física assenta os seus fundamentos num princípio
de indeterminação o que apela à observação, experiência
e cálculo de probabilidade. De qualquer modo, nada disto
nos precipita no relativismo porque o 'homem colectivo'
selecciona as explicações teóricas mais elegantes e
mais económicas, de postulados independentes,
reconhece a vantagem da cooperação
sobre a da exploração, e sabe-se
incluído num mundo a que
deve a sua existência.

setembro 27, 2009

No horizonte do infinito. — Deixamos a terra, subimos a bordo! Destruímos a ponte atrás de nós, melhor destruímos a terra atrás de nós. E agora, barquinho, toma cuidado! Dos teus lados está o oceano; é verdade que nem sempre brame; a sua toalha estende-se às vezes como seda e ouro, um sonho de bondade. Mas, virão as horas em que reconhecerás que ele é infinito e que não existe nada que seja mais terrível do que o infinito. Ah! pobre pássaro, que te sentias livre e que esbarras agora com as grades desta gaiola! Desgraçado de ti se fores dominado pela nostalgia da terra, como se lá em baixo tivesse havido mais liberdade,... agora que deixou de haver «terra»!

(Gaia Ciência, Livro III, § 124)

setembro 26, 2009


Roy Lichtenstein in Modus Vivendi

PARA NOVOS MARES


Para lá — quero eu ir; e em mim
E nos meus pulsos confio.
Aberto o mar, para o azul
Vara de Génova o meu navio.

Tudo novo e mais novo aos olhos brilha,
Por sobre Espaço e Tempo o Meio-Dia dorme —:
Só o teu olhar, ó Infinidade!,
Olha pra mim, enorme!


Poema de Nietzsche
Tradução de Paulo Quintela

setembro 25, 2009

Nunca vi o filme India Song
de Margueritte Duras.

Pela estranheza e impressão
que causa nalguns espectadores
fico com grande curiosidade
de o ver...

Como poderei?
Em que grande ecrã vai?


Contudo, adivinho,
causa a impressão
que me deixou
o seu livro
Verão 80


«Disse para comigo
que se continuava a escrever sobre
o corpo morto do mundo e,
do mesmo modo
sobre o corpo morto do amor.


Que era nos estados de ausência
que o escrito se engolfava
para não substituir nada do que
tinha sido vivido
ou suposto tê-lo sido,

mas para ali consignar
o deserto por ele deixado.»


(Marguerite Duras, Verão 80)



Sempre em nossa casa. — Um dia, tendo alcançado o nosso fim, só com orgulho falaremos das longas peregrinações que fomos obrigados a fazer. Mas na realidade, não nos tínhamos apercebido da viagem. Se chegámos tão longe foi precisamente porque em todos os lugares nos parecia estarmos em nossa casa.

(Gaia Ciência, Livro III, § 253)

setembro 24, 2009

Mais vale dever. — «Mais vale dever do que pagar com
uma moeda que não traz a nossa efígie!»
assim o quer a nossa soberania.

(Gaia Ciência, Livro III, § 252)

setembro 23, 2009

Nobreza e vulgaridade. — Aos olhos das naturezas vulgares os sentimentos nobres e generosos parecem faltos de pertinência, por consequência de verosimilhança em primeiro lugar; ( ) Reconhece-se a natureza vulgar porque nunca perde de vista o seu proveito, pelo facto desta obsessão do objectivo, do lucro, ser nela mais forte do que o mais violento instinto: não se deixar arrastar pelo impulso desarrazoável das acções intempestivas: eis o que lhe serve de sageza e de dignidade. ( ) O gosto das naturezas superiores prende-se a coisas excepcionais, a coisas que deixam fria a maior parte dos outros homens e não parece ter nenhuma atracção: a natureza superior mede os valores por uma escala pessoal. ( )

(Gaia Ciência, Livro I, § 3)

setembro 22, 2009

"Matéria e Memória" ou
"Alta Velocidade à Meia- Noite"



CANAIS FERROVIÁRIOS

O reflexo aqui é o ponto estável
num mundo percorrido; a imagem
exausta na lívida ou na escura noite
em que no teu rosto havia a densidade
dos vapores que eram o opaco. Regresso
a esse ciclo, ao vidro; são duas noites vivas e cindidas,
laterais. A, do lado, de águas que eram espaço
negro, e negras, a esfera absoluta. Imaginar?
Do outro lado, de uma ou de outra noite, o rebordo
das luzes, entre clarões. Seria
essa recta ou o infindável? Vou neste afastamento
agora entre o metálico, a porcelana, o vidro.

Nesta soturna câmara são punidos
presença, luzes, fogos nus. De fora dos meus olhos
ou no interior do mundo que Hegel me dissera ser dos olhos,
sendo por sua vez os olhos o precipício
para a alma, e alma exactamente só no mundo e não algures.

Só tu depois do espaço e do início,
na escrita deixaste-me o teu rosto, porém cercado de ferragens
e mais móvel do que o meu. Que vidro te cobria
que sem moveres o corpo, este e o rosto diminuíram
lentamente entre hastes e os cais ferroviários.
Não te perdi, só a distância assim aumenta entre dois corpos
e o tempo da memória oculta imagens.

Neste labor nocturno em que vejo
sobre campos de cereais o opalino
e contra o foco forte incandescente, a corrupção das vinhas,
noite absoluta. Tão coesa que confunde mesmo a da memória,
noite do rio, noite, o não saber.
A meio deste sítio transformável
em zonas de sentido e zonas nulas,
em faixas metalúrgicas e dúvidas, nestas imagens mistas,
pois novamente a água oscila no jarro biselado.

Só depois do extenso e tempo, o discurso inverte
estas propostas: uma cancela branca,
o quer que se ilumine nessa dispersa esfera (ainda) dos campos.
Na retina, imagem pronta
para o próximo ponto de fusão, para que não se perca nunca
sendo imagem, a tua boca chegada a um lugar distante
é a mais confusa boca e permanente.


fiama hasse pais brandão


«À medida que o meu horizonte se alarga,
as imagens que me cercam parecem desenhar-se
sobre um fundo mais uniforme e tornarem-se
indiferentes para mim.

Quanto mais contraio esse horizonte,
tanto mais os objectos que ele circunscreve
se escalonam distintamente de acordo com
a maior ou menor facilidade do meu corpo
para tocá-los e movê-los.

Eles devolvem, portanto, ao meu corpo,
como faria um espelho, a sua influência eventual;
ordenam-se conforme os poderes crescentes
ou decrescentes do meu corpo.

Os objectos que cercam o meu corpo
reflectem a acção possível do meu corpo sobre eles



[Assim sendo], o que [isto] significa [é] que
a minha percepção [do mundo] traça precisamente
no conjunto das imagens, à maneira de uma sombra
ou de um reflexo, as acções virtuais ou possíveis
do meu corpo [ ].

Donde, provisoriamente, estas duas definições:
Chamo de matéria o conjunto das imagens,
e de percepção da matéria, essas mesmas
imagens relacionadas à acção possível
de uma certa imagem determinada,
o meu corpo.

Henri Bergson, Matéria e Memória,
Livraria Martins Fontes, S. Paulo, 1990, p. 12-13.

setembro 21, 2009



O SEXTO SENTIDO

Estamos aqui
Em estado de liberdade
Condicionada pela enorme filáucia do próximo
Que um poeta desconhecido confirmou
Quando disse:
O sexo existe
Vem da palavra six
Igual a sexto sentido
Que é feminino


E acresecentou:
A maçã
É para ser comida


Ana Hatherly, A neo-Penélope,
&etc, Lisboa, 2007

setembro 20, 2009


Jean Serge Seiler, "Le fleuve de la vie"

«O homem que vive entre a terra e o ar
e que é feito de água
vive prisioneiro como o rio,
que tem terra por baixo e ar por cima.

O rio é como o homem.»


Mercè Rodoreda, A Morte e a Primavera,
Lisboa, Relógio d´Água, 1992, p. 83

setembro 19, 2009


«eu não estou em sítio algum… mas por ter sido,
alguma coisa resta… numa pedra da floresta
há ainda um sinal de mim… não estou
em sítio algum mas nalgum sítio
alguma coisa ficou de mim…»

Mercè Rodoreda, A Morte e a Primavera,
Lisboa, Relógio d´Água, 1992, p. 155

setembro 18, 2009

Ainda a propósito do belo pensamento de Schopenhauer
subscrito pelo blog Direito e Avesso, lembro
este impressivo enunciado de Leibniz
do seu Discurso de Metafísica:

«Cada substância singular exprime todo o universo à sua maneira
e ( ) na sua noção estão compreendidos todos os seus

acontecimentos, com todas as suas circunstâncias
e toda a sequência das coisas exteriores.» (§ IX)

ou, nas palavras da escritora catalã,
Mercê Rodoreda, em A Morte e a Primavera, p.149

«… e cravei o ferro à altura do meu coração e a minha vida
ficou fechada. E eu posso começar a contar a minha vida
por onde quiser, posso-a contar de uma forma diferente…
mas faça o que fizer a minha vida ficou fechada…
não posso mudar nada da minha vida.

A morte fugiu pelo coração e
quando já não tinha a morte
dentro de mim,
morri…»

:))

setembro 17, 2009

Contra o remorso. — O pensador vê nas suas próprias acções, pesquisas e perguntas destinadas a dar-lhe este ou aquele esclarecimento: o êxito, o fracasso, ou, pior, sentir remorsos, deixa isso aos que agem sob uma ordem e que esperam a varada, se o gracioso senhor não se mostrar satisfeito com o resultado.

(Gaia Ciência, Livro I, § 41)

setembro 16, 2009


Muito bela a epígrafe
escolhida pela Maria Josefa
para o seu blog Direito e Avesso

«A vida pode ser comparada a um bordado
que no começo da vida vemos pelo lado direito
e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito,
mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.»

A. Schopenhauer

setembro 15, 2009

A consciência intelectual. — Nunca mais acabo de refazer a experiência e de recalcitrar contra ela, não posso acreditar no facto, mau-grado a sua evidência; falta consciência intelectual à maior parte das pessoas; pareceu-me até muitas vezes que quando a possuímos, se está tão só no deserto como na cidade mais povoada. ( ) Quero dizer isto: que a maior parte das pessoas não acham desprezível acreditar nisto ou naquilo e agir de acordo com isso sem ter pesado o pró e o contra, sem ter tomado consciência profunda das suas supremas razões de agir, sem mesmo se ter incomodado a inquirir essas razões; ( ) Mas encontrar-se plantado no meio desta rerum concordia discors, desta maravilhosa incerteza, desta multiplicidade da vida, e não interrogar, não tremer com o desejo e a voluptuosidade de se interrogar, de nem sequer odiar aquele que o faz, talvez troçar disso até ficar doente, eis o que eu acho desprezível, e é esse desprezo que procuro em primeiro lugar em cada um de nós: não sei que loucura me persuade que qualquer homem, sendo homem, a possui. É a minha maneira de ser injusto.

(Gaia Ciência, Livro I, § 2)

setembro 14, 2009

Amizade estelar. — Éramos dois amigos, somos dois estranhos. Mas isso é realmente assim: não iremos procurar escondê-lo ou calá-lo como se tivéssemos de corar. Somos dois navios cada um dos quais com o seu objectivo e a sua rota particular; ( ) esses corajosos barcos estavam lá tão tranquilos, debaixo do mesmo sol, no mesmo porto, que se teria acreditado que tinham alcançado o objectivo, que tinham tido o mesmo objectivo. Mas a omnipotência das nossas tarefas separou-nos em seguida, empurrados para mares diferentes, debaixo de outros sóis, e talvez nunca mais nos voltemos a ver: mares diferentes, sóis diversos nos mudaram! Era preciso que nos tornássemos estranhos um ao outro: era a lei que pesava sobre nós: é precisamente por isso que nos devemos mais respeito! ( ) Existe provávelmente uma formidável trajectória, uma pista invisível, uma órbita estelar, sobre a qual os nossos caminhos e os nossos objectivos diferentes estão inscritos como pequenas etapas;... elevemo-nos até este pensamento. Mas a nossa vida é demasiado curta e a nossa vista demasiado fraca para que possamos ser amigos, a não ser no sentido em que o permite esta sublime possibilidade... Acreditemos portanto na nossa amizade estelar, mesmo se tivermos de ser inimigos na terra.

(Gaia Ciência, Livro IV, § 279)

setembro 12, 2009

No Sul

( )

Razão! Ó razão importuna!
Levas-nos muito depressa ao nosso fim.
Mas ao voar aprendi o meu limite...
Já sinto coragem, e sangue, e novas seivas
Para uma vida nova e para novo jogo...

Pensar sózinho, sim, é a sabedoria,
Mas cantar sózinho... seria estúpido!
Ouvi pois uma canção em vossa honra,
E fazei silêncio em redor,
Pássaros maldosos.

( )


(Excerto do poema, de Nietzsche)

Gentil, a Sol, do Branco no Branco, premiou-me com a distinção do mérito do Vale a pena ficar de olho neste blog, que me honra e anima por o meu ser um simples blog de leituras. Pelo regulamento, deveria retribuir nomeando outros dez blogs a premiar, mas a verdade é que estou com dificuldade em fazê-lo porque quase não conheço blogs nenhuns... Já me comprometi a eliminar esta ignorância. Em todo o caso, gostaria de substituir aquela obrigação do regulamento e mencionar, em alternativa, dez ou doze escritores ou poetas que só depois de ter ingressado neste universo da net vim a conhecer pela primeira vez ou a alargar o conhecimento. Ei-los, com o meu obrigado ao convívio e estímulo que os amigos da net desde há dez anos me proporcionam:



  • Clarice Lispector
    Eugénio de Andrade
    Amin Maalouf
    Emily Dickinson
    Maria Gabriela Llansol
    Michel Tournier
    António Ramos Rosa
    Fiama Hasse Paes Brandão
    Franz Kafka
    Thomas Mann
    Fiodor Dostoiévski
    Jorge Luís Borges

setembro 11, 2009

É actuando que devemos abandonar. — Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: «Não faças isto, não faças aquilo. Renuncia. Domina-te»... Gosto, pelo contrário, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela durante a noite, e a não ter jamais outra preocupação que não seja fazê-la bem, tão bem quanto for capaz, e capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupações que não têm nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância desaparecer hoje isto, amanhã aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da árvore; ( ) «É a nossa actividade que deve determinar o que temos de abandonar; é actuando que deixaremos»,... eis o que amo, eis o meu próprio «placitum»! Mas eu não quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, não quero essas virtudes negativas que têm por essência a negação e a renúncia.

(Gaia Ciência, Livro IV, § 304)

setembro 10, 2009

blogs a conhecer

primeiros escritos
grande joia
dias imperfeitos
direito e avesso
restolhando
pretérito-mais-que-perfeito
et alter
Só criando. — O que me custou e me custa ainda constantemente mais sofrimento, é dar-me conta de que é infinitamente mais importante conhecer o nome das coisas do que saber o que elas são. A sua reputação e o seu nome, o seu aspecto e a sua importância, a sua medida tradicional, o seu peso geralmente aceite — todas as qualificações que estiveram na origem dos frutos do erro e do capricho, na sua maior parte, roupagens que se lançaram sobre elas sem tomar a precaução de as adaptar à sua essência e nem sequer à sua cor de pele — tudo isso, à força de ser acreditado, de se transmitir, de se fortificar em cada nova geração, acabou por formar o seu corpo; a aparência primitiva acaba sempre por se tornar a essência e fazer o efeito da essência! Bem louco quem acreditasse que basta recordar essa origem e mostrar esse véu nebuloso da ilusão para destruir o mundo que passa por essencial, a que se chama «realidade»! Só criando o podemos aniquilar!... Mas não esqueçamos também isto: é que basta forjar nomes novos, novas apreciações e novas probabilidades para criar com o tempo também «coisas» novas.

(Gaia Ciência, Livro II, § 58)
No mesmo universo
em que D'eus observam
aquelas galáxias - tal como
existiam há vários milhões
de anos - ecoa no espaço
a música que a lua azul
nos sugere :)

Novas fotos do telescópio Hubble
recentemente reparado no espaço.


O que lembra uma borbeleta é na verdade um caldeirão de gases


A galáxia NGC 6217 foi fotografada entre 13 de junho e 8 de julho



A omega Centaury é uma variedade colorida de 10 milhões de estrelas

Imagens in O Correio da Bahia

setembro 09, 2009

Aos Realistas. — Ó seres frios que vos sentis tão couraçados contra a paixão e a quimera e que tanto gostaríeis de fazer da vossa doutrina um adorno e um objecto de orgulho, dais-vos o nome de realistas e dais a entender que o mundo é verdadeiramente tal como vos aparece; que sois os únicos a ver a verdade isenta de véus e que sois vós talvez a melhor parte dessa verdade ... ó queridas imagens de Sais! Mas não sereis ainda vós próprios, mesmo no vosso estado mais despojado, seres supremamente obscuros e apaixonados se vos compararmos aos peixes? ( ) Vede esta montanha, este mago. O que haverá de «real» neles? Experimentai tirar-lhes as nossas fantasmagorias, aquilo que os homens lhes acrescentaram, homens positivos! Ah se fôsseis capazes disso! Se pudésseis esquecer a vossa origem, o vosso passado, as vossas escolas preparatórias, ... tudo o que há em vós de humano e de animal! Não há para nós nenhuma «realidade», — estamos longe de sermos tão estranhos uns para os outros como pensais, e a nossa boa vontade em ultrapassar a embriaguês é talvez tão respeitável como a crença que tendes de serdes incapazes de qualquer embriaguês.

(Gaia Ciência, Livro II, § 57)

setembro 08, 2009


Envaidecido, agradeço ao blog Catharsis
o prémio 'viciante' que me atribuiu.

As regras dizem que devo observar os seguintes pontos:

1. Mencionar três compromissos para o futuro
Assumo estes:

i) Mostrar o pensamento poético de maria gabriela llansol
e clarice lispector assim como a bela poesia
de fiama hasse pais brandão;

ii) Visitar e procurar conhecer outros e mais variados
blogs, designadamente os premiados

pelo Lemniscata e pelo "Viciante"

iii) Evitar 'viciar-me' seja na biosfera,
na blogosfera ou na noosfera!

2. Indicar 10 blogues viciantes
Não posso por enquanto, porque tenho primeiro
de cumprir o compromisso ii) e, eventualmente
incumprir o iii)!


Impacto de um cometa de 1 km de comprimento
no planeta Júpiter, segundo imagem do telescópio
espacial Hubble, e primeiro notado em 19 de Julho
de 2009 por um astrónomo amador. Vide notícia.


Que fina percepção do Porto,
a de Agostinho da Silva,

«uma ilha rodeada por Portugal» :))

Rui Moreira, op. cit., p.80

setembro 06, 2009


"Se na nossa cidade há muito quem troque o B por V,
há muito pouco quem troque a liberdade pela servidão."

Almeida Garrett, (cit. p.29, op. supra)

setembro 05, 2009


A ti eu dei asas, com as quais sobrevoarás
o mar ilimitado e toda a terra, elevando-te
facilmente. Que estejas nos banquetes e nas cerimônias
todas, repousando nas bocas de muitos
e, com flautinhas de som agudo, amáveis jovens
juntos cantarão ordenadamente coisas belas e harmoniosas
a teu respeito. E quando, sob as entranhas escuras da terra,
tu fores para as moradas multilamentosas do Hades,
nunca, nem estando morto, perderás tua glória, mas sempre
tu importarás aos homens tendo nome imperecível.
Ó Kyrnos, vagando pela terra da Hélade e por suas ilhas,
cruzando por sobre o piscoso mar estéril,
não tendo-te sentado nos dorsos dos cavalos, por certo os dons
esplêndidos das Musas de coroas de violetas te enviarão.
Para todos quantos o canto importa e para os que virão a existir,
tu existirás da mesma forma, enquanto existirem terra e sol.
No entanto, eu não obtenho nem um pouco de respeito de ti,
mas como a uma pequena criança tu me enganas com palavras.

Teógnis de Mégara (séc.VI a.c.), fr. 237-254 A

setembro 04, 2009

As palavras são as imagens das palavras

TÁBUA DAS COMPARAÇÕES
(continuação e fecho)


Pintura de Gustav Klimt

Uma longa sucessão de cantos para alcançar
.........................................a convicção
e a exorbitância. As palavras são as imagens
das palavras. O texto não é mais eterno
.........................................do que o contexto.
Uma álea de cimento, uma figura nova
.....................................entre as áleas de terra.

Depois da estrofe banho-me de sol assim como
teogonis bebia pelo seu escudo. Desde há muitos séculos
.........................................................o Ocidente
está obcecado pelo sentido do indivíduo
.........................................e o da solidão.
Uiva, em intenção do meu nome, o mastim, que eu
como parte integrante do meu ser observo
...........................................na iluminura.




:)

setembro 03, 2009

Quando o céu está vermelho

Foi clAud,
uma forista dos idos de 2000,
que me mostrou e deu a conhecer
fiama hasse pais brandão. O poema
inicial que me encantou
foi a sua TÁBUA DAS COMPARAÇÕES :))




Quando o céu está vermelho comparo-o,
e embora o fogo ainda esteja próximo
da semiologia da fosforescência eu distancio-o
com a frase divinatória: amanhã a alva
há-de romper de sangue. Pela separação semântica

coloco o tom sanguíneo à distância
sobre uma árvore calva. Nos seus ramos
o pardal acumula também a premonição
da noite, consente que na elipse do horizonte
a grande mancha seja comparada a um sinal
ignoto que engendra os sinais.

Se tudo é cognoscível a quem está no reino
do conhecimento com as beatas palavras (felizes)
geradas no horizonte, a tarde esplêndida
acende como uma tocha a madrugada. Este silêncio
místico prepara a
tábua rasa das comparações.

:))

agosto 29, 2009

Tudo o que vivêramos

A casa de família
de Fiama, em Carcavelos





Urbanização

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.


Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas, 2002

agosto 24, 2009

esperanças são discursos


Esperanças renovadas - óleo sobre tela 100X80cm

«esperanças são discursos
que cada um faz a si próprio
e imagens que se pintam em nós.»


Platão, Filebo, xxiv

agosto 23, 2009

Princesa Elizabeth de Boémia


Princesa Elizabeth da Boémia (1618-1680)


Sereníssima Princesa,

O mais importante fruto que colhi dos escritos que até agora

publiquei foi o facto de Vos terdes dignado lê-los e, por esse
motivo, me terdes admitido no Vosso conhecimento, o que
me deu ocasião de conhecer os Vossos dotes, que são tais
que considero ser um serviço à humanidade propô-los
como exemplo aos séculos vindouros.

Não faria sentido que eu adulasse ou afirmasse algo não

suficientemente examinado (...); e sei que será mais grato
à Vossa generosa modéstia o juízo não afectado e simples
de um Filósofo do que os louvores adornados de homens
lisonjeiros. (...)

É evidente que este sumo cuidado [o da vontade firme e

constante de nada omitir (do que conduza) ao conhecimento
do que é recto e de fazer tudo aquilo que julgar recto] existe
em Vossa Alteza, pois nem as distracções da corte, nem a
educação habitual que costuma condenar as raparigas
à ignorância puderam impedir que investigásseis todas
as boas artes e ciências. Além disso, a grande e incomparável
perspicácia do Vosso espírito manifesta-se também no facto
de terdes inspeccionado profundamente todos os segredos
destas ciências e de em pouco tempo os terdes conhecido
em pormenor. (...)

E quando observo que esse conhecimento tão diversificado

e perfeito de todas as coisas não existe em algum sábio mestre
já idoso que tenha dedicado muitos anos a meditar, mas sim
numa jovem Princesa, que pela forma e pela idade mais faz
lembrar uma das Graças do que a penetrante Minerva ou
alguma das Musas, não posso deixar de ser tomado pela
mais elevada admiração.

Por fim, verifico que não há nada que se requeira para

a absoluta e sublime sabedoria, tanto da parte da vontade
como da parte do conhecimento, que não brilhe nos
Vossos costumes. Pois aparece neles a benignidade
e a mansidão associadas a uma certa singular
majestade, ferida por contínuas injúrias da sorte,

mas nunca perturbada nem quebrada.

E esta sabedoria que em Vós observo de tal modo

de mim exige veneração, que não só considero
que devo dedicar-lhe e consagrar-lhe esta minha
Filosofia (pois ela própria mais não é do que o estudo
da sabedoria), como prefiro antes ser servidor
devotíssimo de Vossa Sereníssima Alteza
do que ser tido por filósofo.

...............................................................Descartes

agosto 19, 2009

Descartes

«Le plus profond c'est la peau»
Paul Valéry

«Mais pour procéder ici avec plus de franchise,
je ne dissimulerai point que je me persuade
qu’il n’y a rien autre chose par quoi nos sens
soient touchés, que cette seule superficie qui
est le terme des dimensions du corps qui
est senti ou aperçu par les sens.


Car c’est en la superficie seule
que se fait le contact, lequel est
si nécessaire pour le sentiment,
que j’estime que sans lui pas un
de nos sens pourrait être mû.»


(Descartes, Méditations métaphysiques,
"Quatrièmes réponses", AT, IX, 192)

agosto 18, 2009

E, com certeza, concluo rectamente


Imagem in Poéticas em Português

«Além disso, também a natureza me ensina que existem diversos corpos em volta do meu corpo, alguns dos quais devem ser procurados por mim, enquanto devo evitar outros. E, com certeza, concluo rectamente que do facto de sentir diversas espécies de cores, sons, odores, sabores, calor, dureza e coisa da mesma natureza, há nos corpos de que me chegam estas várias percepções dos sentidos diferenças correspondentes, embora talvez não semelhantes a elas. E, porque sucede que algumas daquelas percepções me são agradáveis, outras desagradáveis, é absolutamente certo que o meu corpo, ou melhor eu na totalidade, enquanto sou composto de corpo e espírito, posso ser afectado agradável e desagradávelmente pelos corpos circunjacentes.»

Descartes, Meditações sobre a filosofia primeira,
6ª Meditação [14]

agosto 17, 2009

Um relógio composto de rodas e pesos



«[...] Um relógio composto de rodas e pesos não observa menos cuidadosamente todas as leis da natureza quando é mal fabricado e não indica as horas certas do que quando satisfaz a todos os respeitos a intenção do artífice: analogamente, o mesmo se dá com o corpo do homem, se o considero como uma certa máquina equipada e composta de tal maneira, por ossos, nervos, músculos, veias, sangue e peles, que, mesmo que não existisse nela nenhum espírito, possuiria no entanto todos os movimentos que agora executa e não procedem do império da vontade e, por conseguinte, do espírito.»

Meditações sobre a filosofia primeira, 6ª Meditação [16]

E assim, ( ) senti que tinha uma cabeça, mãos, pés


Picasso, Mademoiselles d'Avignon

«E assim, em primeiro lugar, senti que tinha uma cabeça, mãos,
pés e os restantes membros de que consta aquele corpo
que eu considerava como parte de mim próprio
ou, possivelmente, como eu todo.

E senti que este corpo está entre muitos outros corpos,
pelos quais pode ser afectado de modo favorável ou desfavorável,
e eu media o favorável por um certo sentimento de prazer
e o desfavorável por um sentimento de dor.»


Meditações sobre a filosofia primeira,
6ª Meditação [6]

agosto 16, 2009

... de que pense um monte com vale não se conclui...


Mountain Valley
«Mas, [ ] ainda que na verdade eu não possa pensar um Deus
a não ser existente, nem um monte sem um vale, entretanto
como de que pense um monte com vale não se conclui,
com certeza, que existe no mundo algum monte
também não parece concluir-se que Deus existe,
pelo facto de eu pensar Deus como existente.

Com efeito, o meu pensamento não impõe necessidade
às coisas: assim como me é lícito imaginar um cavalo
alado, mesmo que nenhum cavalo tenha asas,talvez
eu também possa atribuir a existência a Deus,
embora não exista nenhum Deus.»
Descartes, Meditações sobre a filosofia primeira,
5ª Meditação [9]

agosto 15, 2009

concebo também inúmeras particularidades



[...] Além disso, se presto atenção, concebo também
inúmeras particularidades sobre as figuras, o número,
o movimento, e coisas semelhantes, cuja verdade
é tão clara e consentânea com a minha natureza
que, logo que as começo a descobrir, parece-me
que não aprendo qualquer coisa de novo,
mas que, ao contrário, me recordo
do que já anteriormente sabia
[...]

Descartes, 5ª Meditação[4]

agosto 14, 2009

Eu sou uma coisa que pensa



«Eu sou uma coisa que pensa, quer dizer,
que duvida, que afirma, que nega,
que conhece poucas coisas,
que ignora muitas,

que quer,
que não quer,

que também imagina,
e que sente.»

agosto 12, 2009

Sandra Costa



«Amar a ternura de um olhar
como se fossemos um pássaro e um peixe

e entre nós sobrasse o céu e o mar.»

Sandra Costa, Sobre a luz do mar,
Campo das Letras, Porto, 2002

Juliette Greco





Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est dans l'eau
Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est là-haut

Quand on est là-haut
Perdu aux creux des nuages
On regarde en bas pour voir
Son amour qui nage
Et l'on voudrait bien changer
Ses ailes en nageoires
Les arbres en plongeoir
Le ciel en baignoire

Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est là-haut
Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est dans l'eau

Quand on est dans l'eau
On veut que vienne l'orage
Qui apporterait du ciel
Bien plus qu'un message
Qui pourrait d'un coup
Changer au cours du voyage
Des plumes en écailles
Des ailes en chandail
Des algues en paille.

agosto 10, 2009

Zona Económica Exclusiva



Interessante, também, naquela entrevista
do Prof António Costa e Silva, o conceito
estratégico de Portugal como

"país-arquipélago"

com as potencialidades
que a sua Zona Económica Exclusiva,
dois milhões de quilómetros quadrados,
lhe proporciona para desenvolver
um cluster do mar.


E não se diga que o País
não tem futuro, porque
desde 1143 que Portugal
está p'ra acabar!

Matriz Energética



Há dias, o Prof. António Costa e Silva,
do IST, deu uma excelente e esperançosa

entrevista na SIC.Notícias no programa
"Negócios da Semana" de José Gomes Ferreira.

A matriz energética do futuro acentuará
a sobreposição da condição "produtor-consumidor";
a micro-geração de energia expandir-se-á; no limite,
idealmente, o próprio consumidor produziria a energia
que consome! :)). Por exemplo, os carros eléctricos
do futuro, porque não haveriam de ter tejadilho
com painel solar e ventoinha de produção
de energia eólica, do próprio vento
da deslocação automóvel,
carregando em contínuo
a bateria de lítio
de que até
há minas

em Portugal!?

:)

agosto 09, 2009

Offenbach



Le temps fuit et sans retour
Emporte nos tendresses,
Loin de cet heureux séjour
Le temps fuit sans retour.

Zéphyrs embrasés,
Versez-nous vos caresses,
Zéphyrs embrasés,
Donnez-nous vos baisers!
vos baisers! vos baisers! Ah!

Belle nuit, ô nuit d'amour,
Souris à nos ivresses,
Nuit plus douce que le jour,
Ô belle nuit d'amour!
Ah! Souris à nos ivresses!
Nuit d'amour, ô nuit d'amour!
Ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah!

Les contes d'Hoffmann
Jacques Offenbach

agosto 07, 2009

Maria del Mar Bonet

Outra bela canção
de Maria del Mar Bonet
indicada por eli:):




Cançión de la bruixa cremada

A Maria del Mar Bonet

Bruixa, que és de matinada, / Bruja, que es de mañana,
ja surten els muriacs / ja salen los murciélagos
que et fan nit a la finestra / que te velan la ventana
i t’enramen el portal. / y te enraman el portal

El portal t’enramen d’arços / El portal te enraman de espinos
i el balcó de tempestats. / y el balcón de tempestades.
Surt, la bruixa, a trenc de dia / Sale, la bruja, al apuntar el día
com una ombra al camí ral. / como una sombra en el camino real

Bruixa, arrenca’t de les trenes, / Bruja, arráncate de las trenzas,
que s’acosta el Sol botxí, / que se acerca el sol verdugo
amb el seu arc de sagetes / con su arco se flechas
mulladetes de verí. / mojaditas de veneno.

De la teva cabellera, / De tu cabellera
en farem coixí daurat / haremos cojín dorado
per als xiquets de la vila / para los mozos del pueblo
que la son els has robat. / a quien les robaste el sueño.

Bruixa, els teus ulls cremen massa: / Bruja, tus ojos queman demasiado:
per això els darem al foc. / por eso los prenderemos.
Cap fadrí darrere cendra / Ningún muchacho tras la ceniza
perdrà els passos ni la sort. / perderá ni pasos ni suerte.

Bruixa, plou sobre la vila. /Bruja, llueve en el pueblo.
Ja sols resta el teu vestit. / Sólo queda tu vestido.
A pleret la nit s’acosta / A sus anchas la noche se acerca
tota negra d’estalzim. / toda negra de tizne.


Maria Mercè Marçal Serra

agosto 04, 2009

Michel Onfray

Michel Onfray, a potência de existir
(«La puissance d'exister», 2006)
trad. José Luís Pérez
Campo da Comunicação, Lisboa, 2009


Li. Excelente manual hedonista que nos alerta contra as múltiplas atitudes nihilistas e alienantes que pululam em algumas doutrinas filosóficas. Nada objecto à posição de Onfray antes reconheço, como ele, a pura imanência de toda a sabedoria. Contudo, para lá da busca da felicidade, é legítimo acurar e acarinhar a grande curiosidade do ser humano em conhecer o real e perscrutar a matéria do mundo que "depois do fim e para lá do fim do homem e do indivíduo" visa enunciar os «grandes discursos» da representação do mundo.

agosto 03, 2009

Cristina Ali Farah



Cristina Ali Farah

No número 01 da revista “Próximo Futuro”
da Fundação Calouste Gulbenkian
encontrei um belo poema
da escritora ítalo-somali
Cristina Ali Farah

Ei-lo em versão trilingue

Espera, deixa-me atravessar o limiar de olhos fechados
a cadeira do rei está vazia, a luva mostra a investidura
o poder está desconexo
Vendas e desvendas, olhar oblíquo, ubíquo
Como é fácil, afinal, enganar à vista
(escondes o braço imputado)
Ser mestre dos confins do vazio

Cavei a terra com as mãos nuas procurando o segredo do que fica
de três mil virgens de terracota,
veias de água, ninhos e túmulos por baixo de camadas de areia e pele
Os meus dedos desenham fragmentos e espelhos,
cancelados na memória

Volto a subir as pulsações do tempo,
minha mãe, a mãe da minha mãe, matrioskas perfuradas
Dêem-me uma vela para que eu possa olhar dentro
E recompor o mapa do amor nos corpos desconsagrados


CRISTINA ALI FARAH
Tradução: Livia Apa

----------- // ------------

Wait, let me cross the threshold, my eyes closed,
the king’s chair is empty, the glove shows the investiture,
the power is disconnected
Veils and unveils, looking oblique, ubiquitous
How easy it is, after all, to deceive the sight
(you hide your imputed arm)
to be master of the confines of the void

I dug the earth with bare hands seeking the secret of what remains
of three thousand terracotta virgins,
veins of water, nests and tombs ’neath strata of sand and skin
My fingers draw fragments and mirrors,
cancelled from my memory

I reclimb the beats of time
My mother, my mother’s mother, perforated matryoshkas
Give me a candle so that I can I can look inside
And recompose the map of love in desecrated bodies


(Translation: John Elliott)

----------- // ------------

Espera, déjame trasponer el umbral con los ojos cerrados
El trono del rey está vacío, el guante muestra la investidura
el poder está desmembrado
Encubres y desvelas, mirada oblicua, ubicua
Es tan fácil, sin embargo, engañar a la vista
(escondes el brazo imputado)
amaestra los confines del vacío

He cavado la tierra con las manos desnudas buscando el secreto de lo que resta
de tres mil vírgenes de terracota,
venas de agua, nidos y tumbas bajo capas de arena y piel
Mis dedos dibujan fragmentos y espejos,
cancelados en la memoria

Vuelvo a subir las pulsaciones del tiempo,
mi madre, la madre de mi madre, matrioskas perforadas
Denme una vela para que pueda mirar dentro
Y recomponer el mapa del amor en los cuerpos desconsagrados


(Traducción: Alberto Piris Guerra)

agosto 02, 2009

fiama hasse pais brandão


Marie-Hélène, óleo sobre tela de Arpad Szenes, 1942

TERRAÇO

Por mais que vos olhe vos esqueço. Não sois
mais do que formas desordenadas. Riscos
díspares como peles de felinos.
Em cadeirões familiares distorcidos.


(fiama hasse pais brandão)

agosto 01, 2009


in Catharsis

haunt me
in my dreams
if you please
your breath is with me now and always
it's like a breeze

so should you ever doubt me
if it's help that you need
never dare to doubt me

and if you want to sleep
i'll be quiet
like an angel
as quiet as your soul could be
if you only knew
you had a friend like me

so should you ever doubt me
if it's help that you need
never dare to doubt me