... «ou melhor, pensaram em mim, sem dúvida,
pois foi por minha causa — pobre de mim! —
que perpetraram esse feito tão viril
quanto medonho;
a ideia faz-me estremecer. No entanto, pensaram
em mim somente em relação a eles próprios,
e não no que seria feito de mim.
Nisto, pensaram tão pouco como agora,
que jazem imóveis e sem cabeças, deixando
que eu resolva o que devo fazer!»...
op. cit., p.95
dezembro 03, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 56
— Oh! Deuses! Oh! Santos e grandes ascetas! Estou perdida!
Os dois homens, ambos ao mesmo tempo! Nada mais me resta!
Como puderam eles lutar com uma única espada?
Shridaman, esquecido de toda a sua sabedoria
e de toda a sua brandura, agarrou a espada
e decepou a cabeça de Nanda que então…
Mas não! Foi Nanda, que, por motivos
que me causam arrepios,
degolou Shridaman
que, então…
oh, não, não! Não quero pensar mais, de nada serve.
Uma coisa, porém, é clara: conduziram-se como selvagens
e nem por um momento sequer se lembraram de mim»...
op. cit., p. 94-5
Os dois homens, ambos ao mesmo tempo! Nada mais me resta!
Como puderam eles lutar com uma única espada?
Shridaman, esquecido de toda a sua sabedoria
e de toda a sua brandura, agarrou a espada
e decepou a cabeça de Nanda que então…
Mas não! Foi Nanda, que, por motivos
que me causam arrepios,
degolou Shridaman
que, então…
oh, não, não! Não quero pensar mais, de nada serve.
Uma coisa, porém, é clara: conduziram-se como selvagens
e nem por um momento sequer se lembraram de mim»...
op. cit., p. 94-5
dezembro 02, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 55
«Quando a infortunada Sita voltou a si, nada mudara.
Ficou agachada no chão, cheia de medo,
os dedos metidos nos cabelos,
olhando atónita as duas cabeças truncadas,
os corpos deitados um sobre o outro
e todo aquele sangue
que lentamente
se escoava.»
op. cit., p. 93
Ficou agachada no chão, cheia de medo,
os dedos metidos nos cabelos,
olhando atónita as duas cabeças truncadas,
os corpos deitados um sobre o outro
e todo aquele sangue
que lentamente
se escoava.»
op. cit., p. 93
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 54
«Sita ergueu os braços ao céu; os olhos quase lhe
saltaram das órbitas e, privada dos sentidos,
caiu prostrada no chão.»
op.cit., p. 93
saltaram das órbitas e, privada dos sentidos,
caiu prostrada no chão.»
op.cit., p. 93
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 53
«E a linda Sita desceu do carro,
os quadris coleando sob a saia envolvente
e dirigiu-se para o santuário.
Poucos segundos depois, deparou-se-lhe
o mais horrendo espectáculo.»
op. cit., p. 93
os quadris coleando sob a saia envolvente
e dirigiu-se para o santuário.
Poucos segundos depois, deparou-se-lhe
o mais horrendo espectáculo.»
op. cit., p. 93
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 52
«— É incrível, é quase intolerável — dizia a meia voz.
— Os homens são todos iguais, não se deve por
um acima do outro, pois não se pode contar
com nenhum deles.
Um vai-se e deixa-nos junto do outro,
a ponto de merecer não sei o quê;
e quando se manda o outro em sua procura
fica-se sozinha. Ambos mereciam
que eu tomasse as rédeas e fosse
sozinha para casa dos meus pais
e, assim, quando voltassem,
já não me encontrariam.
Fora disso apenas me resta ir atrás deles
e ver o que fazem. Não é de admirar
que, grávida como estou,
fique alarmada
com esta estranha conduta de ambos.
Vou agora mesmo chamá-los à ordem.»
op.cit., p. 92
— Os homens são todos iguais, não se deve por
um acima do outro, pois não se pode contar
com nenhum deles.
Um vai-se e deixa-nos junto do outro,
a ponto de merecer não sei o quê;
e quando se manda o outro em sua procura
fica-se sozinha. Ambos mereciam
que eu tomasse as rédeas e fosse
sozinha para casa dos meus pais
e, assim, quando voltassem,
já não me encontrariam.
Fora disso apenas me resta ir atrás deles
e ver o que fazem. Não é de admirar
que, grávida como estou,
fique alarmada
com esta estranha conduta de ambos.
Vou agora mesmo chamá-los à ordem.»
op.cit., p. 92
dezembro 01, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 51
«Entretanto, Sita, o sulco, aguardava,
sozinha, sob a coberta do carro.
O tempo parecia-lhe mais longo porque já não tinha
à sua frente nenhum pescoço que contemplar.
Naturalmente, nem sonhava com o que acontecia
àquele pescoço, enquanto ela se deixava,
pouco a pouco, vencer pela muito
vulgar sensação de impaciência.»
op. cit., p. 91
sozinha, sob a coberta do carro.
O tempo parecia-lhe mais longo porque já não tinha
à sua frente nenhum pescoço que contemplar.
Naturalmente, nem sonhava com o que acontecia
àquele pescoço, enquanto ela se deixava,
pouco a pouco, vencer pela muito
vulgar sensação de impaciência.»
op. cit., p. 91
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 50
«Assim falando, voltou-se para o corpo de Shridaman,
desprendeu o punho da espada dos dedos que já estavam
rígidos e, com os fortes braços, executou a sentença
que ele próprio acabara de pronunciar.
O corpo, para mencioná-lo em primeiro lugar,
caiu atravessado sobre o de Shridaman
e a ingénua cabeça rolou para perto
da cabeça do amigo, onde parou,
de olhos esbugalhados.
Também o seu sangue jorrou, a princípio, aos borbotões
e com grande violência, para depois deslizar vagarosamente
pelas calhas até à abertura da cova.»
op. cit., p.86-7
desprendeu o punho da espada dos dedos que já estavam
rígidos e, com os fortes braços, executou a sentença
que ele próprio acabara de pronunciar.
O corpo, para mencioná-lo em primeiro lugar,
caiu atravessado sobre o de Shridaman
e a ingénua cabeça rolou para perto
da cabeça do amigo, onde parou,
de olhos esbugalhados.
Também o seu sangue jorrou, a princípio, aos borbotões
e com grande violência, para depois deslizar vagarosamente
pelas calhas até à abertura da cova.»
op. cit., p.86-7
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 49
«Curvou-se, esboçando gestos desamparados em direcção às duas partes de Shridaman, sem saber qual das duas abraçar, a qual delas dirigir a palavra.
— Shridaman, querido amigo, que fizeste! Como conseguiste, por tuas próprias mãos e braços, realizar empreendimento tão difícil? Que se passou na tua alma, para te levar a isso! Oh! Desgraça! Oh! Desgraça! Dize, sou culpado? Sou, na verdade, culpado da tua morte, pelo simples facto de existir, senão também pelos meus actos? No entanto, que mais pode um homem fazer do que evitar agir? Fiquei calado o mais possível, para não me arriscar a que a minha voz parecesse meiga. Não disse palavras supérfluas nem a chamei pelo nome, quando lhe falava. Mas de que serve tudo isso, se fui culpado pela minha própria existência carnal? Devia ter ido para o deserto, como anacoreta, observando os preceitos mais rigorosos. Mas, em minha defesa, posso alegar que teria partido se tivesses falado. Porque nunca falaste, querida cabeça, antes de aí jazeres separada do corpo, quando ainda estavas sobre os ombros? Não falaste, agiste magnânima e cruelmente, mostrando-me como devo proceder. Certamente, não julgaste que eu te falharia, que os meus fortes braços hesitariam ante o feito que os teus delgados braços consumaram! Deveria, porventura, sair para contar-lhe o que fizeste e ouvir-lhe no grito de horror o júbilo secreto? Deveria seguir pelo mundo, com o nome enodoado, e deixar que o povo dissesse, como decerto diria: — Ali vai Nanda, o miserável; enganou o amigo e matou-o por cobiçar-lhe a mulher? Não, isso não! Nunca! Seguir-te-ei e que o eterno ventre beba o meu sangue junto com o teu.»
op. cit., p. 84-6
— Shridaman, querido amigo, que fizeste! Como conseguiste, por tuas próprias mãos e braços, realizar empreendimento tão difícil? Que se passou na tua alma, para te levar a isso! Oh! Desgraça! Oh! Desgraça! Dize, sou culpado? Sou, na verdade, culpado da tua morte, pelo simples facto de existir, senão também pelos meus actos? No entanto, que mais pode um homem fazer do que evitar agir? Fiquei calado o mais possível, para não me arriscar a que a minha voz parecesse meiga. Não disse palavras supérfluas nem a chamei pelo nome, quando lhe falava. Mas de que serve tudo isso, se fui culpado pela minha própria existência carnal? Devia ter ido para o deserto, como anacoreta, observando os preceitos mais rigorosos. Mas, em minha defesa, posso alegar que teria partido se tivesses falado. Porque nunca falaste, querida cabeça, antes de aí jazeres separada do corpo, quando ainda estavas sobre os ombros? Não falaste, agiste magnânima e cruelmente, mostrando-me como devo proceder. Certamente, não julgaste que eu te falharia, que os meus fortes braços hesitariam ante o feito que os teus delgados braços consumaram! Deveria, porventura, sair para contar-lhe o que fizeste e ouvir-lhe no grito de horror o júbilo secreto? Deveria seguir pelo mundo, com o nome enodoado, e deixar que o povo dissesse, como decerto diria: — Ali vai Nanda, o miserável; enganou o amigo e matou-o por cobiçar-lhe a mulher? Não, isso não! Nunca! Seguir-te-ei e que o eterno ventre beba o meu sangue junto com o teu.»
op. cit., p. 84-6
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 48
«Sabendo o que o esperava, devemos acompanhá-lo
através da sala de audiência, que percorreu
sem pressentimento algum, pelo vestíbulo,
onde ainda tudo ignorava, e, finalmente,
até ao seio da Mãe.
Ali, estacou cambaleante,
um abafado grito de horror nos lábios,
o amigo, rosto cor de cera, o turbante desfeito
na cabeça separada do tronco, enquanto o sangue
corria por muitos caminhos sinuosos, para a escura fossa.»
op.cit., p. 83
através da sala de audiência, que percorreu
sem pressentimento algum, pelo vestíbulo,
onde ainda tudo ignorava, e, finalmente,
até ao seio da Mãe.
Ali, estacou cambaleante,
um abafado grito de horror nos lábios,
o amigo, rosto cor de cera, o turbante desfeito
na cabeça separada do tronco, enquanto o sangue
corria por muitos caminhos sinuosos, para a escura fossa.»
op.cit., p. 83
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 47
«Nanda voltou-se resolutamente para a jovem mulher do amigo
e indagou: — Fazes alguma ideia dos motivos
que o levam a demorar-se tanto?
— Não posso imaginá-lo, Nanda — respondeu Sita, com a suave,
ritmada e melodiosa voz que ele tanto receara ouvir.
Também acrescentara, sem necessidade alguma,
o seu nome — outra coisa de que tivera medo.
— Vou dizer-te uma coisa, Nanda.
Devias ir à sua procura e ver o que está a fazer.
Não podemos esperar mais. É bastante estranho
que nos deixe aqui sentados, a perder tempo,
enquanto o Sol vai cada vez mais alto.»
— Está certo, vou buscá-lo — replicou Nanda
— Bastará lembrar-lhe a hora. Dizendo isto,
saltou da boleia e subiu ao santuário.»
op. cit., p. 81-2
e indagou: — Fazes alguma ideia dos motivos
que o levam a demorar-se tanto?
— Não posso imaginá-lo, Nanda — respondeu Sita, com a suave,
ritmada e melodiosa voz que ele tanto receara ouvir.
Também acrescentara, sem necessidade alguma,
o seu nome — outra coisa de que tivera medo.
— Vou dizer-te uma coisa, Nanda.
Devias ir à sua procura e ver o que está a fazer.
Não podemos esperar mais. É bastante estranho
que nos deixe aqui sentados, a perder tempo,
enquanto o Sol vai cada vez mais alto.»
— Está certo, vou buscá-lo — replicou Nanda
— Bastará lembrar-lhe a hora. Dizendo isto,
saltou da boleia e subiu ao santuário.»
op. cit., p. 81-2
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 46
novembro 30, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 45
«Deixemos agora as entranhas da caverna rochosa,
e voltemos ao ar livre, para junto dos dois que esperavam;
Shridaman manifestara o desejo de fazer apenas uma curta oração;
por que se demoraria tanto?»
op. cit., p.81
e voltemos ao ar livre, para junto dos dois que esperavam;
Shridaman manifestara o desejo de fazer apenas uma curta oração;
por que se demoraria tanto?»
op. cit., p.81
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 44
«Já de lábios exangues, rezou:
— Ó tu, que não tens princípio nem fim,
que existias antes da criação! O povo honra-te
com a imolação de inumeráveis criaturas,
pois a ti é devido o sangue,
a vida de todos!
Porque não hei-de obter a tua misericórdia
para a minha salvação, oferecendo-me a mim próprio,
em holocausto? Bem sei que nem assim poderei ficar livre
deste ego e não mais ser Shridaman, para quem toda
a volúpia não é mais do que perplexidade,
pois que não é ele que a desperta!»
Pronunciadas estas palavras,
ergueu a espada do solo
e separou do tronco a própria cabeça.»
op. cit., p. 76
— Ó tu, que não tens princípio nem fim,
que existias antes da criação! O povo honra-te
com a imolação de inumeráveis criaturas,
pois a ti é devido o sangue,
a vida de todos!
Porque não hei-de obter a tua misericórdia
para a minha salvação, oferecendo-me a mim próprio,
em holocausto? Bem sei que nem assim poderei ficar livre
deste ego e não mais ser Shridaman, para quem toda
a volúpia não é mais do que perplexidade,
pois que não é ele que a desperta!»
Pronunciadas estas palavras,
ergueu a espada do solo
e separou do tronco a própria cabeça.»
op. cit., p. 76
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 43
«Shridaman cravou os olhos cheios de místico terror
no semblante sinistro e feroz da Senhora da Vida
e da Morte, daquela que compele ao sacrifício.
O redemoinho dos braços arrastava-lhe os sentidos
num turbilhão de embriaguez.»
op.cit., p. 75-6
no semblante sinistro e feroz da Senhora da Vida
e da Morte, daquela que compele ao sacrifício.
O redemoinho dos braços arrastava-lhe os sentidos
num turbilhão de embriaguez.»
op.cit., p. 75-6
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 42
«No recinto escavado na rocha, Shridaman
atravessou a sala de audiência
dirigindo-se ao âmago do templo,
à matriz da grande Mãe.
Ao pé da escada, Shridaman estremeceu
e recuou titubeante. A figura de Kali era horrível.
Cercado por uma moldura de crânios e de mãos e pés decepados,
o ídolo sobressaía da parede de rocha viva. Adornavam-na
uma coroa resplandecente, e colares e cinto de ossos
e membros cortados, e os seus dezoito braços
formavam uma roda vertiginosa.
Ela brandia espadas e fachos ardentes.
Sangue ainda quente fumegava na taça feita de um crânio
que com uma das mãos levava à boca,
enquanto uma poça de sangue se estendia a seus pés.»
op. cit., p. 74
atravessou a sala de audiência
dirigindo-se ao âmago do templo,
à matriz da grande Mãe.
Ao pé da escada, Shridaman estremeceu
e recuou titubeante. A figura de Kali era horrível.
Cercado por uma moldura de crânios e de mãos e pés decepados,
o ídolo sobressaía da parede de rocha viva. Adornavam-na
uma coroa resplandecente, e colares e cinto de ossos
e membros cortados, e os seus dezoito braços
formavam uma roda vertiginosa.
Ela brandia espadas e fachos ardentes.
Sangue ainda quente fumegava na taça feita de um crânio
que com uma das mãos levava à boca,
enquanto uma poça de sangue se estendia a seus pés.»
op. cit., p. 74
novembro 29, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 41
«Obedecendo ao impulso do seu coração,
Shridaman exprimiu o desejo de parar
e prestar homenagem à Deusa.
«Voltarei dentro de poucos minutos.
— disse aos companheiros.
— Esperem aqui.»»
op. cit., p.73
Shridaman exprimiu o desejo de parar
e prestar homenagem à Deusa.
«Voltarei dentro de poucos minutos.
— disse aos companheiros.
— Esperem aqui.»»
op. cit., p.73
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 40
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 39
«Quando, finalmente, o dia rompeu, procuraram por todos os lados uma saída; ao atingirem a orla da selva, encontraram um estreito desfiladeiro entre rochedos e chegaram a um templo talhado na própria rocha»
op.cit., p.72
op.cit., p.72
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 38
novembro 28, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 37
«Sem luar, tendo apenas as estrelas para se orientar, entrou por um caminho que, daí a pouco, já não era caminho de espécie alguma mas uma vereda entre árvores, ainda assim ilusória e traiçoeira, pois a vegetação, tornando-se cada vez mais densa, transformava-se em cerrada floresta, onde logo se perdeu a senda pela qual podiam ter voltado.»
op. cit., p.72
op. cit., p.72
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 36
«A escuridão coadunava-se com os ânimos perturbados. Inconscientemente, projectavam no ambiente a confusão que lhes ia na alma — o que fez com que perdessem a direcção. Nanda esqueceu-se de guiar o zebu e o dromedário pelo atalho que, separando-se da estrada, levava à aldeia natal de Sita.»
op.cit., p.71
op.cit., p.71
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 35
«Viajavam, de preferência, nas trevas da noite ou melhor antes do amanhecer, evitando o calor opressivo do meio-dia, medida sensata, inspirada, no entanto, em outros motivos que não a sensatez.»
op.cit., p.71
op.cit., p.71
novembro 27, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 34
«Assim, em silêncio, prosseguiam a jornada,
mas a respiração dos três acelerava-se-lhes,
como se tivessem corrido.
Uma pessoa dotada de clarividência teria,
certamente, percebido a sombra
que sobre eles pairava
qual asa negra.»
op.cit., p.71
mas a respiração dos três acelerava-se-lhes,
como se tivessem corrido.
Uma pessoa dotada de clarividência teria,
certamente, percebido a sombra
que sobre eles pairava
qual asa negra.»
op.cit., p.71
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 33
«Foram num carro coberto, fechado por cortinas e puxado por um zebu e um dromedário. Nanda, servindo de condutor, ia sentado em frente do casal, as pernas pendentes balouçando. Os esposos permaneciam silenciosos, sentado atrás de Nanda, de tal modo que os seus olhares, quando dirigidos para a frente pousariam no seu pescoço; e assim faziam os da jovem mulher.»
op. cit., p.70
op. cit., p.70
novembro 26, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 32
«Seis meses decorreram desde que a mãe de Shridaman acolhera a linda Sita nos seus braços, na qualidade de filha e desde que esta concedera ao marido pleno gozo das delícias conjugais.
Passara o pesado Verão e, em breve, a estação das chuvas passaria também, quando, obtido o consentimento dos pais de Shridaman, os recém-casados combinaram com o seu amigo Nanda uma visita à família de Sita.»
op.cit., p.69
Passara o pesado Verão e, em breve, a estação das chuvas passaria também, quando, obtido o consentimento dos pais de Shridaman, os recém-casados combinaram com o seu amigo Nanda uma visita à família de Sita.»
op.cit., p.69
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 31
«Aqui advertimos o ouvinte, talvez levado pelo até agora
feliz desenrolar da narrativa, para que não se iluda
quanto ao seu verdadeiro carácter.»
op.cit., p.69
feliz desenrolar da narrativa, para que não se iluda
quanto ao seu verdadeiro carácter.»
op.cit., p.69
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 30
«Ali, entre beijos, gracejos e lágrimas, todos se despediram.
Nanda, que estivera a seu lado em todos os momentos,
foi o último a transpor o limiar da porta.»
op.cit., p.65
Nanda, que estivera a seu lado em todos os momentos,
foi o último a transpor o limiar da porta.»
op.cit., p.65
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 29
«Lá, novos ritos de bom augúrio se cumpriram, lá também caminharam em volta do fogo; ele deu-lhe cana-de-açúcar e deixou-lhe cair no regaço o anel nupcial. No banquete sentaram-se outra vez, cercados de parentes e amigos.
Depois de comerem e beberem, e após a aspersão de água de rosas e água do Ganges, foram acompanhados por todos os convidados até à alcova nupcial, que recebeu o nome de «aposento do par feliz», e onde se erguia o tálamo juncado de flores.»
op.cit., p.65
Depois de comerem e beberem, e após a aspersão de água de rosas e água do Ganges, foram acompanhados por todos os convidados até à alcova nupcial, que recebeu o nome de «aposento do par feliz», e onde se erguia o tálamo juncado de flores.»
op.cit., p.65
novembro 25, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 28
«E assim chegou o dia em que Sita, a de membros delicados, o corpo ungido de sândalo, cânfora e óleo de coco, ornada de jóias, cingida nas vestes nupciais, a cabeça envolta num vaporoso véu, fixou, pela primeira vez, os olhos no esposo que lhe fora destinado. Depois, em solene cortejo, num carro puxado por touros brancos, partiram para a sua aldeia e para junto da sua mãe.»
op. cit., p.64
op. cit., p.64
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 27
«O dia do casamento, escolhido conforme o conselho dos versados na interpretação dos signos celestes, aproximava-se. A fogueira nupcial foi feita sobre montes de bosta de vaca, no pátio da casa pertencente aos pais de Sita.»
op. cit., p.64
op. cit., p.64
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 26
«Se depressa o disse, mais depressa o fez. O contrato de casamento foi redigido, a sua assinatura celebrada com uma festa e troca de dádivas apropriadas.»
op.cit., p.63
op.cit., p.63
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 25
«Pouco a pouco, graças ao sólido raciocínio de Nanda, Shridaman deixou-se convencer e mostrou-se agradecido. Caberia a Nanda expor o assunto a Bhavabhuti, pai de Shridaman, e persuadi-lo a entrar em entendimento com os pais da donzela. Depois, como representante do pretendente, iria à aldeia do Abrigo do Bisonte, para solicitar a mão da eleita e para, no papel de amigo, facilitar a aproximação do par. »
op. cit., p.62
op. cit., p.62
novembro 24, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 24
«— Em suma, são gente com quem se pode falar;
e para que serviria um amigo como o teu Nanda,
senão para solucionar esse problema?
Ajudar-te-ei a construir a casa nupcial,
na qual podes viver venturoso
com a tua noiva de belos quadris!»
op.cit., p.59
e para que serviria um amigo como o teu Nanda,
senão para solucionar esse problema?
Ajudar-te-ei a construir a casa nupcial,
na qual podes viver venturoso
com a tua noiva de belos quadris!»
op.cit., p.59
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 23
Depois, sempre rindo, exclamou:
— Shridaman, meu irmão, como me sinto feliz por saber que não é nada de mais grave! Enganas-te ao julgar que só os deuses têm direito à realização dos seus desejos. Nada é mais humano e mais natural do que o teu anseio de semear naquele sulco. (Assim se exprimiu porque Sita significa sulco). Lembra-te que Sita da aldeia do Abrigo do Bisonte não é nenhuma Deusa, embora talvez assim te parecesse quando a viste nua no santuário de Durga; é uma pequena bastante vulgar embora excepcionalmente bonita; ela vive como toda a gente, debulha o milho, cozinha a sopa, fia lã e tem progenitores como toda a gente, ainda que Sumantra, o pai, possa vangloriar-se de ter algum sangue guerreiro nas veias.
op.cit., p.59
— Shridaman, meu irmão, como me sinto feliz por saber que não é nada de mais grave! Enganas-te ao julgar que só os deuses têm direito à realização dos seus desejos. Nada é mais humano e mais natural do que o teu anseio de semear naquele sulco. (Assim se exprimiu porque Sita significa sulco). Lembra-te que Sita da aldeia do Abrigo do Bisonte não é nenhuma Deusa, embora talvez assim te parecesse quando a viste nua no santuário de Durga; é uma pequena bastante vulgar embora excepcionalmente bonita; ela vive como toda a gente, debulha o milho, cozinha a sopa, fia lã e tem progenitores como toda a gente, ainda que Sumantra, o pai, possa vangloriar-se de ter algum sangue guerreiro nas veias.
op.cit., p.59
novembro 23, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 22
«Depois, de Nanda muito insistir, o amigo fez a seguinte confissão:
— Desde que no santuário de Dewi, contemplámos
aquela virgem nua mas virtuosa, um sofrimento
foi lançado na minha alma e me consome todas
as energias; rouba-me o sono e o apetite,
leva-me à destruição.
— Apaixonado! — gritou Nanda — Apaixonado!
Nada mais nada menos. Então é essa
a tua moléstia fatal.
Que graça!»
op.cit., p.58
— Desde que no santuário de Dewi, contemplámos
aquela virgem nua mas virtuosa, um sofrimento
foi lançado na minha alma e me consome todas
as energias; rouba-me o sono e o apetite,
leva-me à destruição.
— Apaixonado! — gritou Nanda — Apaixonado!
Nada mais nada menos. Então é essa
a tua moléstia fatal.
Que graça!»
op.cit., p.58
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 21
«Assim continuaram a jornada, até que as respectivas tarefas
os levaram por algum tempo por caminhos diferentes.
Mas já o sol se tinha levantado três vezes
quando os dois amigos voltaram
ao local de separação e de reencontro.
Shridaman apareceu de faces encovadas e olhos tristes.
Não manifestou alegria à vista do amigo e pôs-se a
andar ao lado de Nanda, abatido e desanimado.
Tudo parecia indicar doença,
o que Shridaman admitiu e mais
considerou a sua moléstia incurável e fatal.»
op.cit., p.53
os levaram por algum tempo por caminhos diferentes.
Mas já o sol se tinha levantado três vezes
quando os dois amigos voltaram
ao local de separação e de reencontro.
Shridaman apareceu de faces encovadas e olhos tristes.
Não manifestou alegria à vista do amigo e pôs-se a
andar ao lado de Nanda, abatido e desanimado.
Tudo parecia indicar doença,
o que Shridaman admitiu e mais
considerou a sua moléstia incurável e fatal.»
op.cit., p.53
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 20
«— Pronto, acabou-se! — disse Nanda.
— Agora, podemos ao menos falar e mover-nos.
— Devo confessar-te, Nanda, que experimentei
um verdadeiro alívio quando me disseste o nome
daquela que observamos, pois que conheci de Sita
algo mais do que a imagem, já que o nome
é parte da essência e da alma.»
op.cit., p.39
— Agora, podemos ao menos falar e mover-nos.
— Devo confessar-te, Nanda, que experimentei
um verdadeiro alívio quando me disseste o nome
daquela que observamos, pois que conheci de Sita
algo mais do que a imagem, já que o nome
é parte da essência e da alma.»
op.cit., p.39
novembro 22, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 19
«Depois, por alguns momentos, Sita ficou a brincar, ora mergulhando, ora deslizando nas águas. Quando, por fim, voltou a terra, estava fresca e rutilante, e ainda mais bela. Tornou a vestir-se e desapareceu nas escadarias que levavam ao templo.»
op.cit., p.39
op.cit., p.39
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 18
«— Mas eu conheço-a! — murmurou Nanda, de súbito, estalando os dedos. — Agora mesmo acabo de identificá-la. É Sita, filha de Sumantra, da vizinha aldeia do Abrigo do Bisonte. Baloucei-a nos braços em louvor ao Sol, na festa da Primavera. — Mais tarde mo contarás, peço-te — interrompeu Shridaman, num murmúrio ansioso.»
Op.cit., p.38
Op.cit., p.38
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 17
«Continuaram a olhar, calados e imóveis.
A jovem de bronze dourado unira as mãos e
rezava, antes de descer para o banho purificador.
Viram-na um pouco de perfil e assim não lhes passou
despercebido que não somente o corpo mas também
o rosto, entre os brincos oscilantes, era de rara beleza;
a harmonia era completa e a beleza da face
confirmava plenamente a perfeição das formas.»
Op.cit., p.37
A jovem de bronze dourado unira as mãos e
rezava, antes de descer para o banho purificador.
Viram-na um pouco de perfil e assim não lhes passou
despercebido que não somente o corpo mas também
o rosto, entre os brincos oscilantes, era de rara beleza;
a harmonia era completa e a beleza da face
confirmava plenamente a perfeição das formas.»
Op.cit., p.37
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 16
«— Retiremo-nos — disse Shridaman, sentando-se,
os olhos postos à virginal figura. — Não
é justo que não nos veja ~
enquanto a vemos.»
Op. cit., p.37
os olhos postos à virginal figura. — Não
é justo que não nos veja ~
enquanto a vemos.»
Op. cit., p.37
novembro 21, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 15
«O que mais impressionava em todo o conjunto, o que melhor representa o pensamento de Brama — sem, contudo, em nada prejudicar a perturbadora doçura dos seios, que deviam arrebatar irresistivelmente a alma mais fria e despertá-la para a vida dos sentidos — era a união das magníficas nádegas com a esbelteza e a dócil flexibilidade das espáduas de sílfide, acentuada pelo contraste entre o maravilhoso lance dos quadris — dignos por si sós de todos os encómios — e a grácil fragilidade da cintura.»
Op.cit., p.36
Op.cit., p.36
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 14
«Perto do santuário uma jovem preparava-se para cumprir o ritual da purificação. Estava inteiramente nua. A beleza do seu corpo deslumbrava. Parecia feita da essência de Maya, num colorido dos mais encantadores, nem muito escuro nem muito pálido, antes como bronze de reflexos dourados. As suas formas soberbas correspondiam ao pensamento de Brama: as adoráveis espáduas eram delicadas como as de uma menina; a deliciosa curva dos quadris alargava-se numa ampla bacia; os seios, virginais e firmes, despontavam quais botões floridos e as esplêndidas linhas das nádegas bem nutridas estreitavam-se para o dorso, o menor e mais delicado que se podia imaginar.»
Op.cit., p.35
Op.cit., p.35
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 13
«— Pss…! Pelo fogo dos céus e o trovão das nuvens! —
sussurrou de repente, pousando um dedo sobre os grossos lábios.
— Shridaman, meu irmão, senta-te de manso e espreita.
Vê quem desce para o banho. Abre os olhos que vale a pena!
Ela não pode ver-nos, mas nós podemos vê-la perfeitamente.»
Op.cit., p.35
sussurrou de repente, pousando um dedo sobre os grossos lábios.
— Shridaman, meu irmão, senta-te de manso e espreita.
Vê quem desce para o banho. Abre os olhos que vale a pena!
Ela não pode ver-nos, mas nós podemos vê-la perfeitamente.»
Op.cit., p.35
novembro 20, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 12
«Ficaram calados por algum tempo. Shridaman permaneceu
deitado, contemplando o céu. Nanda, os braços robustos
cingindo os joelhos, olhava por entre as árvores para
o declive que levava ao lugar do banho
sagrado da Mãe Kali.»
op. cit., p.35
deitado, contemplando o céu. Nanda, os braços robustos
cingindo os joelhos, olhava por entre as árvores para
o declive que levava ao lugar do banho
sagrado da Mãe Kali.»
op. cit., p.35
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 11
«Os jovens manifestaram prazer por terem chegado a
esse sítio que lhes oferecia ensejo para a devoção,
bem como para restaurar as forças
e descansar à sombra.»
op. cit., p.20
esse sítio que lhes oferecia ensejo para a devoção,
bem como para restaurar as forças
e descansar à sombra.»
op. cit., p.20
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" 10
«O templo era dedicado à Senhora de todos os desejos e alegrias
e ostentava uma cúpula em forma de bulbo.
Os degraus que conduziam ao rio também eram de madeira
e estavam gastos, mas ainda serviam para uma descida digna.»
op. cit., p.19
e ostentava uma cúpula em forma de bulbo.
Os degraus que conduziam ao rio também eram de madeira
e estavam gastos, mas ainda serviam para uma descida digna.»
op. cit., p.19
novembro 19, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 9
«O local onde os dois amigos pararam não era um desses
grandes centros, cheios de oferendas, mas simplesmente
na margem do riacho da Mosca Dourada, que ali se elevava
em áspero declive. No topo ficava um pequeno templo
de madeira, já um tanto escalavrado, mas abundante
em figuras ricamente esculpidas.»
op.cit., p.19
grandes centros, cheios de oferendas, mas simplesmente
na margem do riacho da Mosca Dourada, que ali se elevava
em áspero declive. No topo ficava um pequeno templo
de madeira, já um tanto escalavrado, mas abundante
em figuras ricamente esculpidas.»
op.cit., p.19
novembro 18, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 8
«Assim, chegaram a um local de imersão ritual, consagrado a Kali,
Mãe dos mundos e de todos os seres, aquela que a tudo abraça
e que é a embriaguez dos sonhos de Vichnu.»
op.cit., p.18
Mãe dos mundos e de todos os seres, aquela que a tudo abraça
e que é a embriaguez dos sonhos de Vichnu.»
op.cit., p.18
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 7
«Aconteceu, porém, que na linda Primavera,
quando o ar vibrava com o canto dos pássaros,
Nanda e Shridaman fizeram juntos uma viagem
a pé pelo país, cada qual por motivos particulares.»
op.cit., p.17
quando o ar vibrava com o canto dos pássaros,
Nanda e Shridaman fizeram juntos uma viagem
a pé pelo país, cada qual por motivos particulares.»
op.cit., p.17
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 6
«A amizade dos dois jovens assentava na divergência
entre as suas noções acerca da pessoa física e moral;
cada um deles procurava modelar a sua pela
do companheiro. Com efeito, a encarnação
cria o individualismo, este provoca a
diferença, a diferença engendra a
comparação,
desta nasce o desassossego, o desassossego
suscita o espanto, o espanto tende à admiração,
a admiração, finalmente, desperta o desejo
de troca e união.»
op.cit., p.10
entre as suas noções acerca da pessoa física e moral;
cada um deles procurava modelar a sua pela
do companheiro. Com efeito, a encarnação
cria o individualismo, este provoca a
diferença, a diferença engendra a
comparação,
desta nasce o desassossego, o desassossego
suscita o espanto, o espanto tende à admiração,
a admiração, finalmente, desperta o desejo
de troca e união.»
op.cit., p.10
novembro 17, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 5
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 3
«Do princípio ao fim, ela sucedeu exactamente como vamos dizer:
— Era no tempo em que a memória se elevava na alma dos homens,
em que a nostalgia da Mãe comum rodeava os velhos
símbolos de um novo e santo prestígio temeroso
e engrossava a multidão dos peregrinos
que, na Primavera, afluíam aos santuários
da grande Nutriz do Mundo;
foi nesse tempo que dois jovens, pouco diferentes em idade
e casta porém muito dessemelhantes de corpo,
se tornaram íntimos amigos.»
op.cit., p.9
— Era no tempo em que a memória se elevava na alma dos homens,
em que a nostalgia da Mãe comum rodeava os velhos
símbolos de um novo e santo prestígio temeroso
e engrossava a multidão dos peregrinos
que, na Primavera, afluíam aos santuários
da grande Nutriz do Mundo;
foi nesse tempo que dois jovens, pouco diferentes em idade
e casta porém muito dessemelhantes de corpo,
se tornaram íntimos amigos.»
op.cit., p.9
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 2
«Seria desejável, para quem a escuta, tomar por modelo
a intrepidez do narrador, pois requer quase
mais coragem relatar do que
ouvir tal história.»
op.cit., p.9
a intrepidez do narrador, pois requer quase
mais coragem relatar do que
ouvir tal história.»
op.cit., p.9
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 1
«A história de Sita, a dos belos quadris, filha de Sumantra,
criador de gado, mas de linhagem guerreira, e dos seus dois esposos
(se assim podemos dizer) é de tal modo sangrenta e perturbadora
para os sentidos, que exige do ouvinte grande energia e
firmeza de ânimo para resistir às aterradoras
fantasmagorias de Maya.»
op.cit., p.9
criador de gado, mas de linhagem guerreira, e dos seus dois esposos
(se assim podemos dizer) é de tal modo sangrenta e perturbadora
para os sentidos, que exige do ouvinte grande energia e
firmeza de ânimo para resistir às aterradoras
fantasmagorias de Maya.»
op.cit., p.9
Thomas Mann
Thomas Mann (1875-1955), romancista admirável,
prémio Nobel de Literatura de 1929, publicou em 1940
um dos seus contos mais exóticos, de uma sensualidade
excerbada e uma violência sanguinária tal que o leitor
queda-se perplexo pelo ritmo estonteante das paixões
que se desenrolam sob a pena brilhante do escritor
consagrado: As Cabeças Trocadas -Uma lenda hindu,
(«Die vertauschten Köpfe» - Eine indische Legende).
A fim de estimular a leitura desta e doutras obras do autor,
transcreverei de seguida - com omissões -, alguns trechos
significativos daquela lenda, intercalando-os
com imagens avulsas da net, baseado
na tradução de Liane de Oliveira
e E. Carrera Guerra, editora
«Livros do Brasil», 1987.
novembro 03, 2007

«A potência é poder efectivo, não uma simples possibilidade.
Todos os seres realizam, em cada instante, toda a sua potência,
que o mesmo é dizer, fazem tudo quanto podem para sobreviver.
É, portanto, pelo respectivo grau de potência que se define cada um deles.
Cada ser, cada indivíduo, é aquilo que for a sua potência ou grau de afirmação
e perseverança face ao contexto que o rodeia. Pela mesma razão,
cada ser, em cada momento, é tudo quanto pode.
Donde se conclui que a virtude equivale, por definição,
à própria realização do que é útil à conservação do ser.»
Diogo Pires Aurélio, Imaginação e Poder,
Edições Colibri, Lisboa, 2000, p. 84
outubro 24, 2007
«So too, in order to explain the features of nature, we are permitted to assume any hypothesis we please, provided we deduce from it by mathematical inference all the phenomena of nature. And a more important point to note is this, that there is hardly any assumption we can make from which the same effects cannot be deduced — although perhaps with more trouble — from the laws of nature explained previously. For because, by the operation of those laws, matter assumes successively all the forms of which it is capable, if we consider those forms in due order, we shall finally be able to arrive at the form that is the form og this world. So one need fear no error from a false hypothesis.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 22, 2007
«Next, we say that the principles we seek are such that we may demonstrate that from them the stars, the earth, etc., could have arisen. [ ] Now to discover these causes, the following are the requirements of a good hypothesis.
1. Considered only in itself, it must not imply any contradiction.
2. It must be the simplest that can be.
3. Following from (2), it must be very easy to know.
4. Everything that is observed in the whole of nature must be able to be deduced from it.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 18, 2007
«Then again, because the best way to understand the nature of Plants or Man is to consider in what way they gradually come into existence and are generated from their seeds, we must devise such principles as are the simplest and easiest to know, from which we may demonstrate that the stars, the earth, in short, everything we observe in this visible world, could have arisen as from certain seeds — although we may well know that they never did thus arise. For in this way we shall explain their nature far better than if we were to describe them only as they are now.
I say that we seek principles that are simple and easy to know; for unless they are such, we shall not be in need of them. The only reason why we assign seeds to things is to get to know their nature more easily and, like mathematicians, to ascend from the clearest to the more obscure and from the simplest to the more complex.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 16, 2007
Propostion 32. - «If a body B is surrounded on all sides by particles in motion, which at the same time are impelling it with equal force in all directions, as long as no other cause occurs it will remain unmoved in the same place.»
Proof. - «This proposition is self-evident. For if it were to move in any direction through the impulse of particles coming from one direction, the particles that move it would be impelling it with greater force than other particles that at the same time are impelling it in the opposite direction, with no effect [ ]. This would be contrary to the hypothesis.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy
outubro 11, 2007
outubro 01, 2007
setembro 29, 2007
setembro 23, 2007
Descartes
Da Admiração. Sua definição e causa
A Admiração é uma súbita surpresa da alma, que a dispõe a considerar com atenção os objectos que lhe parecem raros e extraordinários. Ela tem como causa, em primeiro lugar, a impressão que se tem no cérebro, e que representa o objecto como raro, e digno por consequência de ser muito considerado; em seguida o movimento dos espíritos, que tendem com grande força, em virtude dessa impressão para a zona do cérebro onde ela existe, para a fortalecerem e conservarem; como também são dispostos por ela a passarem daí aos músculos, que servem para manter os orgãos dos sentidos na situação em que se encontram, a fim de a manterem, se foi por eles que ela se formou.
Descartes, Tratado das paixões da alma, artigo LXX
A Admiração é uma súbita surpresa da alma, que a dispõe a considerar com atenção os objectos que lhe parecem raros e extraordinários. Ela tem como causa, em primeiro lugar, a impressão que se tem no cérebro, e que representa o objecto como raro, e digno por consequência de ser muito considerado; em seguida o movimento dos espíritos, que tendem com grande força, em virtude dessa impressão para a zona do cérebro onde ela existe, para a fortalecerem e conservarem; como também são dispostos por ela a passarem daí aos músculos, que servem para manter os orgãos dos sentidos na situação em que se encontram, a fim de a manterem, se foi por eles que ela se formou.
Descartes, Tratado das paixões da alma, artigo LXX
