enquanto uma poça de sangue se estendia a seus pés.
novembro 30, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 42
«No recinto escavado na rocha, Shridaman
atravessou a sala de audiência
dirigindo-se ao âmago do templo,
à matriz da grande Mãe.
Ao pé da escada, Shridaman estremeceu
e recuou titubeante. A figura de Kali era horrível.
Cercado por uma moldura de crânios e de mãos e pés decepados,
o ídolo sobressaía da parede de rocha viva. Adornavam-na
uma coroa resplandecente, e colares e cinto de ossos
e membros cortados, e os seus dezoito braços
formavam uma roda vertiginosa.
Ela brandia espadas e fachos ardentes.
Sangue ainda quente fumegava na taça feita de um crânio
que com uma das mãos levava à boca,
enquanto uma poça de sangue se estendia a seus pés.»
op. cit., p. 74
atravessou a sala de audiência
dirigindo-se ao âmago do templo,
à matriz da grande Mãe.
Ao pé da escada, Shridaman estremeceu
e recuou titubeante. A figura de Kali era horrível.
Cercado por uma moldura de crânios e de mãos e pés decepados,
o ídolo sobressaía da parede de rocha viva. Adornavam-na
uma coroa resplandecente, e colares e cinto de ossos
e membros cortados, e os seus dezoito braços
formavam uma roda vertiginosa.
Ela brandia espadas e fachos ardentes.
Sangue ainda quente fumegava na taça feita de um crânio
que com uma das mãos levava à boca,
enquanto uma poça de sangue se estendia a seus pés.»
op. cit., p. 74
novembro 29, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 41
«Obedecendo ao impulso do seu coração,
Shridaman exprimiu o desejo de parar
e prestar homenagem à Deusa.
«Voltarei dentro de poucos minutos.
— disse aos companheiros.
— Esperem aqui.»»
op. cit., p.73
Shridaman exprimiu o desejo de parar
e prestar homenagem à Deusa.
«Voltarei dentro de poucos minutos.
— disse aos companheiros.
— Esperem aqui.»»
op. cit., p.73
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 40
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 39
«Quando, finalmente, o dia rompeu, procuraram por todos os lados uma saída; ao atingirem a orla da selva, encontraram um estreito desfiladeiro entre rochedos e chegaram a um templo talhado na própria rocha»
op.cit., p.72
op.cit., p.72
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 38
novembro 28, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 37
«Sem luar, tendo apenas as estrelas para se orientar, entrou por um caminho que, daí a pouco, já não era caminho de espécie alguma mas uma vereda entre árvores, ainda assim ilusória e traiçoeira, pois a vegetação, tornando-se cada vez mais densa, transformava-se em cerrada floresta, onde logo se perdeu a senda pela qual podiam ter voltado.»
op. cit., p.72
op. cit., p.72
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 36
«A escuridão coadunava-se com os ânimos perturbados. Inconscientemente, projectavam no ambiente a confusão que lhes ia na alma — o que fez com que perdessem a direcção. Nanda esqueceu-se de guiar o zebu e o dromedário pelo atalho que, separando-se da estrada, levava à aldeia natal de Sita.»
op.cit., p.71
op.cit., p.71
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 35
«Viajavam, de preferência, nas trevas da noite ou melhor antes do amanhecer, evitando o calor opressivo do meio-dia, medida sensata, inspirada, no entanto, em outros motivos que não a sensatez.»
op.cit., p.71
op.cit., p.71
novembro 27, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 34
«Assim, em silêncio, prosseguiam a jornada,
mas a respiração dos três acelerava-se-lhes,
como se tivessem corrido.
Uma pessoa dotada de clarividência teria,
certamente, percebido a sombra
que sobre eles pairava
qual asa negra.»
op.cit., p.71
mas a respiração dos três acelerava-se-lhes,
como se tivessem corrido.
Uma pessoa dotada de clarividência teria,
certamente, percebido a sombra
que sobre eles pairava
qual asa negra.»
op.cit., p.71
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 33
«Foram num carro coberto, fechado por cortinas e puxado por um zebu e um dromedário. Nanda, servindo de condutor, ia sentado em frente do casal, as pernas pendentes balouçando. Os esposos permaneciam silenciosos, sentado atrás de Nanda, de tal modo que os seus olhares, quando dirigidos para a frente pousariam no seu pescoço; e assim faziam os da jovem mulher.»
op. cit., p.70
op. cit., p.70
novembro 26, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 32
«Seis meses decorreram desde que a mãe de Shridaman acolhera a linda Sita nos seus braços, na qualidade de filha e desde que esta concedera ao marido pleno gozo das delícias conjugais.
Passara o pesado Verão e, em breve, a estação das chuvas passaria também, quando, obtido o consentimento dos pais de Shridaman, os recém-casados combinaram com o seu amigo Nanda uma visita à família de Sita.»
op.cit., p.69
Passara o pesado Verão e, em breve, a estação das chuvas passaria também, quando, obtido o consentimento dos pais de Shridaman, os recém-casados combinaram com o seu amigo Nanda uma visita à família de Sita.»
op.cit., p.69
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 31
«Aqui advertimos o ouvinte, talvez levado pelo até agora
feliz desenrolar da narrativa, para que não se iluda
quanto ao seu verdadeiro carácter.»
op.cit., p.69
feliz desenrolar da narrativa, para que não se iluda
quanto ao seu verdadeiro carácter.»
op.cit., p.69
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 30
«Ali, entre beijos, gracejos e lágrimas, todos se despediram.
Nanda, que estivera a seu lado em todos os momentos,
foi o último a transpor o limiar da porta.»
op.cit., p.65
Nanda, que estivera a seu lado em todos os momentos,
foi o último a transpor o limiar da porta.»
op.cit., p.65
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 29
«Lá, novos ritos de bom augúrio se cumpriram, lá também caminharam em volta do fogo; ele deu-lhe cana-de-açúcar e deixou-lhe cair no regaço o anel nupcial. No banquete sentaram-se outra vez, cercados de parentes e amigos.
Depois de comerem e beberem, e após a aspersão de água de rosas e água do Ganges, foram acompanhados por todos os convidados até à alcova nupcial, que recebeu o nome de «aposento do par feliz», e onde se erguia o tálamo juncado de flores.»
op.cit., p.65
Depois de comerem e beberem, e após a aspersão de água de rosas e água do Ganges, foram acompanhados por todos os convidados até à alcova nupcial, que recebeu o nome de «aposento do par feliz», e onde se erguia o tálamo juncado de flores.»
op.cit., p.65
novembro 25, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 28
«E assim chegou o dia em que Sita, a de membros delicados, o corpo ungido de sândalo, cânfora e óleo de coco, ornada de jóias, cingida nas vestes nupciais, a cabeça envolta num vaporoso véu, fixou, pela primeira vez, os olhos no esposo que lhe fora destinado. Depois, em solene cortejo, num carro puxado por touros brancos, partiram para a sua aldeia e para junto da sua mãe.»
op. cit., p.64
op. cit., p.64
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 27
«O dia do casamento, escolhido conforme o conselho dos versados na interpretação dos signos celestes, aproximava-se. A fogueira nupcial foi feita sobre montes de bosta de vaca, no pátio da casa pertencente aos pais de Sita.»
op. cit., p.64
op. cit., p.64
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 26
«Se depressa o disse, mais depressa o fez. O contrato de casamento foi redigido, a sua assinatura celebrada com uma festa e troca de dádivas apropriadas.»
op.cit., p.63
op.cit., p.63
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 25
«Pouco a pouco, graças ao sólido raciocínio de Nanda, Shridaman deixou-se convencer e mostrou-se agradecido. Caberia a Nanda expor o assunto a Bhavabhuti, pai de Shridaman, e persuadi-lo a entrar em entendimento com os pais da donzela. Depois, como representante do pretendente, iria à aldeia do Abrigo do Bisonte, para solicitar a mão da eleita e para, no papel de amigo, facilitar a aproximação do par. »
op. cit., p.62
op. cit., p.62
novembro 24, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 24
«— Em suma, são gente com quem se pode falar;
e para que serviria um amigo como o teu Nanda,
senão para solucionar esse problema?
Ajudar-te-ei a construir a casa nupcial,
na qual podes viver venturoso
com a tua noiva de belos quadris!»
op.cit., p.59
e para que serviria um amigo como o teu Nanda,
senão para solucionar esse problema?
Ajudar-te-ei a construir a casa nupcial,
na qual podes viver venturoso
com a tua noiva de belos quadris!»
op.cit., p.59
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 23
Depois, sempre rindo, exclamou:
— Shridaman, meu irmão, como me sinto feliz por saber que não é nada de mais grave! Enganas-te ao julgar que só os deuses têm direito à realização dos seus desejos. Nada é mais humano e mais natural do que o teu anseio de semear naquele sulco. (Assim se exprimiu porque Sita significa sulco). Lembra-te que Sita da aldeia do Abrigo do Bisonte não é nenhuma Deusa, embora talvez assim te parecesse quando a viste nua no santuário de Durga; é uma pequena bastante vulgar embora excepcionalmente bonita; ela vive como toda a gente, debulha o milho, cozinha a sopa, fia lã e tem progenitores como toda a gente, ainda que Sumantra, o pai, possa vangloriar-se de ter algum sangue guerreiro nas veias.
op.cit., p.59
— Shridaman, meu irmão, como me sinto feliz por saber que não é nada de mais grave! Enganas-te ao julgar que só os deuses têm direito à realização dos seus desejos. Nada é mais humano e mais natural do que o teu anseio de semear naquele sulco. (Assim se exprimiu porque Sita significa sulco). Lembra-te que Sita da aldeia do Abrigo do Bisonte não é nenhuma Deusa, embora talvez assim te parecesse quando a viste nua no santuário de Durga; é uma pequena bastante vulgar embora excepcionalmente bonita; ela vive como toda a gente, debulha o milho, cozinha a sopa, fia lã e tem progenitores como toda a gente, ainda que Sumantra, o pai, possa vangloriar-se de ter algum sangue guerreiro nas veias.
op.cit., p.59
novembro 23, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 22
«Depois, de Nanda muito insistir, o amigo fez a seguinte confissão:
— Desde que no santuário de Dewi, contemplámos
aquela virgem nua mas virtuosa, um sofrimento
foi lançado na minha alma e me consome todas
as energias; rouba-me o sono e o apetite,
leva-me à destruição.
— Apaixonado! — gritou Nanda — Apaixonado!
Nada mais nada menos. Então é essa
a tua moléstia fatal.
Que graça!»
op.cit., p.58
— Desde que no santuário de Dewi, contemplámos
aquela virgem nua mas virtuosa, um sofrimento
foi lançado na minha alma e me consome todas
as energias; rouba-me o sono e o apetite,
leva-me à destruição.
— Apaixonado! — gritou Nanda — Apaixonado!
Nada mais nada menos. Então é essa
a tua moléstia fatal.
Que graça!»
op.cit., p.58
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 21
«Assim continuaram a jornada, até que as respectivas tarefas
os levaram por algum tempo por caminhos diferentes.
Mas já o sol se tinha levantado três vezes
quando os dois amigos voltaram
ao local de separação e de reencontro.
Shridaman apareceu de faces encovadas e olhos tristes.
Não manifestou alegria à vista do amigo e pôs-se a
andar ao lado de Nanda, abatido e desanimado.
Tudo parecia indicar doença,
o que Shridaman admitiu e mais
considerou a sua moléstia incurável e fatal.»
op.cit., p.53
os levaram por algum tempo por caminhos diferentes.
Mas já o sol se tinha levantado três vezes
quando os dois amigos voltaram
ao local de separação e de reencontro.
Shridaman apareceu de faces encovadas e olhos tristes.
Não manifestou alegria à vista do amigo e pôs-se a
andar ao lado de Nanda, abatido e desanimado.
Tudo parecia indicar doença,
o que Shridaman admitiu e mais
considerou a sua moléstia incurável e fatal.»
op.cit., p.53
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 20
«— Pronto, acabou-se! — disse Nanda.
— Agora, podemos ao menos falar e mover-nos.
— Devo confessar-te, Nanda, que experimentei
um verdadeiro alívio quando me disseste o nome
daquela que observamos, pois que conheci de Sita
algo mais do que a imagem, já que o nome
é parte da essência e da alma.»
op.cit., p.39
— Agora, podemos ao menos falar e mover-nos.
— Devo confessar-te, Nanda, que experimentei
um verdadeiro alívio quando me disseste o nome
daquela que observamos, pois que conheci de Sita
algo mais do que a imagem, já que o nome
é parte da essência e da alma.»
op.cit., p.39
novembro 22, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 19
«Depois, por alguns momentos, Sita ficou a brincar, ora mergulhando, ora deslizando nas águas. Quando, por fim, voltou a terra, estava fresca e rutilante, e ainda mais bela. Tornou a vestir-se e desapareceu nas escadarias que levavam ao templo.»
op.cit., p.39
op.cit., p.39
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 18
«— Mas eu conheço-a! — murmurou Nanda, de súbito, estalando os dedos. — Agora mesmo acabo de identificá-la. É Sita, filha de Sumantra, da vizinha aldeia do Abrigo do Bisonte. Baloucei-a nos braços em louvor ao Sol, na festa da Primavera. — Mais tarde mo contarás, peço-te — interrompeu Shridaman, num murmúrio ansioso.»
Op.cit., p.38
Op.cit., p.38
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 17
«Continuaram a olhar, calados e imóveis.
A jovem de bronze dourado unira as mãos e
rezava, antes de descer para o banho purificador.
Viram-na um pouco de perfil e assim não lhes passou
despercebido que não somente o corpo mas também
o rosto, entre os brincos oscilantes, era de rara beleza;
a harmonia era completa e a beleza da face
confirmava plenamente a perfeição das formas.»
Op.cit., p.37
A jovem de bronze dourado unira as mãos e
rezava, antes de descer para o banho purificador.
Viram-na um pouco de perfil e assim não lhes passou
despercebido que não somente o corpo mas também
o rosto, entre os brincos oscilantes, era de rara beleza;
a harmonia era completa e a beleza da face
confirmava plenamente a perfeição das formas.»
Op.cit., p.37
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 16
«— Retiremo-nos — disse Shridaman, sentando-se,
os olhos postos à virginal figura. — Não
é justo que não nos veja ~
enquanto a vemos.»
Op. cit., p.37
os olhos postos à virginal figura. — Não
é justo que não nos veja ~
enquanto a vemos.»
Op. cit., p.37
novembro 21, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 15
«O que mais impressionava em todo o conjunto, o que melhor representa o pensamento de Brama — sem, contudo, em nada prejudicar a perturbadora doçura dos seios, que deviam arrebatar irresistivelmente a alma mais fria e despertá-la para a vida dos sentidos — era a união das magníficas nádegas com a esbelteza e a dócil flexibilidade das espáduas de sílfide, acentuada pelo contraste entre o maravilhoso lance dos quadris — dignos por si sós de todos os encómios — e a grácil fragilidade da cintura.»
Op.cit., p.36
Op.cit., p.36
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 14
«Perto do santuário uma jovem preparava-se para cumprir o ritual da purificação. Estava inteiramente nua. A beleza do seu corpo deslumbrava. Parecia feita da essência de Maya, num colorido dos mais encantadores, nem muito escuro nem muito pálido, antes como bronze de reflexos dourados. As suas formas soberbas correspondiam ao pensamento de Brama: as adoráveis espáduas eram delicadas como as de uma menina; a deliciosa curva dos quadris alargava-se numa ampla bacia; os seios, virginais e firmes, despontavam quais botões floridos e as esplêndidas linhas das nádegas bem nutridas estreitavam-se para o dorso, o menor e mais delicado que se podia imaginar.»
Op.cit., p.35
Op.cit., p.35
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 13
«— Pss…! Pelo fogo dos céus e o trovão das nuvens! —
sussurrou de repente, pousando um dedo sobre os grossos lábios.
— Shridaman, meu irmão, senta-te de manso e espreita.
Vê quem desce para o banho. Abre os olhos que vale a pena!
Ela não pode ver-nos, mas nós podemos vê-la perfeitamente.»
Op.cit., p.35
sussurrou de repente, pousando um dedo sobre os grossos lábios.
— Shridaman, meu irmão, senta-te de manso e espreita.
Vê quem desce para o banho. Abre os olhos que vale a pena!
Ela não pode ver-nos, mas nós podemos vê-la perfeitamente.»
Op.cit., p.35
novembro 20, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 12
«Ficaram calados por algum tempo. Shridaman permaneceu
deitado, contemplando o céu. Nanda, os braços robustos
cingindo os joelhos, olhava por entre as árvores para
o declive que levava ao lugar do banho
sagrado da Mãe Kali.»
op. cit., p.35
deitado, contemplando o céu. Nanda, os braços robustos
cingindo os joelhos, olhava por entre as árvores para
o declive que levava ao lugar do banho
sagrado da Mãe Kali.»
op. cit., p.35
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 11
«Os jovens manifestaram prazer por terem chegado a
esse sítio que lhes oferecia ensejo para a devoção,
bem como para restaurar as forças
e descansar à sombra.»
op. cit., p.20
esse sítio que lhes oferecia ensejo para a devoção,
bem como para restaurar as forças
e descansar à sombra.»
op. cit., p.20
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" 10
«O templo era dedicado à Senhora de todos os desejos e alegrias
e ostentava uma cúpula em forma de bulbo.
Os degraus que conduziam ao rio também eram de madeira
e estavam gastos, mas ainda serviam para uma descida digna.»
op. cit., p.19
e ostentava uma cúpula em forma de bulbo.
Os degraus que conduziam ao rio também eram de madeira
e estavam gastos, mas ainda serviam para uma descida digna.»
op. cit., p.19
novembro 19, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 9
«O local onde os dois amigos pararam não era um desses
grandes centros, cheios de oferendas, mas simplesmente
na margem do riacho da Mosca Dourada, que ali se elevava
em áspero declive. No topo ficava um pequeno templo
de madeira, já um tanto escalavrado, mas abundante
em figuras ricamente esculpidas.»
op.cit., p.19
grandes centros, cheios de oferendas, mas simplesmente
na margem do riacho da Mosca Dourada, que ali se elevava
em áspero declive. No topo ficava um pequeno templo
de madeira, já um tanto escalavrado, mas abundante
em figuras ricamente esculpidas.»
op.cit., p.19
novembro 18, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 8
«Assim, chegaram a um local de imersão ritual, consagrado a Kali,
Mãe dos mundos e de todos os seres, aquela que a tudo abraça
e que é a embriaguez dos sonhos de Vichnu.»
op.cit., p.18
Mãe dos mundos e de todos os seres, aquela que a tudo abraça
e que é a embriaguez dos sonhos de Vichnu.»
op.cit., p.18
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 7
«Aconteceu, porém, que na linda Primavera,
quando o ar vibrava com o canto dos pássaros,
Nanda e Shridaman fizeram juntos uma viagem
a pé pelo país, cada qual por motivos particulares.»
op.cit., p.17
quando o ar vibrava com o canto dos pássaros,
Nanda e Shridaman fizeram juntos uma viagem
a pé pelo país, cada qual por motivos particulares.»
op.cit., p.17
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 6
«A amizade dos dois jovens assentava na divergência
entre as suas noções acerca da pessoa física e moral;
cada um deles procurava modelar a sua pela
do companheiro. Com efeito, a encarnação
cria o individualismo, este provoca a
diferença, a diferença engendra a
comparação,
desta nasce o desassossego, o desassossego
suscita o espanto, o espanto tende à admiração,
a admiração, finalmente, desperta o desejo
de troca e união.»
op.cit., p.10
entre as suas noções acerca da pessoa física e moral;
cada um deles procurava modelar a sua pela
do companheiro. Com efeito, a encarnação
cria o individualismo, este provoca a
diferença, a diferença engendra a
comparação,
desta nasce o desassossego, o desassossego
suscita o espanto, o espanto tende à admiração,
a admiração, finalmente, desperta o desejo
de troca e união.»
op.cit., p.10
novembro 17, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 5
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 3
«Do princípio ao fim, ela sucedeu exactamente como vamos dizer:
— Era no tempo em que a memória se elevava na alma dos homens,
em que a nostalgia da Mãe comum rodeava os velhos
símbolos de um novo e santo prestígio temeroso
e engrossava a multidão dos peregrinos
que, na Primavera, afluíam aos santuários
da grande Nutriz do Mundo;
foi nesse tempo que dois jovens, pouco diferentes em idade
e casta porém muito dessemelhantes de corpo,
se tornaram íntimos amigos.»
op.cit., p.9
— Era no tempo em que a memória se elevava na alma dos homens,
em que a nostalgia da Mãe comum rodeava os velhos
símbolos de um novo e santo prestígio temeroso
e engrossava a multidão dos peregrinos
que, na Primavera, afluíam aos santuários
da grande Nutriz do Mundo;
foi nesse tempo que dois jovens, pouco diferentes em idade
e casta porém muito dessemelhantes de corpo,
se tornaram íntimos amigos.»
op.cit., p.9
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 2
«Seria desejável, para quem a escuta, tomar por modelo
a intrepidez do narrador, pois requer quase
mais coragem relatar do que
ouvir tal história.»
op.cit., p.9
a intrepidez do narrador, pois requer quase
mais coragem relatar do que
ouvir tal história.»
op.cit., p.9
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 1
«A história de Sita, a dos belos quadris, filha de Sumantra,
criador de gado, mas de linhagem guerreira, e dos seus dois esposos
(se assim podemos dizer) é de tal modo sangrenta e perturbadora
para os sentidos, que exige do ouvinte grande energia e
firmeza de ânimo para resistir às aterradoras
fantasmagorias de Maya.»
op.cit., p.9
criador de gado, mas de linhagem guerreira, e dos seus dois esposos
(se assim podemos dizer) é de tal modo sangrenta e perturbadora
para os sentidos, que exige do ouvinte grande energia e
firmeza de ânimo para resistir às aterradoras
fantasmagorias de Maya.»
op.cit., p.9
Thomas Mann
Thomas Mann (1875-1955), romancista admirável,
prémio Nobel de Literatura de 1929, publicou em 1940
um dos seus contos mais exóticos, de uma sensualidade
excerbada e uma violência sanguinária tal que o leitor
queda-se perplexo pelo ritmo estonteante das paixões
que se desenrolam sob a pena brilhante do escritor
consagrado: As Cabeças Trocadas -Uma lenda hindu,
(«Die vertauschten Köpfe» - Eine indische Legende).
A fim de estimular a leitura desta e doutras obras do autor,
transcreverei de seguida - com omissões -, alguns trechos
significativos daquela lenda, intercalando-os
com imagens avulsas da net, baseado
na tradução de Liane de Oliveira
e E. Carrera Guerra, editora
«Livros do Brasil», 1987.
novembro 03, 2007

«A potência é poder efectivo, não uma simples possibilidade.
Todos os seres realizam, em cada instante, toda a sua potência,
que o mesmo é dizer, fazem tudo quanto podem para sobreviver.
É, portanto, pelo respectivo grau de potência que se define cada um deles.
Cada ser, cada indivíduo, é aquilo que for a sua potência ou grau de afirmação
e perseverança face ao contexto que o rodeia. Pela mesma razão,
cada ser, em cada momento, é tudo quanto pode.
Donde se conclui que a virtude equivale, por definição,
à própria realização do que é útil à conservação do ser.»
Diogo Pires Aurélio, Imaginação e Poder,
Edições Colibri, Lisboa, 2000, p. 84
outubro 24, 2007
«So too, in order to explain the features of nature, we are permitted to assume any hypothesis we please, provided we deduce from it by mathematical inference all the phenomena of nature. And a more important point to note is this, that there is hardly any assumption we can make from which the same effects cannot be deduced — although perhaps with more trouble — from the laws of nature explained previously. For because, by the operation of those laws, matter assumes successively all the forms of which it is capable, if we consider those forms in due order, we shall finally be able to arrive at the form that is the form og this world. So one need fear no error from a false hypothesis.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 22, 2007
«Next, we say that the principles we seek are such that we may demonstrate that from them the stars, the earth, etc., could have arisen. [ ] Now to discover these causes, the following are the requirements of a good hypothesis.
1. Considered only in itself, it must not imply any contradiction.
2. It must be the simplest that can be.
3. Following from (2), it must be very easy to know.
4. Everything that is observed in the whole of nature must be able to be deduced from it.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 18, 2007
«Then again, because the best way to understand the nature of Plants or Man is to consider in what way they gradually come into existence and are generated from their seeds, we must devise such principles as are the simplest and easiest to know, from which we may demonstrate that the stars, the earth, in short, everything we observe in this visible world, could have arisen as from certain seeds — although we may well know that they never did thus arise. For in this way we shall explain their nature far better than if we were to describe them only as they are now.
I say that we seek principles that are simple and easy to know; for unless they are such, we shall not be in need of them. The only reason why we assign seeds to things is to get to know their nature more easily and, like mathematicians, to ascend from the clearest to the more obscure and from the simplest to the more complex.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 16, 2007
Propostion 32. - «If a body B is surrounded on all sides by particles in motion, which at the same time are impelling it with equal force in all directions, as long as no other cause occurs it will remain unmoved in the same place.»
Proof. - «This proposition is self-evident. For if it were to move in any direction through the impulse of particles coming from one direction, the particles that move it would be impelling it with greater force than other particles that at the same time are impelling it in the opposite direction, with no effect [ ]. This would be contrary to the hypothesis.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy
outubro 11, 2007
outubro 01, 2007
setembro 29, 2007
setembro 23, 2007
Descartes
Da Admiração. Sua definição e causa
A Admiração é uma súbita surpresa da alma, que a dispõe a considerar com atenção os objectos que lhe parecem raros e extraordinários. Ela tem como causa, em primeiro lugar, a impressão que se tem no cérebro, e que representa o objecto como raro, e digno por consequência de ser muito considerado; em seguida o movimento dos espíritos, que tendem com grande força, em virtude dessa impressão para a zona do cérebro onde ela existe, para a fortalecerem e conservarem; como também são dispostos por ela a passarem daí aos músculos, que servem para manter os orgãos dos sentidos na situação em que se encontram, a fim de a manterem, se foi por eles que ela se formou.
Descartes, Tratado das paixões da alma, artigo LXX
A Admiração é uma súbita surpresa da alma, que a dispõe a considerar com atenção os objectos que lhe parecem raros e extraordinários. Ela tem como causa, em primeiro lugar, a impressão que se tem no cérebro, e que representa o objecto como raro, e digno por consequência de ser muito considerado; em seguida o movimento dos espíritos, que tendem com grande força, em virtude dessa impressão para a zona do cérebro onde ela existe, para a fortalecerem e conservarem; como também são dispostos por ela a passarem daí aos músculos, que servem para manter os orgãos dos sentidos na situação em que se encontram, a fim de a manterem, se foi por eles que ela se formou.
Descartes, Tratado das paixões da alma, artigo LXX
agosto 06, 2007
agosto 05, 2007
Descartes
junho 13, 2007
junho 07, 2007
«A certeza de poder trocar todo o excedente daquilo
que produz com o seu próprio trabalho e que vai além
do seu próprio consumo pelas coisas de que necessita,
produzidas pelo trabalho de outros homens, leva cada
homem a aplicar-se numa determinada actividade e
a cultivar e aperfeiçoar aquele talento ou génio
que lhe seja dado possuir para essa actividade
particular» (A riqueza das nações, p. 96)
maio 31, 2007
«O facto de, no tempo presente ou em qualquer outro, o produto da indústria, proporcionalmente ao trabalho empregue, estar a crescer ou a diminuir, e de a condição média do povo estar a melhorar ou a deteriorar-se depende do facto de a população estar a avançar mais depressa do que o melhoramento, ou o melhoramento mais do que a população. Depois de ter sido atingido um grau de intensidade suficiente para permitir os principais benefícios da combinação de trabalho, todo o aumento adicional tenderá em si próprio para o prejuízo, no que toca à condição média do povo; mas o progresso do melhoramento tem uma operação contrariadora, e permite números crescentes sem qualquer deterioração e, até, consistentes com uma média de conforto mais alta.»
Stuart Mill, cit. in João César das Neves,
O que é a economia?, Principia, estoril, 2003, p.163
maio 30, 2007
maio 29, 2007
«I think I may fairly make two postulata.
First, That food is necessary to the existence of man.
Secondly, That the passion between the sexes is necessary and will remain nearly in its present state. [ ]
Assuming then my postulata as granted, I say, that the power of population is indefinitely greater than the power in the earth to produce subsistence for man.
Population, when unchecked, increases in a geometrical ratio. Subsistence increases only in an arithmetical ratio. A slight acquaintance with numbers will shew the immensity of the first power in comparison of the second.»
«Penso que posso formular honestamente dois postulados.
Primeiro: a comida é necessária à existência do homem.
Segundo: a paixão entre os sexos é necessária e manter-se-á
aproximadamente no seu estado actual. [ ]
Admitindo, pois, que os meus postulados se confirmam, sustento que
o poder da população é infinitamente maior que o da Terra
para produzir a subsistência do homem.
A população, quando não controlada, aumenta em razão geométrica,
enquanto a subsistência aumenta apenas em razão aritmética.
Uma leve familiaridade com os números
revelará a imensidade do primeiro poder
face ao segundo.»
MALTHUS, THOMAS ROBERT (1766-1834)
in Essay on Population (1789)
maio 24, 2007
maio 06, 2007
abril 17, 2007
abril 06, 2007
fiama hasse pais brandão

MOVIMENTO PERPÉTUO
Com os braços curvando-se no balançar
da água, adquires a mesma textura;
os teus gestos são os do mar, e a tua
fisionomia flutua sobre o corpo do mar;
os teus cabelos sobre a pele transparente
diluem-se, próximos demasiadamente
de mínimas algas negras. A tua voz
abafa-se quando me chamas, dizes:
vem sentir a matéria da água
que podes tactear em todo o corpo,
e deixa para sempre aquele olhar
que somente delineia formas.
fiama hasse pais brandão




