O contrato de casamento foi redigido
novembro 25, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 26
«Se depressa o disse, mais depressa o fez. O contrato de casamento foi redigido, a sua assinatura celebrada com uma festa e troca de dádivas apropriadas.»
op.cit., p.63
op.cit., p.63
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 25
«Pouco a pouco, graças ao sólido raciocínio de Nanda, Shridaman deixou-se convencer e mostrou-se agradecido. Caberia a Nanda expor o assunto a Bhavabhuti, pai de Shridaman, e persuadi-lo a entrar em entendimento com os pais da donzela. Depois, como representante do pretendente, iria à aldeia do Abrigo do Bisonte, para solicitar a mão da eleita e para, no papel de amigo, facilitar a aproximação do par. »
op. cit., p.62
op. cit., p.62
novembro 24, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 24
«— Em suma, são gente com quem se pode falar;
e para que serviria um amigo como o teu Nanda,
senão para solucionar esse problema?
Ajudar-te-ei a construir a casa nupcial,
na qual podes viver venturoso
com a tua noiva de belos quadris!»
op.cit., p.59
e para que serviria um amigo como o teu Nanda,
senão para solucionar esse problema?
Ajudar-te-ei a construir a casa nupcial,
na qual podes viver venturoso
com a tua noiva de belos quadris!»
op.cit., p.59
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 23
Depois, sempre rindo, exclamou:
— Shridaman, meu irmão, como me sinto feliz por saber que não é nada de mais grave! Enganas-te ao julgar que só os deuses têm direito à realização dos seus desejos. Nada é mais humano e mais natural do que o teu anseio de semear naquele sulco. (Assim se exprimiu porque Sita significa sulco). Lembra-te que Sita da aldeia do Abrigo do Bisonte não é nenhuma Deusa, embora talvez assim te parecesse quando a viste nua no santuário de Durga; é uma pequena bastante vulgar embora excepcionalmente bonita; ela vive como toda a gente, debulha o milho, cozinha a sopa, fia lã e tem progenitores como toda a gente, ainda que Sumantra, o pai, possa vangloriar-se de ter algum sangue guerreiro nas veias.
op.cit., p.59
— Shridaman, meu irmão, como me sinto feliz por saber que não é nada de mais grave! Enganas-te ao julgar que só os deuses têm direito à realização dos seus desejos. Nada é mais humano e mais natural do que o teu anseio de semear naquele sulco. (Assim se exprimiu porque Sita significa sulco). Lembra-te que Sita da aldeia do Abrigo do Bisonte não é nenhuma Deusa, embora talvez assim te parecesse quando a viste nua no santuário de Durga; é uma pequena bastante vulgar embora excepcionalmente bonita; ela vive como toda a gente, debulha o milho, cozinha a sopa, fia lã e tem progenitores como toda a gente, ainda que Sumantra, o pai, possa vangloriar-se de ter algum sangue guerreiro nas veias.
op.cit., p.59
novembro 23, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 22
«Depois, de Nanda muito insistir, o amigo fez a seguinte confissão:
— Desde que no santuário de Dewi, contemplámos
aquela virgem nua mas virtuosa, um sofrimento
foi lançado na minha alma e me consome todas
as energias; rouba-me o sono e o apetite,
leva-me à destruição.
— Apaixonado! — gritou Nanda — Apaixonado!
Nada mais nada menos. Então é essa
a tua moléstia fatal.
Que graça!»
op.cit., p.58
— Desde que no santuário de Dewi, contemplámos
aquela virgem nua mas virtuosa, um sofrimento
foi lançado na minha alma e me consome todas
as energias; rouba-me o sono e o apetite,
leva-me à destruição.
— Apaixonado! — gritou Nanda — Apaixonado!
Nada mais nada menos. Então é essa
a tua moléstia fatal.
Que graça!»
op.cit., p.58
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 21
«Assim continuaram a jornada, até que as respectivas tarefas
os levaram por algum tempo por caminhos diferentes.
Mas já o sol se tinha levantado três vezes
quando os dois amigos voltaram
ao local de separação e de reencontro.
Shridaman apareceu de faces encovadas e olhos tristes.
Não manifestou alegria à vista do amigo e pôs-se a
andar ao lado de Nanda, abatido e desanimado.
Tudo parecia indicar doença,
o que Shridaman admitiu e mais
considerou a sua moléstia incurável e fatal.»
op.cit., p.53
os levaram por algum tempo por caminhos diferentes.
Mas já o sol se tinha levantado três vezes
quando os dois amigos voltaram
ao local de separação e de reencontro.
Shridaman apareceu de faces encovadas e olhos tristes.
Não manifestou alegria à vista do amigo e pôs-se a
andar ao lado de Nanda, abatido e desanimado.
Tudo parecia indicar doença,
o que Shridaman admitiu e mais
considerou a sua moléstia incurável e fatal.»
op.cit., p.53
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 20
«— Pronto, acabou-se! — disse Nanda.
— Agora, podemos ao menos falar e mover-nos.
— Devo confessar-te, Nanda, que experimentei
um verdadeiro alívio quando me disseste o nome
daquela que observamos, pois que conheci de Sita
algo mais do que a imagem, já que o nome
é parte da essência e da alma.»
op.cit., p.39
— Agora, podemos ao menos falar e mover-nos.
— Devo confessar-te, Nanda, que experimentei
um verdadeiro alívio quando me disseste o nome
daquela que observamos, pois que conheci de Sita
algo mais do que a imagem, já que o nome
é parte da essência e da alma.»
op.cit., p.39
novembro 22, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 19
«Depois, por alguns momentos, Sita ficou a brincar, ora mergulhando, ora deslizando nas águas. Quando, por fim, voltou a terra, estava fresca e rutilante, e ainda mais bela. Tornou a vestir-se e desapareceu nas escadarias que levavam ao templo.»
op.cit., p.39
op.cit., p.39
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 18
«— Mas eu conheço-a! — murmurou Nanda, de súbito, estalando os dedos. — Agora mesmo acabo de identificá-la. É Sita, filha de Sumantra, da vizinha aldeia do Abrigo do Bisonte. Baloucei-a nos braços em louvor ao Sol, na festa da Primavera. — Mais tarde mo contarás, peço-te — interrompeu Shridaman, num murmúrio ansioso.»
Op.cit., p.38
Op.cit., p.38
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 17
«Continuaram a olhar, calados e imóveis.
A jovem de bronze dourado unira as mãos e
rezava, antes de descer para o banho purificador.
Viram-na um pouco de perfil e assim não lhes passou
despercebido que não somente o corpo mas também
o rosto, entre os brincos oscilantes, era de rara beleza;
a harmonia era completa e a beleza da face
confirmava plenamente a perfeição das formas.»
Op.cit., p.37
A jovem de bronze dourado unira as mãos e
rezava, antes de descer para o banho purificador.
Viram-na um pouco de perfil e assim não lhes passou
despercebido que não somente o corpo mas também
o rosto, entre os brincos oscilantes, era de rara beleza;
a harmonia era completa e a beleza da face
confirmava plenamente a perfeição das formas.»
Op.cit., p.37
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 16
«— Retiremo-nos — disse Shridaman, sentando-se,
os olhos postos à virginal figura. — Não
é justo que não nos veja ~
enquanto a vemos.»
Op. cit., p.37
os olhos postos à virginal figura. — Não
é justo que não nos veja ~
enquanto a vemos.»
Op. cit., p.37
novembro 21, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 15
«O que mais impressionava em todo o conjunto, o que melhor representa o pensamento de Brama — sem, contudo, em nada prejudicar a perturbadora doçura dos seios, que deviam arrebatar irresistivelmente a alma mais fria e despertá-la para a vida dos sentidos — era a união das magníficas nádegas com a esbelteza e a dócil flexibilidade das espáduas de sílfide, acentuada pelo contraste entre o maravilhoso lance dos quadris — dignos por si sós de todos os encómios — e a grácil fragilidade da cintura.»
Op.cit., p.36
Op.cit., p.36
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 14
«Perto do santuário uma jovem preparava-se para cumprir o ritual da purificação. Estava inteiramente nua. A beleza do seu corpo deslumbrava. Parecia feita da essência de Maya, num colorido dos mais encantadores, nem muito escuro nem muito pálido, antes como bronze de reflexos dourados. As suas formas soberbas correspondiam ao pensamento de Brama: as adoráveis espáduas eram delicadas como as de uma menina; a deliciosa curva dos quadris alargava-se numa ampla bacia; os seios, virginais e firmes, despontavam quais botões floridos e as esplêndidas linhas das nádegas bem nutridas estreitavam-se para o dorso, o menor e mais delicado que se podia imaginar.»
Op.cit., p.35
Op.cit., p.35
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 13
«— Pss…! Pelo fogo dos céus e o trovão das nuvens! —
sussurrou de repente, pousando um dedo sobre os grossos lábios.
— Shridaman, meu irmão, senta-te de manso e espreita.
Vê quem desce para o banho. Abre os olhos que vale a pena!
Ela não pode ver-nos, mas nós podemos vê-la perfeitamente.»
Op.cit., p.35
sussurrou de repente, pousando um dedo sobre os grossos lábios.
— Shridaman, meu irmão, senta-te de manso e espreita.
Vê quem desce para o banho. Abre os olhos que vale a pena!
Ela não pode ver-nos, mas nós podemos vê-la perfeitamente.»
Op.cit., p.35
novembro 20, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 12
«Ficaram calados por algum tempo. Shridaman permaneceu
deitado, contemplando o céu. Nanda, os braços robustos
cingindo os joelhos, olhava por entre as árvores para
o declive que levava ao lugar do banho
sagrado da Mãe Kali.»
op. cit., p.35
deitado, contemplando o céu. Nanda, os braços robustos
cingindo os joelhos, olhava por entre as árvores para
o declive que levava ao lugar do banho
sagrado da Mãe Kali.»
op. cit., p.35
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 11
«Os jovens manifestaram prazer por terem chegado a
esse sítio que lhes oferecia ensejo para a devoção,
bem como para restaurar as forças
e descansar à sombra.»
op. cit., p.20
esse sítio que lhes oferecia ensejo para a devoção,
bem como para restaurar as forças
e descansar à sombra.»
op. cit., p.20
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" 10
«O templo era dedicado à Senhora de todos os desejos e alegrias
e ostentava uma cúpula em forma de bulbo.
Os degraus que conduziam ao rio também eram de madeira
e estavam gastos, mas ainda serviam para uma descida digna.»
op. cit., p.19
e ostentava uma cúpula em forma de bulbo.
Os degraus que conduziam ao rio também eram de madeira
e estavam gastos, mas ainda serviam para uma descida digna.»
op. cit., p.19
novembro 19, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 9
«O local onde os dois amigos pararam não era um desses
grandes centros, cheios de oferendas, mas simplesmente
na margem do riacho da Mosca Dourada, que ali se elevava
em áspero declive. No topo ficava um pequeno templo
de madeira, já um tanto escalavrado, mas abundante
em figuras ricamente esculpidas.»
op.cit., p.19
grandes centros, cheios de oferendas, mas simplesmente
na margem do riacho da Mosca Dourada, que ali se elevava
em áspero declive. No topo ficava um pequeno templo
de madeira, já um tanto escalavrado, mas abundante
em figuras ricamente esculpidas.»
op.cit., p.19
novembro 18, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 8
«Assim, chegaram a um local de imersão ritual, consagrado a Kali,
Mãe dos mundos e de todos os seres, aquela que a tudo abraça
e que é a embriaguez dos sonhos de Vichnu.»
op.cit., p.18
Mãe dos mundos e de todos os seres, aquela que a tudo abraça
e que é a embriaguez dos sonhos de Vichnu.»
op.cit., p.18
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 7
«Aconteceu, porém, que na linda Primavera,
quando o ar vibrava com o canto dos pássaros,
Nanda e Shridaman fizeram juntos uma viagem
a pé pelo país, cada qual por motivos particulares.»
op.cit., p.17
quando o ar vibrava com o canto dos pássaros,
Nanda e Shridaman fizeram juntos uma viagem
a pé pelo país, cada qual por motivos particulares.»
op.cit., p.17
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 6
«A amizade dos dois jovens assentava na divergência
entre as suas noções acerca da pessoa física e moral;
cada um deles procurava modelar a sua pela
do companheiro. Com efeito, a encarnação
cria o individualismo, este provoca a
diferença, a diferença engendra a
comparação,
desta nasce o desassossego, o desassossego
suscita o espanto, o espanto tende à admiração,
a admiração, finalmente, desperta o desejo
de troca e união.»
op.cit., p.10
entre as suas noções acerca da pessoa física e moral;
cada um deles procurava modelar a sua pela
do companheiro. Com efeito, a encarnação
cria o individualismo, este provoca a
diferença, a diferença engendra a
comparação,
desta nasce o desassossego, o desassossego
suscita o espanto, o espanto tende à admiração,
a admiração, finalmente, desperta o desejo
de troca e união.»
op.cit., p.10
novembro 17, 2007
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 5
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 3
«Do princípio ao fim, ela sucedeu exactamente como vamos dizer:
— Era no tempo em que a memória se elevava na alma dos homens,
em que a nostalgia da Mãe comum rodeava os velhos
símbolos de um novo e santo prestígio temeroso
e engrossava a multidão dos peregrinos
que, na Primavera, afluíam aos santuários
da grande Nutriz do Mundo;
foi nesse tempo que dois jovens, pouco diferentes em idade
e casta porém muito dessemelhantes de corpo,
se tornaram íntimos amigos.»
op.cit., p.9
— Era no tempo em que a memória se elevava na alma dos homens,
em que a nostalgia da Mãe comum rodeava os velhos
símbolos de um novo e santo prestígio temeroso
e engrossava a multidão dos peregrinos
que, na Primavera, afluíam aos santuários
da grande Nutriz do Mundo;
foi nesse tempo que dois jovens, pouco diferentes em idade
e casta porém muito dessemelhantes de corpo,
se tornaram íntimos amigos.»
op.cit., p.9
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 2
«Seria desejável, para quem a escuta, tomar por modelo
a intrepidez do narrador, pois requer quase
mais coragem relatar do que
ouvir tal história.»
op.cit., p.9
a intrepidez do narrador, pois requer quase
mais coragem relatar do que
ouvir tal história.»
op.cit., p.9
Thomas Mann, "As cabeças trocadas" - 1
«A história de Sita, a dos belos quadris, filha de Sumantra,
criador de gado, mas de linhagem guerreira, e dos seus dois esposos
(se assim podemos dizer) é de tal modo sangrenta e perturbadora
para os sentidos, que exige do ouvinte grande energia e
firmeza de ânimo para resistir às aterradoras
fantasmagorias de Maya.»
op.cit., p.9
criador de gado, mas de linhagem guerreira, e dos seus dois esposos
(se assim podemos dizer) é de tal modo sangrenta e perturbadora
para os sentidos, que exige do ouvinte grande energia e
firmeza de ânimo para resistir às aterradoras
fantasmagorias de Maya.»
op.cit., p.9
Thomas Mann
Thomas Mann (1875-1955), romancista admirável,
prémio Nobel de Literatura de 1929, publicou em 1940
um dos seus contos mais exóticos, de uma sensualidade
excerbada e uma violência sanguinária tal que o leitor
queda-se perplexo pelo ritmo estonteante das paixões
que se desenrolam sob a pena brilhante do escritor
consagrado: As Cabeças Trocadas -Uma lenda hindu,
(«Die vertauschten Köpfe» - Eine indische Legende).
A fim de estimular a leitura desta e doutras obras do autor,
transcreverei de seguida - com omissões -, alguns trechos
significativos daquela lenda, intercalando-os
com imagens avulsas da net, baseado
na tradução de Liane de Oliveira
e E. Carrera Guerra, editora
«Livros do Brasil», 1987.
novembro 03, 2007

«A potência é poder efectivo, não uma simples possibilidade.
Todos os seres realizam, em cada instante, toda a sua potência,
que o mesmo é dizer, fazem tudo quanto podem para sobreviver.
É, portanto, pelo respectivo grau de potência que se define cada um deles.
Cada ser, cada indivíduo, é aquilo que for a sua potência ou grau de afirmação
e perseverança face ao contexto que o rodeia. Pela mesma razão,
cada ser, em cada momento, é tudo quanto pode.
Donde se conclui que a virtude equivale, por definição,
à própria realização do que é útil à conservação do ser.»
Diogo Pires Aurélio, Imaginação e Poder,
Edições Colibri, Lisboa, 2000, p. 84
outubro 24, 2007
«So too, in order to explain the features of nature, we are permitted to assume any hypothesis we please, provided we deduce from it by mathematical inference all the phenomena of nature. And a more important point to note is this, that there is hardly any assumption we can make from which the same effects cannot be deduced — although perhaps with more trouble — from the laws of nature explained previously. For because, by the operation of those laws, matter assumes successively all the forms of which it is capable, if we consider those forms in due order, we shall finally be able to arrive at the form that is the form og this world. So one need fear no error from a false hypothesis.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 22, 2007
«Next, we say that the principles we seek are such that we may demonstrate that from them the stars, the earth, etc., could have arisen. [ ] Now to discover these causes, the following are the requirements of a good hypothesis.
1. Considered only in itself, it must not imply any contradiction.
2. It must be the simplest that can be.
3. Following from (2), it must be very easy to know.
4. Everything that is observed in the whole of nature must be able to be deduced from it.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 18, 2007
«Then again, because the best way to understand the nature of Plants or Man is to consider in what way they gradually come into existence and are generated from their seeds, we must devise such principles as are the simplest and easiest to know, from which we may demonstrate that the stars, the earth, in short, everything we observe in this visible world, could have arisen as from certain seeds — although we may well know that they never did thus arise. For in this way we shall explain their nature far better than if we were to describe them only as they are now.
I say that we seek principles that are simple and easy to know; for unless they are such, we shall not be in need of them. The only reason why we assign seeds to things is to get to know their nature more easily and, like mathematicians, to ascend from the clearest to the more obscure and from the simplest to the more complex.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy, Part 3
outubro 16, 2007
Propostion 32. - «If a body B is surrounded on all sides by particles in motion, which at the same time are impelling it with equal force in all directions, as long as no other cause occurs it will remain unmoved in the same place.»
Proof. - «This proposition is self-evident. For if it were to move in any direction through the impulse of particles coming from one direction, the particles that move it would be impelling it with greater force than other particles that at the same time are impelling it in the opposite direction, with no effect [ ]. This would be contrary to the hypothesis.»
Spinoza, Principles of Cartesian Philosophy
outubro 11, 2007
outubro 01, 2007
setembro 29, 2007
setembro 23, 2007
Descartes
Da Admiração. Sua definição e causa
A Admiração é uma súbita surpresa da alma, que a dispõe a considerar com atenção os objectos que lhe parecem raros e extraordinários. Ela tem como causa, em primeiro lugar, a impressão que se tem no cérebro, e que representa o objecto como raro, e digno por consequência de ser muito considerado; em seguida o movimento dos espíritos, que tendem com grande força, em virtude dessa impressão para a zona do cérebro onde ela existe, para a fortalecerem e conservarem; como também são dispostos por ela a passarem daí aos músculos, que servem para manter os orgãos dos sentidos na situação em que se encontram, a fim de a manterem, se foi por eles que ela se formou.
Descartes, Tratado das paixões da alma, artigo LXX
A Admiração é uma súbita surpresa da alma, que a dispõe a considerar com atenção os objectos que lhe parecem raros e extraordinários. Ela tem como causa, em primeiro lugar, a impressão que se tem no cérebro, e que representa o objecto como raro, e digno por consequência de ser muito considerado; em seguida o movimento dos espíritos, que tendem com grande força, em virtude dessa impressão para a zona do cérebro onde ela existe, para a fortalecerem e conservarem; como também são dispostos por ela a passarem daí aos músculos, que servem para manter os orgãos dos sentidos na situação em que se encontram, a fim de a manterem, se foi por eles que ela se formou.
Descartes, Tratado das paixões da alma, artigo LXX
agosto 06, 2007
agosto 05, 2007
Descartes
junho 13, 2007
junho 07, 2007
«A certeza de poder trocar todo o excedente daquilo
que produz com o seu próprio trabalho e que vai além
do seu próprio consumo pelas coisas de que necessita,
produzidas pelo trabalho de outros homens, leva cada
homem a aplicar-se numa determinada actividade e
a cultivar e aperfeiçoar aquele talento ou génio
que lhe seja dado possuir para essa actividade
particular» (A riqueza das nações, p. 96)
maio 31, 2007
«O facto de, no tempo presente ou em qualquer outro, o produto da indústria, proporcionalmente ao trabalho empregue, estar a crescer ou a diminuir, e de a condição média do povo estar a melhorar ou a deteriorar-se depende do facto de a população estar a avançar mais depressa do que o melhoramento, ou o melhoramento mais do que a população. Depois de ter sido atingido um grau de intensidade suficiente para permitir os principais benefícios da combinação de trabalho, todo o aumento adicional tenderá em si próprio para o prejuízo, no que toca à condição média do povo; mas o progresso do melhoramento tem uma operação contrariadora, e permite números crescentes sem qualquer deterioração e, até, consistentes com uma média de conforto mais alta.»
Stuart Mill, cit. in João César das Neves,
O que é a economia?, Principia, estoril, 2003, p.163
maio 30, 2007
maio 29, 2007
«I think I may fairly make two postulata.
First, That food is necessary to the existence of man.
Secondly, That the passion between the sexes is necessary and will remain nearly in its present state. [ ]
Assuming then my postulata as granted, I say, that the power of population is indefinitely greater than the power in the earth to produce subsistence for man.
Population, when unchecked, increases in a geometrical ratio. Subsistence increases only in an arithmetical ratio. A slight acquaintance with numbers will shew the immensity of the first power in comparison of the second.»
«Penso que posso formular honestamente dois postulados.
Primeiro: a comida é necessária à existência do homem.
Segundo: a paixão entre os sexos é necessária e manter-se-á
aproximadamente no seu estado actual. [ ]
Admitindo, pois, que os meus postulados se confirmam, sustento que
o poder da população é infinitamente maior que o da Terra
para produzir a subsistência do homem.
A população, quando não controlada, aumenta em razão geométrica,
enquanto a subsistência aumenta apenas em razão aritmética.
Uma leve familiaridade com os números
revelará a imensidade do primeiro poder
face ao segundo.»
MALTHUS, THOMAS ROBERT (1766-1834)
in Essay on Population (1789)
maio 24, 2007
maio 06, 2007
abril 17, 2007
abril 06, 2007
fiama hasse pais brandão

MOVIMENTO PERPÉTUO
Com os braços curvando-se no balançar
da água, adquires a mesma textura;
os teus gestos são os do mar, e a tua
fisionomia flutua sobre o corpo do mar;
os teus cabelos sobre a pele transparente
diluem-se, próximos demasiadamente
de mínimas algas negras. A tua voz
abafa-se quando me chamas, dizes:
vem sentir a matéria da água
que podes tactear em todo o corpo,
e deixa para sempre aquele olhar
que somente delineia formas.
fiama hasse pais brandão
dezembro 04, 2006
dezembro 01, 2006
novembro 16, 2006
outubro 09, 2006
scott fitgerald # 5
O que mais apreciei neste romance de Fitzgerald
foi a arguta e rigorosa observação da progressão
de um processo insidioso de desamor, culminando
no acto final, cirúrgico e irreversível de divórcio!
Quase lembra Descartes: Amor e o Ódio: “O amor é uma emoção da alma, causada pelos movimentos dos espíritos, que a incita a unir-se voluntariamente aos objectos que lhe parecem ser úteis”. E o ódio é uma emoção, causada pelos espíritos, que incita a alma a querer estar separada dos objectos que se lhe apresentam como nocivos.”
Nota: - Com a expressão “causadas pelos espíritos”, Descartes pretende distinguir estas paixões — que dependem do corpo — quer dos juízos, quer das emoções que estes só por si excitam, e que levam também a alma a unir-se ( ) ou a separar-se, voluntariamente, das coisas que considera boas ou más.
Com a expressão “voluntariamente”, Descartes pretende abstrair do Desejo — que é uma paixão distinta e se refere ao futuro — para atentar no aspecto do consentimento pelo qual o amante se considera unido ao que ama, de sorte que se imagina como um todo, “de que se pensa ser apenas uma parte, sendo a outra a coisa amada”, e, ao contrário, no Ódio, se considera só como um todo, inteiramente separado da coisa a que se tem aversão.
outubro 05, 2006
scott fitzgerald # 4

Relógio d’Água) Na costa aprazível da Riviera francesa, a cerca de meio caminho entre Marsellha e a fronteira italiana, fica um vasto hotel imponente, pintado de cor-de-rosa. Várias palmeiras lhe refrescam a frontaria pesada, e diante dele estende-se uma praiazinha deliciosa. Ainda há dez anos era pouco frequentado, depois da debandada da clientela inglesa, mas há pouco tempo tornou-se ponto de reunião de banhistas ilustres e elegantes, e já o rodeiam inúmeros bangalós. Quando, porém, se inicia esta história há apenas uma dúzia de vivendas antigas, e os seus telhados jazem como nenúfares apodrecidos no meio do pinhal denso que vai do Hotel Gausse ou dos Estrangeiros até Cannes, a cinco milhas de distância. (op. cit., p. 9)
«On the shore of French Riviera, about half-way between Marseilles and the Italian border, stood a large, proud, rose-coloured hotel. Deferential palms cooled its flushed façade, and before it stretched a short dazzling beach. Now it has become a summer resort of notable and fashionable people; in 1925 it was almost deserted after its English clientele went north in April; only the cupolas of a dozen of old villas rotted like water lilies among the massed pines between Gausse’s Hôtel des Étrangers and Cannes, five miles away.» (op. cit., p. 65)
Relógio d’Água) Na costa aprazível da Riviera francesa, a cerca de meio caminho entre Marsellha e a fronteira italiana, fica um vasto hotel imponente, pintado de cor-de-rosa. Várias palmeiras lhe refrescam a frontaria pesada, e diante dele estende-se uma praiazinha deliciosa. Ainda há dez anos era pouco frequentado, depois da debandada da clientela inglesa, mas há pouco tempo tornou-se ponto de reunião de banhistas ilustres e elegantes, e já o rodeiam inúmeros bangalós. Quando, porém, se inicia esta história há apenas uma dúzia de vivendas antigas, e os seus telhados jazem como nenúfares apodrecidos no meio do pinhal denso que vai do Hotel Gausse ou dos Estrangeiros até Cannes, a cinco milhas de distância. (op. cit., p. 9)
«On the shore of French Riviera, about half-way between Marseilles and the Italian border, stood a large, proud, rose-coloured hotel. Deferential palms cooled its flushed façade, and before it stretched a short dazzling beach. Now it has become a summer resort of notable and fashionable people; in 1925 it was almost deserted after its English clientele went north in April; only the cupolas of a dozen of old villas rotted like water lilies among the massed pines between Gausse’s Hôtel des Étrangers and Cannes, five miles away.» (op. cit., p. 65)
outubro 04, 2006
scott fitzgerald # 3

Penguin) «In the spring of 1917, when Doctor Richard Diver first arrived in Zürich, he was twenty-six years old, a fine age for a man, indeed the very acme of bachelorhood. Even in the wartime days it was a fine age for Dick, who was already too valuable, too much of a capital investment to be shot off in a gun. Years later it seemed to him that even in this sanctuary he did not escape lightly, but about that he never fully made up his mind — in 1917 he laughed at the idea, saying apologetically that the war didn’t touch him at all. Instructions from his local board were that he was to complete his studies in Zürich and take a degree as he had planned.» (op. cit., p. 3)
«Na Primavera de 1917, quando chegou a Zürich, o doutor Richard Diver tinha vinte e seis anos, bela idade para um homem, verdadeiro apogeu do estado de solteiro. Até em tempos bélicos era óptima idade para Dick, que já se tornara pessoa de valor, de excessivo valor para morrer na guerra. Anos depois parecia-lhe que, mesmo no santuário em que estivera, não lhe escapara de todo, mas a esse respeito nunca se compenetrou deveras: em 1917 ria-se com tal ideia, dizendo, como desculpa, que a guerra lhe não tocava nem de leve. As normas recebidas da Junta de Instrução da sua terra estatuíam que ele devia concluir os seus estudos em Zürich e formar-se conforme projectara.» (op.cit., p. 161)
Penguin) «In the spring of 1917, when Doctor Richard Diver first arrived in Zürich, he was twenty-six years old, a fine age for a man, indeed the very acme of bachelorhood. Even in the wartime days it was a fine age for Dick, who was already too valuable, too much of a capital investment to be shot off in a gun. Years later it seemed to him that even in this sanctuary he did not escape lightly, but about that he never fully made up his mind — in 1917 he laughed at the idea, saying apologetically that the war didn’t touch him at all. Instructions from his local board were that he was to complete his studies in Zürich and take a degree as he had planned.» (op. cit., p. 3)
«Na Primavera de 1917, quando chegou a Zürich, o doutor Richard Diver tinha vinte e seis anos, bela idade para um homem, verdadeiro apogeu do estado de solteiro. Até em tempos bélicos era óptima idade para Dick, que já se tornara pessoa de valor, de excessivo valor para morrer na guerra. Anos depois parecia-lhe que, mesmo no santuário em que estivera, não lhe escapara de todo, mas a esse respeito nunca se compenetrou deveras: em 1917 ria-se com tal ideia, dizendo, como desculpa, que a guerra lhe não tocava nem de leve. As normas recebidas da Junta de Instrução da sua terra estatuíam que ele devia concluir os seus estudos em Zürich e formar-se conforme projectara.» (op.cit., p. 161)
outubro 03, 2006
scott fitzgerald # 2
Na verdade, ler uma tradução ajuda, no meu caso, porque inúmeras são as palavras cujo significado só aproximadamente, e com erros, se tira pelo sentido. Ler na língua original, embora com esse inconveniente, dá o som mudo da linguagem e o estilo do raciocínio e dos afectos das personagens.
A leitura em paralelo é assim como um filme legendado! :)
Para minha surpresa, porém, constatei que as duas edições tinham um começo do romance completamente diferente! Enquanto a versão inglesa inicia a narrativa em 1917-19 com a chegada do Doutor Dick Diver a Zürich e o seu primeiro encontro com a enferma Nicole Warren, a edição portuguesa, situa ambos, já casados e com dois filhos, na costa aprazível da Riviera francesa levando uma existência de sonho num idílico fare niente.
Na verdade, ler uma tradução ajuda, no meu caso, porque inúmeras são as palavras cujo significado só aproximadamente, e com erros, se tira pelo sentido. Ler na língua original, embora com esse inconveniente, dá o som mudo da linguagem e o estilo do raciocínio e dos afectos das personagens.
A leitura em paralelo é assim como um filme legendado! :)
Para minha surpresa, porém, constatei que as duas edições tinham um começo do romance completamente diferente! Enquanto a versão inglesa inicia a narrativa em 1917-19 com a chegada do Doutor Dick Diver a Zürich e o seu primeiro encontro com a enferma Nicole Warren, a edição portuguesa, situa ambos, já casados e com dois filhos, na costa aprazível da Riviera francesa levando uma existência de sonho num idílico fare niente.
outubro 02, 2006
scott fitzgerald # 1


portrait of madam boucard
tamara de lempicka
Pela primeira vez li em paralelo — com umas cinquenta páginas de desfasamento — a tradução e o original de uma obra literária: Terna é a noite de Scott Fitzgerald, nas edições inglesa e portuguesa da Penguin e Relógio d’Água
F. Scott Fitzgerald, Tender is the night (1934),
Penguin Books, New-York, 1997
F. Scott Fitzgerald, Terna é a noite («Tender is the night», 1934),
Trad. Cabral do Nascimento, Relógio d'Água, Lisboa 1991.
portrait of madam boucard
tamara de lempicka
Pela primeira vez li em paralelo — com umas cinquenta páginas de desfasamento — a tradução e o original de uma obra literária: Terna é a noite de Scott Fitzgerald, nas edições inglesa e portuguesa da Penguin e Relógio d’Água
F. Scott Fitzgerald, Tender is the night (1934),
Penguin Books, New-York, 1997
F. Scott Fitzgerald, Terna é a noite («Tender is the night», 1934),
Trad. Cabral do Nascimento, Relógio d'Água, Lisboa 1991.
julho 24, 2006
julho 02, 2006

«A ilha da Utopia tem duzentas milhas na sua maior largura,
ficando esta situada na parte média da ilha.
Essa largura diminui gradual e simetricamente
do centro para as duas extremidades,
de maneira que toda a ilha forma
como que um círculo de quinhentas milhas de perímetro
e apresenta a forma de um crescente
cujas pontas estão afastadas cerca de onze milhas.»
«O mar enche toda essa imensa reentrância;
as terras adjacentes que se desenvolvem em anfiteatro
quebram o furor dos ventos,
mantendo o mar sempre calmo
e dando àquela grande massa de água
a aparência de um lago tranquilo.»
«A parte côncava da ilha constitui como que
um único e vasto porto acessível por todos os lados
à navegação»
junho 16, 2006
“O que é o pragmatismo? (1905)”
«(…) Uma concepção, isto é, o significado racional de uma palavra ou outra expressão, reside exclusivamente na concepção da sua influência concebível sobre a conduta da vida; pelo que, visto ser óbvio que algo não resultante da experiência não pode ter uma influência directa na conduta, se pudermos definir com exactidão todos os fenómenos experimentais concebíveis que a afirmação ou negação de um conceito poderia implicar, teríamos assim uma definição completa do conceito, nada mais para além disso estando nele contido.» (p. 124)
Charles Sanders Peirce
«(…) Uma concepção, isto é, o significado racional de uma palavra ou outra expressão, reside exclusivamente na concepção da sua influência concebível sobre a conduta da vida; pelo que, visto ser óbvio que algo não resultante da experiência não pode ter uma influência directa na conduta, se pudermos definir com exactidão todos os fenómenos experimentais concebíveis que a afirmação ou negação de um conceito poderia implicar, teríamos assim uma definição completa do conceito, nada mais para além disso estando nele contido.» (p. 124)
Charles Sanders Peirce
abril 23, 2006
Mas não falemos mais destas coisas, pois ambos somos
versados em enganos: tu és de todos os mortais o melhor
em conselho e em palavras; dos imortais, sou eu a mais famosa
em argúcia proveitosa. Mas tu não reconheceste
Palas Atena, a filha de Zeus – eu que sempre
em todos os trabalhos estou ao teu lado e por ti velo.
abril 18, 2006

( ) e sorriu Atena, a deusa de olhos garços,
acariciando-o com a mão; transformou-se numa mulher
alta e bela, conhecedora dos mais gloriosos trabalhos.
E falando dirigiu-lhe palavras apetrechadas de asas:
“Interesseiro e ladrão seria aquele que te superasse
em todos os dolos, mesmo que um deus viesse ao teu encontro!
Homem teimoso, de variado pensamento, urdidor de enganos:
nem na tua pátria estás disposto a abdicar dos dolos
e dos discursos mentirosos, que no fundo te são queridos.
Homero, Odisseia, tradução de Frederico Lourenço,
Cotovia, Lisboa, 200, (XIII, 287-301)
abril 15, 2006
abril 14, 2006
abril 11, 2006

Respondendo-lhe assim falou o astucioso Ulisses:
"Ah, na verdade eu estava prestes a sofrer o triste destino
de Agamémnon, filho do Atreu, no meu palácio,
se tu, ó deusa, me não tivesses tudo dito, pela ordem certa!
Mas agora tece um plano, para que os possa castigar.
E tu fica ao meu lado, inspirando-me abundante coragem,
tal como quando de Tróia despimos o véu fulgente.
Se ao meu lado quisesses ficar, ó deusa de olhos garços,
contigo eu lutaria contra três vezes cem homens,
ó deusa soberana, se me concedesses o teu auxílio."
(Odisseia, XIII, 382-391)






