junho 11, 2013

Bergson


«Voltemos a insistir, pois, nalguns traços salientes da vida, e vinquemos o carácter nitidamente empírico da concepção de um “impulso vital”.

O fenómeno vital será resolúvel, perguntávamos nós, em factos físicos e químicos? Quando o fisiologista o afirma, entende por isso, consciente ou inconscientemente, que o papel da fisiologia é investigar o que há de físico e químico no vital, que não se pode fixar antecipadamente um termo a esta investigação, e que por isso se deverá proceder como se a investigação não devesse vir a ter termo: só assim se continuará em frente. Com o que estabelece, pois, uma regra de método; não enuncia um facto. [ ] (p.102)

Agora, uma vez estabelecida a vida, como nos representaremos a evolução?
[ ] Invocando [ ] uma composição do acaso com o acaso, [ ] aplica-se a priori o princípio de economia recomendado pela ciência positiva, mas não se comprova seja como for um facto, e o resultado é deparar de imediato com dificuldades insuperáveis. [A] esta insuficiência do darwinismo [ ] opúnhamos um facto; constatávamos que a evolução da vida se realiza em direcções determinadas.

— Agora, serão as condições em que evolui a imprimir á vida aquelas direcções? Seria então necessário admitir que as modificações sofridas pelo indivíduo se transmitem aos seus descendentes [ ]. Mas a hereditariedade do adquirido é contestável e [ ] excepcional. [ ]

— Vamos mais longe. Quando se fala do progresso de um organismo ou de um orgão ao adaptar-se a condições mais complexas pretende-se, as mais das vezes, que a complexidade das condições impõe a sua forma à vida, como o molde ao gesso: só nessa condição, pensa-se, a explicação será mecânica e, por conseguinte, científica. (p.102-3)

Mas, [ ], raciocina-se, nos casos particulares, como se a adaptação fosse uma coisa completamente diferente — o que ela é com efeito —, a solução original encontrada pela vida do problema que as condições exteriores lhe põem. E é esta faculdade de resolver problemas que se deixa por explicar.
Fazendo então intervir um “impulso” [ o “impulso vital”], não fornecíamos também explicação; mas assinalávamos [ ] este carácter misterioso da vida.

Se a maravilhosa coordenação das partes com o todo não pode explicar-se mecanicamente, também não exige, em nosso entender, que a tratemos como finalidade.

O que, visto de fora, é decomponível como uma infinidade de partes coordenadas umas com as outras, talvez surgisse do interior como um acto simples: assim, um movimento da nossa mão, que sentimos indivisível, será exteriormente percebido como uma curva definível por uma equação, quer dizer como uma sobreposição de pontos em número infinito, que satisfazem todos uma mesma lei.

Evocando a imagem de um impulso, queríamos sugerir [ ] qualquer coisa mais: onde a nossa análise, permanecendo no exterior, descobre elementos positivos em número cada vez maior e os encontra, por isso, cada vez mais surpreendentemente coordenados entre si, uma intuição que se transportasse ao interior apreenderia, já não meis combinados, mas obstáculos contornados.

Uma mão invisível, atravessando bruscamente limalha de ferro, não faria mais que afastar uma resistência, mas a própria simplicidade deste acto, vista do lado da resistência, surgiria como a sobreposição, efectuada segundo uma determinada ordem, dos pedaços de limalha. [ ]

Se a vida não é resolúvel em factos físicos e químicos, age à maneira de uma causa especial, acrescentada áquilo a que chamamos comummente matéria: esta matéria é instrumento, e é também obstáculo. Divide aquilo que precisa. [ ] (p.103-4)

Se virmos duas ou três grandes linhas de evolução que se continuam livremente ao lado de outras vias que acabam num beco, e se ao longo dessas linhas se desenvolver cada vez mais um carácter essencial, poderemos conjecturar que a irrupção vital começava por apresentar tais caracteres no estado de implicação recíproca: instinto e inteligência, [ ] constitutivos de uma realidade simples na qual [ ] não seriam senão pontos de vista.

Mas ainda só implicitamente mencionámos o essencial: a imprevisibilidade das formas que a vida cria por inteiro, através de saltos descontínuos, ao longa da sua evolução.

Tanto para a doutrina do puro mecanicismo como para a da finalidade pura, as criaçõs da vida são predeterminadas, podendo o futuro ser deduzido do presente mediante um cálculo ou desenhando-se nele sob a forma de ideia, e sendo por conseguinte o tempo sem eficácia.

A experiência pura nada de semelhante sugere. [ ] Um impulso [élan] pode precisamente sugerir [ ] e fazer pensar também, pela indivisibilidade daquilo que é interiormente sentido e pela divisibilidade até ao infinito daquilo que é exteriormente percebido, nessa duração real, eficaz, que é o atributo da vida.

— Tais eram as ideias que encerrávamos na imagem do “impulso vital”. [ ] Se forem levadas em conta, teremos uma ideia carregada de matéria, empiricamente obtida, capaz de orientara a investigação, que resumirá a traço grosso o que sabemos do processo vital e assinalará também o que dele ignoramos. (p.104-5)

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.102-5.

junho 09, 2013

Bergson


«Digamos apenas [ ] que as antigas desigualdades de classe, primitivamente impostas sem dúvida pela força, admitidas depois como desigualdades de valor e de serviços prestados, se vêem cada vez mais submetidas à crítica da classe inferior: os dirigentes valem de resto cada vez menos, porque, demasiado seguros de si, afrouxam a tensão interior à qual tinham ido buscar uma maior força de inteligência e de vontade e que havia consolidado a sua dominação.

Conservar-se-iam, contudo, se continuassem unidos; mas, devido precisamente à tendência que os leva a afirmarem a sua individualidade, aparecerão, mais tarde ou mais cedo, entre eles ambiciosos que pretenderão ser os senhores e que buscarão apoio na classe inferior, sobretudo se esta já tiver conseguido certa participação nos asuntos: acabou-se, então, a superioridade nativa daquele que pertence à classe superior; quebrou-se o encanto.

É assim que as aristocracias tendem a perder-se na democracia, simpelsmente porque a desigualdade política é coisa instável, como o será de resto a igualdade políticas uma vez realizada, se não passar de um facto, se admitir por conseguinte excepções, se por exemplo tolerar a escravatura no interior da cidade.»

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.73.

junho 07, 2013

Bergson



«A moral compreende assim duas partes distintas, das quais uma tem a sua razão de ser na estrutura original da sociedade humana, e a outra no princípio explicativo dessa estrutura.

Na primeira, a obrigação representa a pressão que os elementos da sociedade exercem uns sobre os outros a fim de manter a forma do todo, pressão cujo efeito é prefigurado em cada um de nós por um sistema de hábitos que por assim dizer a precedem: este mecanismo, cujas peças são, cada uma delas, um hábito mas cujo conjunto é comparável a um instinto, foi preparado pela natureza.

Na segunda, há ainda obrigação, se assim se quiser, mas a obrigação é a força de uma aspiração ou de um impulso, do próprio impulso que desembocou na espécie humana, na vida social, num sistema de hábitos mais ou menos assimilável ao instinto: o princípio de propulsão intervém directamente e já não por intermédio dos mecanismos que montara, nos quais provisoriamente se detivera.»

Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião,
(«Les deux sources de la morale et de la religion», 1939),
Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Almedina, 2005 p.59

junho 04, 2013



A propósito de as populações
dos estados capitalistas ocidentais

andarem aflitas...


E os capitalistas-aforradores,
não andarão também?

Convém não perder de vista a condicionalidade
de todo o sistema capitalista

Aqui deixo um texto tacteante dessa realidade:

O clamor geral da aflição das populações faz-me divagar para uma "narrativa" de hecatombe a nível de rendimentos de capitais.

Não sei a pertinência deste eventual 'contra-texto', pouco reexaminado, que avanço sem me comprometer a não o apagar!

Ei-lo:

Bem, não vejo que um banco central tenha mais força do que o Governo (USA) ou Governos (UE), dado que políticos são os governantes, que o são de países com exércitos, e não os bancos centrais. O banco central compra, conserva e, ou, vende títulos em função da política monetária adequada à regulação económica.

Sei que “as pessoas” “bradam” imenso contra o lucro dos bancos centrais nacionais, que contraem empréstimos no Banco de Frankfurt (BCE) a 1%
e põem o dinheiro logo a render a 3 e 4 e a 5% ao comprarem obrigações do Estado que vendem – um pouco abaixo do nominal – mal precisem de dinheiro, engrossando assim a sua conta de lucros sem perdas!

Mas isto não tem nada de especial, nem é censurável no modo como as pessoas o imaginam e julgam, e pode circunstancialmente ser o meio de evitar que os bancos caiam na insolvência e no descalabro da bancarrota ao restituirem os depósitos do público.

O que pode censurar-se, sim, é a porventura escandalosa ou excessiva distribuição de lucros dos bancos comerciais aos seus accionistas e gestores,

isto é a indivíduos, a particulares, agravando a tolerável desigualdade social na distribuição de rendimento, e não propriamente

o facto de as instituições terem lucros e ganharem dinheiro, o que parece muito fácil, — pagar juros a 1% e cobrar a 4% —,

mas esquece o conjunto da actividade bancária: imparidades, incobráveis, falências, moratórias nos empréstimos à actividade económica e a responsabilidade de satisfazer os levantamentos de depósitos.

Embora os bancos “joguem” com algum dinheiro próprio — o dos accionistas — movimentam, sobretudo, capitais alheios, das famílias, dos cidadãos, das empresas, capitais que circulam nas inúmeras transacções intersectoriais e no pagamento de salários, além das poupanças globais de fundos de pensões, e fundos soberanos, em busca de um rendimento mínimo, ou apenas de algum rendimento, seja ele qual for e, se negativo, o menos negativo possível.

As “pessoas” não percebem estas questões dos lucros e dos juros, dos salários e dos impostos… E, contudo, as explicações têm mais de duzentos anos! :)

Examine-se o tema da chamada taxa média de lucro dos capitais.

O juro, não é simplesmente o que o mutuante cobra do mutuário pelo tempo de duração do mútuo. Isso é a descrição jurídica do contrato, que se cumpre ou incumpre, o que não depende do contrato em si. Não há juro nenhum se o devedor nada pagar. As coisas, portanto, passam-se segundo uma causalidade extra-jurídica.

Quem trabalha no sector produtivo de bens e serviços, — cuja utilidade garante o interesse da população em os possuir e consumir —, consegue uma fonte de receita que lhe dá não só para pagar os custos em que incorre para obter a produção como ainda lhe sobra dinheiro para o que bem entender: esbanjar, poupar, sustentar parentes e amigos, doar,  etc., tudo, claro, depois de pagar impostos que o Estado cobra.

Esta margem líquida de lucro, este excedente do valor da produção sobre os consumos produtivos (salários, materiais, equipamentos) requeridos à sua formação anual, é apropriada pelos diferentes agentes económicos e redistribuída socialmente.

Nesta redistribuição intervêm o juro e a taxa média de lucro.

O “filme” é assim: O empresário X ou o sector de actividade Y qualificável de altamente lucrativo seja porque explora alguma invenção, seja porque satisfaz a necessidade de algum bem ou recurso, de súbito, altamente procurado ou qualquer outra situação de vantagem comparativa;

Quem opera num sector de negócio assim próspero, depressa recebe propostas para trespassá-lo. O que facilmente conseguirá por um preço vantajoso que, ainda assim, proporcionará ao novo empresário beneficiar de um rendimento esperado acima da rendibilidade média do investimento noutras opções de actividade e bem acima da taxa de juro média do mercado de capitais.

E aqui se processa uma primeira redistribuição de capitais e cuja taxa de rendimento — a chamada eficiência marginal do capital —, tenderá a nivelar-se pela taxa média de juro de empréstimo de capitais, através da variação da cotação do capital-acções das sucessivas transacções do mesmo em bolsa.

A maior “anormalidade” bolsista, não apenas a queda geral de cotações, mas a perspectiva de depressão prolongada, leva os investidores ao ponto de aceitarem taxas de juro negativas para colocarem os seus capitais ao abrigo de maiores perdas ainda na bolsa, para supostos países com economias mais confiáveis de segurança. Bem entendido, uma remuneração negativa de capitais é ainda um rendimento positivo se comparado com uma perda receada de capital ainda mais gravosa!

Portanto, nem o próprio juro, seja de emissão de obrigações públicas ou de empresas privadas, tem mais certeza do que qualquer outro negócio, porque sempre o futuro é incerto e só o efectivo crescimento económico viabiliza e garante a normal remuneração de poupanças investidas.

Para concluir que,

embora em termos individuais, a nível de particulares, alguns possam ganhar muito dinheiro, — e a justiça redistributiva deve zelar para só tolerar as desigualdades de rendimento que correspondam a vantagens líquidas para o bem-estar colectivo —,

a pressão é a de baixa tendencial da taxa média de lucro,
estrito resultado da lei dos rendimentos decrescentes,

com o equilíbrio de longo prazo a consolidar-se
quando os investimentos se compatibilizam  
com níveis adequados de consumo 

em conformidade com

o grau de tecnologia, ciência e civilização alcançado,
o controlo demográfico apropriado e adequada
redistribuição do rendimento.  

junho 03, 2013

Há uma história de amor,
também contada na Bíblia
e no cinema, que desde menino,
sempre achei empolgante:

Sansão e Dalila,
de Cecil B. de Mille,
com Victor Mature
e a formosíssima
Heddy Lamarr!



Há dias, encontrei uma referência
a este filme em Frederico Lourenço
que tanto admirei na juventude:

«Eu estava bastante habituado a ouvir música clássica.

E conhecia bem a história de Sansão e Dalila, pois uma experiência
cinematográfica inesquecível da minha infância inglesa foi ver,
na televisão, o famoso filme com Hedy Lamarr e Victor Mature.

Além de que o próprio facto de ter tido uma infância inglesa
dava-me uma solidez de conhecimentos respeitantes
ao Antigo Testamento que a catequese portuguesa
dos meus colegas não lhes proporcionara.»

Frederico Lourenço, Amar não acaba,
Lisboa, Cotovia, 2004, p.41


junho 01, 2013


«Para obedecer às leis do pensamento tenho de me mostrar perto das coisas ou antes no íntimo delas, porque pensar é conceber o que é, e escrever verdade, ou por outra escrever de acordo com o pensamento, é revelar o que é, e não enfiar frases. Por isso o segrêdo de escrever consiste em colocar-se ardentemente diante das coisas, até que elas vos falem e determinem os têrmos que as devem exprimir. [ ]

A verdade do estilo afasta o molde. Chamo molde a uma verdade antiga, a uma fórmula que passou para o uso comum, a um lote de expressões outrora novas e que já o não são por terem perdido o contacto com a realidade donde nasceram, por flutuarem no ar, vãos ouropéis que tomam o lugar do autêntico oiro, o lugar da transcrição directa e imediata da ideia.

Como observa Paul Valéry, o automatismo gasta as línguas. Para viver [ ] temos de utilizar sempre a sintaxe «em plena consciência», aplicando-nos a articular com vigilância todos os elementos, evitando certos efeitos que espontâneamente se ingerem esperando a vez de se fazerem valer.»

A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual —
Espírito, Condições, Métodos (1920), Trad. e Pref.
A. Pinto de Carvalho, Arménio Amado-Editor,
Coimbra, 1941. p.181.

maio 31, 2013


«O contacto com os génios traz, como benefício imediato, uma elevação; só pelo facto da sua superioridade, êles gratificam-nos, mesmo antes de nos ensinarem qualquer coisa. Dão-nos o tom; habituam-nos ao ar dos cumes. Movíamo-nos numa região baixa: dum golpe eguem-nos à sua atmosfera. Neste mundo de pensamento sublime, parece que se desvenda o rosto da verdade; fulgura a beleza; [ ].

O génio, quando fala, dá mostras de simplicidade encantadora; exprime o homem, e o seu eco repercute-se em nós. [ ] Escutai certos prelúdios de Bach. Dizem pouco: um curto motivo se repete, variações insistentes, de relevo tão pouco acentuiado como o duma medalha de Roty mas que nível de inspiração! Somos transportados a um mundo desconhecido, onde de bom grado ficaríamos a vida inteira. [ ]

Por detrás de cada facto oculta-se o infinito do pensamento; mas nós esperamos que a perspectiva se desdobre; o génio avança, afasta o véu e diz-nos: vem!

A ciência consiste em ver dentro, o génio vê dentro; freqüenta o íntimo dos seres e, graças a êle, fala-nos o mesmo ser e não os nossos ecos fracos e duvidosos.

O génio simplifica. A maior parte das grandes invenções resultam de concentrações súbitas e fulgurantes. As grandes máximas são múltiplas experiências condensadas. OL traço sublime, na pintura, na música, na arquitectura, na poesia, é um jacto que contém e unifica valores até aí disseminados e indecisos.»

A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual —
Espírito, Condições, Métodos (1920), Trad. e Pref.
A. Pinto de Carvalho, Arménio Amado-Editor,
Coimbra, 1941. p.141-3.

maio 29, 2013


«Seleccionar os livros. Não acreditar no reclamo interesseiro nem no chamariz dos títulos. Ter conselheiros dedicados e sabedores. Dessedentar-se só nas fontes. Freqüentar apenas o escol dos pensadores. O que nem sempre é possível em matéria de relações pessoais, é fácil, e convém aproveitar, em matéria de leituras. Admirar de alma e coração o que merece ser admirado, sem contudo prodigar a admiração. Desdenhar das obras mal feitas.

Ler só obras de primeira mão, onde brilham as ideias-mestras. Ora estas são pouco numerosas. Os livros repetem-se, diluem-se, ou então contradizem-se, o que é outra maneira de se repetirem. [ ] A maior parte dos escritores são apenas editores; é já alguma coisa. Voltemos, porém, ao asuunto.

Haveis de ler, sem prevenção, o que se escreve de bem; lereis os autores modernos, e tanto mais quanto precisardes de informações, de noções positivas em evolução ou em crescimento; [ ].

Em seguida deveis seleccionar nos livros. Nem tudo é igual. Nem por isso haveis de assumir a atitude de juíz; [ ]. Mas sois homem livre, permaneceis responsável [ ].

Além disso, lembrai-vos que até certo ponto um livro vale o que vós valeis, e o que o fizerdes valer. [ ] Escolhei o melhor que puderdes; mas procurai que tudo seja bom, largo, aberto ao bem, prudente e progressivo.»

A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual —
Espírito, Condições, Métodos (1920), Trad. e Pref.
A. Pinto de Carvalho, Arménio Amado-Editor,
Coimbra, 1941. p.133-5.

maio 27, 2013



«Enfim, para ennobrecer o espírito do trabalho, juntemos ao ardor, à concentração, à submissão, um esforço de alargamento que comunica a cada estudo ou a cada produção um alcance de algum modo total.

Um problema nunca pode encerrar-se em si mesmo, mas trasborda sempre, em razão da sua natureza; porque a inteligibilidade por êle invocada provém de manamciais que o transcendem.

Vem aqui a-propósito o que dissemos da ciência comparada. Cada objecto de estudo pertence a um todo onde produz e recebe acção, sofre e pões condições; não pode ser estudado à parte.

A especialidade ou análise pode ser um método, não deve ser um espírito. [ ] Isolo uma peça dum mecanismo, a-fim-de a considerar mais detidamente; mas enquanto a tenho nas mãos e examino, o pensamento deve repô-la no seu lugar, vê-la accionar no todo, sem o que a verdade ficará alterada.»

A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual —
Espírito, Condições, Métodos (1920), Trad. e Pref.
A. Pinto de Carvalho, Arménio Amado-Editor,
Coimbra, 1941. p.123-4.
Agora perdi o acesso ao outro blog,
e, pelos vistos, consigo entrar neste.
Que trapalhada!

maio 25, 2013

Parece que perdi o acesso à gestão deste blog.
Aparente e excepcionalmente, consegui entrar agora.
Informo: - mudei-me para o Novo Blog Experimental.

ab.,
v.

maio 13, 2013


«Para obedecer às leis do pensamento tenho de me mostrar perto das coisas ou antes no íntimo delas, porque pensar é conceber o que é, e escrever verdade, ou por outra escrever de acordo com o pensamento, é revelar o que é, e não enfiar frases. Por isso o segredo de escrever consiste em colocar-se ardentemente diante das coisas, até que elas vos falem e determinem os termos que as devem exprimir. [ ]

A verdade do estilo afasta o molde. Chamo molde a uma verdade antiga, a uma fórmula que passou para o uso comum, a um lote de expressões outrora novas e que já o não são por terem perdido o contacto com a realidade de onde nasceram, por flutuarem no ar, vãos ouropéis que tomam o lugar do autêntico ouro, o lugar de transcrição directa e imediata da ideia.»


A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual —
Espírito, Condições, Métodos (1920), Trad. e Pref.
A. Pinto de Carvalho, Arménio Amado-Editor,
Coimbra, 1941. p.181.

maio 11, 2013


«Podem-se explicar as qualidades do estilo em tantos artigos quantos se quiser; tudo, porém, creio eu, se resume em três palavras: verdade, individualidade, simplicidade, a não ser que se prefira sintetizar nesta única frase: escrever verdade.

O estilo é verdadeiro quando corresponde a uma necessidade do pensamento e quando se mantém em contacto íntimo com as coisas.

O discurso é acto de vida: não deve representar um corte na vida. É o que acontece quando caímos no artificial, no convencional; Bergson diria no tout fait

A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual —
Espírito, Condições, Métodos (1920), Trad. e Pref.
A. Pinto de Carvalho, Arménio Amado-Editor,
Coimbra, 1941. p.179-80.

maio 01, 2013

«Esta é, julgo eu, a última palavra a dizer sobre os livros. O livro é sinal, estimulante, ajuda, iniciador, não apenas substituto, nem prisão. O pensamento precisa de estar em nós. Lendo, não devemos ir para os mestres, devemos partir deles. Uma obra é berço, e não túmulo.»

A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual —
Espírito, Condições, Métodos (1920), Trad. e Pref.
A. Pinto de Carvalho, Arménio Amado-Editor,
Coimbra, 1941. p.153

abril 29, 2013


«A fonte do saber não está nos livros, está na realidade e no pensamento. Os livros são postes indicadores; o caminho é mais antigo, e ninguém trilha, por nós, o caminho da verdade. O que acima de tudo nos interessa é o que é, e não o que o escritor diz; e o que o nosso espírito pretende não é repetir, mas compreender, ou seja tomar consigo, absorver vitalmente e, enfim, pensar por si. Ouvida a palavra, é mister, depois do autor, e talvez graças a ele mas indepedentemente dele, obrigar a alma a repeti-la de si para consigo. É forçoso recriar para nosso uso toda a ciência.»

A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual —
Espírito, Condições, Métodos (1920), Trad. e Pref.
A. Pinto de Carvalho, Arménio Amado-Editor,
Coimbra, 1941. p.151

abril 27, 2013

               Liceu Alexandre Herculano, no Porto.
             
«A leitura, se tem suas vantagens, também tem seus contras. Tudo está em saber doseá-la: excessiva, conduz ao servilismo da inteligência; moderada (uma leitura que mais procure problemas que soluções) eis a única admissível e de rendimento certo.

Fora deste último critério, a leitura é mania, e, portanto, doença, porque, dado o exagero com que se pratica, adultera a noção da realidade, estiola as qualidades de observação, cria um mundo à parte, artificial e mentiroso.»  

Cruz Malpique, O Homem de Letras,
Edição do Autor, Porto, 1956, p.81

abril 25, 2013



«Saber? Ter mesmo muitos conhecimentos? Excelente, por se tratar da satisfação de um desejo naturalíssimo no homem — o da curiosidade de tudo desvendar. Os reparos só surgem quando essa satisfação, com prejuízo do esforço criador pessoal, descamba para o abuso de apenas recitar o alheio.

Erudição importa possuí-la, mas sem que sob o seu peso nos ajoujemos, trôpegos, como se padecêramos de prisão de ventre mental. A erudição lamentável comparamo-la ao tecido adiposo de grosso volume que torna o homem elefantíneo na marcha.

A erudição que vale — identificável à cultura — assemelha-se ao homem de abundante tecido muscular, que, longe de lhe entravar a agilidade, antes a melhora.

Há saber saber; aquele que é feito exclusivamente (ou quase) daquilo que os outros pensaram, e aquele que, sem desprezar o pensamento alheio, não descura a criação pessoal. O primeiro vive da mera repetição, mais usando da memória que da inteligência, agachado perante o que considera ciência certa e imutável. O segundo aproveita o pensamento estranho, mas não se fica em feiticista adoração perante ele. Toma-o como ponto de partida para ir mais longe, mas não como estação de nirvânico repouso.»

Cruz Malpique, O Homem de Letras,
Edição do Autor, Porto, 1956, p.78-9

               Cruz Malpique



abril 23, 2013


«A arte de administrar uma casa e a de administraruma pólis diferem entre si não apenas na medida em que a casa e a pólis também diferem (uma vez que aquela é o fundamento desta), mas ainda no facto de a administraçãoda pólis envolver muitos governantes e de a administração doméstica depender somente de um.

Ora acontece que algumas das artes se distinguem claramente, pelo que não se enquadra na mesma arte produzir determinado artefacto ou fazer uso dele, conforme sucede com a lira e as flautas; no entanto, a arte política tanto se ocupa da constituição da pólis desde o início, como zela também pelo seu bom funcionamento, depois de estar já instituída. É evidente que a função da arte económica há-de consistir igualmente em estabelecer a casa e também em fazer uso dela.

A pólis resulta, por conseguinte, de um agregado constituído por casas, terras e bens, que seja auto-suficiente e capaz de garantir o bem-estar. Esta realidade afigura-se evidente, pois, quando as pessoas não se mostram capazes de aquele objectivo, a comunidade acaba por dissolver-se. De resto, é por este motivo que os homens vivem em sociedade; a razão pela qual cada coisa existe e foi criada representa a essência de si mesma. Por aqui se torna claro que a origem da administração da casa é anterior à administração da pólis; e o mesmo se diga da sua função, pois a casa é uma parte da pólis. Temos, portanto, de examinar a arte da economia e a natureza da respectiva função.»

Aristóteles, Os Económicos, Introd., notas
e trad. de Delfim Ferreira Leão, INCM,
Lisboa, 2004, 1343a 1.

abril 21, 2013


«A verdade última é algo parecido com a saída de um equívoco. É semelhante a descobrir quem se esconde atrás de um disfarce, ou a comprovar que aquilo que tanto nos assusta é a nossa própria sombra. Não é a comprovação de um facto, mas antes o conhecimento da ilusão que o originou. É uma compreensão insólita, um estado onde só é real o sujeito, criador, luminoso, enquanto os objectos do seu conhecimento não são mais do que um desfile permanente de sombras»

Benigno Morilla, Pitágoras, O Filho do Silêncio,
(«Pitágoras — El Hijo del Silencio», 2003),
Lisboa, Ésquilo, 2005, p. 98

abril 19, 2013


Tucídides, aristocrata e fiel aos oligarcas atenienses, retrata com rigor e isenção a política democrática de Péricles numa oração fúnebre que o faz pronunciar ao povo:

«A polítca é superior à dos povos vizinhos. Ao invés de imitarmos os outros, antes constituímos um exemplo. Porque o Estado foi criado no interesse geral e não no de apenas um grupo, a nossa política pôde tomar o nome de democracia. A igualdade é imposta pelas leis nos assuntos que opõem particulares, mas qualquer um pode distinguir-se de acordo com o seu mérito na vida pública. A classe a que cada um pertence tem menos importância do que as suas qualidades pessoais; para quem deseje servir a cidade, nem a pobreza nem o facto de ser de baixa condição constituirão impedimento. O nosso governo rege-se pela liberdade. [ ]

Na nossa vida quotidiana, jamais impomos seja a quem for qualquer constrangimento. Nós tememos agir contra a República. Respeitamos as leis e os  magistrados. [ ]

Mas a nossa cidade tem ainda outras razões para suscitar admiração.

Nós sabemos como bem misturar beleza e simplicidade, estudos e entusiasmo. Nós preferimos a acção às palavras. Para nós, não é vergonhoso confessar que se é pobre. Pelo contrário, é vergonhoso nada fazer para o evitar. Os homens podem sempre ocupar-se dos seus negócios e dos assuntos do Estado.

Os artesãos podem fazer-se ouvir na política. Nós somos os únicos que consideram que os que se mantêm afastados da política são ociosos ou incapazes. Somos nós próprios que decidimos acerca de tudo. Nós não consideramos que a palavra seja nefasta à acção. Não obstante, consideramos pernicioso que não se procure estar bem informado antes de empreender qualquer acção. Nós somos diferentes dos outros porque somos audazes e reflectidos nos nossos actos. Os outros tornam-se empreendedores por ignorância e indecisos quando reflectem. Aqueles que enfrentam o perigo conhecendo os prazeres e as dificuldades da vida devem ser considerados os mais corajosos. [ ]

Eu declaro que a nossa cidade é o exemplo da Grécia. Qualquer homem sabe adaptar-se a todas as circunstâncias com uma facilidade desconcertante. Isto não são meras palavras, é a realidade. Graças a estas qualidades, tornámo-nos poderosos. Atenas é a única cidade que consegue ser superior à sua própria fama.»

Tucídides, A Guerra do Peloponeso, II, 36-41,
cit. in Violaine Vanoyeke, Péricles (1997),
Lisboa, ed. Pergaminho, 2001, p. 141-3

abril 17, 2013


Discurso de Tucídides aos Lacedemónios sobre os Atenienses

«Ainda que salvaguardeis o que existe, falta-vos a invenção e nem chegais mesmo a fazer o que é necessário. Eles mostram-se empreendedores. Vós duvidais até do que é certo; vós sempre pensais não poder sair das situações difíceis. Eles agem e vós hesitais. Eles viajam enquanto vós vos mostrais caseiros. Eles abandonam o seu país para ganhar proveitos. Vós, quando partis das vossas casas, imaginais agravar a vossa situação. Quando vencedores, eles continuam a progredir; quando vencidos, tentam por todos os meios ceder o menos possível. Quando defendem a sua cidade, eles entregam-se de alma e coração; mas não se deixam abalar nas suas resoluções. Se forem mal sucedidos, ver-se-ão despojados das suas possessões. Quando conquistam territórios pela guerra, eles esperam muito mais do que isso. Se a experiência os defrauda, concebem outras esperanças e recuperam dos seus insucessos. O triunfo e a esperança estão em perfeita concordância com os seus projectos, porque eles têm uma execução rápida. Eles conseguem prosseguir em todas as suas acções através de dificuldades e perigos. Eles pouco aproveitam do presente, porque desejam sempre ganhar vantagem. Para eles, apenas conta o cumprimento do dever. O descanso sem actividade desagrada-lhes mais do que uma actividade demasiado grande. Diríamos a verdade se avançássemos que eles são incapazes de ficar quietos e de deixar os outros tranquilos.»

Tucídides, A Guerra do Peloponeso, I, 70,
cit. in Violaine Vanoyeke, Péricles (1997),
Lisboa, ed. Pergaminho, 2001, p. 35-6

abril 15, 2013

«É a Eisenstein [ ] que devemos os primeiros tratados magistrais sobre a forma e a significação no cinema nos quais demonstra a importância da montagem na produção cinematográfica e, consequentemente, em qualquer produção significante. O cinema não copia de um modo «objectivo», naturalista ou contínuo uma realidade que lhe é proposta: corta sequências, isola planos, e recombina-os através de nova montagem. O cinema não reproduz coisas: manipula-as, organiza-as, estrutura-as. E só na nova estrutura obtida pela montagem dos elementos é que estes ganham um sentido. Este princípio de montagem, ou melhor da junção de elementos isolados, semelhantes ou contraditórios, e cujo choque provoca uma significação que eles não têm em si mesmos, foi Eisenstein encontrá-lo na escrita hieroglífica. [ ] Segundo ele, o filme deve ser um texto hieroglífico em que cada elemento isolado só tem sentido na combinatória contextual e em função do seu lugar na estrutura.»  


Julia Kristeva, História da Linguagem,
Le langage, cet inconnu», 1969),
Lisboa, Edições 70, 1988,
pp.360-61

abril 13, 2013



Pós-escrito: — Têm todos os universais exemplos
ou haverá universais não exemplificados?

Os realistas dividem-se quanto à resposta a dar a esta questão (Q)

(Q) há universais que não são exemplificados (E) por nada? 

$P ( Universal P Ù Ø $x   x E P)?    

O realismo platónico responde que sim:
há propriedades universais que não são exemplificadas por nenhuma coisa­:

$P (Universal P Ù Ø $x  x E P).

O realismo aristotélico responde que não:
toda a propriedade universal é exemplificada, pelo menos, por uma coisa:

"P (Universal P ® $ x  x E P)

Note-se que é comum às duas correntes do realismo
admitir a existência de universais: $P  Universal P.

E, também, o próprio predicado E = “é exemplificado por
deve ser interpretado num sentido intemporal, i.e., no sentido de ter sido (passado) ou estar a ser (presente) ou vir a ser (futuro) exemplificado.-


Um argumento a favor do realismo platónico é o da perfeição. Nenhuma figura ou forma ou qualquer facto empírico é a expressão perfeita das propriedades que exprime; logo, os universais são necessários porque só com eles os particulares exemplificados podem ser explicados.

Contudo, poderá replicar-se que, pelo menos, em alguns casos, haverá particulares perfeitos. Ora, é bem possível: o próprio Platão, o primeiro filósofo que de algum modo abordou a questão de estética na cultura ocidental, admitia que o belo sensível era uma expressão directa do Bem Supremo no mundo das sombras dos sentidos! :))

Outro argumento a favor do realismo platónico é o de que, propriedades e relações não exemplificadas, podem ser indispensáveis do ponto de vista da explicação causal, científica. Aliás, como mostrou Hume e Quine, o nexo causal entre dois acontecimentos, não sendo nem uma necessidade lógica, nem uma relação observável intrinsecamente, é sempre uma relação abstracta que obtém satisfação na conjunção constante observada do par ordenado causa-efeito.

No plano realista, a liberdade conceptual de inventar objectos abstractos, numa operatória simbólica prévia, e subtraída com sobriedade aos constrangimentos empíricos é, na minha opinião, uma condição de criatividade e investigação, de experiência de pensamento, qualitativamente superior às limitações do realismo aristotélico, e como tal, preferível.

(Reflexão pessoal na base de uma lição
do Prof. João Branquinho sobre
Tópicos de Metafísica )

abril 11, 2013


A base filosófica sobre a qual se desenvolveram as teorias da linguagem na Idade Média foi a importante questão dos universais: — Têm todos os universais exemplos ou haverá universais não exemplificados? que foi a célebre discussão entre realistas  e nominalistas.

Os realistas, de que Duns Scot (1266-1308) foi o principal representante, defendiam a tese de ser real o ser infinito, de que as coisas são mera exteriorização ou cópia. Quanto à linguagem, para Scot, as palavras estavam numa relação intrínseca com as ideias ou conceitos, que passam a existir logo que há  palavras que as designem.

Os nominalistas, representados principalmente por Guilherme Occam (1300-1350, aprox.), defendiam a existência real de coisas particulares, cujo universal — ideia ou conceito — apenas existia na alma dos sujeitos cognoscentes. No plano da linguagem, não consideravam  equivalente a ideia e a palavra. Por exemplo, na frase «O homem corre», não é a palavra homem que corre, nem a ideia de espécie humana, mas a pessoa concreta individual que está a correr. Occam constrói, assim, a sua doutrina do discurso em função das palavras ou termos utilizados no discurso, donde o nome da sua doutrina: nominalismo ou terminalismo.

Já no fim da Idade Média, a defesa das línguas nacionais requer a elaboração de gramáticas apropriadas às especificidades de cada uma. A língua vulgar de cada país, como língua falada, é valorizada não apenas contra o latim, mas por revelar um fundo primitivo, lógico e natural, de algum modo universal. Para comunicar as suas concepções aos seus semelhantes, o homem forja signos de natureza racional e sensível; racional, por o falante o criar na razão dialogante com o seu semelhante; sensível, por a comunicação humana se efectuar somente por intermédio dos sentidos. Assim, o signo, a matéria da linguagem vulgar, é sensível pela sua natureza como som, e racional pela sua significação cognitiva como ideia.
 
Julia Kristeva, História da Linguagem,
(«Le langage, cet inconnu», 1969),
Trad. Mª Margarida Barahona,
Lisboa, Edições 70, pp. 165-7

abril 09, 2013

«Todo o texto se constrói como mosaico de citações, todo o texto é absorção e transformação de um outro texto. No lugar da noção de intersubjectividade instala-se a de intertextualidade, e a linguagem poética lê-se, pelo menos, como dupla(p.72)

«Há três dimensões do espaço textual: o sujeito da escrita, o destinatário e os textos exteriores (três elementos em diálogo). O estatuto da palavra define-se então: a) horizontalmente: a palavra do texto pertence ao mesmo tempo ao sujeito da escrita e ao destinatário, e b) verticalmente, a palavra do texto é orientada para um corpus literário anterior ou sincrónico.» (p.71)

Julia Kristeva, Semiótica do Romance,
Dir., Pref. e revisão da trad. Maria Alzira Seixo,
Lisboa, Editora Arcádia, 1977

abril 07, 2013


«Bom, mas o meu inesperado visitante a dizer, como se isso fosse pertinente para a inexplicitada situação em que agora se encontrava, que mesmo o relativo sucesso da sua carreira profissional dependera, em larga medida, de circunstâncias exteriores à sua vontade. Não as tendo podido determnar, soubera, no entanto, utilizá-las, como aliás competia a um diplomata de um pequeno país com passado e sem futuro. E que assim conseguira ir parecendo ter-se tornado em quem se tinha tornado na sua vida pública, a cópia de quem poderia ter sido, sabendo embora que poderia ser outro noutras circunstâncias. Ou até nas mesmas, como afinal são as circunstâncias de todos quando reduzidas às essências que, em resumo, consistem em ter nascido de alguém, mesmo se a contragosto de parte a parte, e em morrer-se só, mesmo se acompanhado pelo boca-a-boca do pronto-socorro.»

:)
Helder Macedo, Tão Longo Amor Tão Curta a Vida,
Lisboa, Presença, 2013, p.13


abril 02, 2013

                             Jules Lachelier (1834-1918)

«[ ] Dizer que um acto é livre, é dizer que é indeterminado a qualquer respeito, ou que procede de qualquer coisa indetermnada: mas a indeterminação como tal não tem nada de actual nem, por consequência, de observável [ ]. E é necessário notar que quaisquer pensamentos que não correspondessem em nós a nenhum desejo não exerceriam influência nenhuma sobre os nossos actos: porque nós não podemos agir senão tendo um bem em vista, e não podemos considerar um bem senão aquilo que para nós é objecto de um desejo.

Há mais: os próprios pensamentos que nos dão a representação de uma conduta a seguir não despertam e não se ordenam em nós senão sob a influência de um desejo, ou pelo menos de uma inclinação: porque até o nosso espírito ficaria inactivo se não fosse solicitado pela atracção de um bem, que procura possuir em ideia enquanto não o possuímos em realidade.»



«As nossas sensações, ou o que nelas há de subjectivo, as nossas afecções, serão nós próprios? […] Dizer que gozamos um prazer e sofremos uma dor, não será confessar que somos alguma coisa que se distingue desse prazer e dessa dor?  […]
Donde provém, finalmente, o nosso esforço para nos aproximarmos do que nos agrada e nos afastarmos do que nos fere, se não existe em nós um princípio de acção, uma tendência primitiva, que é estimulada pela afecção, mas não criada por ela? […]

[O] que talvez seja verdade é envolver a consciência de cada afecção, como antecedente necessário, a [consciência] de uma tendência que a produz e que nela se reflecte. A tendência não nos é dada senão pela afecção, e a necessidade mal desperta, assume para nós a forma de um mal-estar: mas sentimo-la, por assim dizer, a trabalhar, no movimento contínuo que a pouco e pouco transforma esse mal-estar em sofrimento e desse mesmo sofrimento faz nascer o prazer que acompanha a satisfação da necessidade e o bem-estar que se lhe segue.

Não é pois da percepção à vontade, mas, pelo contrário, da vontade à percepção, que se sucedem, na sua ordem de dependência, e provavelmente também de desenvolvimento histórico, os elementos da consciência. […] A consciência é essencialmente a oposição de um sujeito ou de um eu ao mundo exterior; e foi esse sujeito que sucessivamente procurámos na qualidade sensível e na afecção, para finalmente o encontrarmos na vontade.»



Jules Lachelier, Psicologia e Metafísica,
Trad. e Prefácio Adolfo Casais Monteiro
Lisboa, Cadernos Culturais Inquérito, nº 87
pp. 25-26; 41-42; 46

março 29, 2013


«Tudo quanto Cousin afirmava em nome da experiência interior, nega-o uma nova psicologia em nome dessa mesma experiência. [ ]

Suponhamos pois com Cousin que possuímos certos conhecimentos a priori: o valor objectivo destes conhecimentos não poderá consistir, como o de todos os outros, senão na sua concordância com os fenómenos: simplesmente, enquanto os nossos conhecimentos se coordenam ordinariamente pelos respectivos objectos, será necessário, se esses conhecimentos de que se fala são verdadeiramente a priori, que sejam, pelo contrário, os fenómenos que se coordenem por eles.

Foi precisamente assim que Kant o entendeu, quando empreendou o estabelecimento e não, como se supôs, a destruição, do valor objectivo dos princípios do nosso intelecto [ ].

Será mesmo lícito afirmar, em nome da observação anterior, a existência de uma espécie particular de conhecimentos  a priori? Estes conhecimentos, na psicologia de Cousin, são de duas espécies: uns, como o «princípio de substância» e o «princípio de causa», são relativos a coisas em si; os outros, como o princípio de indução, têm o seu objecto no mundo dos fenómenos.

Ora parece-nos que os primeiros, se realmente existem no nosso espírito, merecem mais o nome de crenças do que o de conhecimentos: é com efeito possível que correspondam a objectos, mas não temos possibilidades de o averiguar, visto que, por hipótese, tais objectos estão situados fora da esfera da nossa consciência.

Um juízo como o princípio de indução pode pretender, pelo contrário, o título de conhecimento, porque só de nós depende averiguar que as coisas se passam na natureza em conformidade com esse princípio: mas deverá este conhecimento ser a priori ou a posteriori?

[Direis] que o princípio de indução nos faz conhecer a priori a ordem que reina no universo: [mas] concordais ser a experiência que dá valor de objectividade [àquele] princípio e que, se ele existe a priori no nosso espírito, só a posteriori adquire o título e a categoria de conhecimento.

[ ] Não temos pois motivo nenhum para admitir, sob o nome de razão, uma faculdade original, a menos que essa faculdade seja a de formular, sobre as coisas em si, juízos cujo valor e a própria existência fogem a qualquer discussão.»

Jules Lachelier, Psicologia e Metafísica,
Trad. e Prefácio Adolfo Casais Monteiro, Lisboa,
Cadernos Culturais Inquérito, nº 87, pp. 20 a 22

março 27, 2013



«Observamos em nós próprios certos factos de um género particular, aos quais chamamos pensamentos, sentimentos, vontades, que não se desenvolvem no espaço e são unicamente visíveis pela consciência. [ ]

Os factos da consciência, com excepção contudo dos «factos voluntários», estão submetidos a leis análogas às que regem o mundo exterior. Podemos descobrir estas leis pelo mesmo processo que às outras leis da natureza, isto é, observando os factos e notando o que há de regular na sucessão deles.

Relacionamos, em geral, os factos da consciência com certas propriedades duráveis do nosso ser, às quais chamamos faculdades; mas, no caso particular dos «factos voluntários», apreendemos directamente a causa produtora ao mesmo tempo que o efeito produzido: temos consciência da nossa vontade como potência activa, e é à imagem desta que representamos as nossas ouras faculdades.»

Jules Lachelier, Psicologia e Metafísica,
Trad. e Prefácio Adolfo Casais Monteiro, Lisboa,
Cadernos Culturais Inquérito, nº 87, pp. 15-16

março 25, 2013


Era uma vez uma serpente infinita. como era infinita
não havia maneira de saber onde estava a sua cabeça.
de cada vez que se lhe tirava uma vértebra
não fazia falta nenhuma. podia-se mesmo
parti-la deslocá-la emendá-la.
ficava sempre infinita.

quem quisesse levar-lhe um bocado para casa podia pô-lo
na parede e contemplar um fragmento de serpente infinita.

:)
ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, # 68