setembro 12, 2011


«E aqueles dois seres humanos caminhavam indistintos de compreensão futura,
aos bordos sentimentais, a polir arestas salientes do dia a dia. Para os dois
o mundo estava isolado por um dique intransponível.

A vida projectava-se de um lado e do outro,
como as margens adormecidas do Rio Lima.

Podiam parar, olhar para a noite, fazer tudo aquilo que aos
outros humanos era sentimento passageiro de igualdade.

Pouco importava agora a sua separação. Sentiam-se diferentes,
como as caras das pessoas que se cruzam nas ruas.

Só a tragédia ou a aventura os podia aproximar

Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p. 102-3

setembro 11, 2011



«Afasta-te, diabo, que andas sempre distraído,
não vês Dona Urraca a rezar com o breviário
debaixo do braço. Parece sonâmbula, nem
repara em nós. Deito-lhe as mãos e
obrigo-a a confessar-se de
pecadoria geral.

Raios me partam se aquele fedúncias
do Menino das Enguias não é filho dela.

E a quererem passar por santos,
lá na terra querem todos ser santos,
dizem que são santos e ficam contentes,
bastam-se com pouco.

Fazem as maiores poucas-vergonhas
e são todos uns santos.

Então os primos mais
sociais da Grande Barbela
quanto mais pouca-vergonha,
mais missa e mais santos na família.»

:)


Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p. 230

setembro 10, 2011



«Torna-se também difícil explicar o que se passava
no espírito de Dom Raymundo. Parece haver a certeza
de que Dom Raymundo era um destes seres que se
deixa amar sem perguntar porquê. Irresponsável
e poeta, com uma barbicha e um encanto de deitar
abaixo as piores intenções, deixava-se amar com um
ar olímpico de quem à superfície da terra é um Deus
e, como tal, não pode medir as consequências
benéficas ou maléficas dos seus actos. Vivia num

laissez faire que amedrontava os homens como
Frey Cyro, procuradores honestos de uma verdade
nas coisas e nos indivíduos. Não era o enfant terrible
da Barbela, sim um homem terrível, que deixava ao
deus-dará as consequências dos amores com que
queimava vidas alheias. E nisto constituía-se muito
latino e muito português. Generoso no amor, cruel
na desgraça. A memória que varresse o passado;
mesmo a saudade ficava apenas dos bons momentos,
que dos maus não se lembrava.»

op.cit., pp.180-81

setembro 03, 2011



"Post blanda veneris"

Depois do suave ardor
Do sexo,
Dos nervos se distende
O nexo.
Como que flutuando
Da treva a um mundo novo
Os olhos vêm vogando
Num remar das pálpebras!
Ah, como é doce o trânsito
Da posse ao entressonho!
Mas mais doce é o regresso
Do entressonhar à posse.



De Carmina Burana,
conjunto de poemas medievais

agosto 30, 2011


Amrita Sher-Gil, Sleeping woman(1933)
img in Branco no Branco

Sou a outra que me vê,
sombra que conhece há muito as figuras.
Durmo, transformo-me no sono
em sonhadora da minha cabeça.


Fiama Hasse Pais Brandão

agosto 29, 2011


Louise Peabody, sunbather
img in blog Branco no Branco

«Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida toda num momento.»


Graça Pires

agosto 27, 2011



O cheiro da praia tornando-se abstracto.
não fui eu a primeira a transpô-lo.
dos restos de água para a espuma
das lembranças. da ressaca
que distribui conchas ao acaso
até à narração literária desse abandono.
Aónio recolheu os fragmentos enquanto
Desencadeava os ecos atás do Amor.
as algas amontoam-se estendidas com perfeição
ao longo dos limites. Riscam a água
com um diamante. dali tudo jorra
como o cheiro de um vapor brando
que aparece.

mas eu perco-o como algo
volátil. impregno-me do que flutua.
na imagem que me resta um papel arde
e contorce-se. a tinta esbate-se
em forma de onda. as letras emocionantes
diluem-se. os poemas antigos
banhados pelo mar tornam-se matéria
pura. piso-os e observo no refluxo
pequenos orifícios. Lambem a sombra
ou o que eu sou quando o poente
bate sobre um lado do corpo.



Fiama Hasse Pais Brandão, Areia Branca,
in Obra Breve, Assíro & Alvim, Lisboa, 2008, p. 312

agosto 20, 2011



Epístola para Dédalo

Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.



Fiama Hasse Pais Brandão,
in Epístolas e Memorandos, 1996

agosto 14, 2011



«insana... jangada, que me sustem... ainda assim, livre.»

Ana de Sousa, Fragmentos





agosto 11, 2011



Num sistema em que os bens se troquem por promessas de entrega,
no futuro, de outros úteis e desejados bens, a confiança de que tal
acontecerá é a condição para essa forma de 'pagamento' ser aceite.

Se o sistema for perdendo credibilidade, a troca cessará
de permitir qualquer diferimento de pagamento, a subida
arrebatadora de juros sendo tão só uma outra forma
de findar trocas sem pronto pagamento.

Porém, se houver mesmo incumprimentos vultuosos,
não é expectável contar com a passividade
dos respecticvos credores, mesmo
quando os devedores têm bombas
nucleares - posto que os credores
também as tenham...
(como é o caso!)


Perdido por cem, perdido por mil!

agosto 02, 2011




«Il ne me reste plus maintenant qu’à examiner s’il y a
des choses matérielles: et certes au moins sais-je déjà
qu’il y en peut avoir, en tant qu’on les considère comme
l’objet des dé-monstrations de géométrie, vu que de cette
façon je les conçois fort clairement et fort distinctement.
Car il n’y a point de doute que Dieu n’ait la puissance
de produire toutes les choses que je suis capable
de concevoir avec distinction – et je n’ai jamais
jugé qu’il lui fût impossible de faire quelque
chose, qu’alors que je trouvais de la
contradiction à la pouvoir
bien concevoir.»



Sixième Méditation

julho 29, 2011



«Il me reste beaucoup d’autres choses à examiner,
touchant les attributs de Dieu, et touchant ma propre nature,
c’est-à-dire celle de mon esprit : mais j’en reprendrai
peut-être une autre fois la recherche.

Maintenant (après avoir remarqué ce qu’il faut faire ou éviter
pour parvenir à la connaissance de la vérité),
ce que j’ai principalement à faire,
est d’essayer de sortir et de me débarrasser
de tous les doutes où je suis tombé ces jours passés,
et voir si l’on ne peut rien connaître de certain
touchant les choses matérielles.


Mais avant que j’examine s’il y a de telles choses
qui existent hors de moi, je dois considérer leurs idées,
en tant qu’elles sont en ma pensée, et voir quelles sont celles
qui sont distinctes, et quelles sont celles qui sont confuses.»




Cinquième Méditation

julho 24, 2011



«Je me suis tellement accoutumé ces jours passés
à détacher mon esprit des sens, et j’ai si exactement
remarqué qu’il y a fort peu de choses que l’on connaisse
avec certitude touchant les choses corporelles, qu’il y en a
beaucoup plus qui nous sont connues touchant l’esprit humain,
et beaucoup plus encore de Dieu même, que maintenant
je détournerai sans aucune difficulté ma pensée
de la considération des choses sensibles ou ~
imaginables, pour la porter à celles qui,
étant dégagées de toute matière,
sont purement intelligibles.»

Quatrième méditation

julho 22, 2011



Le déserteur

Paroles: Boris Vian, adaptation: Mouloudji. Musique: Harold Berg 1954

Messieurs qu'on nomme Grands
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Messieurs qu'on nomme Grands
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Les guerres sont des bétises
Le monde en a assez

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir des pères
J'ai vu partir des frères
Et pleurer des enfants
Des mères ont tant souffert
Et d'autres se gambergent
Et vivent à leur aise
Malgré la boue de sang
Il y a des prisonniers
On a vole leur âme
On a vole leur femme
Et tout leur cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai par les chemins

Je vagabonderai
Sur la terre et sur l'onde
Du Vieux au Nouveau Monde
Et je dirai aux gens:
Profitez de la vie
Eloignez la misère
Vous êtes tous des frères
Pauvres de tous les pays
S'il faut verser le sang
Allez verser le vôtre
Messieurs les bon apôtres
Messieurs qu'on nomme Grands
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer
Et qu'ils pourront tirer...


Nota:
La version initiale des 2 derniers vers était:
"que je tiendrai une arme ,
et que je sais tirer ..."
corrigée pour conserver le côté pacifiste de la chanson.

julho 19, 2011


blog katelouise
«A existência individual carece de sombra.»

Paula Cristina Pereira, Do sentir e do Pensar
Edições Afrontamento, Porto, 2007

julho 18, 2011



«Je fermerai maintenant les yeux, je boucherai mes oreilles,
je détournerai tous mes sens, j’effacerai même de ma pensée
toutes les images des choses corporelles, ou du moins,
parce qu’à peine cela se peut-il faire, je les réputerai
comme vaines et comme fausses ; et ainsi m’entretenant
seulement moi-même, et considérant mon intérieur,
je tâcherai de me rendre peu à peu plus connu
et plus familier à moi-même.»



Troisième Méditation



julho 15, 2011



«Je crois que le corps, la figure, l'étendue,
le mouvement et le lieu ne sont que des fictions
de mon esprit. Qu'est-ce donc qui pourra être estimé
véritable? Peut-être rien autre chose, sinon
qu'il n'y a rien au monde de certain.»

Deuxième méditation

julho 11, 2011



«Tout ce que j'ai reçu jusqu'à présent pour le plus vrai et assuré,
je l'ai appris des sens, ou par les sens: or j'ai quelque fois éprouvé
que ces sens étaient trompeurs, et il est de la prudence
de ne se fier jamais entièrement
à ceux que nous ont une fois
trompés.»
Première Méditation

julho 05, 2011








Dance me to your beauty with a burning violin
Deixa-me dançar à volta da tua beleza ao som de um ardente violino

Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Ajuda-me a vencer o pânico até que entre a salvo no teu coração

Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Ergue-me como um ramo de oliveira e sê meu ninho de pomba

Dance me to the end of love
Dança comigo até ao fim do amor

Dance me to the end of love

Let me see your beauty when the witnesses are gone
Deixa-me contemplar a tua beleza quando todas as testemunhas tiverem saído

Let me feel you moving like they do in Babylon
Deixa-me sentir o teu corpo mover-se como era o costume na Babilónia

Show me slowly what I only know the limits of
Mostra-me devagar aquilo de que só conheço os limites

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dança agora comigo até à boda, outra e outra vez

Dance me very tenderly and dance me very long
Dança ternamente comigo por muito e muito tempo

We're both of us beneath our love, we're both of us above
Nós somos ambos inferiores ao nosso amor e somos-lhe ambos superiores

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dança comigo até às crianças que necessitam ser criadas

Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Dança comigo por entre as cortinas que os nossos beijos romperam

Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Ergue agora uma tenda que nos abrigue ainda que o tecido esteja gasto

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in

Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Toca-me com a tua mão nua ou toca-me com a tua luva

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love



julho 01, 2011



«Sento-me à mesa de trabalho, destapo a máquina de escrever
vou começar o meu retrato. Escrevo: não vivo no meu
endereço. Nunca vivi no endereço que dei. A singularidade
da minha experiência reside na observância da singularidade
da sua percepção. Paro e leio o que escrevi. Depois acrescento:
A história do mundo atravessa-me.»


[ana hatherly]
__________________________________________________________




A poetisa não se introspeciona nem se explica a si própria,
qual mónada singular do universo, onde se atravessa
a história do mundo o qual, enquanto causa de si,
existe em si e por si, sem outra essência
que a de simplesmente existir.

A poetisa mimetiza o seu criador! :)

junho 29, 2011



— «Via perfilar-se a cosa mentale, [ ] e pude então afirmar que compreendera. O prazer sexual não só era superior, em requinte e violência, a todos os outros prazeres que a vida podia comportar; não só era o único prazer não acompanhado de danos para o organismo, como contribuía, pelo contrário, para o manter ao mais alto nível da vitalidade e da força; era na verdade o único prazer, o único objectivo da existência humana, e todos os outros — associados a alimentos de luxo, ao tabaco, às bebidas alcoólicas ou à droga — eram apenas compensações irrisórias e desesperadas, mini-suicídios que não tinham a coragem de se nomear, tentativas para destruir mais rapidamente um corpo que já não tinha acesso ao prazer único.»

Michel Hoellebecq, op.cit.,p.320

junho 26, 2011


NGC 3132: The Eight Burst Nebula

«A nossa pertença a um espaço comum estava destinada a permanecer puramente teórica; nenhuma daquelas pessoas se deslocava num campo de realidade com o qual pudéssemos interagir, fosse de que maneira fosse; não tinham mais existência aos nossos olhos do que se fossem imagens num ecrã de cinema, diria mesmo menos.»

Michel Houellebecq, A possibilidade de uma ilha,
Lisboa, Public. Dom Quixote, p.215

junho 25, 2011


Imagem in blog Mar à Vista

«Ninguém pode ler dois mil livros.
... Aliás não é ler que importa, mas reler.»


JL Borges, O Livro de Areia

junho 20, 2011




«Ninguém se lembraria de explicar o movimento
por considerações de cor,

ao passo que o contrário
é ou foi tentado.



Há, pois diversidade.

Talvez por sermos fonte de movimentos,
e não de cores - e este poder ser

condição de explicação

(Paul Valéry, Op. cit., p. 103)

junho 17, 2011



«Não leio no jornal
aquele drama sonoro, aquele sucesso
que faz palpitar os corações.

A que lado me levariam, senão
ao verdadeiro limiar destes problemas abstractos
em que já me encontro instalado por inteiro?»



(Paul Valéry, O senhor Teste, Relógio d'Água, 1985, p. 53)

junho 08, 2011


Serge Latouche, Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno,
(«Petit Traité de la Décroissance Sereine», 2007),
Trad. Victor Silva, Edições 70, Lisboa, 2011


Eis um título que me suscitou curiosidade por propor um resultado que nunca vi defendido embora o suspeite necessário: um decrescimento sereno! Sempre considerei que o capitalismo produz uma importante porção de bens e serviços que não serve para nada, de utilidade nula!

Por outro lado, repugnou-me desde novo a desenfreada mercantilização de cada segmento de prazer, apropriando-se os capitalistas da natureza, para cobrar preços por actividades que, — sei —, são livres e exercidas gratuitamente nos países menos desenvolvidos; rarificam assim a abundância natural, pelo fraccionamento de serviços e bens, que passam a vender a preços desmesurados aos povos já subjugados pelo comércio capitalista.

Por fim, sempre fui e sou consciente da validade objectiva da lei de Malthus, que é aliás logicamente incontroversa, porque não pode haver nenhum desenvolvimento ilimitado de qualquer singularidade dependente dum meio finito, limitado!

Por estas razões, era grande a minha curiosidade de ver como o autor trataria estes “adquiridos” do meu pré-juízo e como proporia o que se me afigurava deveras adequado: um descrescimento da produção, particularmente a dos bens e serviços inúteis! :)

(continua)
[vide abaixo]
(continuação 1)





Serge Latouche ilustra a eminência da catástrofe ecológica no planeta com o fenómeno do crescimento de uma alga verde num lago. Supondo uma duplicação anual da alga na superfície do lago, uma alga inicial ocupando a nonagésima terceira bilionésima parte da área lacustre, ocupar-lhe-á toda a superfície ao fim de trinta anos. É o desenvolvimento de um ser vivo em progressão geométrica de razão dois num meio finito como o do lago, nele gerando a eutrofização da água, asfixia da vida subaquática e a morte do sistema lacustre.

Vejam-se os termos da progressão geométrica

S=1= Superfície total do lago.
A0 = área da alga inicial implantada no lago= 93/100 000 000 000=
=9.3^10^-10=1/(2^30)=2^-30
(Nota:— O sinal “^” lê-se «elevado a»).

A área da alga no lago,
no final de cada ano,
progride como segue:

A1= 2x(2^-30)=2xA0
A2= 2xA1=2x2xA0=2^2xA0
A3= 2xA2=2x2x2xA0=2^3xA0
...
An= área da alga no final do nº ano= 2^nxA0
...
A24= 2^24xA0=2^-6=1.5625%
A25= 2^25xA0=2^-5=3.125%
A26= 2^26xA0=2^-4=6.25%
A27= 2^27xA0=2^-3=12.5%
A28= 2^28xA0=2^-2=25%
A29= 2^29xA0=2^-1=50%
A30= 2^30xA0=2^-0=100%

Ou seja, enquanto que para alcançar a cobertura de pouco mais de 3% da superfície do lago, a alga demorou duas décadas e meia, daí em diante o crescimento é galopante e num lustro a vida lacustre extingue-se.




Serge Latouche contrapõe a este destino ameaçador, a sabedoria de um outro ser vivo, o caracol, que para lá de ensinar a lentidão, ilustra como se inverte uma progressão de crescimento: o caracol constrói a arquitectura delicada da sua casca acrescentando sucessivamente espirais cada vez maiores; porém, bruscamente, inicia enrolamentos decrescentes, assim contendo o crescimento da casca nos limites da sua finalidade vital.

Conclui o autor: «Este afastasmento do caracol em relação à progressão geométrica, que, no entanto, abraçara durante algum tempo, aponta-nos o caminho para pensar uma sociedade do “decrescimento”, se possível serena e convivial.»

op. cit., pp.35-37.

(continua)
[vide abaixo]
(continuação 2)

Concordando embora quer com este diagnóstico malthusiano da coexistência precária do homem no planeta quer com a necessidade da inversão do sistema produtivista global e irrestrito, mantenho forte resistência à ecolatria dos novos cultos ecológicos.

Aplaudo sem reservas as medidas que reduzam o desperdício de energia, as que penalizem as despesas de publicidade, a abolição da obsolescência programada, a irrestrição do crédito, a par das que impulsionam a multiplicação de bens relacionais, como a amizade, a instrução e a ciência.

A relocalização de inúmeras actividades na proximidade dos núcleos habitacionais, restringindo as grandes superfícies comerciais, o restauro da agricultura camponesa, encorajando o consumo da produção mais local, mais sazonal e tradicional são medidas positivas de um eficaz decrescimento enquanto programa político.



Muito importante, as externalidades negativas da sociedade moribunda do crescimento têm de ser tributadas por taxas que “internalizem” nos custos dos seus agentes os danos que provocam à colectividade — inversamente, devem os agentes ser recompensados com subsídios pelos efeitos externos positivos que geram na comunidade. Este é o princípio do poluidor-pagador, que o Prof. Arthur Cecil Pigou, um economista ortodoxo, foi o primeiro a defender para que se atinja o óptimo, o bem-estar máximo do conjunto dos consumidores e produtores.


De certo modo, quase direi que limito a especifidades deste tipo o que de válido porventura há no ecológico “decrescimento sereno” de Serge Latouche.


(continua)
[vide abaixo]
(continuação 3)



No último capítulo do seu Pequeno Tratado, Serge Latouche interroga-se se o Decrescimento é um Humanismo. Aparentemente, defende que não, embora tente que não seja um anti-humanismo nem um anti-universalismo. Consegue-o? Não sei; mas por mim, eu limito-o pragmaticamente à condicionalidade social do princípio poluidor-pagador, defendido por Pigou há mais de oitenta anos.

Na verdade, os ecologistas rejeitam o «antropocentrismo das Luzes» e vinculam-se a um «ecocentrismo total»: - os seres humanos são uma das múltiplas espécies viventes e a sua realidade substancial não passa de um «denominador comum» dos seres humanos particulares realmente existentes.

Esta posição reconduz-nos ao debate metafísico do realismo aristotélico versus o de Platão. Para este, a realidade da humanidade não se limita à simples existência da espécie, porquanto há uma humanidade dos seres como seres humanos que independe dos seres humanos concretos (presentes, passados ou futuros), ou seja a substância do tipo «ser humano» é conceptualizável como uma abstracção e não como mero atributo comum de seres que existem de facto, como defende Aristóteles.

Enquanto a concepção aristotélica integra o homem no particularismo da sua cultura, religião, comunidade, relativizando as diferentes sociedades por um respeito equalizado por todas, independentemente das suas diferenças serem desprezáveis ou estimáveis, a concepção platónica aceita invariantes transculturais inquestionáveis como, por exemplo, os direitos do Homem, a democracia, a economia, repudiando o “comunitarismo” das culturas concretas, cujo relativismo “legitima e alimenta a barbárie” (Maryam Namazie)

Serge Latouche procura não ceder a nenhuma ecolatria buscando um meio termo entre a sacralização animista da natureza e o antropocentrismo, não tratando «os animais e as coisas como pessoas nem as pessoas como coisas (como o faz a tecnoeconomia). Há respeito pelas coisas, os seres e as pessoas», ou seja um verdadeiro ecoantropocentrismo, imprescindível à propria sobrevivência da humanidade.


(fim)
[vide abaixo, pos-escrito]

«O semelhante reconhece o semelhante.»

Pós-escrito: — Têm todos os universais exemplos
ou haverá universais não exemplificados?

Os realistas dividem-se quanto à resposta a dar a esta questão (Q):

(Q) há universais que não são exemplificados (E) por nada?

O realismo platónico responde que sim:
há propriedades universais que não são exemplificadas por nenhuma coisa.


O realismo aristotélico responde que não:
toda a propriedade universal é exemplificada, pelo menos, por uma coisa.

Note-se que é comum às duas correntes do realismo
admitir a existência de universais.

E, também, o próprio predicado E = “é exemplificado por”
deve ser interpretado num sentido intemporal, i.e., no sentido
de ter sido (passado) ou estar a ser (presente) ou vir a ser (futuro) exemplificado.


Um argumento a favor do realismo platónico é o da perfeição.
Nenhuma figura ou forma ou qualquer facto empírico
é a expressão perfeita das propriedades que exprime;
logo, os universais são necessários porque só com eles
os particulares exemplificados podem ser explicados.

Contudo, poderá replicar-se que, pelo menos, em alguns casos,
haverá particulares perfeitos. Ora, é bem possível: o próprio Platão,
o primeiro filósofo que de algum modo abordou a questão de estética
na cultura ocidental, admitia que o belo sensível era uma expressão
directa do Bem Supremo no mundo das sombras dos sentidos! :))

Outro argumento a favor do realismo platónico é o de que,
propriedades e relações não exemplificadas, podem ser
indispensáveis do ponto de vista da explicação causal,
científica. Aliás, como mostrou Hume e Quine, o nexo causal
entre dois acontecimentos, não sendo nem uma necessidade lógica,
nem uma relação observável intrinsecamente, é sempre
uma relação abstracta que obtém satisfação
na conjunção constante observada
do par ordenado causa-efeito.

No plano realista, a liberdade conceptual de inventar objectos abstractos, numa operatória simbólica prévia, e subtraída com sobriedade aos constrangimentos empíricos é, na minha opinião, uma condição de criatividade e investigação, de experiência de pensamento, qualitativamente superior às limitações do realismo aristotélico, e como tal, preferível.

junho 06, 2011

«É então que o problema da morte nos toca; mas sentia-me indiferente perante ela, com a mesma irónica impassibilidade que percorre o rosto de Rosina no seu confronto com o esqueleto. No fundo, [ ] sentia-me no lugar do corpo que na Lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp de Rembrandt, é objecto de um discurso sobre os mecanismos da vida; mas esse discurso só pode ser feito quando o coração deixou de bater, e o instrumento cirúrgico do anatomista desvenda os enigmas da circulação do sangue e de ideias que constitui a realidade de uma pessoa.»


Rembrandt, De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp, 1632

«Também na Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp o escalpelo começa o seu trabalho oelo baixo-ventre, pondo para fora o intestino do cadáver de Adriaan Adriaansz, mais conhecido por Het Kint, que fora posto à disposiçaõ do médico após ter sido enforcado. Não sei que crime terá sido cometido [ ]. No entanto, essa condenação fez com que o seu corpopermanecesse para além da vida, deitado na mesa do teatro anatómico do Dr. Nicolaes Tulp, sob os olhos atentos de sete discípulos que parecem ofuscados pela brancura do morto, onde só os lábios têm a púrpura da morte.»


Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009;
pp. 119; 131

junho 05, 2011

«[ ] como nessa alegoria de Antoine Wiertz em que a mulher nua, com uma flor a prender o cabelo, e o sexo escondido por uma túnica que lhe desce do braço para as coxas, enfrenta um esqueleto, olhando fixamente a caveira que, num esgar sorridente, prende toda a atenção de Rosina cujo rosto, de perfil, me evoca a explicadora de francês.»


Antoine Wiertz, Deux jeunes filles—La Belle Rosine (1847)

«[ ] se, no quadro de Antoine Wiertz, eu me preocupasse apenas em saber quem era Rosina, e por que razão ela se encontrava, seminua, em frente de um esqueleto, desceria ao anedótico em que o universal se perde. Assim, na perspectiva da Arte, o que importa é esse jogo de espelhos em que a mulher de corpo perfeito tem, subitamente, uma imagem do seu destino mortal; e cada um de nós poderá pensar na efemeridade da beleza, e na fugacidade daquilo que consideramos perfeito.»

Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009;
pp. 88-89; 91-92; 122.

junho 04, 2011

«Ela olhar-me-ia com os olhos de Isabelle d’Este, e eu desejaria sentar-me na sua mesa, pegar-lhe nas mãos, com os dedos ainda fechados, e sentir a sua pulsação que arrancar ao piano a música que eu me lembro de ouvir, vinda até mim pela janela aberta de uma sala com as cortinas semicerradas, à espera que o silêncio se fizesse e ela as abrisse para me revelar o seu vulto, idêntico ao desse quadro de Ticiano que já não sabia se chegara a ver, no Museu de Viena, na tarde em que o comboio parou num descampado a caminho de Salzburgo.»


Ticiano (Italian 1490-1576), Isabella d'Este, Duchess of Mantua 1536

«O que mais temos de desejar, então, quando as coisas vêm bater à nossa porta, dando-nos as chaves que abrem os códigos mais secretos para ler o futuro e o passado dos seres que queremos conhecer? Foi isto que me perguntei quando dei por que Isabelle d’Este desaparecera, na passagem entre o comboio parado e a camioneta que me levaria a outra estação para apanhar outro comboio que me levaria a Salzburgo; a não ser que ela não fosse Isabelle d’Este, mas uma simples empregado do Museu, contratada temporariamente para substiuir alguém que metera férias, e que vira em mim uma possibilidade de fuga, muito emboraeu não possa saber o que é que possa levar alguém a querer fugir de Viena para Salzburgo.»

Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009; pp.64;99.

junho 03, 2011

«Isto é, em cada novo parágrafo, segundo escrevi nesse caderno da Joseph Gibert que me desapareceu, teria de encontrar uma nova ideia para desenvolver. No fundo, é este o princípio da criação; e procurei segui-lo nessa manhã, depois de perder as duas mulheres, uma por entre a luz intensa de uma rua em que ela se metera, e a outra depois de ter ido retocar a pintura dos olhos, nessa casa de banho de um café de onde saí o tempo suficiente para que ela se cansasse de me esperar.»



«Pergunto, então, para quem escrevo? E se não tenho uma resposta, não é porque não houvesse um destinatário para esse caderno de pautado francês, em que desenvolvi a minha relação entre eu e tu, interrogando-me sobre a ausência de plural no meu universo de referência. Só não sei qual delas, Isabelle, Rosina ou a explicadora de francês, se encontrava no horizonte das minhas dúvidas. Por isso o entreguei à explicadora de francês, para que ela lhe desse um destino. No fundo, tudo começara com as suas lições, e com essa imagem de um perfil da tocadora de piano, numa pausa de música, à janela em que a fixei, e o seu rosto veio ao encontro de um arquétipo de beleza que eu imaginava, e que ela materializou no meu espírito, sem que nunca o soubesse.»


Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009; pp. 141; 147

junho 02, 2011



«TIAGO — Que o diabo me leve se não houver uma causa. O meu capitão dizia: «Ponham uma causa, logo se lhe segue um efeito; a uma causa fraca, um fraco efeito; a uma causa momentânea,
o efeito de um momento; a uma causa intermitente, um efeito intermitente; a uma causa contrariada, um efeito frouxo; a uma causa cessante, um efeito nulo.»
O AMO — Mas parece-me que sinto dentro de mim que sou livre,
como sinto que penso.
TIAGO — O meu capitão dizia: «Sim, agora que nada lhe apetece,
é capaz de se deitar debaixo do cavalo?»
O AMO — Sou capaz disso.
TIAGO — Algremente, sem repugnância, sem esforço,
como gostaria de descer à porta de um albergue?
O AMO — De maneira nenhuma; mas que importa,
desde que me atire e que prove que sou livre?
TIAGO — O meu capitão rebatia: «Qual quê!,
não vê que se não fosse a minha contradição nunca lhe passaria pela cabeça a fantasia de partir o pescoço? Sou eu, portanto, quem o agarra pelo pé e o atira para fora de sela. Se a sua queda prova alguma coisa, não é que seja livre, mas antes doido.» O meu capitão acrescentava ainda que o gozo de uma liberdade que se pode exercer sem motivo seria a prova de verdadeira tendência maníaca.»

:)

Denis Diderot, Tiago, o Fatalista,
trad. João Fonseca Amaral,
Editorial Estampa, 1988, p.219

junho 01, 2011



«Como é que eles se encontraram?
Por acaso, como toda a gente.

Como se chamavam?
Isso que lhe importa?

Donde vinham?
Do lugar mais próximo.

Para onde iam?
Dar-se-á o caso de a gente saber para onde vai?

Que diziam? O amo, nada; Tiago dizia que o seu capitão
afirmava que tudo o que nos acontece, cá em baixo,
de bem ou de mal, está escrito lá em cima.»

:)

Denis Diderot, Tiago, o Fatalista,
trad. João Fonseca Amaral,
Editorial Estampa, 1988, p.9

maio 29, 2011



COPÉRNICO

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,
demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

GALILEU

As leis do movimento perscrutaste
com paciência e cândido olhar.
Com o mesmo olhar o vasto céu sondaste
humilde mas altivo no ousar.

KEPLER

O mundo próximo, à volta, apodrece.
Fome, mortal conflito e pestilência
turvam o dia mal amanhece.
Segura-se à pureza da ciência:
o curso aparente das estrelas,
seguindo matemática divina,
deriva, das rigorosas tabelas
do vasto cosmos, a curva sibilina.

NEWTON

Da qualidade oculta de tudo,
não cuido, nem sei. Não é de ofício
sério sabê-lo: o tudo é mudo
e forçar-lhe a fala é sério vício.
Dos fenómenos, deduzo leis
de movimento e destas derivo
qualidades e acções: vereis
que o saber, assim, avança, altivo.


Eugénio Lisboa, in blog Restolhando

maio 15, 2011

maio 10, 2011


Ta Thi Thanh Tam , talking to my friend (2010) [vietnamita]
imagem in Branco no Branco



Tiram-te a venda
e entre paredes de lágrimas
aprendes que não existes ainda.
És apenas devir.


Natália Correia, Sonetos Românticos,
Public. Dom Quixote, 2011
colecção Frente Verso

maio 05, 2011

abril 15, 2011


Vou estar fora [do experimental]
uma pluralidade de dias.

Até depois,
Vasco

abril 13, 2011



Depois de mim



Dourados, como frutos maduros,
erguer-se-ão as manhãs
sobre os azuis,
floridos de espumas.
A escama da lua boiará
nas águas da noite
sem mim,
depois de mim.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 11, 2011




Rosto


Nunca vieste
quando o desejo
fazia um entalhe de sofrimento e apelo
na polpa, madura, do dia.


Nunca vieste
quando um golpe de luar
abria ao lado do meu corpo
um lençol fresco, para acolher-te.


A tua boca não prendeu
a flor dos meus lábios.
Nunca calei no teu beijo
a indizível palavra.


Nunca vieste


Respirei-te no sonho.
A morte terá o teu rosto desconhecido.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 09, 2011



Solidão


Como quem tece um xale
para o frio da alma
invento os teus braços
nos meus ombros,
o verão da tua boca
na minha pele.
No meu outono, agreste,
invento-te.
E a tua lembrança,
que não foi nem houve,
porque não existes
ou o teu destino é longe
e noutro lugar
atravessa a noite.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 07, 2011



Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais

Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais

Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

abril 06, 2011



Teima

Inútil, sem razão,
o meu amor permanece
para além do tempo
e do sofrimento.

Luísa Dacosta, op.cit.
Foto: adriana calcanhoto

abril 05, 2011



Luar

Na crista das vagas,
o embalo da lua
lembra-me os teus braços,
acorda o meu desejo de ser tua.


Mas tu já te foste,
não mais voltarás.
O tempo não permite
passar adiante
e colher atrás.


Dói-me na crista das vagas
o embalo da lua.


Luísa Dacosta, op.cit.

abril 04, 2011



Três desejos breves


I
Pudesse a minha sede
transformar-te em fonte.


II
Íntima como o sangue
seja a minha lembrança em ti.


III
Não como um corpo,
mas como um pensamento
em ti quero ficar.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Asa, Porto, 2011, colecção "Frente e Verso"

abril 03, 2011



APELO

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.



Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Asa, Porto, 2011, colecção "Frente e Verso"

abril 02, 2011




VOO

Com as nuvens,
A migração das aves,
A direcção dos ventos,
Asa solta, vou ao teu encontro
Por cima dos ares.

Mas tu és miragem.
Como alcançar-te?



Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Porto, Asa, 2010, colecção Frente e Verso.

março 31, 2011



INSTINTO

«Como a árvore sabe a floração
e o pássaro o rumo, certeiro, do voo
a minha sede de ti
sei.»


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Porto, Asa, 2010, colecção Frente e Verso.

março 29, 2011


Planetas semelhantes à Terra
orbitando as suas estrelas
nelas projectando
as respectivas
sombras.

março 28, 2011


«Olhando uma parede branca, é-me muito difícil pensar.
Mas eu sei que a parede está guardando o meu olhar.»


Maria Gabriela Llansol, Um Falcão no Punho, p.63