junho 17, 2011



«Não leio no jornal
aquele drama sonoro, aquele sucesso
que faz palpitar os corações.

A que lado me levariam, senão
ao verdadeiro limiar destes problemas abstractos
em que já me encontro instalado por inteiro?»



(Paul Valéry, O senhor Teste, Relógio d'Água, 1985, p. 53)

junho 08, 2011


Serge Latouche, Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno,
(«Petit Traité de la Décroissance Sereine», 2007),
Trad. Victor Silva, Edições 70, Lisboa, 2011


Eis um título que me suscitou curiosidade por propor um resultado que nunca vi defendido embora o suspeite necessário: um decrescimento sereno! Sempre considerei que o capitalismo produz uma importante porção de bens e serviços que não serve para nada, de utilidade nula!

Por outro lado, repugnou-me desde novo a desenfreada mercantilização de cada segmento de prazer, apropriando-se os capitalistas da natureza, para cobrar preços por actividades que, — sei —, são livres e exercidas gratuitamente nos países menos desenvolvidos; rarificam assim a abundância natural, pelo fraccionamento de serviços e bens, que passam a vender a preços desmesurados aos povos já subjugados pelo comércio capitalista.

Por fim, sempre fui e sou consciente da validade objectiva da lei de Malthus, que é aliás logicamente incontroversa, porque não pode haver nenhum desenvolvimento ilimitado de qualquer singularidade dependente dum meio finito, limitado!

Por estas razões, era grande a minha curiosidade de ver como o autor trataria estes “adquiridos” do meu pré-juízo e como proporia o que se me afigurava deveras adequado: um descrescimento da produção, particularmente a dos bens e serviços inúteis! :)

(continua)
[vide abaixo]
(continuação 1)





Serge Latouche ilustra a eminência da catástrofe ecológica no planeta com o fenómeno do crescimento de uma alga verde num lago. Supondo uma duplicação anual da alga na superfície do lago, uma alga inicial ocupando a nonagésima terceira bilionésima parte da área lacustre, ocupar-lhe-á toda a superfície ao fim de trinta anos. É o desenvolvimento de um ser vivo em progressão geométrica de razão dois num meio finito como o do lago, nele gerando a eutrofização da água, asfixia da vida subaquática e a morte do sistema lacustre.

Vejam-se os termos da progressão geométrica

S=1= Superfície total do lago.
A0 = área da alga inicial implantada no lago= 93/100 000 000 000=
=9.3^10^-10=1/(2^30)=2^-30
(Nota:— O sinal “^” lê-se «elevado a»).

A área da alga no lago,
no final de cada ano,
progride como segue:

A1= 2x(2^-30)=2xA0
A2= 2xA1=2x2xA0=2^2xA0
A3= 2xA2=2x2x2xA0=2^3xA0
...
An= área da alga no final do nº ano= 2^nxA0
...
A24= 2^24xA0=2^-6=1.5625%
A25= 2^25xA0=2^-5=3.125%
A26= 2^26xA0=2^-4=6.25%
A27= 2^27xA0=2^-3=12.5%
A28= 2^28xA0=2^-2=25%
A29= 2^29xA0=2^-1=50%
A30= 2^30xA0=2^-0=100%

Ou seja, enquanto que para alcançar a cobertura de pouco mais de 3% da superfície do lago, a alga demorou duas décadas e meia, daí em diante o crescimento é galopante e num lustro a vida lacustre extingue-se.




Serge Latouche contrapõe a este destino ameaçador, a sabedoria de um outro ser vivo, o caracol, que para lá de ensinar a lentidão, ilustra como se inverte uma progressão de crescimento: o caracol constrói a arquitectura delicada da sua casca acrescentando sucessivamente espirais cada vez maiores; porém, bruscamente, inicia enrolamentos decrescentes, assim contendo o crescimento da casca nos limites da sua finalidade vital.

Conclui o autor: «Este afastasmento do caracol em relação à progressão geométrica, que, no entanto, abraçara durante algum tempo, aponta-nos o caminho para pensar uma sociedade do “decrescimento”, se possível serena e convivial.»

op. cit., pp.35-37.

(continua)
[vide abaixo]
(continuação 2)

Concordando embora quer com este diagnóstico malthusiano da coexistência precária do homem no planeta quer com a necessidade da inversão do sistema produtivista global e irrestrito, mantenho forte resistência à ecolatria dos novos cultos ecológicos.

Aplaudo sem reservas as medidas que reduzam o desperdício de energia, as que penalizem as despesas de publicidade, a abolição da obsolescência programada, a irrestrição do crédito, a par das que impulsionam a multiplicação de bens relacionais, como a amizade, a instrução e a ciência.

A relocalização de inúmeras actividades na proximidade dos núcleos habitacionais, restringindo as grandes superfícies comerciais, o restauro da agricultura camponesa, encorajando o consumo da produção mais local, mais sazonal e tradicional são medidas positivas de um eficaz decrescimento enquanto programa político.



Muito importante, as externalidades negativas da sociedade moribunda do crescimento têm de ser tributadas por taxas que “internalizem” nos custos dos seus agentes os danos que provocam à colectividade — inversamente, devem os agentes ser recompensados com subsídios pelos efeitos externos positivos que geram na comunidade. Este é o princípio do poluidor-pagador, que o Prof. Arthur Cecil Pigou, um economista ortodoxo, foi o primeiro a defender para que se atinja o óptimo, o bem-estar máximo do conjunto dos consumidores e produtores.


De certo modo, quase direi que limito a especifidades deste tipo o que de válido porventura há no ecológico “decrescimento sereno” de Serge Latouche.


(continua)
[vide abaixo]
(continuação 3)



No último capítulo do seu Pequeno Tratado, Serge Latouche interroga-se se o Decrescimento é um Humanismo. Aparentemente, defende que não, embora tente que não seja um anti-humanismo nem um anti-universalismo. Consegue-o? Não sei; mas por mim, eu limito-o pragmaticamente à condicionalidade social do princípio poluidor-pagador, defendido por Pigou há mais de oitenta anos.

Na verdade, os ecologistas rejeitam o «antropocentrismo das Luzes» e vinculam-se a um «ecocentrismo total»: - os seres humanos são uma das múltiplas espécies viventes e a sua realidade substancial não passa de um «denominador comum» dos seres humanos particulares realmente existentes.

Esta posição reconduz-nos ao debate metafísico do realismo aristotélico versus o de Platão. Para este, a realidade da humanidade não se limita à simples existência da espécie, porquanto há uma humanidade dos seres como seres humanos que independe dos seres humanos concretos (presentes, passados ou futuros), ou seja a substância do tipo «ser humano» é conceptualizável como uma abstracção e não como mero atributo comum de seres que existem de facto, como defende Aristóteles.

Enquanto a concepção aristotélica integra o homem no particularismo da sua cultura, religião, comunidade, relativizando as diferentes sociedades por um respeito equalizado por todas, independentemente das suas diferenças serem desprezáveis ou estimáveis, a concepção platónica aceita invariantes transculturais inquestionáveis como, por exemplo, os direitos do Homem, a democracia, a economia, repudiando o “comunitarismo” das culturas concretas, cujo relativismo “legitima e alimenta a barbárie” (Maryam Namazie)

Serge Latouche procura não ceder a nenhuma ecolatria buscando um meio termo entre a sacralização animista da natureza e o antropocentrismo, não tratando «os animais e as coisas como pessoas nem as pessoas como coisas (como o faz a tecnoeconomia). Há respeito pelas coisas, os seres e as pessoas», ou seja um verdadeiro ecoantropocentrismo, imprescindível à propria sobrevivência da humanidade.


(fim)
[vide abaixo, pos-escrito]

«O semelhante reconhece o semelhante.»

Pós-escrito: — Têm todos os universais exemplos
ou haverá universais não exemplificados?

Os realistas dividem-se quanto à resposta a dar a esta questão (Q):

(Q) há universais que não são exemplificados (E) por nada?

O realismo platónico responde que sim:
há propriedades universais que não são exemplificadas por nenhuma coisa.


O realismo aristotélico responde que não:
toda a propriedade universal é exemplificada, pelo menos, por uma coisa.

Note-se que é comum às duas correntes do realismo
admitir a existência de universais.

E, também, o próprio predicado E = “é exemplificado por”
deve ser interpretado num sentido intemporal, i.e., no sentido
de ter sido (passado) ou estar a ser (presente) ou vir a ser (futuro) exemplificado.


Um argumento a favor do realismo platónico é o da perfeição.
Nenhuma figura ou forma ou qualquer facto empírico
é a expressão perfeita das propriedades que exprime;
logo, os universais são necessários porque só com eles
os particulares exemplificados podem ser explicados.

Contudo, poderá replicar-se que, pelo menos, em alguns casos,
haverá particulares perfeitos. Ora, é bem possível: o próprio Platão,
o primeiro filósofo que de algum modo abordou a questão de estética
na cultura ocidental, admitia que o belo sensível era uma expressão
directa do Bem Supremo no mundo das sombras dos sentidos! :))

Outro argumento a favor do realismo platónico é o de que,
propriedades e relações não exemplificadas, podem ser
indispensáveis do ponto de vista da explicação causal,
científica. Aliás, como mostrou Hume e Quine, o nexo causal
entre dois acontecimentos, não sendo nem uma necessidade lógica,
nem uma relação observável intrinsecamente, é sempre
uma relação abstracta que obtém satisfação
na conjunção constante observada
do par ordenado causa-efeito.

No plano realista, a liberdade conceptual de inventar objectos abstractos, numa operatória simbólica prévia, e subtraída com sobriedade aos constrangimentos empíricos é, na minha opinião, uma condição de criatividade e investigação, de experiência de pensamento, qualitativamente superior às limitações do realismo aristotélico, e como tal, preferível.

junho 06, 2011

«É então que o problema da morte nos toca; mas sentia-me indiferente perante ela, com a mesma irónica impassibilidade que percorre o rosto de Rosina no seu confronto com o esqueleto. No fundo, [ ] sentia-me no lugar do corpo que na Lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp de Rembrandt, é objecto de um discurso sobre os mecanismos da vida; mas esse discurso só pode ser feito quando o coração deixou de bater, e o instrumento cirúrgico do anatomista desvenda os enigmas da circulação do sangue e de ideias que constitui a realidade de uma pessoa.»


Rembrandt, De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp, 1632

«Também na Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp o escalpelo começa o seu trabalho oelo baixo-ventre, pondo para fora o intestino do cadáver de Adriaan Adriaansz, mais conhecido por Het Kint, que fora posto à disposiçaõ do médico após ter sido enforcado. Não sei que crime terá sido cometido [ ]. No entanto, essa condenação fez com que o seu corpopermanecesse para além da vida, deitado na mesa do teatro anatómico do Dr. Nicolaes Tulp, sob os olhos atentos de sete discípulos que parecem ofuscados pela brancura do morto, onde só os lábios têm a púrpura da morte.»


Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009;
pp. 119; 131

junho 05, 2011

«[ ] como nessa alegoria de Antoine Wiertz em que a mulher nua, com uma flor a prender o cabelo, e o sexo escondido por uma túnica que lhe desce do braço para as coxas, enfrenta um esqueleto, olhando fixamente a caveira que, num esgar sorridente, prende toda a atenção de Rosina cujo rosto, de perfil, me evoca a explicadora de francês.»


Antoine Wiertz, Deux jeunes filles—La Belle Rosine (1847)

«[ ] se, no quadro de Antoine Wiertz, eu me preocupasse apenas em saber quem era Rosina, e por que razão ela se encontrava, seminua, em frente de um esqueleto, desceria ao anedótico em que o universal se perde. Assim, na perspectiva da Arte, o que importa é esse jogo de espelhos em que a mulher de corpo perfeito tem, subitamente, uma imagem do seu destino mortal; e cada um de nós poderá pensar na efemeridade da beleza, e na fugacidade daquilo que consideramos perfeito.»

Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009;
pp. 88-89; 91-92; 122.

junho 04, 2011

«Ela olhar-me-ia com os olhos de Isabelle d’Este, e eu desejaria sentar-me na sua mesa, pegar-lhe nas mãos, com os dedos ainda fechados, e sentir a sua pulsação que arrancar ao piano a música que eu me lembro de ouvir, vinda até mim pela janela aberta de uma sala com as cortinas semicerradas, à espera que o silêncio se fizesse e ela as abrisse para me revelar o seu vulto, idêntico ao desse quadro de Ticiano que já não sabia se chegara a ver, no Museu de Viena, na tarde em que o comboio parou num descampado a caminho de Salzburgo.»


Ticiano (Italian 1490-1576), Isabella d'Este, Duchess of Mantua 1536

«O que mais temos de desejar, então, quando as coisas vêm bater à nossa porta, dando-nos as chaves que abrem os códigos mais secretos para ler o futuro e o passado dos seres que queremos conhecer? Foi isto que me perguntei quando dei por que Isabelle d’Este desaparecera, na passagem entre o comboio parado e a camioneta que me levaria a outra estação para apanhar outro comboio que me levaria a Salzburgo; a não ser que ela não fosse Isabelle d’Este, mas uma simples empregado do Museu, contratada temporariamente para substiuir alguém que metera férias, e que vira em mim uma possibilidade de fuga, muito emboraeu não possa saber o que é que possa levar alguém a querer fugir de Viena para Salzburgo.»

Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009; pp.64;99.

junho 03, 2011

«Isto é, em cada novo parágrafo, segundo escrevi nesse caderno da Joseph Gibert que me desapareceu, teria de encontrar uma nova ideia para desenvolver. No fundo, é este o princípio da criação; e procurei segui-lo nessa manhã, depois de perder as duas mulheres, uma por entre a luz intensa de uma rua em que ela se metera, e a outra depois de ter ido retocar a pintura dos olhos, nessa casa de banho de um café de onde saí o tempo suficiente para que ela se cansasse de me esperar.»



«Pergunto, então, para quem escrevo? E se não tenho uma resposta, não é porque não houvesse um destinatário para esse caderno de pautado francês, em que desenvolvi a minha relação entre eu e tu, interrogando-me sobre a ausência de plural no meu universo de referência. Só não sei qual delas, Isabelle, Rosina ou a explicadora de francês, se encontrava no horizonte das minhas dúvidas. Por isso o entreguei à explicadora de francês, para que ela lhe desse um destino. No fundo, tudo começara com as suas lições, e com essa imagem de um perfil da tocadora de piano, numa pausa de música, à janela em que a fixei, e o seu rosto veio ao encontro de um arquétipo de beleza que eu imaginava, e que ela materializou no meu espírito, sem que nunca o soubesse.»


Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009; pp. 141; 147

junho 02, 2011



«TIAGO — Que o diabo me leve se não houver uma causa. O meu capitão dizia: «Ponham uma causa, logo se lhe segue um efeito; a uma causa fraca, um fraco efeito; a uma causa momentânea,
o efeito de um momento; a uma causa intermitente, um efeito intermitente; a uma causa contrariada, um efeito frouxo; a uma causa cessante, um efeito nulo.»
O AMO — Mas parece-me que sinto dentro de mim que sou livre,
como sinto que penso.
TIAGO — O meu capitão dizia: «Sim, agora que nada lhe apetece,
é capaz de se deitar debaixo do cavalo?»
O AMO — Sou capaz disso.
TIAGO — Algremente, sem repugnância, sem esforço,
como gostaria de descer à porta de um albergue?
O AMO — De maneira nenhuma; mas que importa,
desde que me atire e que prove que sou livre?
TIAGO — O meu capitão rebatia: «Qual quê!,
não vê que se não fosse a minha contradição nunca lhe passaria pela cabeça a fantasia de partir o pescoço? Sou eu, portanto, quem o agarra pelo pé e o atira para fora de sela. Se a sua queda prova alguma coisa, não é que seja livre, mas antes doido.» O meu capitão acrescentava ainda que o gozo de uma liberdade que se pode exercer sem motivo seria a prova de verdadeira tendência maníaca.»

:)

Denis Diderot, Tiago, o Fatalista,
trad. João Fonseca Amaral,
Editorial Estampa, 1988, p.219

junho 01, 2011



«Como é que eles se encontraram?
Por acaso, como toda a gente.

Como se chamavam?
Isso que lhe importa?

Donde vinham?
Do lugar mais próximo.

Para onde iam?
Dar-se-á o caso de a gente saber para onde vai?

Que diziam? O amo, nada; Tiago dizia que o seu capitão
afirmava que tudo o que nos acontece, cá em baixo,
de bem ou de mal, está escrito lá em cima.»

:)

Denis Diderot, Tiago, o Fatalista,
trad. João Fonseca Amaral,
Editorial Estampa, 1988, p.9

maio 29, 2011



COPÉRNICO

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,
demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

GALILEU

As leis do movimento perscrutaste
com paciência e cândido olhar.
Com o mesmo olhar o vasto céu sondaste
humilde mas altivo no ousar.

KEPLER

O mundo próximo, à volta, apodrece.
Fome, mortal conflito e pestilência
turvam o dia mal amanhece.
Segura-se à pureza da ciência:
o curso aparente das estrelas,
seguindo matemática divina,
deriva, das rigorosas tabelas
do vasto cosmos, a curva sibilina.

NEWTON

Da qualidade oculta de tudo,
não cuido, nem sei. Não é de ofício
sério sabê-lo: o tudo é mudo
e forçar-lhe a fala é sério vício.
Dos fenómenos, deduzo leis
de movimento e destas derivo
qualidades e acções: vereis
que o saber, assim, avança, altivo.


Eugénio Lisboa, in blog Restolhando

maio 15, 2011

maio 10, 2011


Ta Thi Thanh Tam , talking to my friend (2010) [vietnamita]
imagem in Branco no Branco



Tiram-te a venda
e entre paredes de lágrimas
aprendes que não existes ainda.
És apenas devir.


Natália Correia, Sonetos Românticos,
Public. Dom Quixote, 2011
colecção Frente Verso

maio 05, 2011

abril 15, 2011


Vou estar fora [do experimental]
uma pluralidade de dias.

Até depois,
Vasco

abril 13, 2011



Depois de mim



Dourados, como frutos maduros,
erguer-se-ão as manhãs
sobre os azuis,
floridos de espumas.
A escama da lua boiará
nas águas da noite
sem mim,
depois de mim.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 11, 2011




Rosto


Nunca vieste
quando o desejo
fazia um entalhe de sofrimento e apelo
na polpa, madura, do dia.


Nunca vieste
quando um golpe de luar
abria ao lado do meu corpo
um lençol fresco, para acolher-te.


A tua boca não prendeu
a flor dos meus lábios.
Nunca calei no teu beijo
a indizível palavra.


Nunca vieste


Respirei-te no sonho.
A morte terá o teu rosto desconhecido.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 09, 2011



Solidão


Como quem tece um xale
para o frio da alma
invento os teus braços
nos meus ombros,
o verão da tua boca
na minha pele.
No meu outono, agreste,
invento-te.
E a tua lembrança,
que não foi nem houve,
porque não existes
ou o teu destino é longe
e noutro lugar
atravessa a noite.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 07, 2011



Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais

Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais

Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

abril 06, 2011



Teima

Inútil, sem razão,
o meu amor permanece
para além do tempo
e do sofrimento.

Luísa Dacosta, op.cit.
Foto: adriana calcanhoto

abril 05, 2011



Luar

Na crista das vagas,
o embalo da lua
lembra-me os teus braços,
acorda o meu desejo de ser tua.


Mas tu já te foste,
não mais voltarás.
O tempo não permite
passar adiante
e colher atrás.


Dói-me na crista das vagas
o embalo da lua.


Luísa Dacosta, op.cit.

abril 04, 2011



Três desejos breves


I
Pudesse a minha sede
transformar-te em fonte.


II
Íntima como o sangue
seja a minha lembrança em ti.


III
Não como um corpo,
mas como um pensamento
em ti quero ficar.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Asa, Porto, 2011, colecção "Frente e Verso"

abril 03, 2011



APELO

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.



Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Asa, Porto, 2011, colecção "Frente e Verso"

abril 02, 2011




VOO

Com as nuvens,
A migração das aves,
A direcção dos ventos,
Asa solta, vou ao teu encontro
Por cima dos ares.

Mas tu és miragem.
Como alcançar-te?



Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Porto, Asa, 2010, colecção Frente e Verso.

março 31, 2011



INSTINTO

«Como a árvore sabe a floração
e o pássaro o rumo, certeiro, do voo
a minha sede de ti
sei.»


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Porto, Asa, 2010, colecção Frente e Verso.

março 29, 2011


Planetas semelhantes à Terra
orbitando as suas estrelas
nelas projectando
as respectivas
sombras.

março 28, 2011


«Olhando uma parede branca, é-me muito difícil pensar.
Mas eu sei que a parede está guardando o meu olhar.»


Maria Gabriela Llansol, Um Falcão no Punho, p.63

março 26, 2011


O aumento do IVA
não é propriamente
uma estupidez, abel mateus
e josé gomes ferreira dixit.

março 21, 2011

Lembrando o Outono, porque hoje é Primavera



img in blog sulanorte

O chão está juncado de restos
da vivacidade do Verão, é uma vida
monótona a das criações da Natureza.
Assim como a da arte clássica
e a dos recintos de luz nos museus.
Uma vida microscópica,
a do estojo cintilante da jóia
que um dos antepassados me legou.
Vida actual e tempo passado
mostram-me o diadema que as árvores
exibem sobre a sua própria cabeça.
As pequenas crostas das folhas
rastejantes. No fim do Verão
as árvores estão de rastos; a terra
humedece-se sob os discos amarelos
das flores selvagens e a pata de ferro
das folhas faz sulcos mitológicos
nos jardins que são as espáduas
esquecidas do corpo de Gea.
Quem viu a força com que as árvores
se desfolham, oposta à suavidade
com que aparecem os rebentos?
Quem ouviu o baque do peso de bronze
chamando-lhe o leito fofo de tufos
de folhagem? Quem suporta
o ranger dos pés inesquecível
com as solas de couro presas
à carne? Porque fui eu
que ouvi assobiar as folhas estridentes
em queda vertical. Caíram atapetando
falsamente o chão. Tinham
a monotonia enganadora da sua violência
oculta, que é descrita por todos
como a fase áurea de cada ano,
a qualidade sedosa do chão. Só eu senti
que essa jóia cravava o bico no fundo
do corpo e me encadeava como
uma riqueza suave da ternura
humana dos antepassados. Cai,
estrondo das folhas, mas não perfures
este peito já vazado
por outras gerações inumanas.

fiama hasse pais brandão

março 19, 2011

março 17, 2011


«Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.»

março 15, 2011



«Durante quinze dias, estive confinado ao meu quarto,
rodeado pelos livros que nesse tempo (há uns dezasseis
ou dezassete anos) estavam na moda: refiro-me aos livros
que tratam da arte de fazer os povos felizes, sábios e
ricos, em vinte e quatro horas. Tinha então digerido
— tragado, quero eu dizer —todas as elucubrações
de todos esses empresários da felicidade pública:
dqueles que aconselham todos os pobres
a tornarem-se escravos, e daqueles
que os persuadem de que são todos
reis destronados.

— Não é de estranhar
que estivesse então
num estado de espírito
próximo da vertigem ou da estupidez.»

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa),
(Le Spleen de Paris - Petits Poèmes en Prose, 1869)
Relógio d'Água, col. B.I.,025, Lisboa, 2007, p.125

março 13, 2011



«Num boudoir de homens, quer dizer, numa sala de fumo
contígua a uma elegante casa de jogo, quatro homens
fumavam e bebiam. Não eram exactamente nem jovens
nem velhos, nem belos nem feios, mas velhos ou jovens,
traziam essa distinção não negligenciável dos veteranos
da alegria, esse indiscritível não sei o quê, essa tristeza
fria e trocista que diz claramente: «Temos vivido
intensamente, e buscamos o que poderíamos amar
ou estimar.» Um deles dirigiu a conversa para o tema

das mulheres. Teria sido mais filosófico não falar nisso;
mas há gente culta que, depois da bebida, não dispensa
a conversação banal. Ouve-se então aquele que fala
como se ouviria música de dança.»

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa),
(Le Spleen de Paris - Petits Poèmes en Prose, 1869)
Relógio d'Água, col. B.I.,025, Lisboa, 2007, p.109

março 11, 2011



«As ilusões [ ] são talvez tão numerosas
como as relações dos homens entre si,
ou dos homens com as coisas.
E quando a ilusão desaparece,
quer dizer, quando vemos o ser
ou o facto, tal como existe fora de nós,
experimentamos um sentimento bizarro,
complicado em parte pela mágoa do fantasma
desaparecido, em parte pela surpresa agradável
diante da novidade, diante do facto real.»

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa),
(Le Spleen de Paris - Petits Poèmes en Prose, 1869)
Relógio d'Água, col. B.I.,025, Lisboa, 2007, p. 87

março 07, 2011





A dicção do primeiro vídeo é inferior´
ao do segundo, mas o desenho animado
é muito sugestivo.
Proposta: - Visioná-lo mudo,
com o som do segundo. :)


L'Invitation au Voyage

Mon enfant, ma soeur
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux
Brillant à travers leurs larmes

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants
Polis par les ans
Décoreraient notre chambre
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre
Les riches plafonds
Les miroirs profonds
La splendeur orientale
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
Les soleils couchants
Revêtent les champs
Les canaux, la ville entière
D'hyacinthe et d'or
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.




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O Convite à Viagem



Irmã, filha, escuta,
Pensa na doçura
De irmos para lá viver, sim!
Amar à vontade,
Amar e morrer
Nessa terra igual a ti!
Os húmidos sóis
Dos nevoentos céus
Têm para mim os encantos
Assim misteriosos
Dos teus falsos olhos,
Entre as lágrimas brilhando.

Lá tudo é beleza e luxo
É ordem, calma e volúpia.

Móveis reluzentes,
Polidos plo tempo,
Decorariam a câmara;
As mais raras flores
Fundindo os odores
Ao vago aroma do âmbar,
Riquíssimos tectos,
Profundos espelhos,
O esplendor oriental,
Tudo falaria
Com a alma em surdina
A sua língua natal.

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.

Vê nesses canais
Dormir essas naus
Cujo humor é vagabundo;
É pra saciar
As tuas vontades
Que vêm do fim do mundo.
Os sóis, já deitando-se,
Envolvem os campos,
Os canais, toda a cidade,
Com oiro e jacinto;
E o mundo dormindo
Numa quente claridade

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.



(Baudelaire, As flores do mal)

março 05, 2011


Kees van Dongen

A nudez requer um delta ou um oásis
ou a branca integridade do deserto
E dizemos que é uma balança um barco ou uma coluna
embora todas as margens se apaguem na brancura

O esplendor de um corpo é sumptuoso e puro
e tem a integridade de uma surpresa nua
Como pode a palavra cingir as voluptuosas linhas
em que o desejo dança dilacerado e ébrio?

A graciosa gravidade túmida e delicada
de um corpo que equilibra o mundo e o anula
é um doce e violento desafio
à volúvel e frágil fantasia da palavra


antónio ramos rosa

março 03, 2011


img in blog atuleiros

«Digo do corpo,
o corpo:
e do meu corpo

digo no corpo
os sítios e os lugares

de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso, em seus vagares.

Lazeres do corpo:
os ombros,
as lisuras - o colo alto
a boca retomada

no fim das pernas
a porta da ternura,
dentro dos lábios
o fim da madrugada.

Digo do corpo,
o corpo:
e do teu corpo,

as ancas breves
ao gosto dos abraços

os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em sítios cansados

Vício de um corpo:
o teu
com o seu veneno

que bebo e sugo
até ao mais amargo,
ao mais cruel grau
do esgotamento
e onde em segredo
nado
em cada espasmo.

Digo do corpo,
o corpo:
o nosso corpo

Digo do corpo.
o gozo
do que faço

Digo do corpo
o uso
dos meus dias

e a alegria
do corpo sem disfarce.»


Maria Teresa Horta

março 01, 2011


Rubens, Vénus e Adónis

Exercício

Exercício do teu corpo
oculto na sua roupa

adivinho-te a dureza
o movimento sedento
a macieza da boca

adivinho o teu carinho
na sede dos meus
joelhos

Adivinho o teu
desejo
sobre a pele dos meus seios


Maria Teresa Horta

fevereiro 27, 2011



AMOR

Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males -
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.


Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.



Czeslaw Milosz, em Qual é a Minha ou a Tua Língua -
- Cem poemas de amor de outras línguas
Organização de Jorge de Sousa Braga


piano:- Ryuichi Sakamoto
in blog
sylvia beirute

fevereiro 25, 2011

fevereiro 21, 2011



Serge Reggiani

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!


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A uma passante
(leo ferre)

O alarido da rua me ensurdecia.
Longa, magra, enlutada, altaneira dor,
Ela passou, com um gesto superior,
Balançando os punhos de passamanaria,

Ágil e nobre, no caminhar de vestal.
E eu bebia, como quem mal se agüenta,
No seu olhar, céu negro prenhe de tormenta,
O afeto que fascina e o prazer mortal.

Um raio... e logo o breu! Fugidia beldade,
Cujo olhar me fez renascer de uma só vez,
Só poderei rever-te na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! Jamais talvez!
Não sabes onde vou e não sei onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que o sabias!


Charles Baudelaire
(tradução Jorge Pontual)

fevereiro 20, 2011

fevereiro 18, 2011


«o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos

como as trevas dentro das imagens»

«nada se afirma a si mesmo
mas a tudo o que o transcende.»

«escombros que são representados pelas linhas misteriosas.»

fevereiro 17, 2011


«A linha sinusoidal dos limites e
metamorfoses»

«Quando amanhece confundo todas as texturas
porque ignoro a distinção dos planos
e a composição das sombras.»

fevereiro 16, 2011


«Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.»

«Afastei-me da proposta de que o fim da noite
se convertesse em gruta de imagens»

fevereiro 15, 2011



Mesmo se acordasse transformando em insónia o desespero
do contacto com as coisas que é preciso separar
umas das outras para traçar os limites das mutações
a incompreensão do mistério poderia ser uma decisão
................................................. do pensamento.
O traço superior da serra aleatória no crepúsculo com
................................................... a deformação
crescente da visibilidade que se altera é provisório.
Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
.......................................... para a sua presença
um canto vago na passagem dos astros sem cantor próximo.

A minha visão depende da palavra aurora em desuso
na poesia mas significativa, e a meditação
............................................ sobre a pintura
de francisco de hollanda revela que ela é a locução
........................................................ violenta
de um barroco que discursa perante a face a claro e escuro
de vittoria colonna. Disse-me que a pintura é a história
................................................ de todo o tempo
e para além da própria razão o verdadeiro fingimento.
O vício das metáforas e comparações tinha sido a sua
......................................... confissão do conceito
de naturalidade diferente da do natural clássico.

Afastei-me da proposta de que o fim da noite se convertesse
em gruta de imagens. A ordenação do vocabulário desde
......................................................a passagem
pela aurora levou-me até à leitura do álbum se francisco de
.............................................................hollanda
inédito no escorial. Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.
Quando amanhece confundo todas as texturas porque ignoro
............................................a distinção dos planos
e a composição das sombras. São iguais à tecelagem
......................................................de um pano

sinuosamente lavrado, A linha sinusoidal dos limites e
....................................................metamorfoses
é a mesma que distingue na minha primeira ascese
escombros que são representados pelas linhas misteriosas.
Aceito que todas as significações têm o mesmo sentido relativo
............................................................dos objectos,
nada se afirma a si mesmo mas a tudo o que o transcende.
A minha vida mortal depende de um sentimento desconhecido
de que o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos como as trevas
...........................................dentro das imagens.


fiama hasse pais brandão,
in Homenagem à Literatura (1976)

fevereiro 14, 2011


«a locução violenta de um barroco
que discursa perante a face a claro
e escuro de vittoria colonna»

«a pintura é a história
de todo o tempo
e para além da própria razão

o verdadeiro fingimento.»

fevereiro 13, 2011


«Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
para a sua presença
um canto vago»