setembro 19, 2011


«E à volta de cada um sentado à mesa
corria vertiginoso o destino
tanto de felicidade como
de indiferença.»


Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p.83.

setembro 18, 2011



«Os dois em cima do garrano continuavam silenciosos.

O passio frustrara-se. Da posição ligeiramente imprópria
de mariposa o Cavaleiro voltou-se de costas para a frente
e à queima-roupa disse à Madeleine: «Que bonito peito que a prima
tem! Deita fumo?» Madeleine ficou perplexa com a tirada. A frase
sintetizava, com certeza, a ruminação de muitas horas. Madeleine
entupiu. Sair fumo dos peitos! Estavam calados, a mirar-se e
a compor palavras. Olharam-se mais intimamente. Desceram
como de um altar. Viraram as costas à fauna e à flora.

Estavam quase. Vilancete pastava, alheio àquela
história de gente. Os segundos eternizavam-se
e só se ouvia o piar de uns mochos
atarefados em agoiros.

Momento quase horrível!
Vilancete sacudiu as orelhas arredando-se
e então os dois corpos agarraram-se de salto
para caírem em absoluto delírio.


Madeleine descobria que o Cavaleiro era virgem.
O seu emaranhar transmitia uma loucura nunca até aí
vivida por Madeleine. Era um coito que atravessava séculos.
Uma coisa de sempre e de nunca, como os desejos escondidos
de todos os que se passeiam pelo mundo. A noite clareava-se
e os raios de extinta luz lembravam o fumeiro da Beringela.
Discretamente, Vilancete escondera-se com o rabo entre as pernas.»

Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, pp.34-5.

setembro 17, 2011



Mais um filme de Woody Allen,
mágico, divertido, belo e
com algumas verdades :)

setembro 15, 2011


imagem in blog Octávio V. Gonçalves

«Parece Espinho no Inverno,
não se vê vivalma.»


:))

Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, pp.227.

setembro 14, 2011


Dali à Moutosa ainda se contavam duas léguas bem andadas.
Iam a meio caminho, no subir da encosta que se debruçava
vagarosamente sobre o Lima. A neblina rala espalhava-se
aos balões pelas cabeças mais salientes. Aquela procissão
de burras e mulas parecia uma bicha tum-tum-tum entrando
por um buraco da natureza e aparecendo do lado oposto. A
conversa obcecava os primos da Barbela sabido que todos
conheciam de cor e salteado o córrego da Moutosa.

Só Madeleine não estava iniciada naquela visão;
era a mais atenta no vislumbrar da paisagem.
Como aquilo, nunca vira nada.
Um outro mundo.

O que se começava a ver não tinha sido feito pelo homem;
sentia-se a própria Criação à solta, liberta de peias
domésticas e preconcebidas
. Se a Beleza tivesse
refúgio secreto para os Deuses da Flora,
seria ali o reino desse sonho desmedido.

Madeleine extasiava-se, dela se apoderava
uma inclusão diáfana que trespassava a panorâmica.»

:)

Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, pp.121-2.

setembro 13, 2011


«Ao fim da tarde, antes do crepúsculo cantar as suas loas e
sem se descortinar a realidade, apoderava-se da Barbela
um sentido incógnito da existência.

Forte como as nacionalidades e rija como a têmpera da
lâmina do Xasco, o maior escanhoador da Ribeira Lima,
a Torre preparava-se para o banho noctívago
na sua vida de séculos.

Existissem ou não estrelas, fosse breu ou
luar a jorros pelos campos marginais,
o mundo abria-se então
dividindo o tempo. [ ]

Quando a linha do horizonte baixava em intensidade e
os fumos azulados batiam a favor do vento e do andar das coisas,
naquela dimensão abrupta que testemunhava o acender das constelações,
os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia
para os reais domínios da Torre.

De noite, ressuscitavam e, de companhia, traziam
os amores e os ódios de outras eras e
de outras sensibilidades [ ].

Aquele ressuscitar transfigurava a Torre

Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, pp.17;18.

setembro 12, 2011


«E aqueles dois seres humanos caminhavam indistintos de compreensão futura,
aos bordos sentimentais, a polir arestas salientes do dia a dia. Para os dois
o mundo estava isolado por um dique intransponível.

A vida projectava-se de um lado e do outro,
como as margens adormecidas do Rio Lima.

Podiam parar, olhar para a noite, fazer tudo aquilo que aos
outros humanos era sentimento passageiro de igualdade.

Pouco importava agora a sua separação. Sentiam-se diferentes,
como as caras das pessoas que se cruzam nas ruas.

Só a tragédia ou a aventura os podia aproximar

Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p. 102-3

setembro 11, 2011



«Afasta-te, diabo, que andas sempre distraído,
não vês Dona Urraca a rezar com o breviário
debaixo do braço. Parece sonâmbula, nem
repara em nós. Deito-lhe as mãos e
obrigo-a a confessar-se de
pecadoria geral.

Raios me partam se aquele fedúncias
do Menino das Enguias não é filho dela.

E a quererem passar por santos,
lá na terra querem todos ser santos,
dizem que são santos e ficam contentes,
bastam-se com pouco.

Fazem as maiores poucas-vergonhas
e são todos uns santos.

Então os primos mais
sociais da Grande Barbela
quanto mais pouca-vergonha,
mais missa e mais santos na família.»

:)


Ruben A., A Torre da Barbela (1964),
Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p. 230

setembro 10, 2011



«Torna-se também difícil explicar o que se passava
no espírito de Dom Raymundo. Parece haver a certeza
de que Dom Raymundo era um destes seres que se
deixa amar sem perguntar porquê. Irresponsável
e poeta, com uma barbicha e um encanto de deitar
abaixo as piores intenções, deixava-se amar com um
ar olímpico de quem à superfície da terra é um Deus
e, como tal, não pode medir as consequências
benéficas ou maléficas dos seus actos. Vivia num

laissez faire que amedrontava os homens como
Frey Cyro, procuradores honestos de uma verdade
nas coisas e nos indivíduos. Não era o enfant terrible
da Barbela, sim um homem terrível, que deixava ao
deus-dará as consequências dos amores com que
queimava vidas alheias. E nisto constituía-se muito
latino e muito português. Generoso no amor, cruel
na desgraça. A memória que varresse o passado;
mesmo a saudade ficava apenas dos bons momentos,
que dos maus não se lembrava.»

op.cit., pp.180-81

setembro 03, 2011



"Post blanda veneris"

Depois do suave ardor
Do sexo,
Dos nervos se distende
O nexo.
Como que flutuando
Da treva a um mundo novo
Os olhos vêm vogando
Num remar das pálpebras!
Ah, como é doce o trânsito
Da posse ao entressonho!
Mas mais doce é o regresso
Do entressonhar à posse.



De Carmina Burana,
conjunto de poemas medievais

agosto 30, 2011


Amrita Sher-Gil, Sleeping woman(1933)
img in Branco no Branco

Sou a outra que me vê,
sombra que conhece há muito as figuras.
Durmo, transformo-me no sono
em sonhadora da minha cabeça.


Fiama Hasse Pais Brandão

agosto 29, 2011


Louise Peabody, sunbather
img in blog Branco no Branco

«Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida toda num momento.»


Graça Pires

agosto 27, 2011



O cheiro da praia tornando-se abstracto.
não fui eu a primeira a transpô-lo.
dos restos de água para a espuma
das lembranças. da ressaca
que distribui conchas ao acaso
até à narração literária desse abandono.
Aónio recolheu os fragmentos enquanto
Desencadeava os ecos atás do Amor.
as algas amontoam-se estendidas com perfeição
ao longo dos limites. Riscam a água
com um diamante. dali tudo jorra
como o cheiro de um vapor brando
que aparece.

mas eu perco-o como algo
volátil. impregno-me do que flutua.
na imagem que me resta um papel arde
e contorce-se. a tinta esbate-se
em forma de onda. as letras emocionantes
diluem-se. os poemas antigos
banhados pelo mar tornam-se matéria
pura. piso-os e observo no refluxo
pequenos orifícios. Lambem a sombra
ou o que eu sou quando o poente
bate sobre um lado do corpo.



Fiama Hasse Pais Brandão, Areia Branca,
in Obra Breve, Assíro & Alvim, Lisboa, 2008, p. 312

agosto 20, 2011



Epístola para Dédalo

Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.



Fiama Hasse Pais Brandão,
in Epístolas e Memorandos, 1996

agosto 14, 2011



«insana... jangada, que me sustem... ainda assim, livre.»

Ana de Sousa, Fragmentos





agosto 11, 2011



Num sistema em que os bens se troquem por promessas de entrega,
no futuro, de outros úteis e desejados bens, a confiança de que tal
acontecerá é a condição para essa forma de 'pagamento' ser aceite.

Se o sistema for perdendo credibilidade, a troca cessará
de permitir qualquer diferimento de pagamento, a subida
arrebatadora de juros sendo tão só uma outra forma
de findar trocas sem pronto pagamento.

Porém, se houver mesmo incumprimentos vultuosos,
não é expectável contar com a passividade
dos respecticvos credores, mesmo
quando os devedores têm bombas
nucleares - posto que os credores
também as tenham...
(como é o caso!)


Perdido por cem, perdido por mil!

agosto 02, 2011




«Il ne me reste plus maintenant qu’à examiner s’il y a
des choses matérielles: et certes au moins sais-je déjà
qu’il y en peut avoir, en tant qu’on les considère comme
l’objet des dé-monstrations de géométrie, vu que de cette
façon je les conçois fort clairement et fort distinctement.
Car il n’y a point de doute que Dieu n’ait la puissance
de produire toutes les choses que je suis capable
de concevoir avec distinction – et je n’ai jamais
jugé qu’il lui fût impossible de faire quelque
chose, qu’alors que je trouvais de la
contradiction à la pouvoir
bien concevoir.»



Sixième Méditation

julho 29, 2011



«Il me reste beaucoup d’autres choses à examiner,
touchant les attributs de Dieu, et touchant ma propre nature,
c’est-à-dire celle de mon esprit : mais j’en reprendrai
peut-être une autre fois la recherche.

Maintenant (après avoir remarqué ce qu’il faut faire ou éviter
pour parvenir à la connaissance de la vérité),
ce que j’ai principalement à faire,
est d’essayer de sortir et de me débarrasser
de tous les doutes où je suis tombé ces jours passés,
et voir si l’on ne peut rien connaître de certain
touchant les choses matérielles.


Mais avant que j’examine s’il y a de telles choses
qui existent hors de moi, je dois considérer leurs idées,
en tant qu’elles sont en ma pensée, et voir quelles sont celles
qui sont distinctes, et quelles sont celles qui sont confuses.»




Cinquième Méditation

julho 24, 2011



«Je me suis tellement accoutumé ces jours passés
à détacher mon esprit des sens, et j’ai si exactement
remarqué qu’il y a fort peu de choses que l’on connaisse
avec certitude touchant les choses corporelles, qu’il y en a
beaucoup plus qui nous sont connues touchant l’esprit humain,
et beaucoup plus encore de Dieu même, que maintenant
je détournerai sans aucune difficulté ma pensée
de la considération des choses sensibles ou ~
imaginables, pour la porter à celles qui,
étant dégagées de toute matière,
sont purement intelligibles.»

Quatrième méditation

julho 22, 2011



Le déserteur

Paroles: Boris Vian, adaptation: Mouloudji. Musique: Harold Berg 1954

Messieurs qu'on nomme Grands
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Messieurs qu'on nomme Grands
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Les guerres sont des bétises
Le monde en a assez

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir des pères
J'ai vu partir des frères
Et pleurer des enfants
Des mères ont tant souffert
Et d'autres se gambergent
Et vivent à leur aise
Malgré la boue de sang
Il y a des prisonniers
On a vole leur âme
On a vole leur femme
Et tout leur cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai par les chemins

Je vagabonderai
Sur la terre et sur l'onde
Du Vieux au Nouveau Monde
Et je dirai aux gens:
Profitez de la vie
Eloignez la misère
Vous êtes tous des frères
Pauvres de tous les pays
S'il faut verser le sang
Allez verser le vôtre
Messieurs les bon apôtres
Messieurs qu'on nomme Grands
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer
Et qu'ils pourront tirer...


Nota:
La version initiale des 2 derniers vers était:
"que je tiendrai une arme ,
et que je sais tirer ..."
corrigée pour conserver le côté pacifiste de la chanson.