«E aqueles dois seres humanos caminhavam indistintos de compreensão futura, aos bordos sentimentais, a polir arestas salientes do dia a dia. Para os dois o mundo estava isolado por um dique intransponível.
A vida projectava-se de um lado e do outro, como as margens adormecidas do Rio Lima.
Podiam parar, olhar para a noite, fazer tudo aquilo que aos outros humanos era sentimento passageiro de igualdade.
Pouco importava agora a sua separação. Sentiam-se diferentes, como as caras das pessoas que se cruzam nas ruas.
Só a tragédia ou a aventura os podia aproximar.»
Ruben A., A Torre da Barbela (1964), Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p. 102-3
setembro 11, 2011
«Afasta-te, diabo, que andas sempre distraído, não vês Dona Urraca a rezar com o breviário debaixo do braço. Parece sonâmbula, nem repara em nós. Deito-lhe as mãos e obrigo-a a confessar-se de pecadoria geral.
Raios me partam se aquele fedúncias do Menino das Enguias não é filho dela.
E a quererem passar por santos, lá na terra querem todos ser santos, dizem que são santos e ficam contentes, bastam-se com pouco.
Fazem as maiores poucas-vergonhas e são todos uns santos.
Então os primos mais sociais da Grande Barbela quanto mais pouca-vergonha, mais missa e mais santos na família.»
:)
Ruben A., A Torre da Barbela (1964), Assírio & Alvim, Lisboa, 1995, p. 230
setembro 10, 2011
«Torna-se também difícil explicar o que se passava no espírito de Dom Raymundo. Parece haver a certeza de que Dom Raymundo era um destes seres que se deixa amar sem perguntar porquê. Irresponsável e poeta, com uma barbicha e um encanto de deitar abaixo as piores intenções, deixava-se amar com um ar olímpico de quem à superfície da terra é um Deus e, como tal, não pode medir as consequências benéficas ou maléficas dos seus actos. Vivia num laissez faire que amedrontava os homens como Frey Cyro, procuradores honestos de uma verdade nas coisas e nos indivíduos. Não era o enfant terrible da Barbela, sim um homem terrível, que deixava ao deus-dará as consequências dos amores com que queimava vidas alheias. E nisto constituía-se muito latino e muito português. Generoso no amor, cruel na desgraça. A memória que varresse o passado; mesmo a saudade ficava apenas dos bons momentos, que dos maus não se lembrava.»
op.cit., pp.180-81
setembro 03, 2011
"Post blanda veneris"
Depois do suave ardor
Do sexo,
Dos nervos se distende
O nexo.
Como que flutuando
Da treva a um mundo novo
Os olhos vêm vogando
Num remar das pálpebras!
Ah, como é doce o trânsito
Da posse ao entressonho!
Mas mais doce é o regresso
Do entressonhar à posse.
De Carmina Burana,
conjunto de poemas medievais
agosto 30, 2011
Amrita Sher-Gil, Sleeping woman(1933)
img in Branco no Branco
Sou a outra que me vê,
sombra que conhece há muito as figuras.
Durmo, transformo-me no sono
em sonhadora da minha cabeça.
Fiama Hasse Pais Brandão
agosto 29, 2011
Louise Peabody, sunbather img in blog Branco no Branco
«Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida toda num momento.»
Graça Pires
agosto 27, 2011
O cheiro da praia tornando-se abstracto.
não fui eu a primeira a transpô-lo.
dos restos de água para a espuma
das lembranças. da ressaca
que distribui conchas ao acaso
até à narração literária desse abandono.
Aónio recolheu os fragmentos enquanto
Desencadeava os ecos atás do Amor.
as algas amontoam-se estendidas com perfeição
ao longo dos limites. Riscam a água
com um diamante. dali tudo jorra
como o cheiro de um vapor brando
que aparece.
mas eu perco-o como algo
volátil. impregno-me do que flutua.
na imagem que me resta um papel arde
e contorce-se. a tinta esbate-se
em forma de onda. as letras emocionantes
diluem-se. os poemas antigos
banhados pelo mar tornam-se matéria
pura. piso-os e observo no refluxo
pequenos orifícios. Lambem a sombra
ou o que eu sou quando o poente
bate sobre um lado do corpo.
Fiama Hasse Pais Brandão, Areia Branca, in Obra Breve, Assíro & Alvim, Lisboa, 2008, p. 312
agosto 20, 2011
Epístola para Dédalo
Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.
Fiama Hasse Pais Brandão,
in Epístolas e Memorandos, 1996
agosto 14, 2011
«insana... jangada, que me sustem... ainda assim, livre.»
Ana de Sousa, Fragmentos
agosto 11, 2011
Num sistema em que os bens se troquem por promessas de entrega,
no futuro, de outros úteis e desejados bens, a confiança de que tal
acontecerá é a condição para essa forma de 'pagamento' ser aceite.
Se o sistema for perdendo credibilidade, a troca cessará
de permitir qualquer diferimento de pagamento, a subida
arrebatadora de juros sendo tão só uma outra forma
de findar trocas sem pronto pagamento.
Porém, se houver mesmo incumprimentos vultuosos,
não é expectável contar com a passividade
dos respecticvos credores, mesmo
quando os devedores têm bombas
nucleares - posto que os credores
também as tenham...
(como é o caso!)
Perdido por cem, perdido por mil!
agosto 02, 2011
«Il ne me reste plus maintenant qu’à examiner s’il y a
des choses matérielles: et certes au moins sais-je déjà
qu’il y en peut avoir, en tant qu’on les considère comme
l’objet des dé-monstrations de géométrie, vu que de cette
façon je les conçois fort clairement et fort distinctement.
Car il n’y a point de doute que Dieu n’ait la puissance
de produire toutes les choses que je suis capable
de concevoir avec distinction – et je n’ai jamais
jugé qu’il lui fût impossible de faire quelque
chose, qu’alors que je trouvais de la
contradiction à la pouvoir
bien concevoir.»
Sixième Méditation
julho 29, 2011
«Il me reste beaucoup d’autres choses à examiner, touchant les attributs de Dieu, et touchant ma propre nature, c’est-à-dire celle de mon esprit : mais j’en reprendrai peut-être une autre fois la recherche.
Maintenant (après avoir remarqué ce qu’il faut faire ou éviter pour parvenir à la connaissance de la vérité), ce que j’ai principalement à faire, est d’essayer de sortir et de me débarrasser de tous les doutes où je suis tombé ces jours passés, et voir si l’on ne peut rien connaître de certain touchant les choses matérielles.
Mais avant que j’examine s’il y a de telles choses qui existent hors de moi, je dois considérer leurs idées, en tant qu’elles sont en ma pensée, et voir quelles sont celles qui sont distinctes, et quelles sont celles qui sont confuses.»
Cinquième Méditation
julho 24, 2011
«Je me suis tellement accoutumé ces jours passés à détacher mon esprit des sens, et j’ai si exactement remarqué qu’il y a fort peu de choses que l’on connaisse avec certitude touchant les choses corporelles, qu’il y en a beaucoup plus qui nous sont connues touchant l’esprit humain, et beaucoup plus encore de Dieu même, que maintenant je détournerai sans aucune difficulté ma pensée de la considération des choses sensibles ou ~ imaginables, pour la porter à celles qui, étant dégagées de toute matière, sont purement intelligibles.»
Quatrième méditation
julho 22, 2011
Le déserteur
Paroles: Boris Vian, adaptation: Mouloudji. Musique: Harold Berg 1954
Messieurs qu'on nomme Grands Je vous fais une lettre Que vous lirez peut-être Si vous avez le temps Je viens de recevoir Mes papiers militaires Pour partir à la guerre Avant mercredi soir Messieurs qu'on nomme Grands Je ne veux pas la faire Je ne suis pas sur terre Pour tuer des pauvres gens C'est pas pour vous fâcher Il faut que je vous dise Les guerres sont des bétises Le monde en a assez
Depuis que je suis né J'ai vu mourir des pères J'ai vu partir des frères Et pleurer des enfants Des mères ont tant souffert Et d'autres se gambergent Et vivent à leur aise Malgré la boue de sang Il y a des prisonniers On a vole leur âme On a vole leur femme Et tout leur cher passé Demain de bon matin Je fermerai ma porte Au nez des années mortes J'irai par les chemins
Je vagabonderai Sur la terre et sur l'onde Du Vieux au Nouveau Monde Et je dirai aux gens: Profitez de la vie Eloignez la misère Vous êtes tous des frères Pauvres de tous les pays S'il faut verser le sang Allez verser le vôtre Messieurs les bon apôtres Messieurs qu'on nomme Grands Si vous me poursuivez Prévenez vos gendarmes Que je n'aurai pas d'armes Et qu'ils pourront tirer Et qu'ils pourront tirer...
Nota: La version initiale des 2 derniers vers était: "que je tiendrai une arme , et que je sais tirer ..." corrigée pour conserver le côté pacifiste de la chanson.
Paula Cristina Pereira, Do sentir e do Pensar Edições Afrontamento, Porto, 2007
julho 18, 2011
«Je fermerai maintenant les yeux, je boucherai mes oreilles, je détournerai tous mes sens, j’effacerai même de ma pensée toutes les images des choses corporelles, ou du moins, parce qu’à peine cela se peut-il faire, je les réputerai comme vaines et comme fausses ; et ainsi m’entretenant seulement moi-même, et considérant mon intérieur, je tâcherai de me rendre peu à peu plus connu et plus familier à moi-même.»
Troisième Méditation
julho 15, 2011
«Je crois que le corps, la figure, l'étendue, le mouvement et le lieu ne sont que des fictions de mon esprit. Qu'est-ce donc qui pourra être estimé véritable? Peut-être rien autre chose, sinon qu'il n'y a rien au monde de certain.»
Deuxième méditation
julho 11, 2011
«Tout ce que j'ai reçu jusqu'à présent pour le plus vrai et assuré, je l'ai appris des sens, ou par les sens: or j'ai quelque fois éprouvé que ces sens étaient trompeurs, et il est de la prudence de ne se fier jamais entièrement à ceux que nous ont une fois trompés.» Première Méditation
julho 05, 2011
Dance me to your beauty with a burning violin Deixa-me dançar à volta da tua beleza ao som de um ardente violino
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in Ajuda-me a vencer o pânico até que entre a salvo no teu coração
Lift me like an olive branch and be my homeward dove Ergue-me como um ramo de oliveira e sê meu ninho de pomba
Dance me to the end of love Dança comigo até ao fim do amor
Dance me to the end of love
Let me see your beauty when the witnesses are gone Deixa-me contemplar a tua beleza quando todas as testemunhas tiverem saído
Let me feel you moving like they do in Babylon Deixa-me sentir o teu corpo mover-se como era o costume na Babilónia
Show me slowly what I only know the limits of Mostra-me devagar aquilo de que só conheço os limites
Dance me to the end of love Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on Dança agora comigo até à boda, outra e outra vez
Dance me very tenderly and dance me very long Dança ternamente comigo por muito e muito tempo
We're both of us beneath our love, we're both of us above Nós somos ambos inferiores ao nosso amor e somos-lhe ambos superiores
Dance me to the end of love Dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born Dança comigo até às crianças que necessitam ser criadas
Dance me through the curtains that our kisses have outworn Dança comigo por entre as cortinas que os nossos beijos romperam
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn Ergue agora uma tenda que nos abrigue ainda que o tecido esteja gasto
Dance me to the end of love Dance me to the end of love Dance me to your beauty with a burning violin Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove Toca-me com a tua mão nua ou toca-me com a tua luva
Dance me to the end of love Dance me to the end of love Dance me to the end of love
julho 01, 2011
«Sento-me à mesa de trabalho, destapo a máquina de escrever vou começar o meu retrato. Escrevo: não vivo no meu endereço. Nunca vivi no endereço que dei. A singularidade da minha experiência reside na observância da singularidade da sua percepção. Paro e leio o que escrevi. Depois acrescento: A história do mundo atravessa-me.»
A poetisa não se introspeciona nem se explica a si própria, qual mónada singular do universo, onde se atravessa a história do mundo o qual, enquanto causa de si, existe em si e por si, sem outra essência que a de simplesmente existir.