março 28, 2011


«Olhando uma parede branca, é-me muito difícil pensar.
Mas eu sei que a parede está guardando o meu olhar.»


Maria Gabriela Llansol, Um Falcão no Punho, p.63

março 26, 2011


O aumento do IVA
não é propriamente
uma estupidez, abel mateus
e josé gomes ferreira dixit.

março 21, 2011

Lembrando o Outono, porque hoje é Primavera



img in blog sulanorte

O chão está juncado de restos
da vivacidade do Verão, é uma vida
monótona a das criações da Natureza.
Assim como a da arte clássica
e a dos recintos de luz nos museus.
Uma vida microscópica,
a do estojo cintilante da jóia
que um dos antepassados me legou.
Vida actual e tempo passado
mostram-me o diadema que as árvores
exibem sobre a sua própria cabeça.
As pequenas crostas das folhas
rastejantes. No fim do Verão
as árvores estão de rastos; a terra
humedece-se sob os discos amarelos
das flores selvagens e a pata de ferro
das folhas faz sulcos mitológicos
nos jardins que são as espáduas
esquecidas do corpo de Gea.
Quem viu a força com que as árvores
se desfolham, oposta à suavidade
com que aparecem os rebentos?
Quem ouviu o baque do peso de bronze
chamando-lhe o leito fofo de tufos
de folhagem? Quem suporta
o ranger dos pés inesquecível
com as solas de couro presas
à carne? Porque fui eu
que ouvi assobiar as folhas estridentes
em queda vertical. Caíram atapetando
falsamente o chão. Tinham
a monotonia enganadora da sua violência
oculta, que é descrita por todos
como a fase áurea de cada ano,
a qualidade sedosa do chão. Só eu senti
que essa jóia cravava o bico no fundo
do corpo e me encadeava como
uma riqueza suave da ternura
humana dos antepassados. Cai,
estrondo das folhas, mas não perfures
este peito já vazado
por outras gerações inumanas.

fiama hasse pais brandão

março 19, 2011

março 17, 2011


«Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.»

março 15, 2011



«Durante quinze dias, estive confinado ao meu quarto,
rodeado pelos livros que nesse tempo (há uns dezasseis
ou dezassete anos) estavam na moda: refiro-me aos livros
que tratam da arte de fazer os povos felizes, sábios e
ricos, em vinte e quatro horas. Tinha então digerido
— tragado, quero eu dizer —todas as elucubrações
de todos esses empresários da felicidade pública:
dqueles que aconselham todos os pobres
a tornarem-se escravos, e daqueles
que os persuadem de que são todos
reis destronados.

— Não é de estranhar
que estivesse então
num estado de espírito
próximo da vertigem ou da estupidez.»

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa),
(Le Spleen de Paris - Petits Poèmes en Prose, 1869)
Relógio d'Água, col. B.I.,025, Lisboa, 2007, p.125

março 13, 2011



«Num boudoir de homens, quer dizer, numa sala de fumo
contígua a uma elegante casa de jogo, quatro homens
fumavam e bebiam. Não eram exactamente nem jovens
nem velhos, nem belos nem feios, mas velhos ou jovens,
traziam essa distinção não negligenciável dos veteranos
da alegria, esse indiscritível não sei o quê, essa tristeza
fria e trocista que diz claramente: «Temos vivido
intensamente, e buscamos o que poderíamos amar
ou estimar.» Um deles dirigiu a conversa para o tema

das mulheres. Teria sido mais filosófico não falar nisso;
mas há gente culta que, depois da bebida, não dispensa
a conversação banal. Ouve-se então aquele que fala
como se ouviria música de dança.»

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa),
(Le Spleen de Paris - Petits Poèmes en Prose, 1869)
Relógio d'Água, col. B.I.,025, Lisboa, 2007, p.109

março 11, 2011



«As ilusões [ ] são talvez tão numerosas
como as relações dos homens entre si,
ou dos homens com as coisas.
E quando a ilusão desaparece,
quer dizer, quando vemos o ser
ou o facto, tal como existe fora de nós,
experimentamos um sentimento bizarro,
complicado em parte pela mágoa do fantasma
desaparecido, em parte pela surpresa agradável
diante da novidade, diante do facto real.»

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa),
(Le Spleen de Paris - Petits Poèmes en Prose, 1869)
Relógio d'Água, col. B.I.,025, Lisboa, 2007, p. 87

março 07, 2011





A dicção do primeiro vídeo é inferior´
ao do segundo, mas o desenho animado
é muito sugestivo.
Proposta: - Visioná-lo mudo,
com o som do segundo. :)


L'Invitation au Voyage

Mon enfant, ma soeur
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux
Brillant à travers leurs larmes

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants
Polis par les ans
Décoreraient notre chambre
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre
Les riches plafonds
Les miroirs profonds
La splendeur orientale
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
Les soleils couchants
Revêtent les champs
Les canaux, la ville entière
D'hyacinthe et d'or
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.




--------- // ----------

O Convite à Viagem



Irmã, filha, escuta,
Pensa na doçura
De irmos para lá viver, sim!
Amar à vontade,
Amar e morrer
Nessa terra igual a ti!
Os húmidos sóis
Dos nevoentos céus
Têm para mim os encantos
Assim misteriosos
Dos teus falsos olhos,
Entre as lágrimas brilhando.

Lá tudo é beleza e luxo
É ordem, calma e volúpia.

Móveis reluzentes,
Polidos plo tempo,
Decorariam a câmara;
As mais raras flores
Fundindo os odores
Ao vago aroma do âmbar,
Riquíssimos tectos,
Profundos espelhos,
O esplendor oriental,
Tudo falaria
Com a alma em surdina
A sua língua natal.

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.

Vê nesses canais
Dormir essas naus
Cujo humor é vagabundo;
É pra saciar
As tuas vontades
Que vêm do fim do mundo.
Os sóis, já deitando-se,
Envolvem os campos,
Os canais, toda a cidade,
Com oiro e jacinto;
E o mundo dormindo
Numa quente claridade

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.



(Baudelaire, As flores do mal)

março 05, 2011


Kees van Dongen

A nudez requer um delta ou um oásis
ou a branca integridade do deserto
E dizemos que é uma balança um barco ou uma coluna
embora todas as margens se apaguem na brancura

O esplendor de um corpo é sumptuoso e puro
e tem a integridade de uma surpresa nua
Como pode a palavra cingir as voluptuosas linhas
em que o desejo dança dilacerado e ébrio?

A graciosa gravidade túmida e delicada
de um corpo que equilibra o mundo e o anula
é um doce e violento desafio
à volúvel e frágil fantasia da palavra


antónio ramos rosa

março 03, 2011


img in blog atuleiros

«Digo do corpo,
o corpo:
e do meu corpo

digo no corpo
os sítios e os lugares

de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso, em seus vagares.

Lazeres do corpo:
os ombros,
as lisuras - o colo alto
a boca retomada

no fim das pernas
a porta da ternura,
dentro dos lábios
o fim da madrugada.

Digo do corpo,
o corpo:
e do teu corpo,

as ancas breves
ao gosto dos abraços

os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em sítios cansados

Vício de um corpo:
o teu
com o seu veneno

que bebo e sugo
até ao mais amargo,
ao mais cruel grau
do esgotamento
e onde em segredo
nado
em cada espasmo.

Digo do corpo,
o corpo:
o nosso corpo

Digo do corpo.
o gozo
do que faço

Digo do corpo
o uso
dos meus dias

e a alegria
do corpo sem disfarce.»


Maria Teresa Horta

março 01, 2011


Rubens, Vénus e Adónis

Exercício

Exercício do teu corpo
oculto na sua roupa

adivinho-te a dureza
o movimento sedento
a macieza da boca

adivinho o teu carinho
na sede dos meus
joelhos

Adivinho o teu
desejo
sobre a pele dos meus seios


Maria Teresa Horta

fevereiro 27, 2011



AMOR

Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males -
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.


Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.



Czeslaw Milosz, em Qual é a Minha ou a Tua Língua -
- Cem poemas de amor de outras línguas
Organização de Jorge de Sousa Braga


piano:- Ryuichi Sakamoto
in blog
sylvia beirute

fevereiro 25, 2011

fevereiro 21, 2011



Serge Reggiani

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!


------------ // ------------

A uma passante
(leo ferre)

O alarido da rua me ensurdecia.
Longa, magra, enlutada, altaneira dor,
Ela passou, com um gesto superior,
Balançando os punhos de passamanaria,

Ágil e nobre, no caminhar de vestal.
E eu bebia, como quem mal se agüenta,
No seu olhar, céu negro prenhe de tormenta,
O afeto que fascina e o prazer mortal.

Um raio... e logo o breu! Fugidia beldade,
Cujo olhar me fez renascer de uma só vez,
Só poderei rever-te na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! Jamais talvez!
Não sabes onde vou e não sei onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que o sabias!


Charles Baudelaire
(tradução Jorge Pontual)

fevereiro 20, 2011

fevereiro 18, 2011


«o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos

como as trevas dentro das imagens»

«nada se afirma a si mesmo
mas a tudo o que o transcende.»

«escombros que são representados pelas linhas misteriosas.»

fevereiro 17, 2011


«A linha sinusoidal dos limites e
metamorfoses»

«Quando amanhece confundo todas as texturas
porque ignoro a distinção dos planos
e a composição das sombras.»

fevereiro 16, 2011


«Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.»

«Afastei-me da proposta de que o fim da noite
se convertesse em gruta de imagens»

fevereiro 15, 2011



Mesmo se acordasse transformando em insónia o desespero
do contacto com as coisas que é preciso separar
umas das outras para traçar os limites das mutações
a incompreensão do mistério poderia ser uma decisão
................................................. do pensamento.
O traço superior da serra aleatória no crepúsculo com
................................................... a deformação
crescente da visibilidade que se altera é provisório.
Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
.......................................... para a sua presença
um canto vago na passagem dos astros sem cantor próximo.

A minha visão depende da palavra aurora em desuso
na poesia mas significativa, e a meditação
............................................ sobre a pintura
de francisco de hollanda revela que ela é a locução
........................................................ violenta
de um barroco que discursa perante a face a claro e escuro
de vittoria colonna. Disse-me que a pintura é a história
................................................ de todo o tempo
e para além da própria razão o verdadeiro fingimento.
O vício das metáforas e comparações tinha sido a sua
......................................... confissão do conceito
de naturalidade diferente da do natural clássico.

Afastei-me da proposta de que o fim da noite se convertesse
em gruta de imagens. A ordenação do vocabulário desde
......................................................a passagem
pela aurora levou-me até à leitura do álbum se francisco de
.............................................................hollanda
inédito no escorial. Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.
Quando amanhece confundo todas as texturas porque ignoro
............................................a distinção dos planos
e a composição das sombras. São iguais à tecelagem
......................................................de um pano

sinuosamente lavrado, A linha sinusoidal dos limites e
....................................................metamorfoses
é a mesma que distingue na minha primeira ascese
escombros que são representados pelas linhas misteriosas.
Aceito que todas as significações têm o mesmo sentido relativo
............................................................dos objectos,
nada se afirma a si mesmo mas a tudo o que o transcende.
A minha vida mortal depende de um sentimento desconhecido
de que o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos como as trevas
...........................................dentro das imagens.


fiama hasse pais brandão,
in Homenagem à Literatura (1976)

fevereiro 14, 2011


«a locução violenta de um barroco
que discursa perante a face a claro
e escuro de vittoria colonna»

«a pintura é a história
de todo o tempo
e para além da própria razão

o verdadeiro fingimento.»

fevereiro 13, 2011


«Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
para a sua presença
um canto vago»

«Mesmo se acordasse transformando em insónia
o desespero do contacto com as coisas...»

fevereiro 11, 2011

Vittoria Colonna



Quando 'l gran lume appar nell'oriente,Che 'l negro manto della notte sgombra,
E dalla terra il gelo o la fredd'ombra
Dissolve e scaccia col suo raggio ardente:

De' primi affanni, ch'avea dolcemente
Il sonno mitigati, allor m'ingombra:
Ond'ogni mio piacer dispiega in ombra,
Quando da ciascun lato ha l'altre spente.

Così mi sforza la nimica sorte
Le tenebre cercar, fuggir la luce,
Odiar la vita e desiar la morte.

Quel che gli altri occhi appanna a' miei riluce,
Perchè chiudendo lor, s'apron le porte
Alla cagion ch'al mio sol mi conduce.
------------ // ---------------

Quando o grão lume surge lá no oriente,
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,

a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.

Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.

Que a um outro olhar escurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.

Vittoria Colonna

fevereiro 10, 2011

A propósito da passeante hipermoderna,

um soneto de Cesário Verde

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
( )


:)

fevereiro 09, 2011

Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra, em 1481(?), tendo estudado Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou depois a Universidade, ao tempo estabelecida em Lisboa, onde fez o curso de Leis, passando de aluno aplicado a professor considerado.

Frequentou nessa altura a Corte. Para o Paço, compôs cantigas, vilancetes e esparsas, ao gosto dos poetas do séc. XV.Tendo-lhe falecido o pai, parte, em 1521, para Itália. Graças a uma parente abastada, Vitória Colona, marquesa de Pescara, pôde conviver com algumas personalidades do Renascimento italiano, apreciando muito a estética literária que todos os humanistas cultivavam com entusiasmo.

Regressou a Portugal em 1526. Já se encontrava em Coimbra quando o rei D. João III residia, com a sua Corte, naquela cidade, decidindo difundir entre nós o novo estilo clássico. É na Quinta das Duas Igrejas, junto ao Rio Neiva, que compõe quase toda a sua obra, em novos moldes, por influência da estética italiana.[ ]Nos séculos XVI e XVII foi o poeta mais admirado depois de Camões.

fevereiro 07, 2011

Vittoria Colonna



Assai lunge a provar nel petto il gelo
De' noiosi pensier ch'apportan gli anni,
Allora er'io, che in tenebre ed affanni
Mi lasciasti, o mio sol, tornandò al cielo.

Indegna forse fui del caldo zelo,
Onde tu acceso apristi altero i vanni,
Infiammarmi a schivar l'ire e gl'inganni
Del mondo, e sprezzar teco il mortal velo.

Tu volasti leggiero; i' sotto l'ali,
Che allor spiegavi, avrei ben preso ardire
Salir con te lontana ai nostri mali.

Lassa, ch'io non fui teco al tuo partire!
E le mie forze senza te son tali,
Ch'or mi si toglie e vivere e morire!


------------- // ----------------

ASSAI LUNGE A PROVAR...
Assaz longe do gelo em peito meu
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.

Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.

Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!

Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.


Vittoria Colonna

fevereiro 05, 2011

Vittoria Colonna

Vittoria Colonna (Marino, abril de 1490 - Roma, 25 de fevereiro de 1547), Marquesa de Pescara, foi uma poetisa da Itália. Era filha de Fabrizio Colonna, grande condestável de Nápoles, e de Agnese da Montefeltro. Foi uma das mulheres mais notáveis da Itália quinhentista. Ainda jovem casou-se com Fernando de Ávalos, Marquês de Pescara, que morreu na Batalha de Pavia lutando ao lado de Carlos de Lannoy. Tornou-se autora de poesias louvadas como impecáveis, das mais importantes continuadoras da tradição de Petrarca em sua geração, uma mediadora política, reformadora religiosa e seus méritos próprios foram amplamente reconhecidos ainda em sua vida [ ] É possível que tenha encontrado Michelangelo em torno de 1537, mas sua relação só se estreitou em torno de 1542 quando Michelangelo já era idoso e ela, viúva há dezessete anos. Discutiam arte e religião. Para ela Michelangelo escreveu várias poesias e produziu desenhos, e ela por sua vez dedicou-lhe também uma série de poemas. [ ]


1530s 40s Florentine School,
Portrait of a Woman Said

to be Vittoria Colonna
(Southerbys)

fevereiro 03, 2011




O sol é grande, caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão que sói ser fria:
Esta água, que d'alto cai, acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó coisas todas vãs, todas mudaves,
Qual é o coração que em vós confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
Incertos todos mais que ao vento as naves!

Eu vi já por aqui sombras e flores,
Vi águas, e vi fontes, vi verdura;
As aves vi cantar todas d'amores.

Mudo e seco é já tudo; e de mistura,
Também fazendo-me eu fui doutras cores;
E tudo o mais renova, isto é sem cura.


Sá de Miranda

fevereiro 01, 2011



«Como escreveu no Tratado da Pintura,
a sua obra de maior consistência teórica,
a ideia é responsável pela invenção
de uma «segunda natureza»,
concebida interiormente,
plasmada no intelecto
e fruto do engenho.




Assim, a beleza é encarada num contexto
que permite equacionar uma profunda aliança
entre a estética e a metafísica. Por isso,
para Francisco de Holanda, Deus é a fonte
de toda a pintura, sendo também ele
o primeiro pintor.




A criação é por si encarada como
um dar forma pela luz, recuperando
a metafísica da luz do platonismo,
concebendo por isso a criação como
uma função plástica animante,
correspondendo a um modelo ou ideia
previamente formulado no intelecto divino,
tema já sublimemente afirmado por Sto. Agostinho
ao estabelecer que Deus não connhece as coisas
porque elas existem, mas que as coisas existem
porque ele as conhece.




Nestes termos, a pintura humana
consiste num criar de novo,
numa função plástica inanimante,
[ ], com que imita ou quer imitar
as divinas ciências incriadas
com que o muito poderoso Senhor
Deus criou todas as obras».




Quer isto dizer que o conceito de imitação
[ ] não atende tanto à multiplicidade
do real concreto, na sua condição aparencial,
mas sim à «verdadeira natureza»,
representada na ideia.




Logo, o acto de criar é uma função
de «olhos interiores» em que o pintor,
num estado de «grande silêncio e segredo»
se deixa conduzir pelo «divino furor da criação».

Esta mesma referência ao furor supõe o triunfo
da idealização como fruto das capacidades inatas
do engenho e não da imposição de factores exteriores,
expressos em preceitos rígidos, tecnicamente transmissíveis.

Daí a associação do maneirismo à noção de fantasia artística,
razão por que não deverá o pintor, com a sua obra,
preocupar-se em «agradar ao vulgo», mas sobretudo
a si próprio, reforçando essa dimensão interior
que assiste ao processo criativo.»

Pedro Calafate
Instituto Camões

janeiro 31, 2011



Pintor português e amigo de Michelangelo,
Francisco de Holanda (1517-1584)
foi o primeiro a introduzir a filosofia
num tratado artístico, Da Pintura Antigua (1548),
derrubando a definição redutora da pintura
como “imitação da Natureza”.

Inspirado por Michelangelo e pela filosofia
de Platão, Holanda afirma que a pintura
é uma declaração do pensamento que exige
uma ascensão espiritual até as Idéias,
às quais o grande artista deve logo
dar forma, no papel, pelo desenho.

No contexto da teoria da arte do século XVI,
dominada pela imitação da Natureza,
Francisco de Holanda se distingue
por sua vontade de dar uma base
filosófica à sua arte.

Sob a influência do grande modelo de Michelangelo,
cuja arte e cuja poesia estão impregnadas
do neoplatonismo florentino da sua juventude,
Holanda adoptou esse sistema filosófico.


Sylvie Deswarte-Rosa,
Prisca Pictura e Antiqua Novitas
— Francisco de Holanda e a
taxonomia das figuras antigas

janeiro 29, 2011

Vittoria Colonna

Vittoria Colonna


A quale strazio la mia vita adduceAmor, che oscuro il chiaro sol mi rende,
E nel mio petto al suo apparire accende
Maggior disio della mia vaga luce!

Tutto il bel che natura a noi produce,
Che tanto aggrada a chi men vede e intende,
Più di pace mi toglie e sì m'offende,
Ch'ai più caldi sospir mi riconduce.

Se verde prato e se fior vari miro,
Priva d'ogni speranza trema l'alma
Chè rinverde il pensier del suo bel frutto

Che morte svelse. A lui la grave salma
Tolse un dolce e brevissimo sospiro,
E a me lasciò l'amaro eterno lutto


------ // ------

A QUALE STRAZIO...

A que tormento a vida me reduzamor que obscuro o claro sol me prende
e no meu peito ao renascer acende
maior desejo da perdida luz!

Beleza que Natura nos produz
que tanto agrada a quem não dela entende,
mais minha paz me tolhe e mais me ofende,
que a mais quentes suspiros me conduz.

Se verdes prados e se flores miro,
privada de esperanças. me arreceio,
pois reverdece a ideia daquel fructo

que a morte me colheu. Do grave seio
ela tirou brevíssimo suspiro.
e a mim deixou-me o amargo e eterno luto.



Vittoria Colonna

janeiro 27, 2011



Comigo me desavim,
Vejo-me em grande perigo;
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.

Antes que este mal tivesse,
Da outra gente fugia.
Agora já fugiria
De mim se de mim pudesse.

Que cabo espero ou que fim,
Deste cuidado que sigo,
Pois trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim.


Sá de Miranda

janeiro 25, 2011

Vittoria Colonna


Sebastiano del Piombo, Vittoria Colonna

O che tranquillo mar, che placid’ onde
Solcava un tempo in bel spalmata barca,
Di bei favori, e d’ util merci carca,
L’ aer sereno avea, l’ aure seconde.
Il Ciel, ch’ or suoi benigni lumi asconde,
Dava luce di nebbia e d’ ombra scarca;
Non dee creder alcun, che sicur varca,
Mentre al principio il fin non corrisponde.
L’ avversa stella mia, l’ empia fortuna
Scoperser poi l’ irate inique fronti,
Dal cui furor cruda procella insorge.
Venti, pioggia, saette il Cielo aduna,
Mostri d’ intorno a divorarmi pronti;
Ma l’ alma ancor sua tramontana scorge.

------- // ------

ON the calm billows of that tranquil sea,
A gallant bark with swelling sails was seen,
Freighted with treasures, moving proud and free,
With favouring breezes and with skies serene.
But soon thick clouds obscured the heavenly ray,
With fearful gloom the awful tempest rose ;
And none, who saw the dawning of that day,
Foretold how dark would be the evening's close.
So did my stars on me their aspects change,
By adverse winds o'er waves of sorrow driven,
Oppressed by cruel fates and fortunes strange,
Lorn, reft, and stricken by the shafts of heaven,
Gathering around me, threatening storms appear,
But still my soul beholds her polestar near.

janeiro 23, 2011



FECHAR OS OLHOS

precisas de conhecer a insatisfação das palavras
para escreveres bem.
as subsequências têm de ser uma absorção
linguística do momento histórico.
qualquer produção
tem de mover-se como detonação de entranhas
desde o tempo passado até à arquitectura
da conversão actual.
é impossível fechares os olhos quando tudo
é cortado em metades e essas metades
procuram metades alheias e formam novos todos.
a literatura, onde quer que exista, faz deslizar
as palavras que mais não são do que documentos
contendo novas invenções do mundo,
novos pares de invenções do mundo.
e é assim onde quer que elas sejam ditas. em qualquer
situação minimamente provável.
a palavra que falta ao pensamento é livre. pode
ser dita. escrita. e viciar-se no branco polar
de uma distância verbal. e tu:
continuas a falar. e eu: não consigo ouvir-te.


Sylvia Beirute
inédito

janeiro 21, 2011

janeiro 19, 2011



Se eu estiver a discorrer sobre a loucura não reconheço que
.......................................................aquele cedro
possa ter sido objecto de uma descrição menos verídica
do que a minha porque todas as divergências se aglomeram
na variedade. O castelo de nuvens que a janela aproxima vindo
............................................................do horizonte
o azul que se dilui os ossos das árvores cravados cravejados
ou qualquer assunto da visão de um louco autor do soneto

são o primeiro verso decassílabo da paragem do pensamento
e da continuação da paisagem que percorre a película do globo.
Se eu ouvir que a rede das veias se pode entrelaçar ao coração
...........................................................no momento
em que diamantes de sol o atingem da forma que fora descrita
para a passagem dos átomos desde a primeira fase épica da
................................................................memória
em que eu enumerei as ilhas homéricas como passagens
.....................................................subterrâneas
entre os cérebros dos aedos e os meus pressentimentos
................................................interpreto a razão
como a relação extrínseca de palavras simultaneamente
distribuídas pela desordem ou mosaico.

Perdidas segundo a ordenação dos encantamentos da angústia da
.........................................................ficção humana.
Disseminadas pelas línguas estranhas entre si mas saudosas da
...................................................................origem
da expressão silenciosa contemplativa entre os penhascos
..................................................que sobrepunha
apenas os contornos do basalto às faces contornadas por um
..........................................................olhar lúcido

o olhar que depende da iluminação imediata simples
para se poisar no círculo de uma forca que traçaram os ramos
na bifurcação de uma haste. O cadáver ou estátua luminosa
............................................................concentra
as linhas visuais que se dispersam no prisma verde. A
........................................................indiferença
pela verdade atrai para junto de mim qualquer objecto mesmo
................................................................informe
mesmo que a emoção destrua as formas fixas para sempre
.......................................................lentamente.

fiama hasse pais brandão


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Bem que precisava um lógico, um filósofo, um poeta
me ajudasse a interpretar este poema de fiama!

Só, apercebo-o misterioso e sinto-me inseguro
do seu significado que imaginativamente
deslindo como indico a seguir.

Logo o primeiro enunciado me deixa perplexo
porque aceitar com tolerância diferentes
descrições de um objecto como igualmente
verídicas, por suas divergências se reputarem
como simples variedade de uma mesma realidade
parece-me não um discorrer sobre a loucura
de uma mente mas sim uma deleuziana
e pacífica aceitação da alteridade!

E, se é razoável assim pensar,
porquê fiama afirma que isso
é o caso do discorrer sobre a loucura!?

Como tornear a minha impressão inicial
num contrário de si própria?

Ela parece iniciar a explicação da tese
exemplificando com situações em que assevera
que, ao fim e ao cabo, qualquer assunto da visão
de um louco equivale à paragem do pensamento
e ao mero fluir da realidade que impressiona
a visão, os sentidos, de um louco.

Porque, o que faz um louco, uma mente poética?

Pois bem, aje erraticamente como a própria
indeterminação dos átomos, entrelaça o fluir
do sangue ao raiar do sol no coração,
apropriando a inspiração poética
aos seus íntimos pressentimentos.

Como assim procede, a razão, para o louco,
limita-se a uma relação extrínseca e aleatória
das palavras às coisas, aos eventos, ao mundo…

Palavras perdidas, ordenadas segundo a angústia
da condição humana consciencializada
numa narrativa ficcional.

Mais, palavras disseminadas
por línguas estranhas entre si.

Mas, línguas e falas saudosas
da sua origem comum: a silenciosa
contemplação da pura, insensível,
externalidade — os penhascos — ,
contraposta à vívida presença
e testemunho de um olhar lúcido,
dependente, sim, de uma iluminação
imediata que intelige a morte
na consciência da precariedade
de estar vivo, lucidez de figuras
destinadas à dispersão. Daí,
a indiferença pela verdade,
polarizadora de objectos
informes, a emoção
a destruir lentamente
todas as formas fixas.


Ou seja,
tudo isto talvez se compreenda
como típico de uma mente louca…

E não há antídoto?
Há, evidentemente.
Uma forma de ser homem!

Que é simples: — Não interessa
que tudo acabe, nem a indiferença
do mundo. Porque tudo o que eu faço
não é indiferente aos que amo e me amam,
pelo que essa é a diferença que destitui
a importância do mundo.

:)

janeiro 17, 2011

janeiro 15, 2011



ANTES DO POEMA

antes do poema.
antes do poema tens de resolver
os problemas da tua inexistência, dizem eles.
eu não existo, dizem eles.
ou existo num corpo que não é meu, um corpo
de tumulto e consciência
sem objecto ou uma sorte que impeça
que cada palavra coabite
com o seu espírito.

e as suas mentes exercitam
a minha inexistência,
agora sei, numa existência sem
elementos e princípios,
enquanto eu, entre inteira e primaveril,
existo para mim e para ti se quiseres,
existo para o sol
e para a chuva, existo para o poema,
sou o poema.
este poema. este momento.
histórico.

antes do poema.
antes do poema, tens de resolver
os problemas
da tua inexistência, dizem eles,
sem saberem do que falam,
embora eu
estranhamente e numa banheira de gelo,
acabe por concordar,
e me apeteça dexistir.


Sylvia Beirute
inédito

janeiro 13, 2011



«C'est l'habileté pure de ne vivre qu'en poète
— car toutes choses peuvent se regarder ainsi
et s'analyser d'abord en jeux d'élements
simples, contrastés , rythmés et composés —
il faut ensuite en extraire la signification et se dire:
ceci est un symbole de moi-même qui,
sur mon être spirituel,
m'apprend quelque chose.
C'est une inconnue algébrique à dégager.»

Paul Valéry, Lettres à quelques-uns

janeiro 11, 2011



«…tout travail analytique …
implique la résolution de l'object choisi
en des élements tels que
leurs combinaisons immédiates,
purement différentielles,
reestituent toutes les propriétés de cet object.»


Paul Valéry, Lettres à quelques-uns

janeiro 09, 2011

janeiro 07, 2011



“Rios d’Alma “, de Teresa Gonçalves Lobo.

Boa Memória

Se cortassem o Danúbio às fatias
ninguém veria uma mutilação.
A água abre-se em duas
e refaz-se mal o corte finda.
Só que o azul se tinge
do suor da lâmina.
Mas é belo que um rio guarde
a cor dos sacrifícios.


Fernando Namora

janeiro 05, 2011


Eric White

«[ ]
Também assim, quando Platão nos disse
que o Bom tão-somente é o Belo,
logo soubemos que todo o amor,
como a beleza, era na carne, no ponto axial.»


Fiama Hasse Pais Brandão,
in "Jardim de aromas para cegos"

janeiro 03, 2011


Bouguerau, imagem e poema in Modus Vivendi

Afrodite
(em grego, Αφροδίτη),
deusa grega da beleza,
do amor e da procriação

Afrodite

Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necró-
pole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...

Irene Lisboa

janeiro 01, 2011


imagem in «externalismo.blogspot.com»

A metáfora da memória como aviário

«Vê então, se também é possível possuir assim o saber, sem o ter.
É como se alguém tivesse caçado umas aves silvestres, pombas
ou quaisquer outras, construísse em casa um pombal e
tomasse conta delas; diríamos que de certo modo
sempre as tem, porque sem dúvida as possui,
não?»

Platão, Teeteto, 197c