fevereiro 11, 2011

Vittoria Colonna



Quando 'l gran lume appar nell'oriente,Che 'l negro manto della notte sgombra,
E dalla terra il gelo o la fredd'ombra
Dissolve e scaccia col suo raggio ardente:

De' primi affanni, ch'avea dolcemente
Il sonno mitigati, allor m'ingombra:
Ond'ogni mio piacer dispiega in ombra,
Quando da ciascun lato ha l'altre spente.

Così mi sforza la nimica sorte
Le tenebre cercar, fuggir la luce,
Odiar la vita e desiar la morte.

Quel che gli altri occhi appanna a' miei riluce,
Perchè chiudendo lor, s'apron le porte
Alla cagion ch'al mio sol mi conduce.
------------ // ---------------

Quando o grão lume surge lá no oriente,
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,

a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.

Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.

Que a um outro olhar escurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.

Vittoria Colonna

fevereiro 10, 2011

A propósito da passeante hipermoderna,

um soneto de Cesário Verde

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
( )


:)

fevereiro 09, 2011

Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra, em 1481(?), tendo estudado Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou depois a Universidade, ao tempo estabelecida em Lisboa, onde fez o curso de Leis, passando de aluno aplicado a professor considerado.

Frequentou nessa altura a Corte. Para o Paço, compôs cantigas, vilancetes e esparsas, ao gosto dos poetas do séc. XV.Tendo-lhe falecido o pai, parte, em 1521, para Itália. Graças a uma parente abastada, Vitória Colona, marquesa de Pescara, pôde conviver com algumas personalidades do Renascimento italiano, apreciando muito a estética literária que todos os humanistas cultivavam com entusiasmo.

Regressou a Portugal em 1526. Já se encontrava em Coimbra quando o rei D. João III residia, com a sua Corte, naquela cidade, decidindo difundir entre nós o novo estilo clássico. É na Quinta das Duas Igrejas, junto ao Rio Neiva, que compõe quase toda a sua obra, em novos moldes, por influência da estética italiana.[ ]Nos séculos XVI e XVII foi o poeta mais admirado depois de Camões.

fevereiro 07, 2011

Vittoria Colonna



Assai lunge a provar nel petto il gelo
De' noiosi pensier ch'apportan gli anni,
Allora er'io, che in tenebre ed affanni
Mi lasciasti, o mio sol, tornandò al cielo.

Indegna forse fui del caldo zelo,
Onde tu acceso apristi altero i vanni,
Infiammarmi a schivar l'ire e gl'inganni
Del mondo, e sprezzar teco il mortal velo.

Tu volasti leggiero; i' sotto l'ali,
Che allor spiegavi, avrei ben preso ardire
Salir con te lontana ai nostri mali.

Lassa, ch'io non fui teco al tuo partire!
E le mie forze senza te son tali,
Ch'or mi si toglie e vivere e morire!


------------- // ----------------

ASSAI LUNGE A PROVAR...
Assaz longe do gelo em peito meu
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.

Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.

Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!

Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.


Vittoria Colonna

fevereiro 05, 2011

Vittoria Colonna

Vittoria Colonna (Marino, abril de 1490 - Roma, 25 de fevereiro de 1547), Marquesa de Pescara, foi uma poetisa da Itália. Era filha de Fabrizio Colonna, grande condestável de Nápoles, e de Agnese da Montefeltro. Foi uma das mulheres mais notáveis da Itália quinhentista. Ainda jovem casou-se com Fernando de Ávalos, Marquês de Pescara, que morreu na Batalha de Pavia lutando ao lado de Carlos de Lannoy. Tornou-se autora de poesias louvadas como impecáveis, das mais importantes continuadoras da tradição de Petrarca em sua geração, uma mediadora política, reformadora religiosa e seus méritos próprios foram amplamente reconhecidos ainda em sua vida [ ] É possível que tenha encontrado Michelangelo em torno de 1537, mas sua relação só se estreitou em torno de 1542 quando Michelangelo já era idoso e ela, viúva há dezessete anos. Discutiam arte e religião. Para ela Michelangelo escreveu várias poesias e produziu desenhos, e ela por sua vez dedicou-lhe também uma série de poemas. [ ]


1530s 40s Florentine School,
Portrait of a Woman Said

to be Vittoria Colonna
(Southerbys)

fevereiro 03, 2011




O sol é grande, caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão que sói ser fria:
Esta água, que d'alto cai, acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó coisas todas vãs, todas mudaves,
Qual é o coração que em vós confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
Incertos todos mais que ao vento as naves!

Eu vi já por aqui sombras e flores,
Vi águas, e vi fontes, vi verdura;
As aves vi cantar todas d'amores.

Mudo e seco é já tudo; e de mistura,
Também fazendo-me eu fui doutras cores;
E tudo o mais renova, isto é sem cura.


Sá de Miranda

fevereiro 01, 2011



«Como escreveu no Tratado da Pintura,
a sua obra de maior consistência teórica,
a ideia é responsável pela invenção
de uma «segunda natureza»,
concebida interiormente,
plasmada no intelecto
e fruto do engenho.




Assim, a beleza é encarada num contexto
que permite equacionar uma profunda aliança
entre a estética e a metafísica. Por isso,
para Francisco de Holanda, Deus é a fonte
de toda a pintura, sendo também ele
o primeiro pintor.




A criação é por si encarada como
um dar forma pela luz, recuperando
a metafísica da luz do platonismo,
concebendo por isso a criação como
uma função plástica animante,
correspondendo a um modelo ou ideia
previamente formulado no intelecto divino,
tema já sublimemente afirmado por Sto. Agostinho
ao estabelecer que Deus não connhece as coisas
porque elas existem, mas que as coisas existem
porque ele as conhece.




Nestes termos, a pintura humana
consiste num criar de novo,
numa função plástica inanimante,
[ ], com que imita ou quer imitar
as divinas ciências incriadas
com que o muito poderoso Senhor
Deus criou todas as obras».




Quer isto dizer que o conceito de imitação
[ ] não atende tanto à multiplicidade
do real concreto, na sua condição aparencial,
mas sim à «verdadeira natureza»,
representada na ideia.




Logo, o acto de criar é uma função
de «olhos interiores» em que o pintor,
num estado de «grande silêncio e segredo»
se deixa conduzir pelo «divino furor da criação».

Esta mesma referência ao furor supõe o triunfo
da idealização como fruto das capacidades inatas
do engenho e não da imposição de factores exteriores,
expressos em preceitos rígidos, tecnicamente transmissíveis.

Daí a associação do maneirismo à noção de fantasia artística,
razão por que não deverá o pintor, com a sua obra,
preocupar-se em «agradar ao vulgo», mas sobretudo
a si próprio, reforçando essa dimensão interior
que assiste ao processo criativo.»

Pedro Calafate
Instituto Camões

janeiro 31, 2011



Pintor português e amigo de Michelangelo,
Francisco de Holanda (1517-1584)
foi o primeiro a introduzir a filosofia
num tratado artístico, Da Pintura Antigua (1548),
derrubando a definição redutora da pintura
como “imitação da Natureza”.

Inspirado por Michelangelo e pela filosofia
de Platão, Holanda afirma que a pintura
é uma declaração do pensamento que exige
uma ascensão espiritual até as Idéias,
às quais o grande artista deve logo
dar forma, no papel, pelo desenho.

No contexto da teoria da arte do século XVI,
dominada pela imitação da Natureza,
Francisco de Holanda se distingue
por sua vontade de dar uma base
filosófica à sua arte.

Sob a influência do grande modelo de Michelangelo,
cuja arte e cuja poesia estão impregnadas
do neoplatonismo florentino da sua juventude,
Holanda adoptou esse sistema filosófico.


Sylvie Deswarte-Rosa,
Prisca Pictura e Antiqua Novitas
— Francisco de Holanda e a
taxonomia das figuras antigas

janeiro 29, 2011

Vittoria Colonna

Vittoria Colonna


A quale strazio la mia vita adduceAmor, che oscuro il chiaro sol mi rende,
E nel mio petto al suo apparire accende
Maggior disio della mia vaga luce!

Tutto il bel che natura a noi produce,
Che tanto aggrada a chi men vede e intende,
Più di pace mi toglie e sì m'offende,
Ch'ai più caldi sospir mi riconduce.

Se verde prato e se fior vari miro,
Priva d'ogni speranza trema l'alma
Chè rinverde il pensier del suo bel frutto

Che morte svelse. A lui la grave salma
Tolse un dolce e brevissimo sospiro,
E a me lasciò l'amaro eterno lutto


------ // ------

A QUALE STRAZIO...

A que tormento a vida me reduzamor que obscuro o claro sol me prende
e no meu peito ao renascer acende
maior desejo da perdida luz!

Beleza que Natura nos produz
que tanto agrada a quem não dela entende,
mais minha paz me tolhe e mais me ofende,
que a mais quentes suspiros me conduz.

Se verdes prados e se flores miro,
privada de esperanças. me arreceio,
pois reverdece a ideia daquel fructo

que a morte me colheu. Do grave seio
ela tirou brevíssimo suspiro.
e a mim deixou-me o amargo e eterno luto.



Vittoria Colonna

janeiro 27, 2011



Comigo me desavim,
Vejo-me em grande perigo;
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.

Antes que este mal tivesse,
Da outra gente fugia.
Agora já fugiria
De mim se de mim pudesse.

Que cabo espero ou que fim,
Deste cuidado que sigo,
Pois trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim.


Sá de Miranda

janeiro 25, 2011

Vittoria Colonna


Sebastiano del Piombo, Vittoria Colonna

O che tranquillo mar, che placid’ onde
Solcava un tempo in bel spalmata barca,
Di bei favori, e d’ util merci carca,
L’ aer sereno avea, l’ aure seconde.
Il Ciel, ch’ or suoi benigni lumi asconde,
Dava luce di nebbia e d’ ombra scarca;
Non dee creder alcun, che sicur varca,
Mentre al principio il fin non corrisponde.
L’ avversa stella mia, l’ empia fortuna
Scoperser poi l’ irate inique fronti,
Dal cui furor cruda procella insorge.
Venti, pioggia, saette il Cielo aduna,
Mostri d’ intorno a divorarmi pronti;
Ma l’ alma ancor sua tramontana scorge.

------- // ------

ON the calm billows of that tranquil sea,
A gallant bark with swelling sails was seen,
Freighted with treasures, moving proud and free,
With favouring breezes and with skies serene.
But soon thick clouds obscured the heavenly ray,
With fearful gloom the awful tempest rose ;
And none, who saw the dawning of that day,
Foretold how dark would be the evening's close.
So did my stars on me their aspects change,
By adverse winds o'er waves of sorrow driven,
Oppressed by cruel fates and fortunes strange,
Lorn, reft, and stricken by the shafts of heaven,
Gathering around me, threatening storms appear,
But still my soul beholds her polestar near.

janeiro 23, 2011



FECHAR OS OLHOS

precisas de conhecer a insatisfação das palavras
para escreveres bem.
as subsequências têm de ser uma absorção
linguística do momento histórico.
qualquer produção
tem de mover-se como detonação de entranhas
desde o tempo passado até à arquitectura
da conversão actual.
é impossível fechares os olhos quando tudo
é cortado em metades e essas metades
procuram metades alheias e formam novos todos.
a literatura, onde quer que exista, faz deslizar
as palavras que mais não são do que documentos
contendo novas invenções do mundo,
novos pares de invenções do mundo.
e é assim onde quer que elas sejam ditas. em qualquer
situação minimamente provável.
a palavra que falta ao pensamento é livre. pode
ser dita. escrita. e viciar-se no branco polar
de uma distância verbal. e tu:
continuas a falar. e eu: não consigo ouvir-te.


Sylvia Beirute
inédito

janeiro 21, 2011

janeiro 19, 2011



Se eu estiver a discorrer sobre a loucura não reconheço que
.......................................................aquele cedro
possa ter sido objecto de uma descrição menos verídica
do que a minha porque todas as divergências se aglomeram
na variedade. O castelo de nuvens que a janela aproxima vindo
............................................................do horizonte
o azul que se dilui os ossos das árvores cravados cravejados
ou qualquer assunto da visão de um louco autor do soneto

são o primeiro verso decassílabo da paragem do pensamento
e da continuação da paisagem que percorre a película do globo.
Se eu ouvir que a rede das veias se pode entrelaçar ao coração
...........................................................no momento
em que diamantes de sol o atingem da forma que fora descrita
para a passagem dos átomos desde a primeira fase épica da
................................................................memória
em que eu enumerei as ilhas homéricas como passagens
.....................................................subterrâneas
entre os cérebros dos aedos e os meus pressentimentos
................................................interpreto a razão
como a relação extrínseca de palavras simultaneamente
distribuídas pela desordem ou mosaico.

Perdidas segundo a ordenação dos encantamentos da angústia da
.........................................................ficção humana.
Disseminadas pelas línguas estranhas entre si mas saudosas da
...................................................................origem
da expressão silenciosa contemplativa entre os penhascos
..................................................que sobrepunha
apenas os contornos do basalto às faces contornadas por um
..........................................................olhar lúcido

o olhar que depende da iluminação imediata simples
para se poisar no círculo de uma forca que traçaram os ramos
na bifurcação de uma haste. O cadáver ou estátua luminosa
............................................................concentra
as linhas visuais que se dispersam no prisma verde. A
........................................................indiferença
pela verdade atrai para junto de mim qualquer objecto mesmo
................................................................informe
mesmo que a emoção destrua as formas fixas para sempre
.......................................................lentamente.

fiama hasse pais brandão


----------- // --------------

Bem que precisava um lógico, um filósofo, um poeta
me ajudasse a interpretar este poema de fiama!

Só, apercebo-o misterioso e sinto-me inseguro
do seu significado que imaginativamente
deslindo como indico a seguir.

Logo o primeiro enunciado me deixa perplexo
porque aceitar com tolerância diferentes
descrições de um objecto como igualmente
verídicas, por suas divergências se reputarem
como simples variedade de uma mesma realidade
parece-me não um discorrer sobre a loucura
de uma mente mas sim uma deleuziana
e pacífica aceitação da alteridade!

E, se é razoável assim pensar,
porquê fiama afirma que isso
é o caso do discorrer sobre a loucura!?

Como tornear a minha impressão inicial
num contrário de si própria?

Ela parece iniciar a explicação da tese
exemplificando com situações em que assevera
que, ao fim e ao cabo, qualquer assunto da visão
de um louco equivale à paragem do pensamento
e ao mero fluir da realidade que impressiona
a visão, os sentidos, de um louco.

Porque, o que faz um louco, uma mente poética?

Pois bem, aje erraticamente como a própria
indeterminação dos átomos, entrelaça o fluir
do sangue ao raiar do sol no coração,
apropriando a inspiração poética
aos seus íntimos pressentimentos.

Como assim procede, a razão, para o louco,
limita-se a uma relação extrínseca e aleatória
das palavras às coisas, aos eventos, ao mundo…

Palavras perdidas, ordenadas segundo a angústia
da condição humana consciencializada
numa narrativa ficcional.

Mais, palavras disseminadas
por línguas estranhas entre si.

Mas, línguas e falas saudosas
da sua origem comum: a silenciosa
contemplação da pura, insensível,
externalidade — os penhascos — ,
contraposta à vívida presença
e testemunho de um olhar lúcido,
dependente, sim, de uma iluminação
imediata que intelige a morte
na consciência da precariedade
de estar vivo, lucidez de figuras
destinadas à dispersão. Daí,
a indiferença pela verdade,
polarizadora de objectos
informes, a emoção
a destruir lentamente
todas as formas fixas.


Ou seja,
tudo isto talvez se compreenda
como típico de uma mente louca…

E não há antídoto?
Há, evidentemente.
Uma forma de ser homem!

Que é simples: — Não interessa
que tudo acabe, nem a indiferença
do mundo. Porque tudo o que eu faço
não é indiferente aos que amo e me amam,
pelo que essa é a diferença que destitui
a importância do mundo.

:)

janeiro 17, 2011

janeiro 15, 2011



ANTES DO POEMA

antes do poema.
antes do poema tens de resolver
os problemas da tua inexistência, dizem eles.
eu não existo, dizem eles.
ou existo num corpo que não é meu, um corpo
de tumulto e consciência
sem objecto ou uma sorte que impeça
que cada palavra coabite
com o seu espírito.

e as suas mentes exercitam
a minha inexistência,
agora sei, numa existência sem
elementos e princípios,
enquanto eu, entre inteira e primaveril,
existo para mim e para ti se quiseres,
existo para o sol
e para a chuva, existo para o poema,
sou o poema.
este poema. este momento.
histórico.

antes do poema.
antes do poema, tens de resolver
os problemas
da tua inexistência, dizem eles,
sem saberem do que falam,
embora eu
estranhamente e numa banheira de gelo,
acabe por concordar,
e me apeteça dexistir.


Sylvia Beirute
inédito

janeiro 13, 2011



«C'est l'habileté pure de ne vivre qu'en poète
— car toutes choses peuvent se regarder ainsi
et s'analyser d'abord en jeux d'élements
simples, contrastés , rythmés et composés —
il faut ensuite en extraire la signification et se dire:
ceci est un symbole de moi-même qui,
sur mon être spirituel,
m'apprend quelque chose.
C'est une inconnue algébrique à dégager.»

Paul Valéry, Lettres à quelques-uns

janeiro 11, 2011



«…tout travail analytique …
implique la résolution de l'object choisi
en des élements tels que
leurs combinaisons immédiates,
purement différentielles,
reestituent toutes les propriétés de cet object.»


Paul Valéry, Lettres à quelques-uns

janeiro 09, 2011

janeiro 07, 2011



“Rios d’Alma “, de Teresa Gonçalves Lobo.

Boa Memória

Se cortassem o Danúbio às fatias
ninguém veria uma mutilação.
A água abre-se em duas
e refaz-se mal o corte finda.
Só que o azul se tinge
do suor da lâmina.
Mas é belo que um rio guarde
a cor dos sacrifícios.


Fernando Namora

janeiro 05, 2011


Eric White

«[ ]
Também assim, quando Platão nos disse
que o Bom tão-somente é o Belo,
logo soubemos que todo o amor,
como a beleza, era na carne, no ponto axial.»


Fiama Hasse Pais Brandão,
in "Jardim de aromas para cegos"

janeiro 03, 2011


Bouguerau, imagem e poema in Modus Vivendi

Afrodite
(em grego, Αφροδίτη),
deusa grega da beleza,
do amor e da procriação

Afrodite

Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necró-
pole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...

Irene Lisboa

janeiro 01, 2011


imagem in «externalismo.blogspot.com»

A metáfora da memória como aviário

«Vê então, se também é possível possuir assim o saber, sem o ter.
É como se alguém tivesse caçado umas aves silvestres, pombas
ou quaisquer outras, construísse em casa um pombal e
tomasse conta delas; diríamos que de certo modo
sempre as tem, porque sem dúvida as possui,
não?»

Platão, Teeteto, 197c

dezembro 31, 2010



Terra Maninha

Se é um poema fraterno que pedis,
Arrancai-o de mim, escavando-lhe a raiz,
E plantai-o no vosso coração.

Nunca pegou nenhum? Tão infeliz
Era o terreno da plantação!



Miguel Torga
in Poesia Completa
Ed. D. Quixote, 2000

dezembro 28, 2010



«Pela primeira vez, há muito tempo,
pensei na minha mãe.

Julguei ter compreendido porque é que,
no fim de uma vida, arranjara um “noivo”,
porque é que fingira recomeçar.

Também lá, em redor desse asilo
onde as vidas se apagavam, a noite
era como uma treva melancólica.

Tão perto da morte, a minha mãe
deve ter-se sentido libertada
e pronta a tudo reviver.


Como se esta grande cólera me tivesse limpo
do mal, esvaziado da esperança, diante
desta noite carregada de sinais
e de estrelas, eu abria-me
pela primeira vez
à terna indiferença do Mundo

(Albert Camus, O estrangeiro)


Um texto mágico,
a que costumo associar este outro:


«Em que meditas, meu amigo?
Será nos teus antepassados?
Todos eles são pó no pó.
Meditas nas virtudes deles?
Repara só como sorrio.
Toma desta copa e bebamos,
Ouvindo sem inquietação
O grande silêncio do mundo

Omar Khayyam, Rubaiyat

dezembro 24, 2010



Sou eu que te penso
antes de teres existido.
Pensando te crio
um nome
como te invento
um rosto
e nos olhos a cor
onde me reflicto
mas não o exacto lugar
onde moras
e me fixo.
No ontem perdido
em ti recupero
o tempo e o cisco.
No sonho redimo
o que só a viver
tem sentido.


Fernando Namora

dezembro 22, 2010



Astrónomos da Agência Espacial Norte-Americana (NASA)
identificaram o buraco negro mais pequeno até agora conhecido.
O J1650 tem uma massa quatro vezes maior do que o nosso Sol
e o tamanho aproximado de uma grande cidade.


Que no espaço de uma grande cidade
caiba uma massa quatro vezes a do Sol,
- a qual é 333 mil vezes a da Terra -,

é caso para nos deixar abismados
com tão absoluta diferença
em relação ao nosso
mundo familiar!
...

dezembro 20, 2010



Epístola para os amados

Ainda vos amo, porque aqui não há só tempo
e o amor, no tempo, é tão intenso e absoluto,
que transborda do tempo para o não-presente.
Havendo tempo e não-tempo, eu vos confesso agora
que em parques ao poente ainda vos estou a amar.
E não que vos ofereça hoje alucinados versos,
mas porque do meu tempo sois donos, como os poemas
que eu escrevo do tempo para o não-tempo, sempre.



Fiama Hasse Pais Brandão

dezembro 18, 2010



Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.


Fiama Hasse Pais Brandão

dezembro 15, 2010



Amar o Universo não me traz mágoa.
Sobretudo, amar a areia
arrebata-me de júbilo e paixão.

Fiama Hasse Pais Brandão

dezembro 13, 2010


Anton Einsle, head and upper torso of a reclining woman
img in "Branco no Branco"

«[ ] O que é preciso é ser
como se já não fôssemos,[ ],
pois o resto não nos pertence.»


cecília meirelles

dezembro 10, 2010

Para a meg, herself :):



Não queiras mais que a gratuita lucidez
do instante sem caminho Não julgues que ele é mais
do que a casual aragem de não ser mais nada
do que o voluptuoso fluir de um puro vazio

Em distraído vagar como uma leve nuvem
torna-te vago também deixa ascender em ti
essa torre ténue que quer a transparência
e a graça flexível de pertencer ao ar

Não queiras conhecer o que há por trás desse fulgor puro
se é que há algo por detrás Aceita a sua dádiva gratuita
porque ele é precisamente nulo
e tão essencial como o ar que se respira


António Ramos Rosa, As Palavras,
Campo das Letras, Porto, 2001

dezembro 09, 2010



UM JARDIM (AZEITÃO)

Se eu disser que havia uma cascata
_________________________de jardins
descrevo a casa com o traçado do seu estilo
ou uma associação vulgar sobre as quedas curvas
_____________________________________da folhagem

Desci pelos socalcos da mansão com o terror
de qualquer alma ou ânimo poder
__________________________vogar
preso aos aromas pela mesma sensibilidade
que me fazia sentir as flores como punhais
_________________________________ou ameaças

Tombou-me aos pés todo o corpo natural
____________________________daquele jardim
configurado.

A nova folhagem saia do tear
____________________tal como a vi
orvalhada e gélida nesse paço arruinado
próprio na minha época para simbolizar o desértico.

Estes prismas já perderam o sentido
____________________________dos seus traços originais,
o seu estilo ou figura legível há duas centenas de anos.
Hoje a hera envolve com nós excessivos as torres.

Das janelas ovais só existe este texto
____________________________porque não as vejo
ocultas no volume estilizado híbrido,
que une a casa ao jardim e a um lago, repartido
entre o mundo vegetal, a aparência da casa
_______________________________que se reflecte
e a intenção decorativa
________________que eu não confirmo.

Não lamento que o tempo desdoire os cálices
__________________________________ácidos
do enxame. Nem que a água estagne no fosso
no ponto por onde passo entre os espectros
_______________________________do pomar

para outra sequência irreconhecível. Desejo no pensamento
aqueles meses em que era perfeita a relação
_______________________________entre tudo
o que aqui é disperso, o único momento vivo
em que o plano do arquitecto, assim como o do paisagista,
________________________e a vitalidade dos moradores
concebiam o estilo pelo qual a presença destes insectos
atordoados nesta cascata seca era ordenada e emocionava.

Porque cada coisa existe pela conjunção
_______________________________das suas formas,
a pata do escaravelho é nula como elemento do estilo,
a não ser que eu aceite uma parcela da destruição
_________________________como outra existência
actual, o estado posterior das figuras
que decaíram ou o das emoções desaparecidas
entre o tecido de símbolos ocultos de uma geração.

Fiama Hasse Pais Brandão

dezembro 07, 2010

dezembro 05, 2010


Lorenzo Bartolini (1777-1850)

Incêndio numa hipótese de amor

Encontrei o segredo, a chave de vidro
das palavras que escrevo; e tenho medo.
Talvez nos campos imensos, onde o lírio floresce,
na margem de rio que abriga, de manhã cedo,
os teus pés de ninfa, num engano de idade,
me tenhas visto à sombra de um rochedo;
e se os teus lábios, entreabertos num torpor
de romã, me tocaram num sonho bêbedo,
deles só lembro, imprecisos, fluxos
de incêndio numa hipótese de amor.

Nuno Júdice

dezembro 03, 2010



«Houve um ano em que as andorinhas se esqueceram de partir.
Comovidos, os deuses adiaram o começo do inverno.
Nesse ano, uma mulher e um homem se fundiram em barco
feito vento e partiram sem rumo e sem dar notícias:
como se fora de cinza o nome que usaram. Agora, nenhum horário
retarda o êxodo das últimas andorinhas em direcção ao sol.

Diz-me, meu amor, onde se cruza a tua sombra com a minha.
Diz-me em que crónica de espanto te tornaste o marinheiro
que debandou de encontro ao deslumbramento das manhãs.»


Graça Pires, Reino da Lua

dezembro 01, 2010



Tentação


Vénus lançada à praia pelo mar inquieto,
Inquietas os meus olhos, sátiros cansados.
Vem de ti uma luz que o sol não tem,
E sózinha povoas o areal.
Que me queres, nesta idade sonolenta
Dos sentidos?
Lembrar-me e convidar-me a renegar
Os desejos despidos?
Como se algum poeta se esquecesse
E arrependesse
Dos antigos pecados cometidos!


Miguel Torga, Antologia Poética

novembro 29, 2010




ASAS MALIGNAS

Vejo sobre a grandiosa árvore de palma
a contraluz as cegonhas como aracnídeos
talvez através de um véu de cassa. Esta visão
isola-me do mundo e beneficamente
reconduz-me depois aos significados
que formam o mundo. Nunca as cegonhas
me tornaram excêntrica de mais,
apenas íntima a elas e estranha
a outros restos de sentido.

A brisa que confunde as asas temíveis
com as varas agitadas de palma,
a restante brisa que sopra em outras copas,
qualquer outra árvore que dobrando-se
simula também um par de asas malignas,
toda essa aragem dupla que redemoinha
entre árvores firmes eleva as telas frágeis
das asas. Que mensagem posso dar
para além da aberração dos colos
enlaçados como um insecto a estrebuchar
num precipício real elevado?
Até os fios da teia na treva
mesmo que se assemelhem a folhas
são cada vez mais angulosos, embutidos
na noite como garras. O casal de cegonhas
é um alvo demasiado fascinante
para eu sustentar o olhar nos seus círculos.
Entre a noite e as imagens que me suscita
esse ponto branco, o par, giram em volta
frestas luminosas, para que alguém as agrupe
num indício. O resto do tufo das árvores
tornou-se uma imagem desapercebida
porque já desde o princípio o seu movimento
ofuscado contrastava com as asas negras.

Fiama Hasse Pais Brandão

novembro 27, 2010



«Quando se realiza, muito do que se pensa se perde.
Quando se constrói uma casa, a maior parte do universo
fica de fora; mas quando se destrói uma casa, a cosmogonia fica dentro.»


Maria Gabriela Llansol, Um arco singular - Livro de Horas II,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p.222

novembro 25, 2010


Aleksandr Aleksandrovich Deineka,
Jovem Mulher com um Livro (1934)

«De difícil memória era, sim, para raros.

O que aconteceu com a Poesia foi que
esta matéria sem tempo facilmente
se memoriza no espaço gráfico.

E a terrível democracia leitora
multiplicou então estes papéis
silenciosos e multiplicou
os olhos silenciosos
que sabem ler,

acabando com o melódico analfabetismo.


Fiama Hasse Pais Brandão

novembro 23, 2010



(M. Jagger/K. Richards)

Please allow me to introduce myself
I'm a man of wealth and taste
I've been around for a long, long years
Stole many a man's soul and faith

And I was 'round when Jesus Christ
Had his moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate
Washed his hands and sealed his fate

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what's puzzling you
Is the nature of my game

I stuck around St. Petersburg
When I saw it was a time for a change
Killed the czar and his ministers
Anastasia screamed in vain

I rode a tank
Held a general's rank
When the blitzkrieg raged
And the bodies stank

Pleased to meet you
Hope you guess my name, oh yeah
Ah, what's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah
(woo woo, woo woo)

I watched with glee
While your kings and queens
Fought for ten decades
For the gods they made
(woo woo, woo woo)

I shouted out,
"Who killed the Kennedys?"
When after all
It was you and me
(who who, who who)

Let me please introduce myself
I'm a man of wealth and taste
And I laid traps for troubadours
Who get killed before they reached Bombay
(woo woo, who who)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
(who who)
But what's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah, get down, baby
(who who, who who)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
But what's confusing you
Is just the nature of my game
(woo woo, who who)

Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
'Cause I'm in need of some restraint
(who who, who who)

So if you meet me
Have some courtesy
Have some sympathy, and some taste
(woo woo)
Use all your well-learned politesse
Or I'll lay your soul to waste, um yeah
(woo woo, woo woo)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, um yeah
(who who)
But what's puzzling you
Is the nature of my game, um mean it, get down
(woo woo, woo woo)

Woo, who
Oh yeah, get on down
Oh yeah
Oh yeah!
(woo woo)

Tell me baby, what's my name
Tell me honey, can ya guess my name
Tell me baby, what's my name
I tell you one time, you're to blame

Oh, who
woo, woo
Woo, who
Woo, woo
Woo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah

What's my name
Tell me, baby, what's my name
Tell me, sweetie, what's my name

Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah
Woo woo
Woo woo

novembro 21, 2010



«[ ] não vislumbrei as nascentes do Tigre e do Eufrates,
que talvez nesse labirinto de ruas de água que suportam
o mundo / a vida presente, Tejo-rio se tenha perdido.»


Maria Gabriela Llansol, Um arco singular - Livro de Horas II,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 233

novembro 19, 2010


Christopher Latham Sholes, inventor que deu início à indústria
de máquinas de escrever. Sholes acreditava que sua invenção
fora fundamental na emancipação feminina, pois possibilitou
que a mulher ingressasse no mercado de trabalho dos escritórios.

(Herkimer County Historical Society)

«Escrevem à máquina em face deste campo; milhões de folhas
de papel para triliões de folhas de árvores; mulheres sentadas
oito horas por dia a escrever cartas e a dar forma lapidar
à evidência. Senhor doutor, senhor ovo de sabedoria,
senhor de gema perdida; é o meio-dia das duas
horas livres para continuar à tarde; com
este horário de contenção biológica,
com esta incubadora de leis,
política vai gerando político,

eternamente.

Acumulam-se informaçóes, mas
o Estado, composto por estes
milhões de homens machos
que vomitam frases
e testículos e

lugares comuns de há séculos,
não vota a lei do seu desaparecimento.»


Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão
- Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 95

novembro 17, 2010


Tamara de Lempicka

«Sim, diz-me a mulher,
pousando as mãos nos meus joelhos.

Desejo encontar alguém
que me ame com bondade
e que seja um homem.


Alguém que queira ressuscitar para ti?
Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.»


maria gabriela llansol, amigo e amiga,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p.240

novembro 16, 2010


Se uma coisa existe, esse facto prova que ela é possível.
Uma coisa comprovada possível, mas que não exista,
que espécie de realidade tem? A realidade deve
restringir-se ao que existe ou também
alargar-se ao que é possível existir?
E não haverá coisas possíveis
de existir que nós, humanos,
desconhecemos, como aliás
desconhecemos muitas
coisas que existem?
Ora, pergunto,
essas coisas
ignotas,
mas
existentes
ou
possíveis,
são ainda realidade?
E se nós,
que meditamos
sobre a realidade,
nem sequer existíssemos,
mas o mundo fosse tal como
o conhecemos (e desconhecemos),
o que seria então a realidade sem
ninguém para a percepcionar,
senão potencialmente?

novembro 15, 2010

novembro 13, 2010



«É que levantar os olhos, de cá de baixo,
da terra, para uma nuvem é a melhor forma
de interrogar os nossos mais íntimos desejos.»

André Breton, O amor louco, («L’amour fou», 1937),
trad. Luísa Neto Jorge, Lisboa, Estampa, 1987, p.112

novembro 11, 2010


Renoir

Era um dorso
como uma face sem rosto

como se fosse um campo inteiro
um estuário
a forma imóvel do vento
com um fulgor de lava

Era um círculo do abandono puro
a densidade absoluta de um repouso
a lisa nudez do ser completo


António Ramos Rosa

novembro 09, 2010



Regressar ao objecto. Partilhar a figura
na ressurreição. A ausência
não é o nada, mas o manancial.
De um lado e de outro, vigiam-nos
as formas naturais consonantes.
Conseguiremos atenuar na Natureza
o afastamento. Assim como tu,
ela assgura-me a emoção.
A separação é o abstracto
de vários vestígios. Um vestígio
do próximo reconhecimento.
Tanto mais sei que regressas ao abismo
da minha memória subtil. És tu quem se ausenta
entre uma ala de árvores. Pertences
à Natureza, tanto quanto te pertences.


Fiama Hasse Pais Brandão

novembro 08, 2010



Portugal produz por ano bens e serviços no valor de aprox.
150 mil milhões de euros, 30 mil milhões de contos.

Ao estrangeiro deve cerca de 300 mil milhões,
i.e. 2 anos de produção; metade da dívida
é do Estado, a outra metade é devida
pelos bancos, empresas e famílias.


Mudar esta dependência dos credores
exige que as empresas, o estado,
as famílias paguem
o que devem,

aceitando manter algum nível de dívida
digamos entre ¼ ou ½ da produção anual,
ou seja entre 37 e 80 milhões de euros.


Uma redução do endividamento desta grandeza,
de 300 para digamos 50 mil milhões, em p.e.,
5 anos, exigiria uma amortização anual
de 50 mil milhões, ou seja 1/3 do produto
anual, um quadrimestre de produção.

Se alargarmos o período de redução da dívida
de 5 para 10 anos, mesmo assim, 2 meses
de produção e rendimento
teriam de aplicar-se
anualmente ao

pagamento
da dívida.


Vendo o problema em termos per capita,
na perspectiva de rendimento de um
assalariado ou pensionista,

2/14 a 4/14 avos do rendimento anual
algo como 15 a 30 % do salário ou pensão
tem de ser pago aos credores,

ou na forma de redução do consumo
ou na de passar a produzir
em 3 dias tanto quanto
antigamente
em 4 dias;

isto em paralelo com idêntico
sacrifício nos rendimentos
dos pensionistas, rentistas,
capitalistas e usurários.


No quadro desta situação
é inadmissível não exigir
austeridade a todas
as instituições e classes sociais.