junho 05, 2011

«[ ] como nessa alegoria de Antoine Wiertz em que a mulher nua, com uma flor a prender o cabelo, e o sexo escondido por uma túnica que lhe desce do braço para as coxas, enfrenta um esqueleto, olhando fixamente a caveira que, num esgar sorridente, prende toda a atenção de Rosina cujo rosto, de perfil, me evoca a explicadora de francês.»


Antoine Wiertz, Deux jeunes filles—La Belle Rosine (1847)

«[ ] se, no quadro de Antoine Wiertz, eu me preocupasse apenas em saber quem era Rosina, e por que razão ela se encontrava, seminua, em frente de um esqueleto, desceria ao anedótico em que o universal se perde. Assim, na perspectiva da Arte, o que importa é esse jogo de espelhos em que a mulher de corpo perfeito tem, subitamente, uma imagem do seu destino mortal; e cada um de nós poderá pensar na efemeridade da beleza, e na fugacidade daquilo que consideramos perfeito.»

Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009;
pp. 88-89; 91-92; 122.

junho 04, 2011

«Ela olhar-me-ia com os olhos de Isabelle d’Este, e eu desejaria sentar-me na sua mesa, pegar-lhe nas mãos, com os dedos ainda fechados, e sentir a sua pulsação que arrancar ao piano a música que eu me lembro de ouvir, vinda até mim pela janela aberta de uma sala com as cortinas semicerradas, à espera que o silêncio se fizesse e ela as abrisse para me revelar o seu vulto, idêntico ao desse quadro de Ticiano que já não sabia se chegara a ver, no Museu de Viena, na tarde em que o comboio parou num descampado a caminho de Salzburgo.»


Ticiano (Italian 1490-1576), Isabella d'Este, Duchess of Mantua 1536

«O que mais temos de desejar, então, quando as coisas vêm bater à nossa porta, dando-nos as chaves que abrem os códigos mais secretos para ler o futuro e o passado dos seres que queremos conhecer? Foi isto que me perguntei quando dei por que Isabelle d’Este desaparecera, na passagem entre o comboio parado e a camioneta que me levaria a outra estação para apanhar outro comboio que me levaria a Salzburgo; a não ser que ela não fosse Isabelle d’Este, mas uma simples empregado do Museu, contratada temporariamente para substiuir alguém que metera férias, e que vira em mim uma possibilidade de fuga, muito emboraeu não possa saber o que é que possa levar alguém a querer fugir de Viena para Salzburgo.»

Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009; pp.64;99.

junho 03, 2011

«Isto é, em cada novo parágrafo, segundo escrevi nesse caderno da Joseph Gibert que me desapareceu, teria de encontrar uma nova ideia para desenvolver. No fundo, é este o princípio da criação; e procurei segui-lo nessa manhã, depois de perder as duas mulheres, uma por entre a luz intensa de uma rua em que ela se metera, e a outra depois de ter ido retocar a pintura dos olhos, nessa casa de banho de um café de onde saí o tempo suficiente para que ela se cansasse de me esperar.»



«Pergunto, então, para quem escrevo? E se não tenho uma resposta, não é porque não houvesse um destinatário para esse caderno de pautado francês, em que desenvolvi a minha relação entre eu e tu, interrogando-me sobre a ausência de plural no meu universo de referência. Só não sei qual delas, Isabelle, Rosina ou a explicadora de francês, se encontrava no horizonte das minhas dúvidas. Por isso o entreguei à explicadora de francês, para que ela lhe desse um destino. No fundo, tudo começara com as suas lições, e com essa imagem de um perfil da tocadora de piano, numa pausa de música, à janela em que a fixei, e o seu rosto veio ao encontro de um arquétipo de beleza que eu imaginava, e que ela materializou no meu espírito, sem que nunca o soubesse.»


Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009; pp. 141; 147

junho 02, 2011



«TIAGO — Que o diabo me leve se não houver uma causa. O meu capitão dizia: «Ponham uma causa, logo se lhe segue um efeito; a uma causa fraca, um fraco efeito; a uma causa momentânea,
o efeito de um momento; a uma causa intermitente, um efeito intermitente; a uma causa contrariada, um efeito frouxo; a uma causa cessante, um efeito nulo.»
O AMO — Mas parece-me que sinto dentro de mim que sou livre,
como sinto que penso.
TIAGO — O meu capitão dizia: «Sim, agora que nada lhe apetece,
é capaz de se deitar debaixo do cavalo?»
O AMO — Sou capaz disso.
TIAGO — Algremente, sem repugnância, sem esforço,
como gostaria de descer à porta de um albergue?
O AMO — De maneira nenhuma; mas que importa,
desde que me atire e que prove que sou livre?
TIAGO — O meu capitão rebatia: «Qual quê!,
não vê que se não fosse a minha contradição nunca lhe passaria pela cabeça a fantasia de partir o pescoço? Sou eu, portanto, quem o agarra pelo pé e o atira para fora de sela. Se a sua queda prova alguma coisa, não é que seja livre, mas antes doido.» O meu capitão acrescentava ainda que o gozo de uma liberdade que se pode exercer sem motivo seria a prova de verdadeira tendência maníaca.»

:)

Denis Diderot, Tiago, o Fatalista,
trad. João Fonseca Amaral,
Editorial Estampa, 1988, p.219

junho 01, 2011



«Como é que eles se encontraram?
Por acaso, como toda a gente.

Como se chamavam?
Isso que lhe importa?

Donde vinham?
Do lugar mais próximo.

Para onde iam?
Dar-se-á o caso de a gente saber para onde vai?

Que diziam? O amo, nada; Tiago dizia que o seu capitão
afirmava que tudo o que nos acontece, cá em baixo,
de bem ou de mal, está escrito lá em cima.»

:)

Denis Diderot, Tiago, o Fatalista,
trad. João Fonseca Amaral,
Editorial Estampa, 1988, p.9

maio 29, 2011



COPÉRNICO

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,
demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

GALILEU

As leis do movimento perscrutaste
com paciência e cândido olhar.
Com o mesmo olhar o vasto céu sondaste
humilde mas altivo no ousar.

KEPLER

O mundo próximo, à volta, apodrece.
Fome, mortal conflito e pestilência
turvam o dia mal amanhece.
Segura-se à pureza da ciência:
o curso aparente das estrelas,
seguindo matemática divina,
deriva, das rigorosas tabelas
do vasto cosmos, a curva sibilina.

NEWTON

Da qualidade oculta de tudo,
não cuido, nem sei. Não é de ofício
sério sabê-lo: o tudo é mudo
e forçar-lhe a fala é sério vício.
Dos fenómenos, deduzo leis
de movimento e destas derivo
qualidades e acções: vereis
que o saber, assim, avança, altivo.


Eugénio Lisboa, in blog Restolhando

maio 15, 2011

maio 10, 2011


Ta Thi Thanh Tam , talking to my friend (2010) [vietnamita]
imagem in Branco no Branco



Tiram-te a venda
e entre paredes de lágrimas
aprendes que não existes ainda.
És apenas devir.


Natália Correia, Sonetos Românticos,
Public. Dom Quixote, 2011
colecção Frente Verso

maio 05, 2011

abril 15, 2011


Vou estar fora [do experimental]
uma pluralidade de dias.

Até depois,
Vasco

abril 13, 2011



Depois de mim



Dourados, como frutos maduros,
erguer-se-ão as manhãs
sobre os azuis,
floridos de espumas.
A escama da lua boiará
nas águas da noite
sem mim,
depois de mim.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 11, 2011




Rosto


Nunca vieste
quando o desejo
fazia um entalhe de sofrimento e apelo
na polpa, madura, do dia.


Nunca vieste
quando um golpe de luar
abria ao lado do meu corpo
um lençol fresco, para acolher-te.


A tua boca não prendeu
a flor dos meus lábios.
Nunca calei no teu beijo
a indizível palavra.


Nunca vieste


Respirei-te no sonho.
A morte terá o teu rosto desconhecido.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 09, 2011



Solidão


Como quem tece um xale
para o frio da alma
invento os teus braços
nos meus ombros,
o verão da tua boca
na minha pele.
No meu outono, agreste,
invento-te.
E a tua lembrança,
que não foi nem houve,
porque não existes
ou o teu destino é longe
e noutro lugar
atravessa a noite.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias

abril 07, 2011



Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais

Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais

Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

abril 06, 2011



Teima

Inútil, sem razão,
o meu amor permanece
para além do tempo
e do sofrimento.

Luísa Dacosta, op.cit.
Foto: adriana calcanhoto

abril 05, 2011



Luar

Na crista das vagas,
o embalo da lua
lembra-me os teus braços,
acorda o meu desejo de ser tua.


Mas tu já te foste,
não mais voltarás.
O tempo não permite
passar adiante
e colher atrás.


Dói-me na crista das vagas
o embalo da lua.


Luísa Dacosta, op.cit.

abril 04, 2011



Três desejos breves


I
Pudesse a minha sede
transformar-te em fonte.


II
Íntima como o sangue
seja a minha lembrança em ti.


III
Não como um corpo,
mas como um pensamento
em ti quero ficar.


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Asa, Porto, 2011, colecção "Frente e Verso"

abril 03, 2011



APELO

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.



Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Asa, Porto, 2011, colecção "Frente e Verso"

abril 02, 2011




VOO

Com as nuvens,
A migração das aves,
A direcção dos ventos,
Asa solta, vou ao teu encontro
Por cima dos ares.

Mas tu és miragem.
Como alcançar-te?



Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Porto, Asa, 2010, colecção Frente e Verso.

março 31, 2011



INSTINTO

«Como a árvore sabe a floração
e o pássaro o rumo, certeiro, do voo
a minha sede de ti
sei.»


Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Porto, Asa, 2010, colecção Frente e Verso.