
VOO
Com as nuvens,
A migração das aves,
A direcção dos ventos,
Asa solta, vou ao teu encontro
Por cima dos ares.
Mas tu és miragem.
Como alcançar-te?
Luísa Dacosta, A maresia e o sargaço dos dias,
Porto, Asa, 2010, colecção Frente e Verso.




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O Convite à Viagem
Irmã, filha, escuta,
Pensa na doçura
De irmos para lá viver, sim!
Amar à vontade,
Amar e morrer
Nessa terra igual a ti!
Os húmidos sóis
Dos nevoentos céus
Têm para mim os encantos
Assim misteriosos
Dos teus falsos olhos,
Entre as lágrimas brilhando.
Lá tudo é beleza e luxo
É ordem, calma e volúpia.
Móveis reluzentes,
Polidos plo tempo,
Decorariam a câmara;
As mais raras flores
Fundindo os odores
Ao vago aroma do âmbar,
Riquíssimos tectos,
Profundos espelhos,
O esplendor oriental,
Tudo falaria
Com a alma em surdina
A sua língua natal.
Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.
Vê nesses canais
Dormir essas naus
Cujo humor é vagabundo;
É pra saciar
As tuas vontades
Que vêm do fim do mundo.
Os sóis, já deitando-se,
Envolvem os campos,
Os canais, toda a cidade,
Com oiro e jacinto;
E o mundo dormindo
Numa quente claridade
Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.
(Baudelaire, As flores do mal)


AMOR
Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males -
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.
Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.
Czeslaw Milosz, em Qual é a Minha ou a Tua Língua -
- Cem poemas de amor de outras línguas
Organização de Jorge de Sousa Braga
