março 07, 2011





A dicção do primeiro vídeo é inferior´
ao do segundo, mas o desenho animado
é muito sugestivo.
Proposta: - Visioná-lo mudo,
com o som do segundo. :)


L'Invitation au Voyage

Mon enfant, ma soeur
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux
Brillant à travers leurs larmes

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants
Polis par les ans
Décoreraient notre chambre
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre
Les riches plafonds
Les miroirs profonds
La splendeur orientale
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
Les soleils couchants
Revêtent les champs
Les canaux, la ville entière
D'hyacinthe et d'or
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté
Luxe, calme et volupté.




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O Convite à Viagem



Irmã, filha, escuta,
Pensa na doçura
De irmos para lá viver, sim!
Amar à vontade,
Amar e morrer
Nessa terra igual a ti!
Os húmidos sóis
Dos nevoentos céus
Têm para mim os encantos
Assim misteriosos
Dos teus falsos olhos,
Entre as lágrimas brilhando.

Lá tudo é beleza e luxo
É ordem, calma e volúpia.

Móveis reluzentes,
Polidos plo tempo,
Decorariam a câmara;
As mais raras flores
Fundindo os odores
Ao vago aroma do âmbar,
Riquíssimos tectos,
Profundos espelhos,
O esplendor oriental,
Tudo falaria
Com a alma em surdina
A sua língua natal.

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.

Vê nesses canais
Dormir essas naus
Cujo humor é vagabundo;
É pra saciar
As tuas vontades
Que vêm do fim do mundo.
Os sóis, já deitando-se,
Envolvem os campos,
Os canais, toda a cidade,
Com oiro e jacinto;
E o mundo dormindo
Numa quente claridade

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.



(Baudelaire, As flores do mal)

março 05, 2011


Kees van Dongen

A nudez requer um delta ou um oásis
ou a branca integridade do deserto
E dizemos que é uma balança um barco ou uma coluna
embora todas as margens se apaguem na brancura

O esplendor de um corpo é sumptuoso e puro
e tem a integridade de uma surpresa nua
Como pode a palavra cingir as voluptuosas linhas
em que o desejo dança dilacerado e ébrio?

A graciosa gravidade túmida e delicada
de um corpo que equilibra o mundo e o anula
é um doce e violento desafio
à volúvel e frágil fantasia da palavra


antónio ramos rosa

março 03, 2011


img in blog atuleiros

«Digo do corpo,
o corpo:
e do meu corpo

digo no corpo
os sítios e os lugares

de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso, em seus vagares.

Lazeres do corpo:
os ombros,
as lisuras - o colo alto
a boca retomada

no fim das pernas
a porta da ternura,
dentro dos lábios
o fim da madrugada.

Digo do corpo,
o corpo:
e do teu corpo,

as ancas breves
ao gosto dos abraços

os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em sítios cansados

Vício de um corpo:
o teu
com o seu veneno

que bebo e sugo
até ao mais amargo,
ao mais cruel grau
do esgotamento
e onde em segredo
nado
em cada espasmo.

Digo do corpo,
o corpo:
o nosso corpo

Digo do corpo.
o gozo
do que faço

Digo do corpo
o uso
dos meus dias

e a alegria
do corpo sem disfarce.»


Maria Teresa Horta

março 01, 2011


Rubens, Vénus e Adónis

Exercício

Exercício do teu corpo
oculto na sua roupa

adivinho-te a dureza
o movimento sedento
a macieza da boca

adivinho o teu carinho
na sede dos meus
joelhos

Adivinho o teu
desejo
sobre a pele dos meus seios


Maria Teresa Horta

fevereiro 27, 2011



AMOR

Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males -
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.


Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.



Czeslaw Milosz, em Qual é a Minha ou a Tua Língua -
- Cem poemas de amor de outras línguas
Organização de Jorge de Sousa Braga


piano:- Ryuichi Sakamoto
in blog
sylvia beirute

fevereiro 25, 2011

fevereiro 21, 2011



Serge Reggiani

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!


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A uma passante
(leo ferre)

O alarido da rua me ensurdecia.
Longa, magra, enlutada, altaneira dor,
Ela passou, com um gesto superior,
Balançando os punhos de passamanaria,

Ágil e nobre, no caminhar de vestal.
E eu bebia, como quem mal se agüenta,
No seu olhar, céu negro prenhe de tormenta,
O afeto que fascina e o prazer mortal.

Um raio... e logo o breu! Fugidia beldade,
Cujo olhar me fez renascer de uma só vez,
Só poderei rever-te na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! Jamais talvez!
Não sabes onde vou e não sei onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que o sabias!


Charles Baudelaire
(tradução Jorge Pontual)

fevereiro 20, 2011

fevereiro 18, 2011


«o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos

como as trevas dentro das imagens»

«nada se afirma a si mesmo
mas a tudo o que o transcende.»

«escombros que são representados pelas linhas misteriosas.»

fevereiro 17, 2011


«A linha sinusoidal dos limites e
metamorfoses»

«Quando amanhece confundo todas as texturas
porque ignoro a distinção dos planos
e a composição das sombras.»

fevereiro 16, 2011


«Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.»

«Afastei-me da proposta de que o fim da noite
se convertesse em gruta de imagens»

fevereiro 15, 2011



Mesmo se acordasse transformando em insónia o desespero
do contacto com as coisas que é preciso separar
umas das outras para traçar os limites das mutações
a incompreensão do mistério poderia ser uma decisão
................................................. do pensamento.
O traço superior da serra aleatória no crepúsculo com
................................................... a deformação
crescente da visibilidade que se altera é provisório.
Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
.......................................... para a sua presença
um canto vago na passagem dos astros sem cantor próximo.

A minha visão depende da palavra aurora em desuso
na poesia mas significativa, e a meditação
............................................ sobre a pintura
de francisco de hollanda revela que ela é a locução
........................................................ violenta
de um barroco que discursa perante a face a claro e escuro
de vittoria colonna. Disse-me que a pintura é a história
................................................ de todo o tempo
e para além da própria razão o verdadeiro fingimento.
O vício das metáforas e comparações tinha sido a sua
......................................... confissão do conceito
de naturalidade diferente da do natural clássico.

Afastei-me da proposta de que o fim da noite se convertesse
em gruta de imagens. A ordenação do vocabulário desde
......................................................a passagem
pela aurora levou-me até à leitura do álbum se francisco de
.............................................................hollanda
inédito no escorial. Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.
Quando amanhece confundo todas as texturas porque ignoro
............................................a distinção dos planos
e a composição das sombras. São iguais à tecelagem
......................................................de um pano

sinuosamente lavrado, A linha sinusoidal dos limites e
....................................................metamorfoses
é a mesma que distingue na minha primeira ascese
escombros que são representados pelas linhas misteriosas.
Aceito que todas as significações têm o mesmo sentido relativo
............................................................dos objectos,
nada se afirma a si mesmo mas a tudo o que o transcende.
A minha vida mortal depende de um sentimento desconhecido
de que o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos como as trevas
...........................................dentro das imagens.


fiama hasse pais brandão,
in Homenagem à Literatura (1976)

fevereiro 14, 2011


«a locução violenta de um barroco
que discursa perante a face a claro
e escuro de vittoria colonna»

«a pintura é a história
de todo o tempo
e para além da própria razão

o verdadeiro fingimento.»

fevereiro 13, 2011


«Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
para a sua presença
um canto vago»

«Mesmo se acordasse transformando em insónia
o desespero do contacto com as coisas...»