fevereiro 27, 2011



AMOR

Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males -
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.


Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.



Czeslaw Milosz, em Qual é a Minha ou a Tua Língua -
- Cem poemas de amor de outras línguas
Organização de Jorge de Sousa Braga


piano:- Ryuichi Sakamoto
in blog
sylvia beirute

fevereiro 25, 2011

fevereiro 21, 2011



Serge Reggiani

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!


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A uma passante
(leo ferre)

O alarido da rua me ensurdecia.
Longa, magra, enlutada, altaneira dor,
Ela passou, com um gesto superior,
Balançando os punhos de passamanaria,

Ágil e nobre, no caminhar de vestal.
E eu bebia, como quem mal se agüenta,
No seu olhar, céu negro prenhe de tormenta,
O afeto que fascina e o prazer mortal.

Um raio... e logo o breu! Fugidia beldade,
Cujo olhar me fez renascer de uma só vez,
Só poderei rever-te na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! Jamais talvez!
Não sabes onde vou e não sei onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que o sabias!


Charles Baudelaire
(tradução Jorge Pontual)

fevereiro 20, 2011

fevereiro 18, 2011


«o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos

como as trevas dentro das imagens»

«nada se afirma a si mesmo
mas a tudo o que o transcende.»

«escombros que são representados pelas linhas misteriosas.»

fevereiro 17, 2011


«A linha sinusoidal dos limites e
metamorfoses»

«Quando amanhece confundo todas as texturas
porque ignoro a distinção dos planos
e a composição das sombras.»

fevereiro 16, 2011


«Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.»

«Afastei-me da proposta de que o fim da noite
se convertesse em gruta de imagens»

fevereiro 15, 2011



Mesmo se acordasse transformando em insónia o desespero
do contacto com as coisas que é preciso separar
umas das outras para traçar os limites das mutações
a incompreensão do mistério poderia ser uma decisão
................................................. do pensamento.
O traço superior da serra aleatória no crepúsculo com
................................................... a deformação
crescente da visibilidade que se altera é provisório.
Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
.......................................... para a sua presença
um canto vago na passagem dos astros sem cantor próximo.

A minha visão depende da palavra aurora em desuso
na poesia mas significativa, e a meditação
............................................ sobre a pintura
de francisco de hollanda revela que ela é a locução
........................................................ violenta
de um barroco que discursa perante a face a claro e escuro
de vittoria colonna. Disse-me que a pintura é a história
................................................ de todo o tempo
e para além da própria razão o verdadeiro fingimento.
O vício das metáforas e comparações tinha sido a sua
......................................... confissão do conceito
de naturalidade diferente da do natural clássico.

Afastei-me da proposta de que o fim da noite se convertesse
em gruta de imagens. A ordenação do vocabulário desde
......................................................a passagem
pela aurora levou-me até à leitura do álbum se francisco de
.............................................................hollanda
inédito no escorial. Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.
Quando amanhece confundo todas as texturas porque ignoro
............................................a distinção dos planos
e a composição das sombras. São iguais à tecelagem
......................................................de um pano

sinuosamente lavrado, A linha sinusoidal dos limites e
....................................................metamorfoses
é a mesma que distingue na minha primeira ascese
escombros que são representados pelas linhas misteriosas.
Aceito que todas as significações têm o mesmo sentido relativo
............................................................dos objectos,
nada se afirma a si mesmo mas a tudo o que o transcende.
A minha vida mortal depende de um sentimento desconhecido
de que o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos como as trevas
...........................................dentro das imagens.


fiama hasse pais brandão,
in Homenagem à Literatura (1976)

fevereiro 14, 2011


«a locução violenta de um barroco
que discursa perante a face a claro
e escuro de vittoria colonna»

«a pintura é a história
de todo o tempo
e para além da própria razão

o verdadeiro fingimento.»

fevereiro 13, 2011


«Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
para a sua presença
um canto vago»

«Mesmo se acordasse transformando em insónia
o desespero do contacto com as coisas...»

fevereiro 11, 2011

Vittoria Colonna



Quando 'l gran lume appar nell'oriente,Che 'l negro manto della notte sgombra,
E dalla terra il gelo o la fredd'ombra
Dissolve e scaccia col suo raggio ardente:

De' primi affanni, ch'avea dolcemente
Il sonno mitigati, allor m'ingombra:
Ond'ogni mio piacer dispiega in ombra,
Quando da ciascun lato ha l'altre spente.

Così mi sforza la nimica sorte
Le tenebre cercar, fuggir la luce,
Odiar la vita e desiar la morte.

Quel che gli altri occhi appanna a' miei riluce,
Perchè chiudendo lor, s'apron le porte
Alla cagion ch'al mio sol mi conduce.
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Quando o grão lume surge lá no oriente,
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,

a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.

Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.

Que a um outro olhar escurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.

Vittoria Colonna

fevereiro 10, 2011

A propósito da passeante hipermoderna,

um soneto de Cesário Verde

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
( )


:)

fevereiro 09, 2011

Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra, em 1481(?), tendo estudado Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou depois a Universidade, ao tempo estabelecida em Lisboa, onde fez o curso de Leis, passando de aluno aplicado a professor considerado.

Frequentou nessa altura a Corte. Para o Paço, compôs cantigas, vilancetes e esparsas, ao gosto dos poetas do séc. XV.Tendo-lhe falecido o pai, parte, em 1521, para Itália. Graças a uma parente abastada, Vitória Colona, marquesa de Pescara, pôde conviver com algumas personalidades do Renascimento italiano, apreciando muito a estética literária que todos os humanistas cultivavam com entusiasmo.

Regressou a Portugal em 1526. Já se encontrava em Coimbra quando o rei D. João III residia, com a sua Corte, naquela cidade, decidindo difundir entre nós o novo estilo clássico. É na Quinta das Duas Igrejas, junto ao Rio Neiva, que compõe quase toda a sua obra, em novos moldes, por influência da estética italiana.[ ]Nos séculos XVI e XVII foi o poeta mais admirado depois de Camões.

fevereiro 07, 2011

Vittoria Colonna



Assai lunge a provar nel petto il gelo
De' noiosi pensier ch'apportan gli anni,
Allora er'io, che in tenebre ed affanni
Mi lasciasti, o mio sol, tornandò al cielo.

Indegna forse fui del caldo zelo,
Onde tu acceso apristi altero i vanni,
Infiammarmi a schivar l'ire e gl'inganni
Del mondo, e sprezzar teco il mortal velo.

Tu volasti leggiero; i' sotto l'ali,
Che allor spiegavi, avrei ben preso ardire
Salir con te lontana ai nostri mali.

Lassa, ch'io non fui teco al tuo partire!
E le mie forze senza te son tali,
Ch'or mi si toglie e vivere e morire!


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ASSAI LUNGE A PROVAR...
Assaz longe do gelo em peito meu
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.

Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.

Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!

Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.


Vittoria Colonna