fevereiro 17, 2011


«A linha sinusoidal dos limites e
metamorfoses»

«Quando amanhece confundo todas as texturas
porque ignoro a distinção dos planos
e a composição das sombras.»

fevereiro 16, 2011


«Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.»

«Afastei-me da proposta de que o fim da noite
se convertesse em gruta de imagens»

fevereiro 15, 2011



Mesmo se acordasse transformando em insónia o desespero
do contacto com as coisas que é preciso separar
umas das outras para traçar os limites das mutações
a incompreensão do mistério poderia ser uma decisão
................................................. do pensamento.
O traço superior da serra aleatória no crepúsculo com
................................................... a deformação
crescente da visibilidade que se altera é provisório.
Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
.......................................... para a sua presença
um canto vago na passagem dos astros sem cantor próximo.

A minha visão depende da palavra aurora em desuso
na poesia mas significativa, e a meditação
............................................ sobre a pintura
de francisco de hollanda revela que ela é a locução
........................................................ violenta
de um barroco que discursa perante a face a claro e escuro
de vittoria colonna. Disse-me que a pintura é a história
................................................ de todo o tempo
e para além da própria razão o verdadeiro fingimento.
O vício das metáforas e comparações tinha sido a sua
......................................... confissão do conceito
de naturalidade diferente da do natural clássico.

Afastei-me da proposta de que o fim da noite se convertesse
em gruta de imagens. A ordenação do vocabulário desde
......................................................a passagem
pela aurora levou-me até à leitura do álbum se francisco de
.............................................................hollanda
inédito no escorial. Longínquo para o meu conhecimento imediato
como a mão das sucessivas gerações de iluministas.
Quando amanhece confundo todas as texturas porque ignoro
............................................a distinção dos planos
e a composição das sombras. São iguais à tecelagem
......................................................de um pano

sinuosamente lavrado, A linha sinusoidal dos limites e
....................................................metamorfoses
é a mesma que distingue na minha primeira ascese
escombros que são representados pelas linhas misteriosas.
Aceito que todas as significações têm o mesmo sentido relativo
............................................................dos objectos,
nada se afirma a si mesmo mas a tudo o que o transcende.
A minha vida mortal depende de um sentimento desconhecido
de que o aro do halo da noite é o anel afastado
de uma cadeia de reflexos tão nítidos como as trevas
...........................................dentro das imagens.


fiama hasse pais brandão,
in Homenagem à Literatura (1976)

fevereiro 14, 2011


«a locução violenta de um barroco
que discursa perante a face a claro
e escuro de vittoria colonna»

«a pintura é a história
de todo o tempo
e para além da própria razão

o verdadeiro fingimento.»

fevereiro 13, 2011


«Decorre no contraluz uma águia irreal que transpôs
para a sua presença
um canto vago»

«Mesmo se acordasse transformando em insónia
o desespero do contacto com as coisas...»

fevereiro 11, 2011

Vittoria Colonna



Quando 'l gran lume appar nell'oriente,Che 'l negro manto della notte sgombra,
E dalla terra il gelo o la fredd'ombra
Dissolve e scaccia col suo raggio ardente:

De' primi affanni, ch'avea dolcemente
Il sonno mitigati, allor m'ingombra:
Ond'ogni mio piacer dispiega in ombra,
Quando da ciascun lato ha l'altre spente.

Così mi sforza la nimica sorte
Le tenebre cercar, fuggir la luce,
Odiar la vita e desiar la morte.

Quel che gli altri occhi appanna a' miei riluce,
Perchè chiudendo lor, s'apron le porte
Alla cagion ch'al mio sol mi conduce.
------------ // ---------------

Quando o grão lume surge lá no oriente,
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,

a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.

Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.

Que a um outro olhar escurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.

Vittoria Colonna

fevereiro 10, 2011

A propósito da passeante hipermoderna,

um soneto de Cesário Verde

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
( )


:)

fevereiro 09, 2011

Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra, em 1481(?), tendo estudado Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou depois a Universidade, ao tempo estabelecida em Lisboa, onde fez o curso de Leis, passando de aluno aplicado a professor considerado.

Frequentou nessa altura a Corte. Para o Paço, compôs cantigas, vilancetes e esparsas, ao gosto dos poetas do séc. XV.Tendo-lhe falecido o pai, parte, em 1521, para Itália. Graças a uma parente abastada, Vitória Colona, marquesa de Pescara, pôde conviver com algumas personalidades do Renascimento italiano, apreciando muito a estética literária que todos os humanistas cultivavam com entusiasmo.

Regressou a Portugal em 1526. Já se encontrava em Coimbra quando o rei D. João III residia, com a sua Corte, naquela cidade, decidindo difundir entre nós o novo estilo clássico. É na Quinta das Duas Igrejas, junto ao Rio Neiva, que compõe quase toda a sua obra, em novos moldes, por influência da estética italiana.[ ]Nos séculos XVI e XVII foi o poeta mais admirado depois de Camões.

fevereiro 07, 2011

Vittoria Colonna



Assai lunge a provar nel petto il gelo
De' noiosi pensier ch'apportan gli anni,
Allora er'io, che in tenebre ed affanni
Mi lasciasti, o mio sol, tornandò al cielo.

Indegna forse fui del caldo zelo,
Onde tu acceso apristi altero i vanni,
Infiammarmi a schivar l'ire e gl'inganni
Del mondo, e sprezzar teco il mortal velo.

Tu volasti leggiero; i' sotto l'ali,
Che allor spiegavi, avrei ben preso ardire
Salir con te lontana ai nostri mali.

Lassa, ch'io non fui teco al tuo partire!
E le mie forze senza te son tali,
Ch'or mi si toglie e vivere e morire!


------------- // ----------------

ASSAI LUNGE A PROVAR...
Assaz longe do gelo em peito meu
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.

Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.

Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!

Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.


Vittoria Colonna

fevereiro 05, 2011

Vittoria Colonna

Vittoria Colonna (Marino, abril de 1490 - Roma, 25 de fevereiro de 1547), Marquesa de Pescara, foi uma poetisa da Itália. Era filha de Fabrizio Colonna, grande condestável de Nápoles, e de Agnese da Montefeltro. Foi uma das mulheres mais notáveis da Itália quinhentista. Ainda jovem casou-se com Fernando de Ávalos, Marquês de Pescara, que morreu na Batalha de Pavia lutando ao lado de Carlos de Lannoy. Tornou-se autora de poesias louvadas como impecáveis, das mais importantes continuadoras da tradição de Petrarca em sua geração, uma mediadora política, reformadora religiosa e seus méritos próprios foram amplamente reconhecidos ainda em sua vida [ ] É possível que tenha encontrado Michelangelo em torno de 1537, mas sua relação só se estreitou em torno de 1542 quando Michelangelo já era idoso e ela, viúva há dezessete anos. Discutiam arte e religião. Para ela Michelangelo escreveu várias poesias e produziu desenhos, e ela por sua vez dedicou-lhe também uma série de poemas. [ ]


1530s 40s Florentine School,
Portrait of a Woman Said

to be Vittoria Colonna
(Southerbys)

fevereiro 03, 2011




O sol é grande, caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão que sói ser fria:
Esta água, que d'alto cai, acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó coisas todas vãs, todas mudaves,
Qual é o coração que em vós confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
Incertos todos mais que ao vento as naves!

Eu vi já por aqui sombras e flores,
Vi águas, e vi fontes, vi verdura;
As aves vi cantar todas d'amores.

Mudo e seco é já tudo; e de mistura,
Também fazendo-me eu fui doutras cores;
E tudo o mais renova, isto é sem cura.


Sá de Miranda

fevereiro 01, 2011



«Como escreveu no Tratado da Pintura,
a sua obra de maior consistência teórica,
a ideia é responsável pela invenção
de uma «segunda natureza»,
concebida interiormente,
plasmada no intelecto
e fruto do engenho.




Assim, a beleza é encarada num contexto
que permite equacionar uma profunda aliança
entre a estética e a metafísica. Por isso,
para Francisco de Holanda, Deus é a fonte
de toda a pintura, sendo também ele
o primeiro pintor.




A criação é por si encarada como
um dar forma pela luz, recuperando
a metafísica da luz do platonismo,
concebendo por isso a criação como
uma função plástica animante,
correspondendo a um modelo ou ideia
previamente formulado no intelecto divino,
tema já sublimemente afirmado por Sto. Agostinho
ao estabelecer que Deus não connhece as coisas
porque elas existem, mas que as coisas existem
porque ele as conhece.




Nestes termos, a pintura humana
consiste num criar de novo,
numa função plástica inanimante,
[ ], com que imita ou quer imitar
as divinas ciências incriadas
com que o muito poderoso Senhor
Deus criou todas as obras».




Quer isto dizer que o conceito de imitação
[ ] não atende tanto à multiplicidade
do real concreto, na sua condição aparencial,
mas sim à «verdadeira natureza»,
representada na ideia.




Logo, o acto de criar é uma função
de «olhos interiores» em que o pintor,
num estado de «grande silêncio e segredo»
se deixa conduzir pelo «divino furor da criação».

Esta mesma referência ao furor supõe o triunfo
da idealização como fruto das capacidades inatas
do engenho e não da imposição de factores exteriores,
expressos em preceitos rígidos, tecnicamente transmissíveis.

Daí a associação do maneirismo à noção de fantasia artística,
razão por que não deverá o pintor, com a sua obra,
preocupar-se em «agradar ao vulgo», mas sobretudo
a si próprio, reforçando essa dimensão interior
que assiste ao processo criativo.»

Pedro Calafate
Instituto Camões

janeiro 31, 2011



Pintor português e amigo de Michelangelo,
Francisco de Holanda (1517-1584)
foi o primeiro a introduzir a filosofia
num tratado artístico, Da Pintura Antigua (1548),
derrubando a definição redutora da pintura
como “imitação da Natureza”.

Inspirado por Michelangelo e pela filosofia
de Platão, Holanda afirma que a pintura
é uma declaração do pensamento que exige
uma ascensão espiritual até as Idéias,
às quais o grande artista deve logo
dar forma, no papel, pelo desenho.

No contexto da teoria da arte do século XVI,
dominada pela imitação da Natureza,
Francisco de Holanda se distingue
por sua vontade de dar uma base
filosófica à sua arte.

Sob a influência do grande modelo de Michelangelo,
cuja arte e cuja poesia estão impregnadas
do neoplatonismo florentino da sua juventude,
Holanda adoptou esse sistema filosófico.


Sylvie Deswarte-Rosa,
Prisca Pictura e Antiqua Novitas
— Francisco de Holanda e a
taxonomia das figuras antigas

janeiro 29, 2011

Vittoria Colonna

Vittoria Colonna


A quale strazio la mia vita adduceAmor, che oscuro il chiaro sol mi rende,
E nel mio petto al suo apparire accende
Maggior disio della mia vaga luce!

Tutto il bel che natura a noi produce,
Che tanto aggrada a chi men vede e intende,
Più di pace mi toglie e sì m'offende,
Ch'ai più caldi sospir mi riconduce.

Se verde prato e se fior vari miro,
Priva d'ogni speranza trema l'alma
Chè rinverde il pensier del suo bel frutto

Che morte svelse. A lui la grave salma
Tolse un dolce e brevissimo sospiro,
E a me lasciò l'amaro eterno lutto


------ // ------

A QUALE STRAZIO...

A que tormento a vida me reduzamor que obscuro o claro sol me prende
e no meu peito ao renascer acende
maior desejo da perdida luz!

Beleza que Natura nos produz
que tanto agrada a quem não dela entende,
mais minha paz me tolhe e mais me ofende,
que a mais quentes suspiros me conduz.

Se verdes prados e se flores miro,
privada de esperanças. me arreceio,
pois reverdece a ideia daquel fructo

que a morte me colheu. Do grave seio
ela tirou brevíssimo suspiro.
e a mim deixou-me o amargo e eterno luto.



Vittoria Colonna

janeiro 27, 2011



Comigo me desavim,
Vejo-me em grande perigo;
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.

Antes que este mal tivesse,
Da outra gente fugia.
Agora já fugiria
De mim se de mim pudesse.

Que cabo espero ou que fim,
Deste cuidado que sigo,
Pois trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim.


Sá de Miranda

janeiro 25, 2011

Vittoria Colonna


Sebastiano del Piombo, Vittoria Colonna

O che tranquillo mar, che placid’ onde
Solcava un tempo in bel spalmata barca,
Di bei favori, e d’ util merci carca,
L’ aer sereno avea, l’ aure seconde.
Il Ciel, ch’ or suoi benigni lumi asconde,
Dava luce di nebbia e d’ ombra scarca;
Non dee creder alcun, che sicur varca,
Mentre al principio il fin non corrisponde.
L’ avversa stella mia, l’ empia fortuna
Scoperser poi l’ irate inique fronti,
Dal cui furor cruda procella insorge.
Venti, pioggia, saette il Cielo aduna,
Mostri d’ intorno a divorarmi pronti;
Ma l’ alma ancor sua tramontana scorge.

------- // ------

ON the calm billows of that tranquil sea,
A gallant bark with swelling sails was seen,
Freighted with treasures, moving proud and free,
With favouring breezes and with skies serene.
But soon thick clouds obscured the heavenly ray,
With fearful gloom the awful tempest rose ;
And none, who saw the dawning of that day,
Foretold how dark would be the evening's close.
So did my stars on me their aspects change,
By adverse winds o'er waves of sorrow driven,
Oppressed by cruel fates and fortunes strange,
Lorn, reft, and stricken by the shafts of heaven,
Gathering around me, threatening storms appear,
But still my soul beholds her polestar near.